Author Archives: Nuno Faria
Rumo a 2017
Chega hoje a noite de tréguas. A noite em que se descarta tudo o que se passou no ano transacto, em que acreditamos que o ano vindouro será sempre melhor.
Ao contrário do que aconteceu internacionalmente, a nível nacional 2016 foi um ano aparentemente menos turbulento, talvez porque se mudou a forma de gerir a comunicação governamental, talvez porque se mudou a forma de noticiar, talvez porque estejamos melhores, talvez porque este tenha sido um ano de construção de novas fundações e não de cobrança de resultados.
Nós por cá navegámos em patrulha, contra correntes de pensamento, tentando agitar as águas, disparando os canhões e torpedos à nossa disposição, procurando alertar para os perigosos submarinos que se escondem sob inócuos periscópios sonda da consciência da sociedade civil.
Tão contranatura como a estabilidade da nau Geringonça, tão incompreensível como a manutenção de Passos Coelho ao leme do navio social democrata e tão (ou mais!) inacreditável como a chegada a bom porto da candidatura de Trump nas presidenciais norte-americanas, o crescimento de nosso blog é um mistério absolutamente inexplicável à luz da racionalidade.
Provavelmente, está tudo relacionado e mesmo que nem todos os supracitados fenómenos nos agradem, apraz-nos a recepção tida em 2016 às dissertações da nossa guarnição, com um aumento de 41% de visitas ao blog e de 70% de seguidores em Facebook, pelo que cá estaremos para vos acompanhar na vivência de um novo e maravilhoso ano de navegação e combate marítimo.
Resta-nos desejar uma boa saída de 2016 e melhor entrada em 2017 a todos.
A vanglória de governar – Ano 1
Por estes dias tem-se celebrado efusivamente o primeiro aniversário deste inédito formato de governação. Por um lado uma enorme felicidade pela robustez da geringonça, que atravessou calmamente o seu primeiro ano de vida, pelo outro uma enorme satisfação para com os resultados obtidos, após apenas um ano de exercício de poder! São estas as bandeiras içadas que ilustram o sucesso do novo rumo de Portugal:
- Sólido desempenho das contas públicas com previsão do défice mais baixo de sempre;
- Crescimento económico recorde na zona euro;
- Aumento de 6% do investimento empresarial;
- Aumento de 6,6% da exportação de bens;
- Mais baixa taxa de desemprego desde 2011;
Mais uma vez, sem pudor, existe uma transformação do impacto de factores externos imprevisíveis em acções de mérito próprio, bem como a apropriação de todos os louros que conduziram a este cenário.
Parece-me assim pertinente relembrar que o primeiro ministro António Costa foi nomeado em fim de Novembro de 2015, ao que se terá seguido um período de transição de pastas e de alinhamento operacional com parceiros de esquerda, que o orçamento de 2016 só obteve aprovação em Março de 2016, tendo iniciado a sua execução em Abril. Isto quer dizer que decorridos praticamente 6 meses de uma governação em marcha, existe já um vangloriar de resultados obtidos. Como se políticas de médio a longo prazo produzissem resultados imediatos em tão curto-prazo.
Quanto a economia e emprego o turismo reforça o seu peso. Dever-se-á a acção governamental? Ou deveremos antes agradecer aqueles que espalham terror noutros destinos? Ou aqueles que apesar da política de cortes decidiram reforçar a promoção do turismo em Portugal? E se é o turismo encarado como um pilar da economia porque se age de forma tão leviana em matérias que podem colocar em perigo a exploração desse filão?
Será o estupendo aumento de exportações também o resultado instantâneo de acção governamental? Ou resulta da execução nos últimos anos de programas de promoção de produtos e serviços de Portugal em feiras internacionais?
Do que me recordo este governo apostou na restituição de rendimento aos portugueses, confiante que isso se traduziria num aumento do consumo interno. Ainda não é claro se o objectivo está a ser atingido, nem qual o seu impacto nas contas finais, sendo sim evidente que existe um aumento significativo dos níveis de crédito ao consumo. Ora esta não era uma das situações preocupantes verificadas quando rebentou a actual crise?
Finalizando é absolutamente inegável que esta gerigonça tomou muitas medidas que arrepiam caminho em relação ao traçado pela anterior governação, tal como é inegável que algumas das estratégias passadas permitem neste momento colher alguns frutos. O facto deste governo estar em funções na fase da colheita, surgindo na fotografia com os bons frutos resultantes, não deveria dar-lhe o direito de assumir todo o mérito de produção pois o seu cultivo, semeio e criação, couberam a outros cuja recompensa foi a destituição do seu cargo por uma união de esquerda descrente nos resultados de que hoje se apropriam.
Desejo sinceramente que, para o bem de Portugal, no próximo ano existam muitos motivos para que este governo se vanglorie com maior legitimidade sobre os resultados obtidos no culminar de uma temporada inteiramente preparada e executada por si. Até lá mais trabalho e menos basófia por favor.
Welcome to the new world disorder
Contra as previsões dos especialistas e analistas eis que Trump emerge vitorioso, conseguindo ultrapassar todas as adversidades colocadas no seu caminho. Esses mesmos especialistas e analistas, que não viram a sua competência e confiança abaladas pela sua falha na previsão da eleição confortável de Hillary, parecem agora umas baratas tontas ressabiadas, prevendo uma série de cenários catastróficos potenciados pelas futuras e hipotéticas políticas de Trump. Acusam-no ainda de ter sido eleito por uma enorme base de brancos estúpidos e racistas, não se lembrando de responsabilizar quem assim os formou nas últimas gerações.
Mas afinal quem é Trump? O que sabemos sobre a sua verdadeira personalidade e capacidade? Tudo o que vimos até ao momento foi a persona Trump que soube dominar como ninguém o mediatismo inerente a uma corrida à Casa Branca. Qualquer um que tivesse visto os três debates de frente a frente entre si e Hillary perceberia que o homem tem estofo e é muito mais do que os sound bites a que o tentaram reduzir. Quem tenha vista os documentários sobre a sua ascensão desde os anos 70 perceberia que um Trump idiota jamais conseguiria alcançar o que alcançou no mundo dos negócios. Trump é pouco ortodoxo mas tem foco, sagacidade e inteligência. Em campanha fez o que tinha de fazer para alcançar a posição que alcançou, explorou um sistema que nunca o recebeu de braços abertos, agora irá fazer o que faz qualquer gestor de topo. Enquadrar-se, analisar o cenário real, as possibilidades e redefinir estratégias. O verdadeiro Trump só será conhecido meses depois da sua nomeação em Janeiro de 2017.
Os governantes do mundo, esses, andam desorientados. É compreensível. Há décadas que foi posto em marcha um guião de política e governança mundial, centrado no controlo e gestão do dinheiro, que é agora colocado em causa pelas visões de geo-política manifestadas por este outsider. Trump tem o descaramento de colocar em causa o orçamento e volume da presença militar da América no exterior, de piscar o olho à Rússia, de vacilar quanto ao pagamento da dívida exterma, de anular tratados de comércio internacionais, abalando desta forma os alicerces do mundo como o conhecemos.
Por outro lado a nível interno revelou-se agressivo para com emigrantes, descrente do aquecimento global e suas consequências, persecutório para com opositores, conseguindo dividir os americanos instantaneamente sem direito a período de nojo.
Resumindo Trump é uma carta fora do conhecido baralho viciado. A incógnita é saber se, a seu tempo, se revelará um Às de trunfo ou um perigoso Joker. Para uns essa incógnita representa medo e terror, para outros uma estranha e inesperada sensação de esperança na (boa) mudança.
Personagem certa no lugar certo
Depois de um primeiro-ministro, de um ministro, a limpeza curricular chega agora ao nível dos adjuntos e chefes de gabinete, ninguém sabe onde vai parar, até já as empregadas de limpeza vivem inquietas com a possibilidade de verificação se realmente terminaram as formações do centro de emprego que apresentaram no currículo.
Na verdade quando se é marcado como alvo a abater não há muito a fazer. Mesmo que se apresente um currículo, know-how e experiência inquestionáveis existirão sempre argumentos sofismáveis que colocarão a emoção à frente da razão.
Curioso é observar a aceitação generalizada sobre os ultrajantes rendimentos dos gloriosos, galácticos e/ou special ones da bola. Aceitação esta que não se alonga para tolerar rendimentos assinaláveis por parte daqueles que estão incubidos de gerir milhares de milhões de euros com o máximo de ética e idoneidade. Garantidamente é dada mais importância ao baixo custo dos salários de administradores do que ao custo dos resultados da sua gestão.
É compreensível. O mundo em que vivemos é complicado e sobretudo desconfiado. Nem currículo, nem títulos, nem referências do passado têm força suficiente para convencer a maioria de que se fez uma escolha acertada. Muitos nem querem saber, preferindo refugiar-se num mundo de fantasia, ficção e entretenimento, onde as soluções milagrosas surgem como que por magia. Este é um mundo onde até a ONU, na dificuldade de uma escolha consensual e acertada, recorre ao divino ficcionado para apresentar uma personagem de virtude inquestionável como sua embaixadora.
Como tal, o governo português não deveria ter complexos em ser pioneiro no alargar do leque de escolha. Perante tal dificuldade em encontrar o candidato idílico, que agrade a tudo e todos, não existe outra solução que não a escolha de alguém que estaria disposto a gerir um banco sem qualquer renumeração, apenas pelo seu amor ao dinheiro e à sua multiplicação.
Programa de Imobilidade Urbana
Sou um dos novos prisioneiros rodoviários de Lisboa, venho aqui reclamar das condições da clausura que me é imposta. Como me encontro nesta condição? Também para mim é um mistério. Como muitos era um honesto cidadão, cumpridor de horário rodoviário fora de ponta, sair de casa às 07h30m para fazer um trajecto de 30km entre a zona oeste e a zona do Saldanha, era coisa para demorar 30 minutos. Fui de férias de Verão, retornando em meados de Setembro, constatando que esses 30 minutos se multiplicaram por 2x ou por 3x, não excepcionalmente, é a nova norma.
Inicialmente dei o benefício da dúvida, são obras de curta duração, só que à medida que as estas são terminadas, sendo comidas uma ou duas faixas de rodagem em vários segmentos da Avenida da República, percebo que o novo constrangimento veio para ficar. Não consigo sequer dormir à noite com pesadelos sobre o agravamento que será imposto pelas intempéries de Inverno.
Outros efeitos colaterais são o embrutecimento e entristecimento das gentes, condutores que deixam de dar passagem, que stressam, praguejam e gesticulam muito mais, passageiros apáticos ao longo das paragens de autocarro, e quebras de produtividade nas empresas com atrasos ‘justificados’ e ânimos quebrados antes sequer de ser iniciada a labuta do dia.
Da câmara chega-nos um discurso do querer criar novos espaços, mais agradáveis à circulação pedonal, do querer diminuir o tráfego para e na cidade, do promover o uso de transportes públicos. Faz sentido, sobretudo se criassem as condições para a transferência das pessoas, dos carros para transportes de qualidade, antes da execução de medidas que quebram totalmente a actual dinâmica de mobilidade urbana. Certamente que não serão transportes públicos com equipamentos ultrapassados, sub-dimensionados e em agonia que teriam capacidade de resposta caso se desse uma rápida transição de condutores para passageiros.
Mais sentido faria uma política agressiva de promoção da habitabilidade. Nos anos 60-70 Lisboa chegou a ter 800 mil habitantes, hoje ronda os 550 mil, com mais de 425 mil pessoas vindas dos subúrbios que se deslocam diariamente para trabalhar ou estudar. O que quer dizer que, se fosse comportável, centenas de milhares de pessoas estariam dispostas a viver em Lisboa, reforçando aquilo que deveria ser, uma cidade lusa. Seria a recuperação de uma vida citadina na sua plenitude social, menos artificial e turística, com muito menos viaturas circulantes. Pelo que talvez a melhor resolução fosse a transferência do alojamento de turistas para os subúrbios, de onde poderiam ser servidos com transportes rápidos e de qualidade numa rede de muito menor dimensão do que aquela que seria necessária para transportar trabalhadores e estudantes.
É nisto que penso ao ficar retido no programa de imobilidade urbana em curso. Que direcção toma esta Lisboa que se formata pensando na exploração do veio turístico ao invés de promover a habitabilidade? Pretenderá perder o título de cidade capital para se tornar um cada vez melhor parque de entretenimento urbano?
Obrigado, obrigado, obrigado
Diz que devemos agradecer ao Universo por aquilo que nos concede tentando sempre descortinar o lado positivo mesmo quando o cenário parece catastrófico. Pelo que, quero aqui fazer a minha parte e realizar alguns agradecimentos relativos a eventos recentes.
Obrigado ao nosso Presidente da República que demonstra o impacto e influência que o seu cargo não executivo pode ter sobre quem está em exercício de funções, ora dando uma no cravo, ora dando outra na ferradura, ora sendo acelerador, ora sendo travão de ideias geringonças. Depois de retiradas as silvas o jardim de Belém parece agora florescer.
Obrigado aos chineses que nos ajudaram a trafulhar seus conterrâneos. Claro que o pagaremos caro, com juros, mas como bom povo mediterrâneo sabemos aproveitar ao máximo o sol de pouca dura antes da chegada de novo Outono-Inverno.
Obrigado à América por nos demonstrar a sua democracia vanguardista onde o embate político se tornou um misto de entretenimento e reality show ao estilo da “Casa Branca dos Segredos”. Mais importante do que ideias é saber que tipo de uso dá um candidato à sua genitália. Mérito ao primeiro a reconhecê-lo em Portugal, José António Saraiva.
Obrigado a Maria Leal por confirmar a qualidade dos curadores de artes performativas que apenas dão visibilidade e oportunidade a grandes valores artísticos.
Obrigado aos taxistas por com a sua manifestação nos fazerem esquecer por um dia a qualidade dos nossos transportes públicos, muito bem pensados à medida do orçamento possível.
Obrigado à Assembleia Geral da ONU por escolher um imaculado e verdadeiramente bem intencionado António Guterres para seu secretário geral. Também eu gosto e acredito na nossa picareta falante que tanto cresceu durante o seu mandato de 10 anos como alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, ou por outras palavras como responsável pela gestão de danos sociais causados pelas guerras mundiais. Foram 10 anos de forte crescimento onde mesmo assim se conseguiram milagres a nível orçamental gerindo-se a crise humanitária sem que fossem levantadas grandes ondas em termos mediáticos (só mais para o final a coisa se tornou um pouco viral mas rapidamente voltou a sair de cena). Desconfio que para os grandes líderes mundiais Guterres seja um género de picareta de São João, colorida e sonora mas que apenas dá pancadinhas de amor, em teoria fácil de aturar portanto. Agora com as rédeas de uma organização poderosa, com maior abrangência da sua área de influência e intervenção, espero que saia um pouco mais da casca procurando atravessar a fronteira da contenção em direcção à verdadeira resolução dos graves problemas mundiais. Se faz favor faça-se ouvir e aponte o dedo, doa a quem doer. Em último recurso não se embarace de trair alguns princípios e defender a capacitação dos refugiados para o reconquistar de tudo o que lhes foi tirado.
Finalmente obrigado ao PC e ao BE por se manterem fiéis ao PS garantindo assim uma estabilidade de pedra e cal que nos proporcionarão a todos um muito melhor Natal junto de nossos pais e avós um pouco mais sorridentes.
Tu és lindo Universo!
Caça ao guito
“Temos de perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro” terá sido porventura uma das frases mais infelizes da politiquice recente. A sua autora entretanto já deu mil e uma explicações que procuram aliviar o peso da literalidade desta frase, no entanto, em seu redor, orbitam outros pequenos acontecimentos que só podem deixar inquietos estes privilegiados acumuladores.
- O fisco terá acesso às contas com mais de 50 mil € (não há perigo, é só para fazer umas análises de dados);
- Está em estudo aplicação de nova taxa sobre património acima de valor a definir e vários ponderadores do IMI foram alterados para agravar este imposto sobre casas melhor situadas ou com melhores condições (boa casa só para quem pode);
O argumentos populistas mais utilizados pela esquerda são dois. Um é o de que o leque de contribuintes nestes segmentos é reduzido e tem de contribuir mais porque, hipoteticamente, se consegue acumular tanta riqueza deve-o a algum tipo de exploração (do sistema fiscal, da lei ou de pessoas). O outro é que com a nova receita se poderá por exemplo aumentar 5 € a todas as pensões abaixo de 500 €.
Estas medidas não são mais do que demonstração de fragilidades governamentais que resultam no explorar do elo mais fraco. Preferem rotular todos os acumuladores de riqueza como suspeitos a penalizar (porque em teoria lhes custará menos) ao invés de criar medidas, futuras ou mesmo retro-activas, que consigam acabar com a riqueza indevidamente acumulada por aqueles que verdadeiramente ludibriam o sistema, ou ter a coragem de cessar ou diminuir certas coutadas fiscais sobre quem explora o mercado português.
Mais, com este tipo de discurso e acção, cultiva na sociedade um confronto de classes, em que quem está longe dos patamares falados diz um “Apoiado!” com a convicção de que se o têm é porque são uns porcos capitalistas, no outro lado milhares dos abrangidos pelo estatudo de “acumulador de riqueza” sentem-se insultados por cumprir com as suas obrigações fiscais e ainda virem a ser penalizados por ter tido um comportamento de poupança mesmo no tempo de bonança.
Se existe tão grande clivagem entre determinados segmentos da população a culpa não será maioritariamente dos que estão em melhor situação mas sim dos que legislam e gerem orçamentos por forma a criar as condições laborais e sociais que conduzem à desigualdade.
Todo o princípio de caça à receita através da penalização dos mais abastados, que já cumprem um regime fiscal progressivo, torna-se ridículo a partir de certo ponto. E o argumento da distribuição da riqueza não pega, faria muito mais sentido que ao invés de se proporem a aumentar 5 € em todas as pensões até 500 €, pelo mesmo custo aumentassem 12 € em todas as pensões até 200 € e que concentrassem futuros aumentos de pensões apenas em escalões inferiores para que estes beneficiários abandonem a precariedade mais rapidamente.
Por fim recomendo também que no exercício da caça ao guito a esquerda se foque também naquela que é pretensamente a sua especialidade, a solidariedade social, sim porque para além da acumulação também a distribuição/desperdício de riqueza acumulada por outros (mais de mil milhões de € por ano para as IPSS) deve ser alvo de escrutínio apertado e quiçá seu redireccionamento para outros pontos de maior controlo e eficácia no combate pela igualdade.
A justiça e equidade social também deve ser exercida na governação, sem penalizar em demasia certos grupos a favor de outros, nem que apenas por princípio. Impeça-se o enriquecimento ‘sujo’ mas respeite-se o enriquecimento ‘limpo’ que já é devidamente taxado quando gerado e gasto. Caso contrário iremos caminhar num progressivo nivelar por baixo, em que quem está num percentil acima da média seja sempre visto como a próxima presa a abater para alimentar aqueles que, por desgoverno do país, desesperam e proliferam no limiar da pobreza.
Braseiro Lusitano
Ao aterrar de umas férias frescas senti-me algo desorientado ao reentrar no nosso braseiro luso. Primeiro sinto no corpo as temperaturas a roçar os 40º, depois sinto na alma as notícias recorrentes de incêndios a lavrar florestas, terras e mesmo áreas urbanas. Isto com a desresponsabilização do costume, de supostamente haver pouco a fazer preventivamente contra o binómio, mão criminosa mais força da Natureza, que em anos atípicos como o actual é demolidor e incontrolável.
Decidi investigar um pouco o tema, deparando-me com números que demonstram que, de entre os países mediterrâneos Europeus, Portugal, apesar de ser o País com menor área florestal, disputa taco a taco, ganhando em muitos anos, o título de país com maior área ardida e maior número de incêndios por ano. São números de décadas que demonstram que apesar da nossa bravura na luta de terreno temos alguma brandura no estudo, compreensão e/ou aplicação de medidas eficazes que diminuam a ocorrência de incêndios no nosso território. O problema é global, em alguns países como Brasil, Indonésia, Rússia, Austrália, Estados Unidos, Canadá, com escalas exponencialmente maiores do que a nossa. Este será um dos poucos temas onde o factor escala nos favorece. Temos um território relativamente pequeno pelo que o seu controlo e ordenação deveria apresentar-se como um desafio superável ao invés de um inferno perpétuo.
Passo a uma desconstrução sumária do cenário actual.
Os bombeiros são parte importante da nossa protecção civil há mais de 650 anos, deverão existir em Portugal aproximadamente 30 mil bombeiros dos quais aproximadamente 3 000 são profissionais, só 7% da sua actividade é relacionada com o combate a fogos, existindo para si um regime jurídico particular e uma enorme complexidade na sua organização e gestão.
Em termos de áreas ardidas a grande maioria é composta por mato e pastagens ou áreas florestais, diz-se que parte relevante são “terras abandonadas sem dono” que servem muitas vezes de acendalhas de grandes incêndios.
Quanto a meios e equipamentos foi feito este ano um investimento de mais de 70 milhões de euros, apesar das Forças Armadas fazerem parte do dispositivo de combate ao fogo a nossa Força Aérea não está capacitada para nele participar activamente com meios aéreos.
Passando por cima dos efeitos não quantificáveis de um fogo ficamos com aquilo que pode ser quantificável, os prejuízos económicos, que segundo estimativas do governo ascendem a mais de mil milhões de euros.
Continuam a existir variados interesses ocultos por parte de indústrias e sectores económicos que acabam beneficiados pela ocorrência destas calamidades.
Agora que temos aqui reunida a lenha para a fogueira é chegada a altura de pegar fogo à peça.
Relativamente aos bombeiros a situação é extremamente delicada pois são verdadeiros heróis e qualquer ‘revolução’ na sua estrutura pode ser vista como o colocar em causa do seu trabalho. É inegável o seu contributo para a sociedade, em todas as suas valências de actuação, mas realmente no enfrentar de fogos florestais de grande dimensão nota-se que falta qualquer coisa. Sejam meios, seja coordenação, seja formação, há algo que falha. É clara a prioridade de protecção a vidas, a habitações que culmina muitas vezes num deixa arder do resto. É isto que passa na cobertura mediática onde se registam com frequência queixas da população ou dos próprios bombeiros, mesmo que prontamente abafadas e justificadas como algo do calor do momento. Ser bombeiro é algo exigente em termos de tempo, do físico e de aspectos emocionais/psíquicos. Parece-me que nos dias de hoje, com o volume de ocorrências e as exigências da vida pessoal e profissional, o voluntariado puro possa causar problemas, se não ao nível do número de efectivos disponíveis pelo menos ao nível do seu estado individual de prontidão, da sua capacidade de resposta a todos os níveis em qualquer momento. Combater um fogo, com elevado grau de incerteza da situação e de risco para a integridade física do próprio bombeiro, será certamente muito diferente dos restantes 93% da sua actividade de voluntariado. Por outro lado existem as empresas empregadoras dos bombeiros voluntários potencialmente ‘lesadas’ até 1x mês por ano, já que o bombeiro tem direito a três dias dias por mês (pagos pela empresa) para exercício das suas funções e/ou formação, para além de se verem privadas dos seus trabalhadores durante o período de combate aos incêndios. Será que nos dias de hoje termos bombeiros estritamente profissionais não acabaria por ser mais vantajoso para todos os envolvidos? Isso até aparenta ser um desejo da Liga dos Bombeiros Portugueses, pelo menos para os seus efectivos desempregados que passariam a ser profissionais de uma forma encapotada. Não teria também um impacto positivo em termos da diminuição da taxa de desemprego?
Por outro lado parecer-me-ia útil ter uma unidade de bombeiros exclusivamente dedicados à prevenção e combate a incêndios que pensem, estudem e lutem contra o fogo a 100% do seu tempo. Seria nela compilada toda a experiência acumulada, a nível nacional e internacional, tornando-se progressivamente na responsável pela coordenação no terreno em qualquer ponto do país. Naturalmente teriam também uma palavra a dizer na ordenação de todo o território florestal. Basicamente poderiam ser mantidos os Corpos de Bombeiros tal como estão hoje, mas extirpar-los em termos administrativos e de gestão, da componente de prevenção e combate ao fogo. Pensar os incêndios como algo sazonal e parcial não tem funcionado de todo, apenas a existência de sapadores florestais localizados tem-se revelado insuficiente, pelo que esta seria uma medida que delegaria numa entidade competente um estado de alerta permanente.
Relativamente às terras consumidas, muito mato e árvores, com uma unidade fiscalizadora, que poderia muito bem ser a acima indicada, rapidamente seriam identificadas as terras que não estão devidamente limpas podendo agir-se em conformidade. Como fazê-lo sem acarretar grandes custos quando o dono das terras não seja conhecido ou não tenha capacidade financeira para o executar? No caso de mato e pastagens seria simples, bastaria criar equipas de pastoreio com rebanhos de caprinos e ovinos que fariam a limpeza do terreno de forma barata e eficaz para além de ainda adubarem e revolverem o solo. No caso de outros tipos de massa combustível, não consumível por rebanhos, teria de se proceder a uma limpeza via trabalho humano que teria de ser suportado pelo estado, ou autarquia, sendo que aqui não me chocaria nada recorrer a grupos de voluntários, reclusos e/ou desempregados, devidamente recompensados por forma a baixar consideravelmente os custos comparativamente à contratação de serviços a empresas.
Para protecção de habitações e das copas das árvores deveríamos apostar em investigação tecnológica para diminuir custos de investimento em equipamento capaz de retardar, ou mesmo parar, fogos em zonas de alta densidade florestal. Por exemplo a construção de torres de água de alta capacidade que realizem a captação de águas pluviais no Outono / Inverno e tenham a capacidade de realizar a sua aspersão sobre as copas das árvores quando necessário, invenção de novos tipos de descarga de água por meios aéreos que sejam mais próximos de uma chuva contínua e prolongada do que de um largar de bomba aquática altamente concentrado e mesmo destrutivo, utilização de drones ou câmaras de alta precisão instaladas em torres eólicas que sejam atraídas por focos de temperaturas extremas por forma a antecipar ao máximo o envio de alertas, dotar as casas remotas de sistema de aspersão para o exterior a partir das suas paredes e telhados para que a sua defesa deixe de ser uma preocupação constante e prioritária sobre tudo o resto, etc. Como referido no início este é um problema mundial com tendência a agravar devido às alterações climáticas, o que quer dizer que é também um nicho de negócio emergente, sobretudo devido à gravidade de fogos recentes e suas repercussões ambientais e económicas em todo o globo. Ao invés de termos vários sectores económicos a beneficiar da ocorrência de fogos criaríamos novos sectores que beneficiariam da cada vez menor ocorrência de fogos.
Quanto aos meios aéreos parece que a única coisa a voar como deve de ser são os milhões de euros… nos últimos anos são frequentes ecos mediáticos da necessidade de mais ou melhores meios aéreos de combate aos incêndios. Acho um pouco estranho o não envolvimento da Força Aérea (FA). Compreendo que em termos técnicos existam condicionantes que o impeçam, poderá ser justificável se o custo de adaptação de um aparelho de aviação militar ao combate a incêndio seja demasiado caro ou se isso lhe retira capacidade operacional do ponto de vista militar, mas será que não poderiam gerir a frota ou ao menos facultar pilotos para pilotar os meios aéreos existentes? O combate aos incêndios pode ser um teatro real para treino de pilotos da FA reduzindo ao mesmo tempo custos nos contratos com privados (que incluem a pilotagem). Facto inegável é que a gestão da frota realizada nos últimos anos, fora da FA. levou à dependência quase total de meios facultados por privados ou auxílio de terceiros, estes últimos com custos diplomáticos no futuro.
E por favor estabeleçam-se objectivos concretos que permitam acabar com a dança dos números para mascarar a ineficácia da prevenção e combate aos fogos. Não é aceitável a demagogia habitual, que se diga que o ano foi positivo porque ardeu menos área que o ano passado, porque não houve vítimas de incêndio, porque não houve danos em habitações, etc. Isto é gestão populista pois certamente existem situações em que é preferível deixar arder habitações, que se recuperam num ano, para salvar largos milhares de hectares de floresta que demoram décadas a restabelecer-se. São decisões difíceis que devem ser tomadas por especialistas na gestão de fogos e de território florestal. Portugal tem de ter um número fixo de hectares máximos definidos como perda aceitável anual, a nível regional, e tudo o que passe além disso terá de ser considerado um fracasso. Pelo menos o Algarve já definiu este indicador. Considerando 400 mil ha de área florestal os 0,8% indicados representariam 32 mil ha como marca aceitável para esta região pelo que parece que alguém está a ter sucesso nesta batalha. Transparência e informação é ao menos a obrigação de divulgar o evoluir destes números sempre que se faça a cobertura mediática do combate aos fogos.
Tudo isto custará dinheiro que terá de vir de algum lado, mas tendo em conta o volume de prejuízos acumulados ao longo dos anos rapidamente se verificará que do ponto de vista económico existirá uma poupança real se realizado maior investimento na prevenção e combate do fogo ao invés de se garantir o ressarcir de investimentos realizados.
Por fim, uma outra forma de reforçar a actuação dos governos no combate aos fogos, seria o imputar a cada país o volume de emissão de carbono gerados pelos incêndios no seu território. Este seria um indicador com impacto relevante quando todos os países têm como meta a diminuição drástica da emissão de CO2. Seria mais uma forma de trazer ao de cima uma realidade nacional que na verdade tem um efeito a nível mundial. Um incêndio não apenas emite gases tóxicos como durante um longo período reduz em muito a capacidade de absorção de CO2 por parte da flora atingida. Ou ainda acreditam que isto do aquecimento global é um mito?
Posto isto, depois de ler várias sugestões e dissertações de quem está envolvido directamente nesta guerra ao fogo, algumas das quais convergentes com ideias aqui deixadas, temo que este post não passe de mais um pouco de chover no molhado quando esta chuva de ideias deveria sim ser canalizada para a resolução do Portugal ardente. Mais do que dependência meteorológica a resolução deste problema tem dependência política pelo que a previsão não é favorável já que infelizmente a actual geringonça foi pensada para apagar outro tipo de fogos que se reacenderão assim que sejam extintas as chamas do fogo real.
Um português de cherneira
Curioso que num período de tão grande exultação nacional aos feitos desportivos das últimas semanas, tenhamos como antítese o sentimento de vergonha, quiçá nojo, por um português assumir um alto cargo numa das maiores instituições bancárias do mundo.
Durão Barroso, o homem que fez questão de estender o tapete vermelho para o lançamento da guerra necessária, o patriota que se sacrificou pelo bem maior, um dos principais arquitectos e lutadores pela Europa de hoje.
Ao contrário do sentimento de indignação internacional, tenho cá para comigo que esta poderá ser uma excelente oportunidade de, a médio prazo, caminharmos para um mundo melhor. Vejamos, Barroso ‘patrocina’ uma guerra que 10 anos depois se revela desastrosa, toma a decisão de abandonar o governo de Portugal por estar garantida a situação económica do país que 10 anos mais tarde bate no fundo, por fim dirige a comissão europeia durante 10 anos e pouco depois da sua saída a Europa parece estar à beira da implosão.
Repararam nestes ciclos de 10 anos? Pelo que tenho esperança de que, conseguindo manter-se no novo cargo durante tempo suficiente, daqui a 10 anos tenha enfraquecido a Goldman Sachs ao ponto de poder vir a ser engolida por, digamos, um nacional Caixa Quase Novo Banco! Será a vingança perfeita, o culminar de um complexo plano secreto de décadas, delineado pelo próprio, ao estilo cavalo de tróia neo-liberal. Ouçam o que digo! Ainda o carregaremos em braços para o panteão nacional por tal golpada de mestre. A recuperação de milhares de milhões de euros, de ética, de justiça e de toneladas de vergonha!
Não me venham cá com teorias da conspiração, não acredito nessa treta dos grupos secretos que tentam manipular o destino do mundo para proveito próprio. Grupos que nomeariam para altos cartos a título de recompensa por serviços prestados e capacidade já demonstrada para escolher o lado certo sempre que exista um inevitável conflito de interesses.
Não, eu acredito que a história do Homem se faz pela mão de cada homem. Força Durão, tu és o tuga no local certo, afinal, quando se está há tanto tempo no tanque dos tubarões, só saber nadar não chega, há que ganhar guelras e ter olho vivo.
Eu acredito em ti. Acaba com eles!
PS – não vás ter fraca memória de curta duração reforço que falo da Goldman Sachs, não dos teus conterrâneos lusos e europeus, ok?











