Braseiro Lusitano

Ao aterrar de umas férias frescas senti-me algo desorientado ao reentrar no nosso braseiro luso. Primeiro sinto no corpo as temperaturas a roçar os 40º, depois sinto na alma as notícias recorrentes de incêndios a lavrar florestas, terras e mesmo áreas urbanas. Isto com a desresponsabilização do costume, de supostamente haver pouco a fazer preventivamente contra o binómio, mão criminosa mais força da Natureza, que em anos atípicos como o actual é demolidor e incontrolável.

Decidi investigar um pouco o tema, deparando-me com números que demonstram que, de entre os países mediterrâneos Europeus, Portugal, apesar de ser o País com menor área florestal, disputa taco a taco, ganhando em muitos anos, o título de país com maior área ardida e maior número de incêndios por ano. São números de décadas que demonstram que apesar da nossa bravura na luta de terreno temos alguma brandura no estudo, compreensão e/ou aplicação de medidas eficazes que diminuam a ocorrência de incêndios no nosso território. O problema é global, em alguns países como Brasil, Indonésia, Rússia, Austrália, Estados Unidos, Canadá, com escalas exponencialmente maiores do que a nossa. Este será um dos poucos temas onde o factor escala nos favorece. Temos um território relativamente pequeno pelo que o seu controlo e ordenação deveria apresentar-se como um desafio superável ao invés de um inferno perpétuo.

Passo a uma desconstrução sumária do cenário actual.

Os bombeiros são parte importante da nossa protecção civil há mais de 650 anos, deverão existir  em Portugal aproximadamente 30 mil bombeiros dos quais aproximadamente 3 000 são profissionais, só 7% da sua actividade é relacionada com o combate a fogos, existindo para si um regime jurídico particular e uma enorme complexidade na sua organização e gestão.

Em termos de áreas ardidas a grande maioria é composta por mato e pastagens ou áreas florestais, diz-se que parte relevante são “terras abandonadas sem dono” que servem muitas vezes de acendalhas de grandes incêndios.

Quanto a meios e equipamentos foi feito este ano um investimento de mais de 70 milhões de euros, apesar das Forças Armadas fazerem parte do dispositivo de combate ao fogo a nossa Força Aérea não está capacitada para nele participar activamente com meios aéreos.

Passando por cima dos efeitos não quantificáveis de um fogo ficamos com aquilo que pode ser quantificável, os prejuízos económicos, que segundo estimativas do governo ascendem a mais de mil milhões de euros.

Continuam a existir variados interesses ocultos por parte de indústrias e sectores económicos que acabam beneficiados pela ocorrência destas calamidades.

Agora que temos aqui reunida a lenha para a fogueira é chegada a altura de pegar fogo à peça.

Relativamente aos bombeiros a situação é extremamente delicada pois são verdadeiros heróis e qualquer ‘revolução’ na sua estrutura pode ser vista como o colocar em causa do seu trabalho. É inegável o seu contributo para a sociedade, em todas as suas valências de actuação, mas realmente no enfrentar de fogos florestais de grande dimensão nota-se que falta qualquer coisa. Sejam meios, seja coordenação, seja formação, há algo que falha. É clara a prioridade de protecção a vidas, a habitações que culmina muitas vezes num deixa arder do resto. É isto que passa na cobertura mediática onde se registam com frequência queixas da população ou dos próprios bombeiros, mesmo que prontamente abafadas e justificadas como algo do calor do momento. Ser bombeiro é algo exigente em termos de tempo, do físico e de aspectos emocionais/psíquicos. Parece-me que nos dias de hoje, com o volume de ocorrências e as exigências da vida pessoal e profissional, o voluntariado puro possa causar problemas, se não ao nível do número de efectivos disponíveis pelo menos ao nível do seu estado individual de prontidão, da sua capacidade de resposta a todos os níveis em qualquer momento. Combater um fogo, com elevado grau de incerteza da situação e de risco para a integridade física do próprio bombeiro, será certamente muito diferente dos restantes 93% da sua actividade de voluntariado. Por outro lado existem as empresas empregadoras dos bombeiros voluntários potencialmente ‘lesadas’ até 1x mês por ano, já que o bombeiro tem direito a três dias dias por mês (pagos pela empresa) para exercício das suas funções e/ou formação, para além de se verem privadas dos seus trabalhadores durante o período de combate aos incêndios. Será que nos dias de hoje termos bombeiros estritamente profissionais não acabaria por ser mais vantajoso para todos os envolvidos? Isso até aparenta ser um desejo da Liga dos Bombeiros Portugueses, pelo menos para os seus efectivos desempregados que passariam a ser profissionais de uma forma encapotada. Não teria também um impacto positivo em termos da diminuição da taxa de desemprego?

Por outro lado parecer-me-ia útil ter uma unidade de bombeiros exclusivamente dedicados à prevenção e combate  a incêndios que pensem, estudem e lutem contra o fogo a 100% do seu tempo. Seria nela compilada toda a experiência acumulada, a nível nacional e internacional, tornando-se progressivamente na responsável pela coordenação no terreno em qualquer ponto do país. Naturalmente teriam também uma palavra a dizer na ordenação de todo o território florestal. Basicamente poderiam ser mantidos os Corpos de Bombeiros tal como estão hoje, mas extirpar-los em termos administrativos e de gestão, da componente de prevenção e combate ao fogo. Pensar os incêndios como algo sazonal e parcial não tem funcionado de todo, apenas a existência de sapadores florestais localizados tem-se revelado insuficiente, pelo que esta seria uma medida que delegaria numa entidade competente um estado de alerta permanente.

Relativamente às terras consumidas, muito mato e árvores, com uma unidade fiscalizadora, que poderia muito bem ser a acima indicada, rapidamente seriam identificadas as terras que não estão devidamente limpas podendo agir-se em conformidade. Como fazê-lo sem acarretar grandes custos quando o dono das terras não seja conhecido ou não tenha capacidade financeira para o executar? No caso de mato e pastagens seria simples, bastaria criar equipas de pastoreio com rebanhos de caprinos e ovinos que fariam a limpeza do terreno de forma barata e eficaz para além de ainda adubarem e revolverem o solo. No caso de outros tipos de massa combustível, não consumível por rebanhos, teria de se proceder a uma limpeza via trabalho humano que teria de ser suportado pelo estado, ou autarquia, sendo que aqui não me chocaria nada recorrer a grupos de voluntários, reclusos e/ou desempregados, devidamente recompensados por forma a baixar consideravelmente os custos comparativamente à contratação de serviços a empresas.

Para protecção de habitações e das copas das árvores deveríamos apostar em investigação tecnológica para diminuir custos de investimento em equipamento capaz de retardar, ou mesmo parar, fogos em zonas de alta densidade florestal. Por exemplo a construção de torres de água de alta capacidade que realizem a captação de águas pluviais no Outono / Inverno e tenham a capacidade de realizar a sua aspersão sobre as copas das árvores quando necessário, invenção de novos tipos de descarga de água por meios aéreos que sejam mais próximos de uma chuva contínua e prolongada do que de um largar de bomba aquática altamente concentrado e mesmo destrutivo, utilização de drones ou câmaras de alta precisão instaladas em torres eólicas que sejam atraídas por focos de temperaturas extremas por forma a antecipar ao máximo o envio de alertas, dotar as casas remotas de sistema de aspersão para o exterior a partir das suas paredes e telhados para que a sua defesa deixe de ser uma preocupação constante e prioritária sobre tudo o resto, etc. Como referido no início este é um problema mundial com tendência a agravar devido às alterações climáticas, o que quer dizer que é também um nicho de negócio emergente, sobretudo devido à gravidade de fogos recentes e suas repercussões ambientais e económicas em todo o globo. Ao invés de termos vários sectores económicos a beneficiar da ocorrência de fogos criaríamos novos sectores que beneficiariam da cada vez menor ocorrência de fogos.

Quanto aos meios aéreos parece que a única coisa a voar como deve de ser são os milhões de euros… nos últimos anos são frequentes ecos mediáticos da necessidade de mais ou melhores meios aéreos de combate aos incêndios. Acho um pouco estranho o não envolvimento da Força Aérea (FA). Compreendo que em termos técnicos existam condicionantes que o impeçam, poderá ser justificável se o custo de adaptação de um aparelho de aviação militar ao combate a incêndio seja demasiado caro ou se isso lhe retira capacidade operacional do ponto de vista militar, mas será que não poderiam gerir a frota ou ao menos facultar pilotos para pilotar os meios aéreos existentes? O combate aos incêndios pode ser um teatro real para treino de pilotos da FA reduzindo ao mesmo tempo custos nos contratos com privados (que incluem a pilotagem). Facto inegável é que a gestão da frota realizada nos últimos anos, fora da FA. levou à dependência quase total de meios facultados por privados ou auxílio de terceiros, estes últimos com custos diplomáticos no futuro.

E por favor estabeleçam-se objectivos concretos que permitam acabar com a dança dos números para mascarar a ineficácia da prevenção e combate aos fogos. Não é aceitável a demagogia habitual, que se diga que o ano foi positivo porque ardeu menos área que o ano passado, porque não houve vítimas de incêndio, porque não houve danos em habitações, etc. Isto é gestão populista pois certamente existem situações em que é preferível deixar arder habitações, que se recuperam num ano, para salvar largos milhares de hectares de floresta que demoram décadas a restabelecer-se. São decisões difíceis que devem ser tomadas por especialistas na gestão de fogos e de território florestal. Portugal tem de ter um número fixo de hectares máximos definidos como perda aceitável anual, a nível regional, e tudo o que passe além disso terá de ser considerado um fracasso. Pelo menos o Algarve já definiu este indicador. Considerando 400 mil ha de área florestal os 0,8% indicados representariam 32 mil ha como marca aceitável para esta região pelo que parece que alguém está a ter sucesso nesta batalha. Transparência e informação é ao menos a obrigação de divulgar o evoluir destes números sempre que se faça a cobertura mediática do combate aos fogos.

Tudo isto custará dinheiro que terá de vir de algum lado, mas tendo em conta o volume de prejuízos acumulados ao longo dos anos rapidamente se verificará que do ponto de vista económico existirá uma poupança real se realizado maior investimento na prevenção  e combate do fogo ao invés de se garantir o ressarcir de investimentos realizados.

Por fim, uma outra forma de reforçar a actuação dos governos no combate aos fogos, seria o imputar a cada país o volume de emissão de carbono gerados pelos incêndios no seu território. Este seria um indicador com impacto relevante quando todos os países têm como meta a diminuição drástica da emissão de CO2. Seria mais uma forma de trazer ao de cima uma realidade nacional que na verdade tem um efeito a nível mundial. Um incêndio não apenas emite gases tóxicos como durante um longo período reduz em muito a capacidade de absorção de CO2 por parte da flora atingida. Ou ainda acreditam que isto do aquecimento global é um mito?

Posto isto, depois de ler várias sugestões e dissertações de quem está envolvido directamente nesta guerra ao fogo, algumas das quais convergentes com ideias aqui deixadas, temo que este post não passe de mais um pouco de chover no molhado quando esta chuva de ideias deveria sim ser canalizada para a resolução do Portugal ardente. Mais do que dependência meteorológica a resolução deste problema tem dependência política pelo que a previsão não é favorável já que infelizmente a actual geringonça foi pensada para apagar outro tipo de fogos que se reacenderão assim que sejam extintas as chamas do fogo real.

 

braseiro-lusitano

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About Nuno Faria

Nascido em 1977, vegetariano desde 1997 (por convicção própria), com licenciatura de Sistemas de Informação na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1995-1999. Desde 2000 que estou envolvido em projectos de ambiente web, sites, portais e aplicações residentes em Intranets. Em 2003 integrei a equipa da Imoportal.com, hoje absorvida pela Caixatec - Tecnologias de Comunicação SA, onde dei o meu contributo para transformar um site com 30 a 40 mil visitas mensais numa rede de sites que atinge o milhão de visitas mensais. A Internet faz parte da minha vida profissional mas sou também um seu utente. E como tal interessam-me particularmente os mecanismos e dinâmicas capazes de aliciar, convencer e fidelizar visitantes. Preocupo-me em pensar, escrever e criar variados conteúdos que disponibilizo online, como forma de contribuição para o contínuo crescimento da web, não me limitando a ser apenas um seu consumidor.

Posted on Setembro 8, 2016, in Ideias para o País and tagged . Bookmark the permalink. 2 comentários.

  1. Li até ao fim.
    O único comentário que se me oferece dizer é que a imagem é de muito mau gosto !

  2. Li até ao fim e a imagem lembrou-me o início de um fogo, mesmo no meio da floresta, na zona de Alcongosta, Beira Baixa, que ainda não tinha sido atingida, depois da passagem de um avião que combatia um incêndio que haveria de chegar até
    Unhais da Serra!!! (Já foi há mais de uma dezena de anos)

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