Category Archives: Ideias para o País
Por mais absurda a ideia acreditamos nela e no País!
Dança com Antónios
Antes de mais um mea culpa.
Não tenho cumprido com o meu dever de agitar das águas na tentativa de limpeza do convés.
Não sei que vos diga. São baldes de água fria a mais para dias de verão a menos.
Uma equipa de futebol que decide suar a camisola da selecção tanto como o trabalhador médio Português sua a camisola da sua empresa, um grande grupo económico que usa Angola como território ‘aceitável’ para execução de fraudes e tráfico de influências ‘inaceitáveis’, um governo sombra de si próprio num auto-eclipse que dura há meses e por fim uma luta fraternal pelo lugar de capitão da tripulação alternativa.
Parece não haver escapatória, nem moratória, mesmo reconhecendo-se ser o mais sensato.
Vamos pagar, vamos mirrar, vamos tolerar.
Mal ou bem continuaremos fiéis a esta forma de ser Portugal.
Mas foquemo-nos no bailarico. O PS assume-se como a melhor escola de dança do país. Se queres dançar e não tens par chama o António, se queres dançar e não tens pernas chama os Antónios. Os Antónios são assim tipo gémeos siameses separados ao sufrágio. Apesar de partilharem o mesmo útero suspeita-se que tenham paternidades diferentes, isto se tivermos por base apenas as suas tezes, porque geneticamente é difícil apontar-lhes diferenças. Um aguentou à tona a jangada socialista, o outro refugiou-se em terra firme e diz-se agora mais qualificado para abordagem ao galeão nacional. Os sábios corsários de outrora apoiam agora o homem vindo da Costa, estando o aprendiz de pirata dependente, mas Seguro, do apoio popular que optou por convocar.
E são estas primárias que me dão alguma esperança. A esperança de que surja alguém inesperado, alguém que seja globalmente vilipendiado, alguém que com aparente destrambelho, suba ao pulpito, discurse o não dito pelos adversários e, sem saber bem como, acabe por vencer desmontando o aparelho. Porque estes dois, estes dois são coelhos de uma mesma cartola, meros acessórios dos mesmos ilusionistas que criaram esta falácia estatal.
Estranhamente, apercebo-me que a solução para quebra de ciclo poderá passar por um género de fenómeno Cavaco Silva à socialista.
E agora vou vomitar.
O Valor das ‘Não Coisas’
Hoje as pessoas não têm tempo para nada. Nem para conversar.
Se não é o trânsito…
O amigo que vendia férias
O Agostinho foi o maior felizardo que conheci; tive até inveja dele. Sabe porquê? É que o Agostinho, que não vejo faz tempo – Olá Agostinho!; vendia férias. Ólarilas!… o Agostinho tinha tempo livre para vender, e mais, era um tempo que se desmultiplicava ao ponto de poder ser sempre dividido! Olé!…
Veja o que as pessoas conseguem para ganhar a vida.
A empresa dele chamava-se, veja só, “Não Faça Nada – Time-Sharing, Lda.”
O “não faça nada” está-se mesmo a ver, eram as férias, o “time-sharing” era a tal desmultiplicação da coisa (ou multiplicação… dependendo do “ponto de fuga”) e; a cereja no bolo era o “lda.”; porque, ele, de limitado não tinha nada. Vendia tempo livre desmultiplicado a toda a gente e toda a gente lho comprava. Havia tempo para todos! Ai ninas!…
Há qualquer coisa no “fare niente” muito “dolce” para que toda a gente o queira, não é?
Olha!… já anda a bicha… talvez ainda cheguemos a tempo.
(eh eh eh!; cá em cima chamamos bichas às filas… você sabia?)
Hortas de carros
Quando era catraio (sim!, já fui catraio também…) ouvia os velhotes dizerem que um bocadito de terreno, era a fartura das famílias. Qualquer bocadito de chão dava para plantar couves e novidades e ainda se arranjava um cantito para o esgravatar da criação.
Agora, olhe ali!… vê?, num retalho entre muros medra uma plantação de carros em segunda mão, brilhantes como em primeira.
Em cada esquina, em vez de couves, nabiças, alhos, feijão verde, etc., galinhas, patos, perus, coelhos e afins, temos; carros em segunda mão a brilharem de novos.
Porque será que as pessoas se desfazem assim dos haveres, ainda tão novos? Já pensou?
Vá lá… já seguimos de novo. Até estou a gostar do viscoso do trânsito; dá para a cavaqueira, que já tinha saudades.
As lojas do “compro ouro”
Ali no último cruzamento, você não reparou; estava uma loja da moda. Se olhar para trás ainda vê… vê?, isso mesmo!
Toda a gente dizia mal dos chineses (cala-te boca, que nos cortam a luz…) que estavam em todo o lado, em qualquer esquina; enfim… Agora são as lojas do ouro. Que se compra ouro cobrindo qualquer oferta. É forte hã… cobrindo qualquer oferta!
A aflição das pessoas… Levam ali os anéis para ficarem com os dedos é o que é.
Nunca vi tantas lojas destas; deve ser muita a desgraça e precisão.
Já viu bem que se abrem lojas e vendem franchisingues alimentados a desgraça?
Montemos o negócio
– Diga? Não; estava aqui a pensar, não era propriamente a falar consigo agora, mas mais com os meus botões.
Pode ouvir… pode até; olhe… pode até ser meu sócio caso queira e tenha tempo.
O negócio é o seguinte; uma loja de tempo. Isso mesmo!, comercialização e distribuição de tempo. Vai chamar-se Tempo & Bom Senso, SA.
Porquê bom senso? Ó criatura! Porque já não há nem se fabrica.
Ponha lá uma moedinha no parcómetro que isso ainda é um negócio onde nos havemos de meter; vender espaço consoante o tempo!
À Vossa atenção:
Este texto foi publicado a 11 de Jan. de 2012 na página “Ao Leme – Grupo Aberto”, no n/vosso conhecido facebook.
Ao tempo floriam como cogumelos as “lojas ouro”, onde já tinham sido bancos, onde já tinham sido cafés, onde agora se instalam “lojas do cigarro electrónico”, onde amanhã, espero, estejam cafés novamente.
E digo, novamente, não, outra vez. Porque espero que nos tragam, outra vez, algo de novo.
Grato por lerem. Convido a um cimbalino, ali, na habitual mesa da montra, onde passa a vida.
Obrigadinho.
sobre a figura: Apanhada no trânsito da WEB, sem paternidade registada.
As Europeias
Agora que já lá vai mais de uma semana e que o PS está em polvorosa, para gaudio do PSD e do CDS – que se fossem inteligentes apanhavam a boleia do chumbo do Tribunal Constitucional e demitiam-se, provocando eleições antecipadas e deixando o PS num caos – acho que é tempo para se fazer uma análise, ainda que breve, dos resultados da Eleições Europeias.
Estas eleições apresentam, essencialmente, um sinal dominante: a Europa caminha, a passos largos, para a sua própria implosão.
Hoje em dia, ultrapassadas as duas dezenas de milhões de pobres no espaço europeu, o ideal original da União Europeia está deitado por terra: uma sociedade solidária, desenvolvida, geradora de riqueza e bem-estar parece, cada vez, mais afastada. Na verdade isso não é completamente de estranhar. O ideário da construção da União Europeia – ainda quando Comunidade Económica Europeia – era um ideário de raiz democrata-cristã e social-democrata. A evolução dos últimos vinte e cinco anos – essencialmente depois do fim do bloco comunista – apontou para um ideário neo-liberal. E essa diferença é toda. Na verdade, a Europa abdicou das pessoas para apostar nos grupos económicos dominantes do sistema internacional sem compreender que sem pessoas não existe, de facto, progresso. E sem compreender que uma democracia em que as pessoas se sentem afastadas tende, a prazo, para o autoritarismo. A história mostra-nos isto vezes sem conta: nenhum sistema consegue sobreviver contra as pessoas.
Se recuarmos uns anos – eventualmente bastantes – percebemos isso perfeitamente. A Revolução Francesa de 1789 foi o resultado do ultrapassar de todos os limites que a sociedade da época permitia. A vida miserável de milhões de pessoas em França, que conviviam com um número mínimo de gente rica, lançaram as bases da República moderna e da Democracia. No entanto, a falha do novo regime em satisfazer as necessidades do Povo levou aos excessos ditatoriais que se seguiram à revolução e que se perpetuaram até Napoleão III.
A Liberal Inglaterra, democracia onde apenas uns quantos votavam e onde uma parcela larga da população vivia na mais abjecta miséria, teve que se reformar mais ou menos à força.
Os Estados Unidos, hoje a pátria do neo-liberalismo, foi em tempos a pátria da jornada das 8h, depois de uma luta dura com os operários.
Na Europa Continental as reformas, infelizmente, passaram sempre pelo recurso à força. E a incapacidade em compreender, aceitar e tentar realizar os anseios do povo levaram, por regra, às ditaduras e à guerra. A Alemanha do primeiro terço do Séc. XX é um claro exemplo disso. Como o é a corrupta Itália democrática que deu origem ao messianismo de Mussolini com as consequências que todos sabemos que teve.
Olhando para a história e para a Europa de hoje só podemos concluír pela ignorância boçal dos dirigentes europeus. Aqueles que falam sistemáticamente dos mercados sem nunca referir que os Mercados não passam de pessoas, como todos nós, que se distinguem pelas quantidades ofensivas de dinheiro que controlam e que se acham no direito de tornar reféns Estados e comunidades inteiras apenas para fazerem mais e mais dinheiro.
As eleições europeias mostraram que uma grande parte da população da Europa está tão desiludida com o projecto europeu que já nem se dá ao trabalho de votar. E que os que se dão ao trabalho de votar vão para as franjas à procura de uma salvação que não percebem não existirá aí. Isto porque as franjas, a prazo, se transformam no pior: no apagar da liberdade e das escolhas, no fechar das comunidades aos outros, na regressão económica porque o proteccionismo tem sempre como resultado o proteccionismo dos outros, tornando o mundo uma coisa menor.
E pergunto-me: o acontecerá a Portugal se o sonho europeu morrer? O que nos acontecerá se perdermos esse mercado grande que absorve a maior parte do que produzimos?
O fim da Europa de hoje significará, para nós, não apenas o incómodo de ter que voltar a andar com um passaporte no bolso e cambiarmos a nossa moeda por outra qualquer. O fim da Europa significa para nós o afundar de uma economia que não tem dimensão nem valor. Não tenhamos ilusões: numa Europa de novo com fronteiras não poderemos competir com os outros nas tecnologias porque os outros terão as deles e não deixarão entrar as nossas. Não poderemos competir com os outros na inovação porque eles terão a deles e não deixarão entrar a nossa. Não poderemos competir em quase nada porque as fronteiras deles nos estarão fechadas. Regressaremos ao país sem recursos e de solos pobres onde apenas prosperam o vinho e o azeite. Voltaremos, em grande parte, ao Portugal do Séc. XIX.
Era sobre isto que convinha pensarmos, em vez de andarmos por aí a assobiar para o lado fazendo de conta que a História não está a acontecer.
Europeias 2014
Que celebração, que vitória! A maior força politica nacional, a abstenção, mostrou a sua raça. Esmagadora. Não se trata de rejeição, nem preguiça. É pior. É convicção! Cada um olha pelo seu umbigo e salve-se quem poder. Não é bonito, mas é verdade. Não escolhem mas elegem. Serão 21 deputados. Um deles foi eleito com menos de 240.000 votos. Quem é ele? Um empreendedor, está bom de ver: Qual Manuel Sérgio dos dias de hoje, fez aquilo que ninguém faz, observou os números. Compreendeu algo muito simples: Se a maioria não vota, cada voto vale o triplo. Nem necessitou de grande orçamento para campanha. Mal de nós se em vez de representar quem o elegeu, optar como os demais, por se representar a si próprio.

Os verdadeiros resultados da europeias 2014
Fonte: http://www.europeias2014.mai.gov.pt/
Os “vencedores” de ontem obtiveram o voto de 10% dos inscritos, e os “derrotados mas pouco”, 9%. Fascinante não é? Os partidos do regime, representarão um quinto dos eleitores (20%). Claro que juntos elegeram mais de metade dos deputados ao parlamento Europeu. Não é bom? É óptimo… Talvez seja o início do fim da hipocrisia, da diferença fingida, da alternância sem mudança. Os apelos de sua excelência, el Rey de Boliqueime serão finalmente ouvidos. Pacto de regime, união entre todos, pois de outra forma não existirão maiorias absolutas nas próximas legislativas. Clarificador. Eu por mim, mantenho o apelo à “dictadura”.
O que dizer das mais de 250.000 pessoas que se deslocaram às respectivas assembleias de voto para anularem o dito, ou o entregarem em branco? Agradeço o seu gesto, simbólico mas pleno de significado. Foram lá. Graças à lei eleitoral, também eles engrossaram as fileiras da força oculta, dessa vontade não expressa que é a abstenção, imponente que sem ambiguidade disse: está tudo bem, façam como entenderem. Eles agradecem. Assim farão.
Adeus Troika! Olá Mercados! Olá Eleições!
Já é oficial: A Troika foi-se embora! O programa chegou ao final e o Governo optou por não querer um programa cautelar. Ou seja, a Troika foi-se, pelo menos oficialmente, embora! Vamos lá ver quem é que aterra amanhã na Portela depois da noite de hoje…
Devemos muito à Troika! Graças a ela o Sócrates foi-se embora e nós pudemos matar saudades de ver o Portas outra vez ministro: qual peru engalanado rumo ao seu sempre sonhado Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mas mais, o Paulinho das Feiras, pôde inaugurar o novo cargo da República, Vice-Primeiro Ministro. E com ele todos nós vibrámos, por termos mais de menos, que dará sempre mais. Ao lado do famoso líder da JSD, Pedro Passos Coelho, formaram uma dupla que ficará nos anais da história.
Graças a estes senhores, aprendemos muito sobre nós. Impossibilitados de reflectirmos sobre nós próprios e o nosso passado recente, Passos Coelho fê-lo por nós, fez-nos ver a nossa real dimensão: país pobre, corrupto, improdutivo, com vícios insuportáveis de pagar, com direitos impensáveis, com um Estado Social que não poderíamos nem merecíamos ter. Famílias endividadas souberam que não se podiam ter endividado e que teriam que pagar não só as suas dívidas (o luxo de se comprar casa e ter um carro… como se almejassem ter um nível de vida comparável aos dos restantes cidadãos europeus) como as dívidas que elas não contraíram.
Os trabalhadores viram com os seus salários diminuídos porque não eram produtivos o suficiente, e por isso passaram a trabalhar feriados e a ganhar menos pelas horas extras, em contrapartida pagariam mais IRS, para não acusarem o governo de diminuir tudo (e para não falar nos outros direitos laborais completamente varridos por este governo em sede de desconcertação social). É que os rácios do trabalho sobre o capital teriam de se aproximar dos níveis da Alemanha (o famoso modelo alemão, que anda aí fazer correr tinta em papers académicos e jornais da especialidade), todavia ninguém se lembrou que os nossos níveis de capital são muito inferiores e o nosso modelo produtivo também, logo a nossa capacidade de acumulação de capital também o é. Todavia eis que o custo marginal do trabalho (e aqui já se lembraram da nossa estrutura económica) não se deveria aproximar à Alemanha, mas antes aos países com os quais competimos a nível internacional: o sudoeste asiático.
Desempregados dependentes da segurança social ficaram também a saber que afinal não tinham direito aos apoios para os quais descontaram, que é para não termos dúvidas: a Segurança Social não é a Santa Casa da Misericórdia. E para terem direito ao subsídio para o qual descontaram passaram a ter que fazer apresentações periódicas e frequentarem cursos de formação, durante os quais deixam de fazer parte da taxa de desemprego, contribuindo assim para o melhoramento das estatísticas nacionais.
Os jovens desempregados também levam da Troika uma lição de vida: se estão desempregados é porque não são empreendedores. Neste país, os jovens ou emigram ou criam empresas, que este país não investiu tanto na educação para agora os jovens estarem em casa no facebook (já diz a Isabelucha Jonet e com toda a razão).
Ficámos também a saber que somos responsáveis também pelo endividamento dos bancos portugueses. Os mesmos emprestaram dinheiro a famílias pouco conscienciosas (não se fala no endividamento das empresas nem da cultura empresarial deste país, porque isso fica-lhes mal…então coitadinhas, criam postos de trabalho…os créditos são para pagar os chorudos salários de trabalhadores mandriões). Por isso, nada mais justo do que usar o dinheiro do resgate do FMI para injectar nos bancos, afinal o dinheiro é de um Fundo Monetário Internacional…Nada mais apropriado. Afinal a dívida dos bancos não pertence aos bancos, mas a todos nós!
Mas aprendemos mais: aprendemos que os direitos não são direitos, mas regalias. Que afinal o trabalho não é um direito, mas um privilégio. Que isso do direito à saúde, educação, habitação, segurança social são lirismos próprios de um povo saudosista… Só faltava cantarmos todos “a paz o pão habitação, saúde, educação”… paroles paroles.
Mas mais, e esta é uma lição a ter em conta: O Estado não é para ter empresas. Por isso, e para corrigir esses desequilíbrios antigos, privatizou-se a EDP (vendeu-se ao Partido Comunista Chinês….e não, não foi o PCP, foi o PSD) e aumentou-se as PPP na saúde. Chegou-se à conclusão que afinal as PPP’s não são um saco sem fundo para o qual escorre o dinheiro do Estado, mas alternativas à gestão pública que se revelou danosa.
E com tudo isto, e passado este período de intervenção externa, de ocupação estrangeira, voltámos aos mercados para nos refinanciarmos para podermos pagar a nossa dívida e…os juros voltaram a subir!
Mas mais do que juros, mais do que mercados, mais do que dívida… a suposta saída limpa deve-se ao grandioso dia de hoje: as eleições europeias! Como todos sabemos, as agendas políticas e os interesses partidários não podem ser ameaçados. Apesar de todos sabermos que o PSD chumbou o PEC4 do Sócrates porque os portugueses não aguentavam mais austeridade, num oportunismo muito politiqueiro, também agora o PSD bateu o pé e quis uma saída limpa, sem Troikas, sem cautelares, sem manchas para o seu partido, e levando para a campanha eleitoral a vitória da expulsão da Troika que eles mesmos obrigaram a chamar. Nesta semana, e em plena campanha eleitoral, eu fiquei muito descansada pelo conhecimento e pela verdade expressas pelos candidatos do PS e da Aliança Portugal à cerca do que é para cada um deles a crise do país. Para o PS e para Francisco Assis, a crise começou com o chumbo do PEC4 pelo PSD, ou seja, para o PS tudo reside na queda do Sócrates, cujas políticas estavam a fazer Portugal prosperar. Para o PSD o que nos levou à crise foram as “políticas socialistas” do PS. Ou seja, para Paulo Rangel, privatizações, reformas profundas nas leis laborais, desregulações económicas etc são políticas socialistas. Por um lado, Francisco Assis com uma memória que não vai além dos 3 anos, e o Paulo Rangel sem saber o que é o socialismo, e que o socialismo no PS terminou no dia em que o Mário Soares o decidiu colocar definitivamente na gaveta.
Terminado o período eleitoral cujo resultado hoje se saberá, e terminada mais uma campanha eleitoral europeia onde se fala de tudo mas muito pouco da incomoda Europa, saberemos finalmente que tipo de saída limpa efectivamente temos. Uma coisa é certa, o vencedor destas eleições será, em toda a Europa, a abstenção… Sendo a prova de que uma Europa construída nas costas dos cidadãos tem como resposta em eleições, as costas dos mesmos.
Pensar em grande, votar em pequenos
Aqui há dois dias fui surpreendido pela compreensão choque de que as eleições europeias são já este Domingo! Uma campanha que não se sente na rua, que não tem expressão nos media, praticamente inexistente. Claro que o ciclo se renova e agora o PS pede um castigo dos partidos no poder, coisa que as sondagens prevêm acontecer qb. Tal como muitos não tenho ainda firmado onde recairá o meu voto e chego a recorrer à bruxa para encontrar o caminho.
Um lugar no parlamento europeu, para além da suposta representatividade dos interesses de Portugal, representa uma vida cómoda do ponto de vista financeiro. Em adenda quando se dê a saída do parlamento europeu existe um subsídio de apoio à reintegração na vida activa ao estilo de subsídio de desemprego igualmente chorudo. Tal como no parlamento português existe uma panóplia de famílias políticas com a união de esquerdas, união de centristas, união de direitas, etc. E tal como nele existe uma tendencial flutuação entre uma maior representatividade do centro-esquerda e uma maior representatividade do centro-direita, existindo depois outras facções mais marginais.
Pus-me a matutar em acções de ‘terrorismo’ eleitoral que pudessem dar uma pedrada no charco e vim parar ao facto da abstenção nas eleições europeias (>60%) ser bem mais alta do que a abstenção nas eleições nacionais (>40%). O que só beneficia os candidatos dos maiores partidos pois a proporção de votos dos seus fiéis e crentes eleitores aumenta em muito o seu peso face ao diminuído universo de votantes.
Contudo estes 20% de diferencial na abstenção dão-me esperança para a possibilidade de usar estas eleições como real arma política. Se apenas estes 20% decidirem votar podem ter grande influência na configuração da representação portuguesa!
Compreendo que nas eleições nacionais exista um maior receio de delegar o voto, que não se quer dar aos ‘grandes’ do costume, num pequeno partido. O refúgio acaba por ser um voto nulo, em branco ou mesmo a abstenção. Acabando mais uma vez por só fortalecer o peso dos chamados ‘grandes’.
Para evitar essa rasteira auto-infligida, faço aqui uma proposta criativa para a tentativa de geração de uma onda de manifestação de insatisfação para com os aparelhos partidários responsáveis pela nossa situação: o voto válido num pequeno partido!
E de que forma votar num pequeno partido nestas eleições europeias pode ajudar a mudar algo? Provavelmente não mudará nada no imediato mas serviria de um grande sinal de alerta e sobretudo de meio de preparação de melhores políticos. Se a predominância dos votos nas europeias fosse distribuída pelos pequenos partidos estaríamos a:
- Levar para o parlamento europeu ideias e argumentos alternativos aliados à tenacidade destes novos agentes do nosso tecido político. Mostraríamos assim que nós, Portugueses, estamos saturados de ser manipulados pelos amigos ?do alheio? do costume, estando a atingir o ponto de ruptura para com o status quo instalado sem receio do desconhecido;
- Dar aos políticos emergentes, com menos holofotes e presença em palco, uma experiência internacional permitindo-lhes contacto com formas de trabalho e correntes de pensamento díspares para que retornem mais fortes e mais capazes;
- Permitir aos pequenos peixes nutrir-se do fitoplâncton europeu passando a um regime de dieta os actuais tubarões e baleias do nosso panorama político. Por outras palavras os deputados europeus destes pequenos partidos poderão amealhar uma quantia simpática que podem colocar ao serviço dos seus partidos para maior financiamento autónomo de campanhas em futuras eleições nacionais;
- Assustar realmente os partidos nacionais tradicionalmente mais votados com esta demonstração de desbloqueio mental no acto do voto, criando assim um cenário imprevísivel para o resultado das próximas eleições para a Assembleia da República;
O mais importante seria ganhar a coragem de votar num pequeno partido sem provas dadas, com ideias inovadoras e fracturantes, com o qual apenas simpatizamos mas ainda não confiamos plenamente. Chamem-lhe um salto de fé ou um benefício da dúvida. Durante um ano poderíamos avaliar o seu desempenho no Parlamento Europeu e a sua evolução. Mesmo que não tenhamos a coragem de lhes atribuir voto nas eleições em 2015 teríamos mais 3 anos de levedação e a partir de 2018 saberíamos se valeu ou não a pena o investimento.
Corro o risco de estar a pensar demais, isto seria uma coisa em grande, sendo o meu único consolo o facto de apesar de tudo ainda ter a capacidade de sonhar. E vocês?
> Saber mais sobre 5 Pequenos Partidos a Considerar nestas Eleições <
O Mundo num Porta-Chaves
No princípio dos tempos (porque já foi há muito tempo) saiu-me num “fura” de cinco tostões, um porta-chaves. Um porta-chaves que era nada mais que… O Mundo!
Vejam a minha sorte. Por um nada (o que eram cinco centavos?…) deram-me o Mundo.
Venderam-mo, é certo, mas pelo valor que foi… entendi-o oferecido.
Guardei-o no bolso da camisa, local que no momento me pareceu mais seguro, mesmo do lado esquerdo, ao lado do coração. Segui saindo, continuando o passeio daquela tarde, já merendado e com o Mundo no bolso. Segui vivendo mil vidas e outros tantos caminhos sem nunca mais me lembrar dele, do Mundo.
Encontrei-o há uns meses, repousando numa gaveta de velharias e recordações, no meio de tudo quanto é quinquilharia e “outros mundos”, que o são, ainda, as recordações de outras deambulações.
Peguei-o, limpei-lhe o pó, poli-o, curiosamente na camisa, do lado do coração, e meti-o no bolso das calças para lhe encontrar uso corrente. Aquele Mundo ia encontrar umas chaves que abririam portas, ia encontrar utilidade, era a “sua hora”.
Sabendo que o leitor não está familiarizado com estes objectos, irá permitir que lhos descreva.
O Mundo, este, um porta-chaves singular, é composto de duas partes, sendo, o Hemisfério Sul e o Hemisfério Norte unidos num macho/fêmea de pouca tenacidade (o que me levou, e espero não leve a mal, a cola-los de forma a que nunca mais se separem); como, chamemos-lhes “elementos de utilidade”, tem uma corrente solidamente atarraxada no Hemisfério Norte (por perfuração do Pólo) e, nos antípodas, um moitão onde se aprisionarão as chaves.
Não querendo subalternizar o Mundo, será certo que a importância do conjunto será depositada nas chaves que abrirão as portas e não o que significa a esfera na outra extremidade, e nem mesmo a corrente que com engenho a aprisiona. Com efeito, mesmo as chaves, embora segredos em si mesmas, serão doravante também arrastadas para a figura de meras gazuas uma vez que o importante é “o local” que abrirão, e mesmo este, numa escala de valores materialista, será apenas o espaço que contem “a coisa” de valor.
A “coisa”, o que são as coisas… será portanto o actor principal desta história a que eu, “pomposamente” chamarei vida, uma vez que é, a razão de ser.
O leitor não se apercebeu, mas entre a linha anterior e esta, fui lá fora pensar (e quanto um homem se põem a pensar…). Não é “pomposamente”! A vida é a razão de existir e, a razão de existir embora não saibamos muito bem qual é, tem pompa. E tem circunstância. Por isso, desculpe as aspas, que se manterão por honestidade de quem lhe escreve, e para que não diga que dou o dito por não dito.
Concluamos que, a razão de existir do meu porta-chaves (no seu todo) é manter a vida, o Ser. Melhor dizendo, dispor da vida, uma vez que a abre e fecha quando quer, a mostra e a oculta a seu “bel-prazer”, a oferece ou sonega como bem entende… pomposamente.
(aqui, neste pomposamente, é que talvez ficassem bem as aspas, porque sem “as mãos” não passará dum mero destroço. Mas deixemos as mãos para mais tarde.)
O motivo de o incomodar com esta leitura, e certamente pedir-lhe ajuda é, nem mais nem menos, a confusão que se alojou no meu discernimento quanto ao relacionamento, direi até, interacção, entre Mundo e vida, corrijo, Mundo e Vida.
Sendo habitante do civilizado Hemisfério Norte, e contemplando o meu porta-chaves encontro logo algo que me entristece. É que à medida que o Mundo vai rodando, a corrente que o aprisiona vai-lhe desgastando os desenhos e até, amachucando a superfície; por isso, o Hemisfério que habito está necessitando duma pintura urgente e quem sabe até, dumas marteladas para o desempenar. Enfim coisas que deixarei para alguém especializado, porque nisto de endireitar o Mundo e pinta-lo reluzente não há falta de candidatos.
Perdoe-me o desabafo; não é isso que aqui nos traz.
Continuando com a analogia, e antes que vá embora, gostava de lhe dizer para que servem as chaves. Uma vez que já subentendeu que a corrente e respectivo moitão existem apenas para que o Mundo não se separe delas, nunca. Está agarrado!
Uma abre as portas do cofre, que faz os homens ricos,
Outra abre a do conhecimento, que faz os homens sábios,
Outra a da humildade, que faz os homens Grandes.
Sabemos ambos que a vida não é só estas três coisitas, mas, de momento são as chaves que temos (como vê, até as partilho consigo) para tentarmos viver com mais agrado.
Não me obrigue a dissertar sobre a felicidade pois não se sabe ainda o que significa e, na tentativa costumeira dos Portugueses em explicar o inexplicável, resultaria na sua infelicidade imediata, coisa que, pelo respeito que me merece, nunca farei.
Dizia eu que… temos três chaves apenas e, com elas poderemos ser, ricos sábios e grandes.
Continuo a utilizar o plural sendo minha intenção partilhar (ou compartilhar, como queira) o resultado da minha/nossa acção.
Está nas nossas mãos o equilíbrio, para que não fiquemos:
– Ricos, mas estúpidos e pequenos,
– Sábios, mas inanes e nada, ou
– Grandes, mas ignorantes disso e mais uma vez, delapidados.
E é precisamente aqui que eu peço a sua ajuda. Conto consigo?
Revolução para um Novo Estado Corporativo
Nos 40 anos de 25 de Abril indiscutivelmente poderemos celebrar a liberdade e a democracia. Esta última existindo como uma ferramenta que não é culpada do uso inadequado que lhe é dado pelos executores da governação. Quanto a justiça e igualdade há ainda muito a fazer.
O sistema actual evidentemente está em colapso demonstrando cada vez mais ser uma fachada de interesses que procuram extrair a maior riqueza possível da sociedade e do planeta. Fizeram-no durante décadas, sem preocupação com danos colaterais, atigindo-se agora o limite do suportável em termos de sustentabilidade e tolerância. No passado a grande maioria dos estados já foram fortemente corporativos, característica comum a sistemas pouco democráticos onde ocorria a nacionalização monopolista da maioria da economia, tendo transitado para um liberalismo económico que procurava a distribuição da actividade económica sobre o maior número de indíviduos possível.
Décadas depois parece que em alguns sectores essenciais o mercantilismo está de volta. Seja no mundo, seja em Portugal. Sectores básicos da economia são dominados por empresas corporativas (nacionais ou multi-nacionais) que exploram um filão de consumidores garantidos. Todas as pessoas no mundo têm necessidade de água, energia, comer, cuidados de saúde, transportes, comunicar e ferramentas de gestão financeira. Estes são bens ou serviços essenciais à vida que devem ter um fornecimento e custo justo garantido.
Actualmente vemos o Estado a privatizar completamente vários sectores essenciais argumentando que o seu principal papel deve ser o de regulador e não de agente económico. A experiência de regulação no passado demonstra que é muito mais reactiva do preventiva tendo ocorrido sucessivos abusos em vários sectores como a banca, os combustíveis, etc, fazendo-nos por vezes passar por uma República das Bananas.
Ironicamente, com o passar do tempo, verifica-se uma concentração do peso da economia nacional num pequeno número de grupos económicos, alguns detidos por famílias poderosas. Em alguns sectores o liberalismo deu lugar a um novo mercantilismo, com dois ou três grandes players a disputar um mercado de milhões de consumidores garantidos e milhares de milhões de euros, que pode ser considerado ‘legítimo’ pois a nova posição de poder foi conquistada a pulso. Felizmente alguns deram-se ao trabalho de escavar acabando por traçar o desenho da maior parte do nosso ecossistema político-económico evidenciando a sua falta de diluição em termos de principais agentes e decisores económicos.
O que me leva a perguntar para que queremos um Estado regulador incompentente se podemos ter um Estado regulador interveniente? Nada regula melhor o mercado do que um concorrente que proporcione serviços básicos a custo justo. Esse concorrente será sempre o patamar mínimo da qualidade de serviço que só poderá ser vencido por oferta de serviço de melhor qualidade ou pelo mesmo nível de serviço a menor custo.
O Estado pode e deve ser um agente económico activo nos sectores essenciais à vida e à sociedade. Deve ter capacidade de gestão de empresas estatais, geridas como empresas privadas, não deve ter pudor em beneficiar de lucros que obtenha dessa actividade que pode aplicar em investimento ou canalizar para suprimir a despesa do Estado. Existindo uma gestão adequada, e não politizada, é quase impossível o prejuízo em sectores com consumo garantido. Para um Estado Corporativo com preocupações sociais ter empresas que não gerem lucro, ou mesmo que tenham prejuízos ligeiros, podem ser comportáveis e justificáveis, desde que devidamente compensadas com outras mais lucrativas. A sustentabilidade não deve ser vista por empresa mas sim pelo Estado Corporativo global. Alguns exemplos de bens e serviços em que o Estado deveria estar ou manter-se presente e porquê:
- Alimentação e Distribuição – pelo menos a nível da Agricultura o Estado deveria estar envolvido na dinamização e comercialização da produção nacional. Depois de aniquilados os pequenos mercados e praças locais temos hoje as grandes superfícies a praticar preços proibitivos nos chamados ‘frescos’. Pelo menos criar uma rede de atalhos locais entre produtores e consumidores iria dinamizar produção e trazer justiça à sua comercialização. Hoje as grandes superfícies são a única grande solução para escoar produtos e a não existência massiva dessa oferta noutros locais concorrenciais só ajudam a reforçar ainda mais essa realidade.
- Eléctricas – é a fonte de energia mais utilizada, é obtida a partir da exploração de recursos naturais e é um bem essencial que deveria ser garantido a quem não tenha rendimento para garantir o funcionamento de 1 TV, 1 Frigorífico e iluminação nocturna desde o pôr-do-sol às 00h;
- Petrolíferas – ainda a maior fonte energética utilizada para alimentar a locomoção de meios de transporte;
- Águas – essencial à agricultura e à vida, elemento fundamental de acções de saneamento e limpeza, obtida a partir da exploração de recursos naturais e é um bem essencial que deveria ser garantido a quem não tenha rendimento para garantir cozinhados e higiene mínima aceitável;
- Banca – ter um NIB é elemento essencial a muitas acções do quotidiano, desde a procura de emprego, pagamento ou recebimento de contas ou impostos e deveria ser garantida a existência de uma conta a custo zero a cada cidadão e sem comissões pelo menos para cidadãos com rendimento abaixo de determinado valor;
- Educação – um sistema de ensino público deve continuar a existir com a maior abragência e qualidade possível com taxas de gratuitas a um valor justo em função dos rendimentos;
- Saúde – o SNS deve continuar a existir com a maior abragência e qualidade possível com taxas de gratuitas a um valor justo em função dos rendimentos;
- Transportes – deveria existir uma rede de transportes públicos (não interessa se rodoviária, ferroviária, marítima, aérea ou mista) a garantir a ligação da maior parte possível do território com preços gratuitos a um valor justo em função dos rendimentos;
- Comunicações – garantir serviço mínimo de distribuição postal, TV, internet e telefone. O envio de correspondência, 4 canais, largura de banda de 2 Mbits e possuir telefone fixo deveriam ser uma base gratuita para os portugueses sem rendimentos e daí para frente ter custos e níveis de serviço justos. Não existe operadora que dê resposta a quem queira apenas os canais portugueses e/ou internet por exemplo. A base mínima de serviço triple pay anda sensivelmente nos 40 € / mês após período promocional da adesão. Os clientes são hoje obrigados a um tudo ou nada conformando-se com a falta de opções.
E assim teríamos um Estado regulador através da concorrência saudável que garantiria os serviços mínimos com custo justo a quem com eles se satisfaça. Uma acção de regulação passaria não por fiscalização e sugestão mas por real política comercial mais ou menos agressiva em função da tendência de preços e relação com consumidores vigente em determinado sector. Um combate aos cartéis utilizando a sua linguagem e as suas armas.
Garantido o essencial para ter uma sociedade mais justa e equalitária deixemos aos empreendedores o complementar dos serviços básicos com o criar e fornecer outros bens e serviços inovadores ou especializados. Ao longo do tempo podem ser encerradas e criadas novas empresas estatais à medida que desaparecem e surgem bens e serviços considerados essenciais.
O Estado Corporativo estaria então omnipresente na economia de primeira necessidade sem ser monopolista nem um concorrente agressivo em busca de conquista de maior fatia de mercado. Tudo isto com plena separação de poderes entre a acção governativa e a gestão empresarial destas empresas.
Um desafio para uma revolução futura?
Et pour cause …
Liguei a televisão e não conseguia acreditar no que via: milhares de pessoas, gritando, saltando, ocupando as ruas de Lisboa, num frenesim sem par.
A primeira coisa que me ocorreu foi que a Revolução estava na rua. Finalmente, ao fim de anos a aguentar uma classe política corrupta e incompetente, a aguentar a chegada dos jotinhas ao poder, a aguentar o desmando daqueles que nunca tinham feito nada na vida, finalmente as pessoas tinham saído à rua.
Não hesitei. Corri para o quarto para trocar de roupa. Para vestir a minha roupa revolucionária. A roupa que tenho guarda para usar no dia em que, finalmente, saírmos à rua para mudar as coisas.
Cinco minutos. Não demorei mais de cinco minutos e estava pronto. A adrenalina percorria-me o corpo e só pensava em encontrar as chaves do carro para me fazer à estrada e chegar à capital. Não mais de 20 minutos. Não mais de vinte minutos para ajudar a fazer história.
Durante todo esse tempo pensei no meu ordenado reposto, recuperado dos 40% de cortes que sofri nos últimos anos. Pensei no bom que seria não ter que continuar a fazer contas ao cêntimo para a comida chegar ao fim do mês. No bom que seria ter mais uns cobres para a gasolina de forma a poder estar mais vezes com a minha filha. E pensei nas centenas de milhar de pessoas que vivem com um ordenado mínimo que mais não é do que uma pensão de miséria para não se morrer à fome. Pensei nas crianças que não necessitariam mais de ir à escola durante o período de férias para poderem ter uma refeição quente – apenas uma refeição quente. Pensei nos nossos velhos que teriam, agora sim, dinheiro para comprar os medicamentos de que precisam, dos hospitais a funcionar normalmente, das escolas com obras feitas, e por aí fora.
Emocionei-me. Emocionei-me a pensar que seria desta que algumas empresas passariam a pagar os impostos devidos e não apenas impostos sobre uma percentagem dos lucros enormes que têm, pensei que finalmente se pegaria nos mais de 10.000 institutos e fundações públicas e que se encerrariam aqueles que servem apenas para dar empregos às cliques partidárias, aqueles que têm mais administradores do que trabalhadores, que acabaria a palhaçada da entrada na administração pública de milhares – repito, de milhares – de meninos dos partidos, com contractos obscenos enquanto se pretende ‘dispensar’ uns milhares de funcionários que entraram por concurso público, com provas feitas.
Pensei, na realidade, que o povo tinha saído à rua para cumprir Abril, ou seja, para finalmente criar um país justo e solidário, um país onde todos têm lugar numa lógica de respeito e solidariedade, onde quem tem mais ajuda quem tem menos e quem tem menos se dedica afincadamente a criar uma vida em que possa vir a ter mais.
Finalmente encontrei as chaves do carro. Em cima de uns livros numa estante carregada de mais livros, essas coisas que vão caíndo fora de moda e que nos dão a ilusão tão importante que é o sonho.
E foi então que ouvi, vindo da televisão que me tinha esquecido de desligar, os gritos cadenciados: “Campeões, Campeões, nós somos Campeões”.
Estaquei, estarrecido. Um frio percorreu-me de alto a baixo enquanto me aproximava do maldito aparelho, esperando que aquilo não tivesse sido mais do que um sussurro perdido, uma ilusão.
Não era.
O Povo saíra à rua, sim, mas não para lutar por uma vida melhor, não para lutar por um país melhor, não para lutar por um futuro melhor, mas sim para celebrar o futebol. Para celebrar a vitória de meia dúzia de broncos, incapazes de criar uma frase com princípio, meio e fim, que ganham, tantos deles, em dois meses ou três, aquilo que alguém não ganha numa vida inteira de trabalho. O Povo saíra à rua para gritar hossanas a quem, com fortunas assim, paga impostos reduzidos, a quem se reformará aos trinta e poucos e não precisará nunca de ter uma vida útil.
Comecei a tirar a roupa da Revolução. Larguei as chaves do carro em cima dos mesmos livros de antes e não pude deixar de pensar que pena é existir um país assim.
E se começasse a funcionar o Povocíonio… o verdadeiro!
E se um dia as coisas fossem mesmo assim…
Mais uma vez vem a cena a obrigatoriedade de voto, curioso ou não á porta de mais umas eleições, parece que o modelo está até a ganhar adeptos, ou pelo menos a reavivar-lhes a memória.
A ideia não é descabida de todo, tanto não o é, que existem países a aplicar esta prática.
Pode até ser uma ideia mirabolante, mas se acompanhada de normativos transparentes da gestão partidária seria benéfica, caso contrário estarão novamente com meiguice a circundar o problema sem ir ao cerne da questão.
Para a generalidade, possivelmente uma alteração proveitosa e não tão estranha como ao início possa parecer. Certamente que uma grande maioria dos recenseados são pais e como tal já se habituaram a uma nomenclatura similar que é o Paitrocínio, largamente aplicado numa infinidade de pequenos clubes e colectividades em que os seus petizes praticam desporto.
O paitrocína os treinos porque custam dinheiro, os equipamentos porque são caros, pagando assim para fazer publicidade, as deslocações porque são onerosas e por aí fora…. Almejando que um dia os catraios tendo jeito, se apaixonem pela modalidade e quem sabe mais tarde ter a sorte de terem sucesso e serem miseravelmente compensados por engrandecer o nome da nação cá dentro e lá fora, sim porque os Ronaldos são uma ínfima percentagem dos desportistas. Tempos houvera que não era assim provavelmente nos tais, que agora nos dizem, “Vivíamos acima das nossas possibilidades”.
Ora quem equaciona a obrigatoriedade de voto, quase sempre “á margem” de qualquer coisa, fá-lo também pela rama da coisa, dizendo que “… pelo menos nas legislativas”, evitando comentários opositores. Realmente o que se pretende é que com isso se aumentem as receitas directas aos partidos, porque cada voto vale dinheiro.
Morreriam assim as subvenções partidárias e as suas veementes oposições, digamos que desta forma era tudo mais simples, “voto obrigatório, dinheiro em caixa”!
Sobejamente sabido é que todos os actos eleitorais estão intrinsecamente relacionados com as forças politicas, assim sendo, demagogias á parte podem mesmo ser obrigatórios os votantes em todas as idas às urnas.
Cada cidadão quando lhe é dado o título de eleitor, passaria também desde de que empregado, voluntariamente e ser obrigado a filiar-se partidariamente, porém sem direito a período de fidelização. Pagaria uma cota mensalmente de 1 euro, imaginem só o dinheirão que não é 1 euro mensal por cada eleitor, sendo que para o próprio é pouco mais que uma bica. Assim fosse e a melhoria seria significativa, a preocupação primária seria levar os níveis de desemprego a mínimos históricos…
Em números actuais seriam bem mais de 500 mil euros em receitas mensais!
A obrigatória promiscuidade de muitos deixaria de fazer sentido acabando o medo das represálias, ficaria sabedor da cor do chefe ou do vizinho sem preconceitos. Liberdade total dispondo da mesma facilidade de quem ele elege. Todos passariam a parafrasear a velha máxima até agora exclusiva desses círculos, “O que ontem era verdade, hoje deixou de o ser”… Mudei!
Seria até um brio exibir o recibo de salário aos amigos dizendo, tás a ver aqui abaixo do desconto para o sindicato… Este mês patrocinei o meu partido!
O eleitor faltoso, ficaria voluntariamente obrigado e pagar uma coima em caso de falta injustificada. Como ninguém gosta da faltar ao acto sabendo que este até já custou uns cobres, lá iriam firmes e hirtos. Os aparelhos partidários passariam finalmente a ser possuidores da tão pedida transparência, oferecendo os serviços por um valor fixo e como na maioria dos restantes casos.










