Bacalhaus e Submarinos

Nascido “Elite”, ao bacalhau dedicado, dos Lusos foi o primeiro no arrasto. Decorria o ano de 1909. A Europa vivia dias de “Paz Armada”, um eufemismo para a corrida às armas. Não entrámos. Fomos à pesca por arrasto.

Em 1914, morto o arquiduque Francisco Ferdinando, precipitou-se a Guerra, das grandes a primeira. Entramos desta feita. Como nunca fomos piegas, não lamentámos a falta de preparação para a beligerância: do arrastão de pesca, fizemos um navio de patrulha oceânica. Para tal bastou à Armada requisitar a sofisticada embarcação ao seu dono, a Parceria Geral de Pescarias Lda. Engenho quanto baste, está feito: Canhão à proa, outro à popa. Óptimo. Não mexe.

Rebaptizado “NRP Augusto de Castilho”, assumiu funções como escoltador oceânico. Até ao derradeiro ano das hostilidades, 1918, o arrastão convertido em navio de guerra deu uso às suas armas. Atacou submarinos alemães, tendo registado importantes vitórias, obrigando por duas vezes o inimigo a submergir e partir em retirada.

Tal bravura não passou despercebida ao Almirantado da Kaiserliche Marine. O insolente navio Lusitano seria punido. A missão foi confiada a Lothar von Arnauld de la Perière, o às dos ases. Com ascendência Francesa, natural da Polónia, Lothar era contudo bisneto de um General Prussiano, tendo dele herdado o inflexível código de conduta. Ao melhor comandante de submarinos de todos os tempos, foi confiado o comando do U-139. Simplesmente o maior e melhor submarido construido à data.

Navio de Transporte São MiguelO inevitável embate ocorre a 14 de Outubro de 1918 (um mês antes do armistício de Novembro do mesmo ano). Em defesa do Vapor “N/T S. Miguel“, sob o comando do primeiro-tenente José Botelho de Carvalho Araújo, o “NRP Augusto de Castilho” atacou o “U-139“, acto com o qual garantiu a oportunidade de fuga do navio mercante. Contudo fatal. O combate vitimou o comandante e cinco elementos da guarnição. O caos resultante ditou a rendição e consequente ordem para abandonar o navio. Antes de ser desferido o golpe final, entrou em acção o código de conduta dos homens do mar. Aos sobreviventes, foi permitido regressar a bordo e resgatar botes salva-vidas nos quais chegaram à ilha que deu nome ao navio mercante por eles salvo, São Miguel. Esta benevolente iniciativa do comandante Lothar la Perière, foi certamente inspirada pela tradição militar prussiana. A ele, a minha sincera homenagem, pois ao seu gesto devo a minha modesta existência: Entre os sobreviventes que chegaram aos Açores a 19 de Outubro de 1918, estava o 2º Sargento Enfermeiro Acácio Alves de Moura, meu bisavô (ainda solteiro), avô materno de quem meus filhos são netos, senhor meu pai.

Observada a história, explicada a ligação pessoal, constato a analogia deste passado com o futuro da minha prole. Não é que um século depois continuarão à mercê do carácter Germânico? E se no lugar de um integro e vertical Prussiano nos calha um “Schettino” que por lá tenham por engano?

Incontornável é também o eterno desacerto Lusitano: Em 1909 necessitávamos de Navios de Guerra, mas compramos Navios de Pesca, os quais por necessidade convertemos em alvos para submarinos Alemães. Paradoxalmente, necessitamos hoje de Navios de Pesca, mas comprámos submarinos Alemães. Teremos nós o engenho necessário para inovar a arma o suficiente para com ela pescar por arrasto?

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About Gonçalo Moura da Silva

... um homem ao Leme. "A minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores. Só me conheço como sinfonia. "

Posted on Fevereiro 28, 2012, in Geração "à rasca", Ideias para o País, Teorias da Conspiração and tagged , , . Bookmark the permalink. 9 comentários.

  1. Era pegar nos submarinos, convertê-los para tratores com um arado de discos reversíveis e num dia lavrar todas as terras de Portugal.

  2. r. moura da silva

    A estratégia actual é muito mais abrangente – vamos acabar com todos os estaleiros navais portugueses para passarmos a ter de comprar barcos de pesca E navios de guerra aos alemães para que eles possam desenvolver a economia e diminuir o desemprego deles !!!!

  3. Mas será “pecado” os Alemães defenderem o que é seu? Ou só o é porque nós não o sabemos/queremos fazer?

  4. r. moura da silva

    A estratégia referida é a prova de que nós (entenda-se os coelhinhos de passos trôpegos que mandam nisto) NÃO QUEREMOS defender o que é nosso. Já agora por que não declarar o alemão como lingua oficial em Portugal, acabando-se, assim, com a novela do aborto ortográfico?

  5. A história mostra como nada muda neste país. Sempre pobrezinhos, sempre a desenrascar.

    Mas vou ter de inserir algo mais aqui. A elite do país, que gosta de se anunciar como elite, senhores/as de sangue real e basta ver nas páginas da wikipédia que algumas dessas pessoas têm. A elite orgulhosa e rica de um país que sempre foi pobre. Sempre foi exportador de pessoas, que cá passavam fome. Sempre mal conduzido e sempre conduzido no sentido de manter essa elite.

    Apenas para manter a elite centenária. Por isso não importa que não haja estaleiros ou que não haja indústria. Agora existe o dinheiro de Angola para lavar.

    Não me faz confusão que sejam ricos, ou que tenham sangue azul. Faz-me confusão é o orgulho, Terem orgulho de serem há centenas de anos as cabeças deste país e isto continuar igual. Terem o mesmo sangue daqueles que fugiram para o Brasil quando Napoleão invadiu parece-me um grande motivo de orgulho.

    E será isso que irão fazer quando não houver mais para explorar aqui. Até lá está tudo à venda.

  6. Ana Lúcia Lopes Guerreiro

    Estimado Gonçalo Moura da Silva,

    O meu nome é Ana Guerreiro e sou bisneta do Comandante Carvalho Araújo. Gostaria de saber se tem disponibilidade para trocarmos alguns emails e, quem sabe, nos encontrarmos.

    É com muita satisfação que encontro um familiar de um sobrevivente do Augusto Castilho.

    Cordialmente,

    Ana Guerreiro
    allguerreiro@gmail.com

  1. Pingback: PPP Lusitânia « ao Leme

  2. Pingback: Navegar sem Embarcar – Associação Comandante Carvalho Araújo

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