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Desconexão forçada

A Meta, empresa gestora de Facebook, WhatsApp e Instagram, foi pressionada a introduzir mecanismos automáticos para moderação da utilização por parte de adolescentes. Resumidamente vão introduzir limites diários de utilização, bloqueio de serviço entre a meia noite e as seis da manhã, inibição de notificações durante o horário escolar, e alteração dos algoritmos que promovem comportamento aditivo de scroll infinito.

Sendo positivo, não é de todo uma solução à prova de bala pois existem milhentas alternativas onde este tipo de medidas ainda não são aplicadas. Desde a geração Z, iniciada com os nascidos em 1997, que passamos a ter adolescentes “nativos digitais”, crescendo num mundo de intensa distracção que compete pelo seu foco e influencia o seu desenvolvimento.

Está mais do que provado que a exposição precoce e contínua ao mundo digital provoca atrasos no desenvolvimento físico, cognitivo, linguístico e social de crianças e adolescentes. Antes dos estudos era fácil constatá-lo empiricamente, mesmo assim muitos pais preferiam entregar as suas crianças aos ecrãs mantendo-as calmas, controladas, dentro da segurança e conforto do lar ao invés de as deixar deambular pela incerteza do mundo exterior e das provações psíquicas, emocionais e sociais oferecidas pelas interacções cara a cara, olhos nos olhos. O cúmulo do resultado disto é constatarmos que grupos de amigos ou namorados expressam a sua relação simplesmente pelo facto de estarem conectados à mesma wi-fi, chegando a mesmo presentes na mesma sala comunicar via mensagens e shares. Ou em alternativa juntarem-se online, cada um na sua casa, usando avatares em jogos ou plataformas de mundos virtuais, ondem podem ser e dizer o que quiserem sem grandes danos já que todos assumem que ali é território sem limites dos seus alter-egos, que melhor se desenvolvem de forma fantasiosa do que o seu ego conectado ao mundo real.

Há muito que existem mecanismos de controlo da utilização de ecrãs digitais e acesso a sites, se não foram utilizados isso só demonstra a impreparação parental para a sua aplicação. Pelo que estas medidas parecem-me enquadrar-se mais como correctivos de parentalidade do que propriamente correctivos de comportamentos de adolescentes. Suspeito que em breve terão de ser alargadas para que exista um controlo institucional dos smartphones atribuídos a menores de idade, a fim de garantir que todas as crianças e adolescentes são limitadas na duração e tipo de conteúdos a que são expostos. Se o problema começa aos meses de idades, onde pais cansados e inconscientes, se demitem da obrigação de foco e disciplina no criar da sua prole, “enganando-os” triunfalmente com tablets a passar os desenhos animados preferidos enquanto lhes enfiam colheres de comida pela boca, que sentido faz criar um travão moderador apenas quando chegam a adolescentes?

As limitações de acesso ao digital, que inclui serviços de streaming e TV, deveriam ser impostas desde tenra idade, pelos pais, não pelo estado mas neste caso parece-me que faria sentido estabelecer regras nacionais que normalizem o patamar mínimo de segurança e estímulo ao desenvolvimento. Tal como temos a proibição de venda de alcoól e tabaco a menores.

Provavelmente a situação que vivemos resultou da falta de informação pedagógica, ou pior, terá havido no passado estímulo à exposição precoce como suposto acelerador do desenvolvimento. A informação e exemplos existiam e eram conhecidos por quem a procurasse. Seja como for a realidade é que temos agora algumas gerações destabilizadas por esta exposição excessiva, as que serão pais das próximas, pelo que será no mínimo desafiante corrigir a trajectória. Curiosamente poderá ser a IA quem virá abanar e conduzir as gerações mais jovens à reflexão sobre os limites digitais. Caso isso não suceda, no pior dos cenários, as próximas gerações serão criadas por agentes inteligentes criados à medida pelos seus brilhantes pais, servindo de ponte entre humanos desconexos que são incapazes de estabelecer relações profundas e lidar com as ralações que daí advém.

Family members gathered in a living room, talking and using digital devices

Filho de peixe sabe nadar?

Ou a ineficácia do (des)controlo parental… Dezenas de familiares de governantes encontram-se empregados pelo próprio governo numa teia de nomeações cruzadas. A pergunta que se coloca é: são tão ou mais competentes do que @s restantes candidat@s ao lugar que ocupam?

Caso o sejam, nada a dizer, caso não o sejam então o que estará completamente errado é o sistema de recrutamento/nomeação que deveria proteger o Estado deste tipo de exploração dinástica.

Os laços de sangue em nada são indicadores das capacidades individuais pelo que aquilo que deve ser decisor na sua seleção ou demissão é nada mais do que o comprovativo dos resultados apresentados pelo seu trabalho.

Que poderá dizer disto um país em que metade do seu tecido empresarial é composto por empresas familiares e em que grandes grupos empresariais têm também uma gestão familiar?

Tal como se sucede com médicos, músicos, futebolistas, etc, o filho de um grande político poderá ser um político ainda melhor. Legislar no sentido que lhe seja dificultada a colocação poderá ser injusto e danoso para os interesses do país.

Pelo que o problema não são propriamente as ligações familiares mas sim os nós cegos do processo de selecção/nomeação. Querem legislar? Criem regras bem definidas e tragam transparência a esses processos acabando com o conceito de “cargo de confiança política”. Há posições que são cargos de pura assessoria/gestão/coordenação, que deveriam ser apolíticas no sentido de exclusivamente defender interesses do Estado através do exercício de competência sem preocupações partidárias.

Isso sim, seria garantir oportunidades idênticas para todos, colocando debaixo do escrutínio de avaliação regular de desempenho todos estes distribuidores de jogo político, que na sua maioria não passam de gordura de Estado, defensores prioritários das cores do seu partido e dos seus interesses pessoais.