Category Archives: Ideias para o País
Por mais absurda a ideia acreditamos nela e no País!
Chega de brincar à democracia e às revoluções
Enquadramento
Um homem comunica ao seu filho que durante os próximos anos não lhe poderá dar a mesada e que terá de recorrer ao partir do seu mealheiro para equilibrar as contas de casa. O filho verbaliza, sem poupar calão, contra o acto e seu autor, revoltado com a injustiça de que é alvo. O pai não lhe disse que todos os ossos de ambos estão penhorados ao bando de agiotas que lhes emprestam o dinheiro necessário para garantir o pão, água e luz. O filho indigna-se. Porque não corta o pai nos vícios, das putas e vinho verde, em vez de lhe reduzir o seu poder de compra? Olha para a sua roupa de marca, consolas de jogos e outros gadjets da moda, oferecidos pelo seu pai em forma de compensação pela conduta menos própria. Terá de os vender para garantir liquidez? Voltar ao marasmo de antes, sem esses mimos?
A realidade é que o pai precisa de dinheiro em caixa para garantir no imediato a integridade dos 412 ossos e não da poupança amealhada no prazo de 1 a 2 anos com o fim dos gastos que sustentam os seus vícios.
O filho poderia ter impedido este momento. Bastaria que na altura em que se apercebeu dos comportamentos impróprios tivesse confrontado o seu pai com essa pouca-vergonha e recusado veementemente ser comprado com ofertas de lavagem de consciência. Provavelmente não teria metade dos bens de hoje mas também não teria chegado até este ponto. Agora o filho não conhece o cenário completo e o pai procura protegê-lo do impacto de saber que corre sério perigo de vida caso não se recorram a duras e injustas medidas de austeridade. Aguentará o filho conhecer a verdade? Será capaz de lidar diretamente com os implacavéis agiotas que financiaram o seu estilo de vida?
Não sei bem que vos diga…
Olho para as manifestações recentes e admito que é bonito de se ver tanta gente junta, unida, a demonstrar a sua insatisfação com estado da nação. Só que é notório que tirando os genéricos impropérios, dirigidos ao inimigo comum, não há um consenso, ou sequer ideias concretas, para apresentar soluções de pagamento da factura. O cerne da questão é “não nos venham ao bolso”. Mas isso não chega. Se o dinheiro não vier daqui virá de onde? Teremos todos noção que estamos falidos de momento? Se não houver injeção de dinheiro do exterior o país fará simplesmente KAPUT. Precisamos de tempo para construir a alternativa e infelizmente esse tempo é comprado e bem caro.
Não há um conhecimento público total de todas as variáveis envolvidas nesta crise e no nosso endividamento, pelo que podemos estar a chamar “FILHOS DA PUTA! CABRÕES!” a quem talvez não o mereça na sua plenitude. Sim, há-os aos potes naquela classe mas também é certo e sabido que quando o barco vai ao fundo as ratazanas são das primeiras a abandonar o barco. Poderão haver por ali algumas pessoas bem intencionadas mas mal assessoradas, mal informadas ou simplesmente manietadas. Se soubessemos toda a história ainda nos tornávamos amigos de algumas delas. Sei que é estranho pensar isto mas também são pessoas.
… mas ainda falta algo …
Lamento mas não sou crente na insurreição da nação. Um pico não é suficiente para me fazer mudar de ideias. Estamos longe de sentir a cidadania em pleno e de estarmos verdadeiramente unidos na luta por direitos e justiça social. Porquê só agora esta manifestação?
Em início de 2011 mais de meio milhão de desempregados não teriam merecido de imediato um aviso à navegação?
Em início de 2012 o corte de subsídios no sector público não seria mais do que justificativo?
Parece que não. Em 2011 os empregados no público e privado não sentiram as dores dos desempregados. Em 2012 com o anúncio dos cortes de subsídios no sector público muitos dos trabalhadores no privado até manifestaram um certo “Sim, senhora. É cortar na gordura do estado que essa gente não faz nada!”.
E agora na recta final de 2012, quando apenas está a ser feita uma sondagem à capacidade de encaixe dos Portugueses dos males que aí vêm, com a perspectiva de cortes brutais de rendimentos nos privados subitamente os desempregados são pessoas, os funcionários públicos são pessoas, somos todos pessoas, PORTUGUESES IRMÃOS!
De repente não interessa de que classe e sector és. Bora para a rua que agora já toca a todos e assim não se aguenta!
… muito fácil de concretizar.
Gostaria que a coragem, determinação, paixão e insurgência dos Portugueses não surgisse apenas em ambientes onde surgem fenómenos de massa (manifestações, concertos, estádios de futebol). Aí, com as costas quentes qualquer peido se transforma num trovão valente. A revolução à séria dar-se-ia se fossemos tudo isso quando estamos sozinhos, em discussão com as vozes na nossa cabeça, uma caneta na mão e um boletim de voto à frente. Aí sim. Confrontados com “o que faço com esta merda!?” e ponderando tudo o que temos a perder e ganhar em função do quadrado a cruzar.
Até hoje temos sido uns grande cobardes. Em mais de 30 anos de democracia apenas oscilamos entre duas forças políticas que em conjunto nos trouxeram até aqui. Ao longo deste tempo tivemos conhecimento de casos de corrupção, de favorecimentos lesivos ao estado e identificámos pessoas muito compententes a enriquecer sem tornar o país mais rico. E tudo isto aconteceu em alternância de períodos rosa ou laranja.
Teremos agora a capacidade de ouvir e arriscar apostar noutras caras, noutras ideias, noutras forças políticas? Ou na altura da verdade continuará a maioria a jogar pelo Seguro?
Quem o alheio veste
Foi por encomenda do armador alemão Hamburg-Amerika line (HAPAG) que nos últimos dias do século XIX a sua quilha foi assente nos estaleiros da William Gray & Company Ltd em West Hartlepool, Inglaterra. Lançado no primeiro ano do século XX, 1901, o navio foi baptizado “Numantia”, numa premonitória homenagem à lendária cidade de Numancia, na antiga província Romana, Hispânia. Com 122 metros fora a fora, 16 metros de boca, quase 4500 toneladas de arqueação bruta e aproximadamente 8000 toneladas de arqueação líquida (Sistema Moorsom), o novo cargueiro a vapor, então moderno e eficiente, serviu a nação germânica até Agosto de 1914. A primeira grande guerra ditou o bloqueio naval Britânico a todos os portos Germânicos. Impossibilitado de regressar à Alemanha, o navio rumou ao porto de Mormugão, colónia ultramarina de Goa, Índia, onde lhe foi concedido refúgio ao abrigo da neutralidade que a jovem República Portuguesa mantinha no conflito.
Eis que em 7 de Fevereiro de 1916 tudo se altera. É promulgada a lei nº 480, ao abrigo da qual o governo Português legítima a “requisição de todos os meios de transporte julgados indispensáveis à economia nacional”. Este primeiro passo rumo à beligerância, à época justificado pela necessidade de salvaguardar o comércio colónial, mais não foi que um sintoma da nossa condição de protectorado Britânico. Provou que a jovem república, depois de muito criticar o deposto regime monárquico, não se libertara da subserviência ante o Reino Unido. Portugal observa assim a velha aliança, mas não declara guerra ao Império Germânico, decreta. A 23 de Fevereiro de 1916, o governo mandou publicar o decreto nº 2229, o qual determina a apreensão dos setenta navios Alemães refugiados em território Português. A resposta Alemã, sob a forma de ultimato, exigindo a devolução dos navios foi ignorada, pelo que a brilhante iniciativa legislativa obtém o resultado desejado: a 9 de Março de 1916, a Alemanha declara guerra a Portugal.
A Nação aceita o enorme custo da guerra em troca de uma vasta e moderna frota de navios mercantes, muitíssimo superior à capacidade de investimento e produção naval nacional. Milagrosa resolução desse défice. É neste contexto, com a missão de gerir a nova frota, que nasce a companhia “Transportes Marítimos do Estado” (T.M.E). Contudo, negociações anteriores ao iluminado decreto, garantem o usufruto de 80% desta frota de navios ao Reino Unido, através de contracto de fretamento com o armador Furness, Withy & Co, o famoso contrato Furness. A frota alemã servirá sobretudo o interesse Britânico: à razão de um preço por frete muito inferior aos valores de mercado (<50%) e com prémios de seguro ridiculamente baixos. Acresce a fórmula de cálculo, que em ambos os casos, frete ou perda do navio, tinha por base a arqueação bruta e não a líquida, isto é, com base no peso do navio e não na sua capacidade de carga (a única relevante para o fretador). Condições ruinosas para o armador estatal, válidas ao longo de um prazo singelamente definido por “Seis meses após o fim da guerra”. Uma PPP com garantias do estado Português, em benefício do Britânico e com o patrocínio da iniciativa privada Alemã.
Uma vez reparados os danos resultantes da sabotagem perpetrada pela tripulação teutónica, o “Numantia” foi rebaptizado “Pangim”, em homenagem à cidade Indiana do Império Colónial Português. Recebe tripulação Portuguesa e serve os aliados durante a vigência do contrato Furness, período ao longo do qual vive múltiplas privações e vergonhas, normalmente resultantes da sistemática falta de pagamento do armador estatal aos seus fornecedores. É conhecida uma longa e ruinosa estadia do navio e sua tripulação no porto de Antuérpia, Bélgica. Nada que se compare com o caricatural exemplo do vapor “Sines”, que em Cardiff, País de Gales, esteve arrestado de Fevereiro de 1921 a Janeiro de 1922, vivendo a tripulação em precariedade tal que se viu obrigada a carregar terra para bordo, e nela plantar uma horta em pleno convés do navio. Avulsos exemplos das metodologias e práticas em vigor nos T.M.E, organização verdadeiramente a saque por funcionários e agentes, com um histórico de fraudes e roubo tão vasto e diversificado que pede meças em criatividade e audácia com qualquer outro “caso” da actualidade. É perfeita a analogia com o desfecho do caso BPN: No fim pagámos todos.
Após um longo e complexo processo de liquidação dos T.M.E, o navio é devolvido à iniciativa privada em 1926, ano em que é adquirido pela Companhia Colónial de Navegação (C.C.N.). Recebe então o terceiro e último baptismo, “Cassequel”, também em homenagem a uma cidade do Império colónial, em Angola, desta feita. Fez carreira na Europa, arquipélagos Atlânticos e na África Ocidental Portuguesa, navegando sem sobressaltos até 1933.
Foi em Agosto deste ano que o navio enfrentou um grave incêndio, deflagrado nos fardos de palha destinados à alimentação dos animais que transportava. Navegando de proa ao vento e com a intrépida intervenção da tripulação, o fogo foi controlado. O navio chegou a bom porto pelos seus próprios meios, mas o incêndio foi de tal forma violento que danificou seriamente a superestrutura e destruiu completamente o mastro grande, a meia-nau. Após a reparação, o “Cassequel” viu a sua superestrutura melhorada, pelo que ficou também habilitado ao transporte de passageiros. Foram também adicionadas duas gruas em substituição do mastro perdido. Superado o desafio, melhorado após as reparações, o navio retomou a sua actividade.
A normalidade foi interrompida com o início da segunda guerra mundial. Tendo sobrevivido à primeira guerra, o navio enfrentou a segunda sob protecção da neutralidade Portuguesa. O velho “Cassequel” partiria uma última vez de Lisboa no início da tarde de 13 de Dezembro de 1941. Rumou a sul, em direcção à África Ocidental, com 9 passageiros, 48 tripulantes e uma considerável carga de gasolina a bordo. Comandava Sebastião Augusto da Silva, meu bisavô, pai do pai de meu pai, senhor meu avô. Decorridas mais de 24 horas de viagem, o navio é atacado durante a noite de 14 de Dezembro de 1941, numa posição a mais de duzentas milhas a sudoeste do cabo de São Vicente. O agressor, o submarino Alemão U-108, lançou um torpedo que às ordens do Capitão Kalus Scholz foi apontado à popa do velho vapor, destruindo o leme e a hélice, imobilizando o navio. De pronto foi dada a ordem para abandonar o navio. Arriadas as quatro baleeiras, e apesar de uma delas se ter inicialmente virado, breves minutos bastaram para que todos os tripulantes e passageiros embarcassem nos salva-vidas. Imerso e a coberto da noite, o U-108 nunca foi avistado por nenhum dos náufragos. Através do periscópio, terá o seu Capitão confirmado que todas as baleeiras se afastavam, momento em que ordenou o lançamento do segundo torpedo, desta feita apontando a meia-nau, directo à carga de gasolina a bordo. A enorme explosão partiu o velho vapor a meio, precipitando um afundamento quase instantâneo. Seis dias mais tarde, a 20 de Dezembro de 1941, o navio da Armada Portuguesa, “NRP Douro“, resgata a última das quatro baleeiras. A bordo estavam dez tripulantes, dois passageiros e o meu bisavô, que recebeu com agrado a notícia que todos náufragos estavam a salvo, sem vítimas a registar.
O “Cassequel” cumpriu assim a premonição do seu primeiro baptismo, “Numantia”. O seu arresto em 1916 traiu a neutralidade que o atraíra a território Português, traição devolvida em 1941, com o seu torpedeamento apesar da neutral credencial Lusitana. Qualquer semelhança com a actualidade nacional, é pura obra do destino traçado para a Nação que se fez Estado quando um filho fez guerra à sua mãe. Ouro do Brasil, frotas de modernos navios, fundos estruturais ou moeda única, sabemos que para cada oportunidade estará reservada a respectiva tragédia. É fado, sem saudade ou memória. Por vezes agraciada com as riquezas do mundo, a nau Portugal é com a mesma frequência vítima de si própria. A tripulação não aprende. Ao Leme esteve sempre quem mandou, raras vezes quem sabia mandar.
É sabido que “Quem o alheio veste, na rua o despe”. Porque que o esquecemos tão facilmente?
Os cães, os gatos e os lares no Euro 2012 e na Crise
Desde finais de 2011 que várias ONGs relacionadas com a defesa dos direitos dos animais vêm alertando para o massacre de cães e gatos em território Ucraniano. Isso circulou sobretudo em blogs e nas redes sociais não tendo grande cobertura por parte dos media. Agora, uma vez consumado, vários media decidiram então abordar o assunto em tons de polémica.
O primeiro abafo foi o simples afastar do tempo de antena, este segundo abafo já é um abafo orgãnico. Falou-se disso intervalado com o frenesim à volta dos jogos do Euro. E como facto consumado. Não há nada a fazer a não ser condenar o que já está feito. Até dá a sensação de ter sido um mal necessário para se fazer a festa.
O governo Ucraniano optou por uma resolução rápida e ‘eficaz’ que passou por incentivar grupos de população a caçar e exterminar os animais (por exemplo os caçadores tiveram autorização para os abater a tiro). Tanto a população como os agentes desportivos envolvidos no evento do Euro 2012 pareceram viver bem com a solução, desde que tudo estivesse pronto para a festa em 2012. Nem jogadores, nem seleções, nem países se insurgiram veementemente contra estes métodos bárbaros de resolução de uma crise.
No seu conjunto Polónia e Ucrânia têm uma população de mais de 80 milhões de pessoas, sendo que esta última tem mais de 45 milhões de habitantes. Sendo conservadores podemos dividir este número por quatro e obtemos mais de 10 milhões de lares. Uma campanha alicerçada em vedetas internacionais a promover a adopção e esterilização de animais poderia ter salvo dezenas de milhares de vidas e sido muito mais positiva.
Estranhamente pode traçar-se uma analogia com o que se passou com a crise económica internacional.
Os primeiros sinais, de há anos atrás, foram afastados do tempo de antena. Sobraram uns loucos em blogs e redes sociais. Depois de consumada a desgraça deu-se então destaque a todos os erros do passado que levaram à calamidade actual. Tudo como consumado. Não há nada a fazer, para além de condenar. E agora para chegar à salvação há a política do sangramento. O crédito desenfreado é como a Ucrânia. Os endividados são como os cães e gatos que esta deixou crescer sem controlo durante anos e anos.

Agora há que injetar dinheiro em pontos nevralgicos e poupar dinheiro através de cortes violentos ASAP. Temos bancos, temos estados e temos pessoas. Estes dois primeiros fizeram parte do motor e da carruagem que nos trouxe até este fim de linha. As últimas eram simples passageiros que compraram bilhete com confiança e deslumbramento fabricados pelos media e marketeers que enfabulavam a segurança e maravilhas da viagem.
Resgatar bancos e estados é o que está a acontecer. Com todas as repercussões conhecidas para as pessoas. Aumento de desemprego, pobreza, menor apoio social, suicidios. Os milhões entram e tapam os buracos de bancos e estados. Mas ninguém tapa os buracos das famílias. Que foram também escavados em tríade.
Uma estranha solução alternativa? Que tal injetar o dinheiro diretamente nas famílias? O dinheiro entraria pelas famílias saldando indiretamente a dívida aos bancos. Os bancos receberiam os mesmos milhares de milhões de euros mas a famílias teriam as suas dívidas saldadas. Seria um completo reset ao sistema financeiro. O fim dos actuais créditos em vigência. Ninguém perderia casas mesmo perdendo o emprego e apoio social. E aqueles que mantivessem o emprego teriam dinheiro extra suficiente para dinamizar o consumo. E com isso dinamizar o emprego. Esta seria uma terapia de choque mas aplicada diretamente nas fábricas de ninhadas. Os cães e gatos esses teriam todos o lar assegurado.
Mas esta é apenas a ideia de mais um louco num blog mentecapto.
Seguindo a lógica actual de resolução de problemas diria que uma solução certa para a fome contínua em alguns países africanos seria simplesmente exterminar essas populações. Sairia barato e seria relativamente rápido. Mas há focos de esperança. Há políticos que estão preocupados com o que se passa em África. Que apenas não injetaram no passado milhões suficientes, a fundo perdido, na ajuda em África porque têm um dedo mindinho que adivinhava que em breve seriam necessárias centenas de milhares de milhões de euros a juros simpáticos para salvar bancos e estados europeus de uma teia especulativa por eles tolerada. Mas os juros suportam-se bem porque em união todos os liquidaremos através do pagamento suado dos nossos justos impostos.
E uma solução certa para diminuir a diferença entre realidades de 1º e 3º Mundo é seguramente fazer crescer a fatia de países a viver em 2º Mundo. Imagino que este exista apesar de nunca ter visto uma citação sobre si. E quando não falam sobre ele nos media normalmente é porque é muito mau ou muito bom. Sou optimista. Creio que é bom. Vamos?
Ser Europeu porque quero e não porque preciso
Um-dó-li-tá, a Grécia fica, a Grécia sai, Portugal logo se vê e quem fica ficará!
Por agora ninguém sabe muito bem e são tão corriqueiras as notícias contraditórias que ninguém quer saber. Que será, será. O projeto europeu era tão sólido que nem se lembraram de criar um guião para o abandono, ou mais concretamente para a expulsão, de um estado membro. O que acontece se um país sair da União Europeia? Nesse país, na União e nas relações entre ambos?
Aparentemente está tudo borrado. Um dos principais medos é a transição de moeda que provocará um impacto no país ‘desertor’ que ninguém consegue medir. O problema põe-se sobretudo a nível das exportações e importações. Se a moeda nacional fôr muito fraca em relação ao Euro o país não conseguirá manter o seu nível de importações actual. Se fôr muito forte os ainda estados membros não poderão manter o nível de importações de produtos fornecidos por ele. A curto-prazo será impossível dar resposta às necessárias transformações no export/import, a não ser que seja um cenário já previamente trabalhado em background. Para além da total reformulação da balança de importações e exportações haveria ainda a questão da gestão da dívida que não desapareceria como que por magia. Seria até mais complicado pois deixaria de haver tanto poder de influência política e de regime.
Este problema coloca-se sobretudo porque a União Europeia está alicerçada numa rede de interdependências em que vários países ‘destruiram’, a troco de subsídios, grande parte dos seus meios de produção em sectores de actividade específicos. Houve uma especialização e/ou quotização da produção nos vários estados membro para tentar criar uma economia fluída em que a necessidade e procura entre membros se complementasse. Mais do que as condições naturais locais era importante o cenário global para desenhar uma sustentabilidade mesmo que com medidas artificiais como subsídios de desincentivo à produção.
Agora, à beira da desagregação, há países em grande embrulhada porque a perspectiva de saída da União Europeia coloca-os numa posição de dependência externa de sectores basilares como a indústria e a produção alimentar. Se a torneira dos subsídios fechar perderam-se décadas de actividade. Máquinas, terras e população activa estão enferrujadas em muitos sectores precisando de anos para voltar a embalar. Num cenário de saída de um país ‘enfraquecido’ da União Europeia rapidamente as prateleiras dos supermercados ficariam vazias e com o motor da fome veríamos espectáculos como o da promoção dos 50% do Pingo Doce a acontecer nas despensas mais próxima.
Não me sinto confortável na coação para ser Europeu apenas porque o sistema está montado de forma a que se não o fôr terei de ser apenas um miserável e faminto Português. Cada país, cada região, cada localidade, deveria ter ao menos a capacidade de produção de alimentos que os tornassem relativamente independentes ao nível alimentar. Desta forma a política seria mais ideológica do que propriamente de subsistência como está a ocorrer hoje. E produzir é empregar.
Todas as projeções de futuro apontam para o continuar do aumento dos preços dos alimentos o que representa um esforço cada vez maior para garantir os níveis de importação actuais. Se há coisa com que não se deve brincar é com comida. E aparentemente há algo a assustar o governo ao ponto de querer apressadamente recuperar as profissões pertencentes aos sectores primários da economia e o amanhar das terras.
Será a temível porta aberta com uma luz ao fundo do túnel que diz EXIT?
Guardar o cachecol, pegar na bandeira!
Numa altura em que os nossos líderes deveriam estar centrados no todo e não nas partes, continuam as guerrilhas de cachecóis, alimentando diariamente as disputas de forças políticas e de interesses, assemelhando-se a um eterno confronto clubístico.
O verdadeiro interesse Nacional parece que á muito deixou de fazer parte das cartilhas governativas, propiciando slogans publicitários, certamente pouco abonatórios mas, verdadeiros.
Ávidos nos cortes dos rendimentos de muitos, mas lentos no encolhimento na despesa, condicionados maioritariamente por “lobbies” instalados e necessidades partidárias a que todos querem ter acesso para saberem se estão no lado certo, permitindo um compasso de espera para o qual não existem condições.
Aparentemente movidos por uma panóplia de interesses, procurando a manutenção de poderes cada vez mais fragilizados, arremessando constantemente acusações desmedidas, perdendo tempo precioso com coisas fúteis, que apenas servem para atrasar decisões que deveriam ser urgentes.
Instâncias superiores suspensas, á espera de nomes ilustres que lhes deem confiança de obediência, para garantir uma Constituição á muito torpedeada, informações privilegiadas trocadas por cadeiras, ou cadeiras simplesmente trocadas, para dar assento a quem possui informações eventualmente comprometedoras ou estratégicas.
Comissões de inquérito que se querem sobrepor aos tribunais, tendo honras de aberturas de telejornais, para que depois fique mais ou menos provado isto e aquilo, sem seguimento prático, mas com muito tempo de antena garantido.
Documentos que ficam esquecidos, fragilizando e fomentando atritos desnecessários mas sempre oportunos á inquietação da salutar convivência, alvitrando comentários e pressões.
Inércia que deixa cair processos, mantendo para todo o sempre, a suspeita de corrupção sobre cidadãos que podem até não ser culpados, contrastando com a celeridade na condenação de situações de ocupações ilegais.
Uma panóplia de acontecimentos tornados mediáticos, alguns com a única finalidade de desviar as atenções do realmente importante.
Consequência certa de uma liderança fragmentada, estamos como que “pendurados”, quando deveríamos andar na alta velocidade para o crescimento e reposição de fundos alienados desmesuradamente por anteriores mandatários, que nunca serão verdadeiramente responsabilizados.
Tempos que fazem vir á memória o último líder que passou por estas ocidentais praias Lusitanas, que mesmo não sendo filho do reino, conseguiu com membros de vários quadrantes enfeitar Portugal com bandeiras e fazer esquecer temporariamente os bairrismos clubísticos em prol de uma única figura, a Nação.
Parece não se ter percebido ainda, que o que é preciso é hastear a Bandeira, com a ajuda de todos sem excepção, agarrar a corda para que ela alcance uma altitude tal que ninguém lhe possa tocar, provocando um olhar altivo, inabalável.
A época é de ventos cruzados vindos de outras paragens, águas turvas e revoltas mas se até o cabo das tormentas conseguimos transpor, porque não se consegue agora, mesmo que evocando novamente os audazes, colocar a mão firme no leme e remar todos juntos, mesmo contra a força das marés.
É tempo para cada uma das partes guarde na gaveta o cachecol para épocas futuras, quando houver condições para jogar novamente na primeira liga, até lá devemos fazer o que já vimos e soubemos alcançar como ninguém, noutras competições…
Olhar num só sentido!
Como sermos superiores na educação superior?
De há uns bons anos para cá o ingresso num estabelecimento público de ensino superior obriga ao pagamento de uma propina de valor variável. Em 2011 variou entre 630 € e 999 €. Não há isenções. Com um pouco de sorte podem ser atribuídas bolsas de estudo que no passado ajudavam ao pagamento de despesas de alimentação, alojamento e material de estudo mas que agora servem para ajudar no pagamento da propina.
Não é preciso pensar muito no assunto, apesar das recentes notícias de aumento de abandonos tanto em privadas como em públicas ajudarem a fazê-lo, para perceber que o acesso à educação superior está a tornar-se progressivamente inacessível em função de classe social e capacidade financeira em detrimento do mérito. O combate ao fator cunha, ao favorecimento, à displicência não se fará certamente com este tipo de limitação na raiz da preparação dos cidadãos que vão exercer vida ativa nos cargos mais ‘altos’ da vida ativa no mercado de trabalho nacional.
Com o sistema atual famílias sem posses são forçadas a decidir se trabalham para educar o(s) filho(s), gastando a totalidade ou parte considerável dos seus subsídios de férias e de Natal caso ainda subsistam, se contraiem crédito para suportar a educação ou se simplesmente assumem a sua incapacidade em comportar as despesas. Num país em que a educação é tendencialmente gratuita esperaria-se pelo menos que o valor mínimo de propina fosse um simbólico zero.
As despesas são enormes mas o impacto na sociedade do que se passa a este nível são também críticas. No cenário atual o músculo financeiro esmaga os pobres cérebros. Não existem oportunidades iguais. Escava-se ainda mais o fosso social entre classes. Será que não seria mais benéfico para o país perder algum dinheiro e formar melhores profissionais do que manter um equilibrio orçamental precário à custa de desperdício de potencial de recursos humanos?
Algumas ideias de como trazer mais justiça e também financiamento ao sistema de ensino superior público :
- Pagamento de propinas apenas exigido caso aluno não atinja níveis de desempenho aceitáveis. Ou seja só existe desperdício no investimento em educação nos casos em que os alunos não correspondem. Se o aluno tiver bons níveis de desempenho beneficia da regalia de isenção de propina. Forçaria desta forma um empenho contínuo dos alunos e um sentimento de recompensa por boa prestação. Em caso de chumbo um aluno só poderia inscrever-se no ano seguinte se pagasse a propina relativa ao ano findado/falhado. Na ocorrência de abandonos pelo menos teria sido dada uma oportunidade e feita uma prova de capacidade e mérito.
- Cobrança de taxa de propina nos salários dos recém-licenciados durante os X anos seguintes à licenciatura sempre que exerça funções / cargos a que só teve acesso graças à formação que recebeu. Voluntária ou forçada. O importante é deferir o pagamento que ocorre apenas nos casos de sucesso tanto do aluno como da adequação da licenciatura ao mercado de trabalho.
- Cobrança de taxas de recrutamento aos empregadores. Direta na contratação de recém-licenciados, com valor variável em função do valor demonstrado pelo aluno, ou indireta permitindo acesso privilegiado a CVs / Classificações dos alunos mediante ‘patrocínios’ às Universidades. A Universidade venderia o sucesso da sua formação aqueles que mais dele vão beneficiar no imediato.
- Patrocínio de Campus Universitário. Tal como vemos bancadas PT, Coca-cola, etc, poderíamos ver edifícios com nomes de marcas em vez de as vermos sobretudo associadas às festas universitárias.
- Trabalhos final curso incidirem sobre necessidades locais. Durante a sua formação os alunos iriam contribuir para a melhoria efetiva de aspectos da vida e sociedade do país. Há muitos projetos autárquicos e locais que não avançam por falta de verba e poderiam ser os alunos em final de curso os seus executantes desde que as necessidades fossem na sua área de formação. Não seria feito pagamento à Universidade mas existiria um retorno imediato da formação gratuita paga pelo estado.
- Venda de Serviços de Outsourcing. Já ocorre hoje sobretudo na área de investigação. Não me agrada muito a ideia pois acaba por roubar mercado a PMEs que o poderiam fazer dinamizando o emprego real.
Os maiores activos de uma Universidade são os seus alunos que infelizmente se estão a transformar num misto de clientes de um serviço e de fontes de rendimentos, garantias da sobrevivência da instituição de ensino. A Universidade deveria sobretudo trabalhar para formar recursos humanos de excelência que tragam valor às empresas e ao país. Privilegiando o mérito, esforço e capacidade no ingresso e leccionamento independentemente de classes sociais e capacidades financeiras.
Ao mesmo tempo todo o dinheiro que não seja gasto em propinas entraria na economia através de outras formas de consumo que incluem as despesas de alojamento, alimentação, transporte e materiais de estudo. E haveriam menos argumentos impeditivos de mobilidade na escolha da Universidade.
Ficaria mais esperançoso num futuro alicerçado na igualdade de oportunidades e na valorização do mérito mesmo que isso representasse despesa adicional no presente.
25 de Abril nas Cabeças dos Portugueses
O 25 de Abril pôs fim a uma ditadura opressora. Antes do 25 de Abril passava-se fome e imperava a lei da rolha. O 25 de Abril pôs fim à guerra colonial. O 25 de Abril foi o parto da democracia em Portugal. A democracia é um regime de governo em que o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos (povo), direta ou indiretamente, por meio de representantes eleitos.
Vamos a caminho das 4 décadas de democracia em Portugal. Nesses 38 anos surgiram dezenas de partidos. E a cadeira do poder foi tomada sobretudo por dois partidos políticos. PS e PSD. Por vezes com uma muleta de um outro partido sendo a mais frequente a muleta CDS/PP. Em 38 anos de democracia temos sensivelmente 18 anos geridos por PS e 18 anos geridos por PSD. UAU! TKO!
Portugal teve a sorte de entrar na União Europeia. De receber milhares de milhões de euros de apoios ao desenvolvimento. Que foi realmente muito apoiado. Só que o dinheiro foi também desbaratado a uma escala magnânima. Milhares de milhões de desperdícios em desvios mais ou menos claros. Só que vivia-se bem! Corrijo! Vivia-se MUITA BEM! E o povo comia, bubia, ria e cantava. Dava para todos. Para mostrar trabalho e para roubar. Que se lixe.
Em Oeiras e na Madeira, alvos de maior turbulência mediática e escarafunchar de cambalachos, vive-se assim descaradamente há décadas sem que o povo se indigne. São os focos de atenção perfeitos. Não só servem de manobra de diversão como não provocam danos reais aos visados que se mantêm em funções alegremente e com júbilo dos seus eleitores.
Só que agora a torneira fechou, a fachada ruiu, os media são megafones de lobbies políticos e económicos, o sector energético é privado, as águas de Portugal hão-de ser, as estradas edificadas não são baratas de usufruir, a educação pública não tem condições para todos, a saúde tornou-se um simples centro de custos, o emprego precário é uma benção dos deuses e temos velhos e desempregados a mais que corroem a sustentabilidade da segurança social. Décadas de crescimento contínuo do nível de vida desabam em apenas um ou dois anos. Volta-se a ter fome. Pode-se conversar em ajuntamentos públicos mas não há alegria nas conversas. Volta-se a não ter esperança. Instiga-se os que estão mal a emigrarem. Culpa-se a classe política.
A nossa democracia está uma merda. Mas a culpa não é dos partidos. Esses são apenas os testas de ferro, representantes dos cidadãos que os elegem. Nunca faltaram vias alternativas. Só que as coisas estavam bem apesar de sabermos que roubavam. Estamos comodistas e temerários de seguir por ângulos que não os da Direita, Centro ou Esquerda. Já lá vai o tempo em que armazenávamos provisões nos porões, soltávamos as velas e olhando para terra, num primeiro fôlego de saudade, nos deixávamos levar pelos ventos sem saber onde iríamos parar e o que iríamos descobrir. E a ousadia de enfrentarmos exércitos vizinhos mais numerosos nem que à força de pazadas de padeiro? Seremos capazes de reconhecer e reagir a exércitos inimigos internos que precisem de igual tratamento? Ou estaremos já formatados por décadas de facilitismo e boa-ventura?
Agora temos medo e vergonha. Vergonha de ousar votar em desconhecidos sem um CV bem elaborado e sem o amparo de avalanches de referência em canais de media. Temos preguiça de procurar informação noutros canais que não a TV, rádio e jornais que montam as suas hábeis campanhas de condicionamento de pensamentos e opiniões. Assustam-nos discursos disruptores e fraturantes que apressadamente catalogamos como utópicos para nos serenar a consciência e justificar a não adesão e não lutar por aqueles ideiais.
Somos COBARDES por não ir votar ou votar em branco. Ambos são levar ao colo os moços do costume.
A próxima revolução não tem de ser na rua nem no parlamento.
Tem de ser na nossa cabeça tacanha.
Se não nos identificamos com nenhum dos partidos só temos duas opções. Ou infiltrarmo-nos na política e tentar fazer passar a nossa visão ou escolher aqueles com que mais nos identifiquemos mesmo que isso não aconteçaa a 100%. A democracia veio pôr fim à ditadura mas é curioso que não exista governo que se assuma capaz de governar em condições sem ter maioria absoluta. Se não a teve por algo foi. E tê-la alavancada em 40% de taxa de abstenção é uma mentira só possível por quem contibui para essa percentagem.
Democracia é participação.
Não usufruir dela é demonstrar-se confortável com uma qualquer ditadura que não passa apenas por uma forma de regime político como se verifica nos dias de hoje.
25 de Abril todos os dias! Até às próximas eleições…
O que se extingue com a Freguesia?
As freguesias estão na mira de longo alcance. Hoje são mais de 4 000 delas e a reformulação do governo aponta para o desaparecimento de 1 000 a 1 500.
A freguesia onde cresci, Póvoa de Santo Adrião, bem como a onde moro (que não revelo para não receber ameaças como os árbitros do futebol português), estão prestes a ser extintas.
Ontem foi a manifestação de muita gente contra esta revolução da divisão administrativa.
Sempre pensei que o problema fosse uma questão de ‘status’, de perca de um título, downgrade de freguesia para simples vila, aldeia, localidade ou algo assim. Com a humilhação acrescida de passarmos a ser administrados por uma freguesia adjacente com quem normalmente temos grandes rivalidades desde tenra idade. Afinal a linha de separação de duas freguesias é como uma zona de guerra, sobretudo verbal, que muito contribuiu para o desenvolvimento do vernáculo nacional.
Em Janeiro, altura em que recebi um panfleto a alertar-me para a extinção da freguesia onde resido, fui abordado por três velhotas vizinhas a explicar-me como ia ser terrível porque há ali dezenas de idosos que mal conseguem caminhar até à atual junta receber pensões, pagar água, luz, etc, (a junta faz também de estação de CTT por já ter sido extinta a filial local), quanto mais passar a ir ao local da nova junta que ficaria noutra freguesia a não sei quantos km. Nem têm força nas canetas, nem têm cheta nas carteiras. E que há problemas sociais e tradições que só os locais conhecem e compreendem, e como é com os muitos trabalhadores locais da junta? Vão ser absorvidos? Vão ser despedidos? Ai Meu Deus! Curiosamente hoje, dois meses depois, duas delas já faleceram…
A principal argumentação do governo é a optimização de custos diretos relacionados com as custas com membros das assembleias . Sim, acredito que parte deles sejam apenas uma cambada de chupistas. Uma assembleia de uma junta de freguesia pode ter de 7 a 20 e tal membros dependendo do número de eleitores. As opções de horário para exercício dos cargos são várias bem como os vencimentos aplicáveis. Ou seja há mais do que espaço de manobra para atribuição de tachos em cargos simbólicos.
Mas apesar de tudo são as juntas de freguesia que estão presentes e se preocupam com a dinamização e planeamento do desenvolvimento local. Antes da extinção talvez se devesse reformular a composição e regras aplicáveis aos membros das assembleias das juntas de freguesia para reduzir as suas custas e/ou aumentar a sua produtividade? Fará sentido que os ‘gestores’ de uma freguesia o possam fazer em part-time acumulando cargos públicos e privados e rendimentos daí advindos? Não merecerão os eleitores alguém dedicado a 100% mesmo que sejam menos e melhor pagos os membros das assembleias? Talvez se devesse antes apostar na diplomacia e formação local, com os interlocutores atuais, e fomentar a parceria com as freguesias adjacentes na prestação de serviços comuns?
Extinguir freguesias não fará desaparecer a área territorial a gerir e na verdade não pode simplesmente deixar de existir um determinado número de colaboradores e de gastos operacionais. Além de que as fusões devem ter critérios muito específicos pois nas novas juntas de freguesias terão de existir representantes de cada uma das antigas freguesias para garantir que os seus interesses não serão atropelados pelos da nova ‘casa mãe’.
E quais são os critérios? Estritamente quantitativos ou qualitativos? Uma grande freguesia mal gerida vai absorver pequenas freguesias bem geridas passando os maus presidentes a gerir mais território? Ou será premiada a gestão sendo promovido o melhor presidente de junta das freguesias a agrupar? Quem avalia e decide o desempenho da gestão de cada freguesia?
A fusão não vai ser apenas redução cega de custos. Vai ter custos escondidos como:
- Crispação social pela desconfiança gerada pela deslocalização e afastamento do poder administrativo local;
- Integração e organização do conhecimento e dos registos documentais das freguesias absorvidas;
- Remodelação da comunicação feita pelas juntas de freguesia (sites, brochuras, panfletos, cartazes, papel, carimbos, etc);
- Lidar com a informação online, que se torna errada, sobre freguesias de Portugal. Desde blogs, wikipedia, artigos e diretorios, sobre divisão administrativa, etc, há milhares de artigos online que continuarão a existir com informação totalmente desadequada à nova realidade.
- Ajustamento nos sistemas informáticos nacionais para reflexo da nova divisão administrativa. Numa altura em que tanto se exige mais produtividade vão forçar empresas e organismos públicos e particulares a ter de criar um processo de migração de toda a informação que inclua a indicação de freguesia bem como adaptar os seus sistemas a trabalhar com a nova realidade. Os custos globais desta operação serão certamente na ordem dos milhões de euros e milhares de horas de trabalho não previsto e sem retorno financeiro pois não está a gerar negócio. Fará sentido este desperdício neste difícil período?
Mesmo assim vejo pelo menos três coisas positivas deste frenesim à volta da reformulação da divisão administrativa:
- Aumentou o interesse público em perceber quais os gastos administrativos nas juntas de freguesia. O governo propõe a extinção em massa de freguesias mas não liberta dados relativos a despesas concretas que podem ser reduzidas. São os custos com membros das assembleias? São os custos com pessoal? São os custos de sub-contratação de serviços? Afinal quais os desperdícios das freguesias que esta solução vai eliminar?
- Aumentou a curiosidade sobre a história e estado atual das nossas freguesias do coração.
- Se o governo não vê problemas em extinguir freguesias com séculos de existência está aberta a brecha para não apoiar financeiramente nem justificar a defesa de tradições com a o argumento da sua secularidade, como acontece por exemplo com as famigeradas Touradas.
A mudança não poderá ser apenas administrativa, terá de existir alteração de legislação, e por agora o assunto está numa embrulhada nebulosa tão grande que é apenas uma excelente manobra de diversão.
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Os Portugueses têm memória curta e têm algum preguiça em esforçar-se para defender o que é seu. É sabido e provado pela história da nossa democracia, pela dança de cadeiras ocupadas por muitas caras envolvidas em negociatas de cariz duvidoso, que metem em causa a sua honestidade e carácter em passado não tão longíquo.
Uma das melhores maneiras de proteger a nossa economia é com os nossos hábitos de consumo. A defesa da produção, emprego e sistema fiscal nacionais pode e deve ser cultivada pelos mundanos hábitos de consumo. Há povos que o fazem por cultura e hábitos passados de geração em geração. Consomem produtos dos seus países, mesmo que mais caros que os idênticos de marcas de outros países. O povo alemão é um deles por exemplo.
Mas hoje olhamos para as prateleiras e já não reconhecemos todas marcas e nem sequer temos ideia do real contributo que aquelas que conhecemos dão à nossa economia. Com tantos artifícios de boa gestão focada na fuga aos impostos e redução de custos para aumentos dos lucros, haverá marcas muito consumidas que pouco ou nada contribuem para a nossa economia para além do IVA.
Já somos desinteressados por natureza mas quando não temos qualquer apoio à decisão refugiamo-nos simplesmente no mais barato ou no que mais gostamos ignorando tudo o resto. É por isso que sugiro aqui um sistema de etiquetagem ou rotulagem de marcas, serviços e/ou produtos que indique explicitamente:
- Designed By: em que país foi desenhado;
- Made In: em que pais foi produzido;
- Supplied By: %s de matérias primas utilizadas para a sua produção por área geográfica com indicação pelo menos relativa ao país onde está a ser feita a venda;
- Workforce: em que indica quantos trabalhadores emprega por área geográfica com indicação pelo menos relativa ao país onde está a ser feita a venda;
- Taxed In: que indica as %s de taxação sobre os lucros por área geográfica com indicação pelo menos relativa ao país onde está a ser feita a venda;
Com estes dados bastaria olhar para o rótulo ou etiqueta e perceber claramente se esta marca, serviço ou produto está ou não a contribuir, e em que medida, para o emprego, para a produção, para os impostos e consequentemente para a economia nacional. A existir seria certamente um fator decisor na escolha dos consumidores e estaria tão à mão que só não usaria a informação quem não tenha pinga de estima pelo seu país.
Politicamente não é europeísta defender um favorecimento à produção nacional mas a melhoria desta situação não precisa de acção política. Precisa de Marketeers que entendam que esta informação pode ser um bónus para aumentar as suas vendas e penalizar concorrentes que não sejam tão ‘nacionalistas’ nas várias componentes da sua gestão. Claro que para muitas marcas esta transparência pode ser nociva mas se alguém o começar a fazer a opacidade, com a falta de informação, fará mais dano do que a revelação de dados menos ‘simpáticos’ nesta matéria.
Nós os consumidores queremos ajudar a levantar Portugal mas não nos obriguem a trabalhos ciclópicos de investigação para destrinçar quais as marcas supostamente Portuguesas que mais não são do que correios de Euros para sistemas fiscais offshore.
Faróis sobre o que é verdadeiramente “nacional é bom” precisam-se!
Bacalhaus e Submarinos

Nascido “Elite”, ao bacalhau dedicado, dos Lusos foi o primeiro no arrasto. Decorria o ano de 1909. A Europa vivia dias de “Paz Armada”, um eufemismo para a corrida às armas. Não entrámos. Fomos à pesca por arrasto.
Em 1914, morto o arquiduque Francisco Ferdinando, precipitou-se a Guerra, das grandes a primeira. Entramos desta feita. Como nunca fomos piegas, não lamentámos a falta de preparação para a beligerância: do arrastão de pesca, fizemos um navio de patrulha oceânica. Para tal bastou à Armada requisitar a sofisticada embarcação ao seu dono, a Parceria Geral de Pescarias Lda. Engenho quanto baste, está feito: Canhão à proa, outro à popa. Óptimo. Não mexe.
Rebaptizado “NRP Augusto de Castilho”, assumiu funções como escoltador oceânico. Até ao derradeiro ano das hostilidades, 1918, o arrastão convertido em navio de guerra deu uso às suas armas. Atacou submarinos alemães, tendo registado importantes vitórias, obrigando por duas vezes o inimigo a submergir e partir em retirada.
Tal bravura não passou despercebida ao Almirantado da Kaiserliche Marine. O insolente navio Lusitano seria punido. A “missão” foi confiada a Lothar von Arnauld de la Perière, o às dos ases. Com ascendência Francesa, natural da (hoje) Polónia, Lothar era contudo bisneto de um General Prussiano, tendo dele herdado o inflexível código de conduta. Ao melhor comandante de submarinos de todos os tempos, foi confiado o comando do “U-139“. Simplesmente o maior e melhor submarido construido à data.
O inevitável embate ocorre a 14 de Outubro de 1918 (um mês antes do armistício de Novembro do mesmo ano). Em defesa do Vapor “N/T S. Miguel“, sob o comando do primeiro-tenente José Botelho de Carvalho Araújo, o “NRP Augusto de Castilho” atacou o “U-139“, acto com o qual garantiu a oportunidade de fuga do navio mercante. Contudo fatal. O combate vitimou o comandante e cinco elementos da guarnição. O caos resultante ditou a rendição e consequente ordem para abandonar o navio. Antes de ser desferido o golpe final, entrou em acção o código de conduta dos homens do mar. Aos sobreviventes, foi permitido regressar a bordo e resgatar botes salva-vidas nos quais chegaram à ilha que deu nome ao navio mercante por eles salvo, São Miguel. Esta benevolente iniciativa do comandante Lothar la Perière, foi certamente inspirada pela tradição militar prussiana. A ele, a minha sincera homenagem, pois ao seu gesto devo a minha modesta existência: Entre os sobreviventes que chegaram aos Açores a 19 de Outubro de 1918, estava o 2º Sargento Enfermeiro Acácio Alves de Moura, meu bisavô (ainda solteiro), avô materno de quem meus filhos são netos, senhor meu pai.

Observada a história, explicada a ligação pessoal, constato a analogia deste passado com o futuro da minha prole. Não é que um século depois continuarão à mercê do carácter Germânico? E se no lugar de um integro e vertical Prussiano nos calha um “Schettino” que por lá tenham por engano?
Incontornável é também o eterno desacerto Lusitano: Em 1909 necessitávamos de Navios de Guerra, mas compramos Navios de Pesca, os quais por necessidade convertemos em alvos para submarinos Alemães. Paradoxalmente, necessitamos hoje de Navios de Pesca, mas comprámos submarinos Alemães. Teremos nós o engenho necessário para inovar a arma o suficiente para com ela pescar por arrasto?














