Como sermos superiores na educação superior?

De há uns bons anos para cá o ingresso num estabelecimento público de ensino superior obriga ao pagamento de uma propina de valor variável. Em 2011 variou entre 630 € e 999 €. Não há isenções. Com um pouco de sorte podem ser atribuídas bolsas de estudo que no passado ajudavam ao pagamento de despesas de alimentação, alojamento e material de estudo mas que agora servem para ajudar no pagamento da propina.

Não é preciso pensar muito no assunto, apesar das recentes notícias  de aumento de abandonos tanto em privadas como em públicas ajudarem a fazê-lo, para perceber que o acesso à educação superior está a tornar-se progressivamente inacessível em função de classe social e capacidade financeira em detrimento do mérito. O combate ao fator cunha, ao favorecimento, à displicência não se fará certamente com este tipo de limitação na raiz da preparação dos cidadãos que vão exercer vida ativa nos cargos mais ‘altos’ da vida ativa no mercado de trabalho nacional.

Com o sistema atual famílias sem posses são forçadas a decidir se trabalham para educar o(s) filho(s), gastando a totalidade ou parte considerável dos seus subsídios de férias e de Natal caso ainda subsistam, se contraiem crédito para suportar a educação ou se simplesmente assumem a sua incapacidade em comportar as despesas. Num país em que a educação é tendencialmente gratuita esperaria-se pelo menos que o valor mínimo de propina fosse um simbólico zero.

As despesas são enormes mas o impacto na sociedade do que se passa a este nível são também críticas. No cenário atual o músculo financeiro esmaga os pobres cérebros. Não existem oportunidades iguais. Escava-se ainda mais o fosso social entre classes. Será que não seria mais benéfico para o país perder algum dinheiro e formar melhores profissionais do que manter um equilibrio orçamental precário à custa de desperdício de potencial de recursos humanos?

Algumas ideias de como trazer mais justiça e também financiamento ao sistema de ensino superior público :

  • Pagamento de propinas apenas exigido caso aluno não atinja níveis de desempenho aceitáveis. Ou seja só existe desperdício no investimento em educação nos casos em que os alunos não correspondem. Se o aluno tiver bons níveis de desempenho beneficia da regalia de isenção de propina. Forçaria desta forma um empenho contínuo dos alunos e um sentimento de recompensa por boa prestação. Em caso de chumbo um aluno só poderia inscrever-se no ano seguinte se pagasse a propina relativa ao ano findado/falhado. Na ocorrência de abandonos pelo menos teria sido dada uma oportunidade e feita uma prova de capacidade e mérito.
  • Cobrança de taxa de propina nos salários dos recém-licenciados durante os X anos seguintes à licenciatura sempre que exerça funções / cargos a que só teve acesso graças à formação que recebeu. Voluntária ou forçada. O importante é deferir o pagamento que ocorre apenas nos casos de sucesso tanto do aluno como da adequação da licenciatura ao mercado de trabalho.
  • Cobrança de taxas de recrutamento aos empregadores. Direta na contratação de recém-licenciados, com valor variável em função do valor demonstrado pelo aluno, ou indireta permitindo acesso privilegiado a CVs / Classificações dos alunos mediante ‘patrocínios’ às Universidades. A Universidade venderia o sucesso da sua formação aqueles que mais dele vão beneficiar no imediato.
  • Patrocínio de Campus Universitário. Tal como vemos bancadas PT, Coca-cola, etc, poderíamos ver edifícios com nomes de marcas em vez de as vermos sobretudo associadas às festas universitárias.
  • Trabalhos final curso incidirem sobre necessidades locais. Durante a sua formação os alunos iriam contribuir para a melhoria efetiva de aspectos da vida e sociedade do país. Há muitos projetos autárquicos e locais que não avançam por falta de verba e poderiam ser os alunos em final de curso os seus executantes desde que as necessidades fossem na sua área de formação. Não seria feito pagamento à Universidade mas existiria um retorno imediato da formação gratuita paga pelo estado.
  • Venda de Serviços de Outsourcing. Já ocorre hoje sobretudo na área de investigação. Não me agrada muito a ideia pois acaba por roubar mercado a PMEs que o poderiam fazer dinamizando o emprego real.

Os maiores activos de uma Universidade são os seus alunos que infelizmente se estão a transformar num misto de clientes de um serviço e de fontes de rendimentos, garantias da sobrevivência da instituição de ensino. A Universidade deveria sobretudo trabalhar para formar recursos humanos de excelência que tragam valor às empresas e ao país. Privilegiando o mérito, esforço e capacidade no ingresso e leccionamento independentemente de classes sociais e capacidades financeiras.

Ao mesmo tempo todo o dinheiro que não seja gasto em propinas  entraria na economia através de outras formas de consumo que incluem as despesas de alojamento, alimentação, transporte e materiais de estudo. E haveriam menos argumentos impeditivos de mobilidade na escolha da Universidade.

Ficaria mais esperançoso num futuro alicerçado na igualdade de oportunidades e na valorização do mérito mesmo que isso representasse despesa adicional no presente.

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About Nuno Faria

Nascido em 1977, vegetariano desde 1997 (por convicção própria), com licenciatura de Sistemas de Informação na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1995-1999. Desde 2000 que estou envolvido em projectos de ambiente web, sites, portais e aplicações residentes em Intranets. Em 2003 integrei a equipa da Imoportal.com, hoje absorvida pela Caixatec - Tecnologias de Comunicação SA, onde dei o meu contributo para transformar um site com 30 a 40 mil visitas mensais numa rede de sites que atinge o milhão de visitas mensais. A Internet faz parte da minha vida profissional mas sou também um seu utente. E como tal interessam-me particularmente os mecanismos e dinâmicas capazes de aliciar, convencer e fidelizar visitantes. Preocupo-me em pensar, escrever e criar variados conteúdos que disponibilizo online, como forma de contribuição para o contínuo crescimento da web, não me limitando a ser apenas um seu consumidor.

Posted on Maio 10, 2012, in Ideias para o País and tagged , , , . Bookmark the permalink. 5 comentários.

  1. Apesar de algo inocentes, as propostas são nitidamente bem-intencionadas e suportadas em valores e não em preços. O que saúdo, obviamente. Claramente que o mérito, a capacidade e aptidão devem prevalecer sobre o poder de compra. Sou igualmente contra a segmentação económica no acesso ao Ensino Superior. Contudo, a questão principal não é esta. Não creio que ” cidadãos que vão exercer vida activa nos cargos mais ‘altos’ da vida activa no mercado de trabalho nacional” sejam apenas aqueles que concluem a formação superior, nem tão pouco que o contrário seja verdade. O que leva muitas vezes as famílias mais carenciadas a assumirem um esforço hercúleo para levar por diante a educação superior dos filhos? A resposta é a mentalidade Lusitana, suportada numa ideia completamente datada: Quem tem um curso superior vinga no mercado de trabalho, todos os outros estão condenados. Os factos comprovam que esta ideia peregrina está errada. Diz-se que a geração mais bem preparada de sempre está subaproveitada. Afinal qual foi o erro de avaliação? Julgamos que o mercado de trabalho iria absorver todas as aptidões académicas que o país pudesse formar. Face a este erro de avaliação, procura-se agora adequar as vagas ao mercado de trabalho. Um bom exemplo em como o mais óbvio pode ser simplesmente estúpido. Pergunto: se não sabemos o que vai acontecer à economia mundial daqui a 2 semanas, será razoável esperar que um determinado conjunto de aptidões académicas prepara efectivamente os nossos filhos para um mercado de trabalho que não conseguimos sequer imaginar? É um acto de fé. Prefiro que cada um seja educado no sentido de encontrar o seu próprio trajecto, o seu elemento, sem formatações prévias de carreira. Desvincular a ideia de sucesso pessoal e profissional do potencial de rendimento e/ou status social é provavelmente a melhor direcção. Tão simples e ao mesmo tempo tão difícil.

  2. Inocentes? Não têm nada de inocentes. Não seriam tão simples como aqui descritas mas como base seriam um bom arranque. Pelo menos ninguém veria vedado o ingresso por argumentos de propinas e nos casos de sucesso existiria uma compensação pelo investimento do estado.

    A adequação da oferta académica em resposta às necessidade do mercado é um trabalho que continuaria a existir. Esses actos de fé de seguir um caminho da realização pessoal têm todo o direito a existir em volume qb. Menos vagas mais concorrência sempre que as perspectivas de emprego não sejam grandes.

    Podem sempre existir licenciaturas para plano de desenvolvimento B. Se a economia implodir e fôr necessário o retorno em massa das artes e ofícios realmente daria jeito ter pessoas que ainda percebessem disso. Tirar esses cursos, à partida com menor saída profissional, seria opção em consciência dos alunos.

  3. Inocentes no sentido em que não prevêem o comportamento humano, concretamente a fascinante capacidade de perverter regras nobres como as que propões. Não há conotação pejorativa na inocência, e não é na dita que reside a diferença de opinião:

    Não há, nem pode haver adequação da oferta académica às necessidades do mercado. É precisamente esse o meu ponto. Muitos factores contribuem, mas um é definitivo – A função tempo não o permite; 1) tempo necessário para reformulação de conteúdos programáticos; 2) o tempo necessário para os leccionar; 3) volatilidade de pressupostos económicos entre a decisão e a conclusão de uma formação académica. Nada disto é compatível com a imprevisibilidade dos mercados. Não creio que as relações procura/oferta tenham alguma vez sido tão imprevisíveis como são hoje. Tal pode ser visto como uma ameaça, mas também pode ser a oportunidade se valorizarmos a originalidade.

    Quanto a mim, o acto de fé não está em perseguir a realização pessoal (por critérios estritamente pessoais), mas sim na determinação de obter o grau académico a qualquer preço, por maior que seja a inaptidão, apenas porque pode vir a permitir ganhar muito dinheiro. É este objectivo, e tem sido há décadas, que relega para segundo (ultimo) plano o desenvolvimento de qualquer aptidão ou talento cuja previsão do potencial lucrativo seja menor. Falhamos porque a convicção nessa previsão não é desafiada. No entanto, muitas das pessoal que concretizaram “o sonho” da fama e fortuna, percorreram um trajecto alternativo, não conforme com as normas: Steve Jobs “reinventou a roda” na era digital fazendo tudo ao contrário do convencionado. Não é caso único, mas é um bom exemplo em como não estamos a aproveitar as extraordinárias capacidades do ser humano, como por exemplo a criatividade.

    Acredito que o actual estado de coisas tem origem na subjugação da criatividade ao poder de compra. Falta coragem. Cada qual, com o seu forte individualismo (não sou excepção), mas infelizmente a fé nos outros é tão baixa que geralmente não incentivamos nenhum dos que nos são próximos a seguir um rumo alternativo para o qual sejam particularmente dotados, se tal não for previsivelmente lucrativo. É paradoxal que esta procura por previsibilidade nos tenha conduzido à actual condição de imprevisibilidade generalizada.

    É por estas razões que não concordo, nem compreendo essa relação entre o crescimento económico e a produção artística. A sociedade que não acredita na sua própria capacidade regenerativa não evolui. Cristaliza e por isso não educa para a diferença, educa para a conformidade restringido desde cedo toda a capacidade criativa.

  4. Doutor da mula russa

    Bla, bla, bla. Teorias teorias e mais teorias. Que tal perguntar a quem sabe? Perguntem ao prof. Doutor miguel relvas como se faz!

  1. Pingback: O segredo dos canudos « ao Leme

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