Category Archives: Ancora

Crucial instrumento náutico. Permite fixar navios em posições sob fundos rochosos, lodosos ou arenosos. Geralmente fabricada em metal, é constituída por uma haste principal. Numa das extremidades são ligados os braços pontiagudos para penetração no fundo ou fixação sob rochas. Na extremidade oposta da haste, o arnete permite a fixação da amarra que liga a âncora ao navio.

Placebo

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Placebo é um fármaco, tratamento ou procedimento cirúrgico dissimulado, inerte, sem principio activo. Trata todo o tipo enfermidade e baseia-se na reacção psicossomática dos pacientes. Pode de facto promover um efeito benéfico real e físico.

Não consultei nenhum simpósio terapêutico, não sei se a doença existe, mas suspeito que vivemos um surto de grave défice de cidadania. Eis as questões de teste e diagnóstico:

  • Quem é que quer saber da venda da TAP quando há tanta e tão relevante informação em Évora?
  • Quem quer saber do Orçamento de Estado para 2015 quando há teorias da conspiração para denunciar ou subscrever?
  • Quem quer saber da reposição das subvenções vitalícias (não contributivas) quando há apostas a fazer sobre quem será o próximo a ser detido?

A resposta a qualquer uma das questões é: ninguém! Ninguém quer saber. Porquê? Bem, na verdade, é muito simples. É o efeito placebo. Mais uma teoria da conspiração? Negativo, é apenas o egoísmo colectivo a funcionar. Eis como:

Sem subscrever a teoria do bode expiatório, constato o reflexo da detenção preventiva nos Sistemas Límbicos dos telespectadores. Continuamos sem nada saber sobre a acusação, mas tal pouco importa. Cada um de nós tem a sua própria acusação! Eu, por exemplo, guardo com carinho um velho rancor. Remonta, imaginem, a 2011. Fatídico ano em que uma medida de excepção ao orçamento de estado desse ano me atribuiu um corte seis vezes superior ao previsto. Pequeno contratempo que está aliás na génese deste blog. É este abrangente e democrático critério que explica a euforia, a alegria que vivemos. É irrelevante a causa, cada qual escolhe a que quer. Importante é saber que há um castigo. Preventivo que seja, estamos perante a cura de muito descontentamento e revolta.

E os crentes, aqueles que acreditam na inocência do detido? Bom, para esses o placebo tem o mesmo efeito terapêutico, uma vez que toda a sua atenção está igualmente desviada. Ora testem lá as perguntas de diagnóstico novamente.

 

 

Aguiar Branco, Estaleiro ao Fundo

Viana do Castelo está a agitar as águas. Novamente Aguiar Branco em grande forma no centro da polémica. Estranho a pressa em desfazer-se dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC). Justifica com condicionantes europeias que obrigam à circunstância. Já o presidente da câmara de Viana do Castelo deu hoje uma entrevista revelando ter falado com o comissário europeu para a concorrência e que este, embaraçado, lhe confessou não ter tido qualquer contato da parte do governo português sobre o tema.

A pressa é tal que se levantam dúvidas sobre a capacidade do vencedor da subconcessão em levar o estaleiro a bom porto. Por outro lado o vencedor  traça um futuro brilhante e risonho aos ENVC sob a sua gestão.  A Martifer garante ter garantias de contratos regulares e resolver o problema do Lusitânia imediatamente. Devem ter especialistas com fortes conhecimentos na área da advocacia, capazes de deitar por terra a argumentação utilizada para cancelamento do contrato, desatando o nó em falta nos nós da velocidade! Se assim for os estaleiros podem ser a bóia de salvação da Martifer e vice-versa! O mundo pode ser um local maravilhoso.

Os trabalhadores, indignados, gritam por injeção dos milhões previstos para a liquidação, sob a forma de investimento a fim de modernizar os meios de produção. Segundo eles a empresa tem viabilidade e só não estão a produzir mais porque a gestão assim não o quis ao longo dos anos.

Nem me vou colocar a fazer contas sobre se o Estado é beneficiado ou prejudicado, tendo em conta os valores envolvidos e as consequências em termos sociais que terão de ser amparadas pelo Estado. Agora aquilo que rapidamente me vem à memória, apenas derivado de leituras corriqueiras de revistas de informação, é o seguinte:

Tudo isto são fortes indicadores de que o sector naval estará em crescimento, não só em volume de navios como em envergadura dos mesmos e frequência de uso. Será inevitável o aumento de encomendas de construção a nível mundial bem como a procura de serviços de manutenção. (Falem com o nosso país irmão! Pode ser que caiam umas migalhas como sucedeu com nuestros hermanos.)

Portugal tem todas as condições, em termos de localização dos seus portos, para ser uma opção privilegiada na contratação destes tipos de serviços. Para tal apenas teremos de ter capacidade instalada disponível e know-how adequado. Ou seja, os ENVC não são uma pedra no sapato mas sim uma pérola para o futuro a médio prazo. Por exemplo caiu por terra o argumento que os ENVC assegurariam à Marinha de Guerra Portuguesa a capacidade instalada desactivada no Arsenal do Alfeite. Agora a Armada não tem capacidade, nem autonomia, transformando-se num cliente seguro a longo prazo.

Dá-me a sensação que nos últimos anos andaram a embaçar a pérola para ser vendida como bugiganga em condições vantajosas para o comprador. É inegável o valor e potencial dos estaleiros em si. O questionável será certamente a gestão dos mesmos ao longo destas décadas. Com muita influência política.

Pelo que, tendo em conta a pechincha que é ter dois ou três administradores dos ENVC, recomendaria talvez um volte-face surpreendente em que o estado roubaria à Martifer os dois ou três gestores que já desenharam a solução milagrosa e ficava o assunto arrumado. Desde que parte da solução não passe por esquemas manhosos como por exemplo:

  1. Despedir todos os trabalhadores dos ENVC e extinguir os mesmos;
  2. Criar nova empresa para recomeçar com registo limpo e realizar processo de recrutamento de 1/3 dos trabalhadores despedidos, beneficiando da concorrência directa de pessoas com o know-how necessário, desperadas e desorientadas pela perspectiva de perder emprego, estando mais receptivas à baixa considerável de salários;
  3. Beneficiar das várias condições de incentivo ao emprego ao recrutar colaboradores que se enquadram nos cenários definidos.

Porque isto para além de um excelente acto de gestão, engenharia financeira e reestruturação de recursos humanos seria um escandaloso cambalacho e chulanço aos parcos apoios sociais do estado.

E isso é coisa que o nosso governo certamente classificaria de intolerável, CERTO?

O Monstro da Tasmânia

O desígnio da nação é o Mar. Ouvimos este pregão aos nossos governantes ao longo de décadas, mas não vemos nada. Cegueira nossa. Muito tem sido feito desde o início do sec XIX. Sim, são planos para futuro! O que fizemos? Importámos o monstro da Tasmânia. Desde então reproduz-se livremente no nosso país. Não há limites ao crescimento do seu habitat. O monstro da Tasmânia é aromático e pastoso. Cresce muito rapidamente, chegando aos 50 metros de altura em poucos anos. É perfeito para a construção naval e, imagine-se, é 100% à prova de fogo. Ao contrário das inflamáveis espécies autóctones, esta espécie nunca arde. Característica incomum que salvaguarda e protege os nossos soldados da paz. O monstro da Tasmânia é conhecido entre nós por Eucalipto, Eucalyptus Globulus para os mais eruditos.

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Somos a nação europeia com maior percentagem de eucalipto na sua floresta, e somos o país europeu com maior área de eucalipto em termos absolutos. Ninguém na Europa acarinha o monstro da Tasmânia como nós. Desertifica, destrói os solos, criticam. Nitidamente, os nossos parceiros não compreendem o potencial da espécie. O nexo de causalidade que escapa aos líderes europeus está apenas ao alcance dos nossos governantes: A Arábia Saudita é um deserto rico em petróleo, logo, quanto mais rápida a desertificação do país, melhor. É óbvio!

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Então e o mar? Está em marcha o plano: Após a concessão dos Estaleiro Navais de Viana do Castelo, o estado estará em condições de lançar o seu grande programa de construção naval. Abandonaremos as obsoletas técnicas de construção em aço para abraçar a modernidade. O futuro é a arquitectura naval Origami. Grandiosas frotas explorarão o potencial da nossa vasta zona económica exclusiva.

Optimist

Julgando-se comandante de um Galeão da carreira das Índias, declama “Os Lusíadas“. As analogias náuticas que se seguiram à assustadora prova de sensibilidade e cultura, são igualmente mobilizadoras, plenas de emotividade e sonolência. Não encanta, nem navega. Estamos perante um petiz, um aprendiz de Optmist. Explica as crenças de Agosto, mas deixa-nos a dúvida se detêm carta de marinheiro. Não sabe onde fica o cabo das tormentas, mas repete à exaustão a mitológica ameaça do Adamastor. Não camba, clama vela cheia, por isso caça a grande. São as talas que lhe criam a ilusão, mas o aprendiz ignora. Emerso, abraçado à âncora da solução única afoga-se o tripulante, o contribuinte. Estamos sem patrão de alto-mar ou mesmo de costa, e mesmo assim rumamos ao oceano sem içar a âncora. Queimamos as amarras para que se calem os velhos do Restelo, enquanto o comando contínua a alijar a economia. Alguém lhe explique que o chicote é apenas a extremidade de um cabo!

Quem o alheio veste

Foi por encomenda do armador alemão Hamburg-Amerika line (HAPAG) que nos últimos dias do século XIX a sua quilha foi assente nos estaleiros da William Gray & Company Ltd em West Hartlepool, Inglaterra. Lançado no primeiro ano do século XX, 1901, o navio foi baptizado “Numantia”, numa premonitória homenagem à lendária cidade de Numancia, na antiga província Romana, Hispânia. Com 122 metros fora a fora, 16 metros de boca, quase 4500 toneladas de arqueação bruta e aproximadamente 8000 toneladas de arqueação líquida (Sistema Moorsom), o novo cargueiro a vapor, então moderno e eficiente, serviu a nação germânica até Agosto de 1914. A primeira grande guerra ditou o bloqueio naval Britânico a todos os portos Germânicos. Impossibilitado de regressar à Alemanha, o navio rumou ao porto de Mormugão, colónia ultramarina de Goa, Índia, onde lhe foi concedido refúgio ao abrigo da neutralidade que a jovem República Portuguesa mantinha no conflito.

"Numantia", H.A.P.A.G., 1901

Eis que em 7 de Fevereiro de 1916 tudo se altera. É promulgada a lei nº 480, ao abrigo da qual o governo Português legítima a “requisição de todos os meios de transporte julgados indispensáveis à economia nacional”. Este primeiro passo rumo à beligerância, à época justificado pela necessidade de salvaguardar o comércio colónial, mais não foi que um sintoma da nossa condição de protectorado Britânico. Provou que a jovem república, depois de muito criticar o deposto regime monárquico, não se libertara da subserviência ante o Reino Unido. Portugal observa assim a velha aliança, mas não declara guerra ao Império Germânico, decreta. A 23 de Fevereiro de 1916, o governo manda publicar o decreto nº 2229, o qual determina a apreensão dos setenta navios Alemães refugiados em território Português. A resposta Alemã, sob a forma de ultimato, exigindo a devolução dos navios foi ignorada, pelo que a brilhante iniciativa legislativa, obtém o resultado desejado: a Alemanha declara guerra a Portugal.

A Nação aceita o enorme custo da guerra em troca de uma vasta e moderna frota de navios mercantes, muitíssimo superior à capacidade de investimento e produção naval nacional. Milagrosa resolução desse défice. É neste contexto, com a missão de gerir a nova frota, que nasce a companhia “Transportes Marítimos do Estado” (T.M.E). Contudo, negociações anteriores ao iluminado decreto, garantem o usufruto de 80% desta frota de navios ao Reino Unido, através de contracto de fretamento com o armador Furness, Withy & Co, o famoso contrato Furness. A frota alemã servirá sobretudo o interesse Britânico: à razão de um preço por frete muito inferior aos valores de mercado (<50%) e com prémios de seguro ridiculamente baixos. Acresce a fórmula de cálculo, que em ambos os casos, frete ou perca do navio, tinha por base a arqueação bruta e não a líquida, isto é, com base no peso do navio e não na sua capacidade de carga (a única relevante para o fretador). Condições ruinosas para o armador estatal, válidas ao longo de um prazo singelamente definido por “Seis meses após o fim da guerra”. Uma PPP com garantias do estado Português, em benefício do Britânico e com o patrocínio da iniciativa privada Alemã.

Uma vez reparados os danos resultantes da sabotagem perpetrada pela tripulação teutónica, o “Numantia” foi rebaptizado “Pangim”, em homenagem à cidade Indiana do Império Colónial Português. Recebe tripulação Portuguesa e serve os aliados durante a vigência do contrato Furness, período ao longo do qual vive múltiplas privações e vergonhas, normalmente resultantes da sistemática falta de pagamento do armador estatal aos seus fornecedores. É conhecida uma longa e ruinosa estadia do navio e sua tripulação no porto de Antuérpia, Bélgica. Nada que se compare com o caricatural exemplo do vapor “Sines”, que em Cardiff, País de Gales, esteve arrestado de Fevereiro de 1921 a Janeiro de 1922, vivendo a tripulação em precariedade tal que se viu obrigada a carregar terra para bordo, e nela plantar uma horta em pleno convés do navio. Avulsos exemplos das metodologias e práticas em vigor nos T.M.E, organização verdadeiramente a saque por funcionários e agentes, com um histórico de fraudes e roubo tão vasto e diversificado que pede meças em criatividade e audácia com qualquer outro “caso” da actualidade. É perfeita a analogia com o desfecho do caso BPN: No fim pagámos todos.

Após um longo e complexo processo de liquidação dos T.M.E, o navio é devolvido à iniciativa privada em 1926, ano em que é adquirido pela Companhia Colónial de Navegação (C.C.N.). Recebe então o terceiro e último baptismo, “Cassequel”, também em homenagem a uma cidade do Império colónial, em Angola desta feita. Fez carreira na Europa, arquipélagos Atlânticos e na África Ocidental Portuguesa, navegando sem sobressaltos até 1933. Foi em Agosto deste ano que o navio enfrentou um grave incêndio, deflagrado nos fardos de palha destinados à alimentação dos animais que transportava. Navegando de proa ao vento e com a intrépida intervenção da tripulação o fogo foi controlado. O navio chegou a bom porto pelos seus próprios meios, mas o incêndio foi de tal forma violento que danificou seriamente a superstrutura e destruiu completamente o mastro grande, a meia-nau. Após a reparação, o “Cassequel” viu a sua superstrutura melhorada pelo que ficou também habilitado ao transporte de passageiros. Foram também adicionadas duas gruas em substituição do mastro perdido. Superado o desafio, melhorado após as reparações, o navio retomou a sua actividade.

A normalidade foi interrompida com o início da segunda guerra mundial. Tendo sobrevivido à primeira guerra, o navio enfrenta a segunda sob protecção da neutralidade Portuguesa. O velho “Cassequel” partiria uma última vez de Lisboa no início da tarde de 13 de Dezembro de 1941. Rumou a sul, em direcção à África Ocidental, com 9 passageiros, 48 tripulantes e uma considerável carga de gasolina a bordo. Comandava Sebastião Augusto da Silva, meu bisavô, pai do pai de meu pai, senhor meu avô. Decorridas mais de 24 horas de viagem, o navio é atacado durante a noite de 14 de Dezembro de 1941, numa posição a mais de duzentas milhas a sudoeste do cabo de São Vicente. O agressor, o submarino Alemão U-108, lançou um torpedo que às ordens do Capitão Kalus Scholz foi apontado à popa do velho vapor, destruindo o leme e a hélice, imobilizando o navio. De pronto foi dada a ordem para abandonar o navio. Arriadas as quatro baleeiras, e apesar de uma delas se ter inicialmente virado, breves minutos bastaram para que todos os tripulantes e passageiros embarcassem nos salva-vidas. Imerso e a coberto da noite, o U-108 nunca foi avistado por nenhum dos náufragos. Através do periscópio, terá o seu Capitão confirmado que todas as baleeiras se afastavam, momento em que ordenou o lançamento do segundo torpedo, desta feita apontado a meia-nau, directo à carga de gasolina a bordo. A enorme explosão partiu o velho vapor a meio, precipitando um afundamento quase instantâneo. Seis dias mais tarde, a 20 de Dezembro de 1941, o navio da Armada Portuguesa, “NRP Douro“, resgata a última das quatro baleeiras. A bordo estavam dez tripulantes, dois passageiros e o meu bisavô, que recebeu com agrado a notícia que todos náufragos estavam a salvo, sem vítimas a registar.

O “Cassequel” cumpriu assim a premonição do seu primeiro baptismo, “Numantia”. O seu arresto em 1916 traiu a neutralidade que o atraíra a território Português, traição devolvida em 1941, com o seu torpedeamento apesar da neutral credencial Lusitana. Qualquer semelhança com a actualidade nacional, é pura obra do destino traçado para a Nação que se fez Estado quando um filho fez guerra à sua mãe. Ouro do Brasil, frotas de modernos navios, fundos estruturais ou moeda única, sabemos que para cada oportunidade estará reservada a respectiva tragédia. É fado, sem saudade ou memória. Por vezes agraciada com as riquezas do mundo, a nau Portugal é com a mesma frequência vítima de si própria. A tripulação não aprende. Ao Leme esteve sempre quem mandou, raras vezes quem sabia mandar.

É sabido que “Quem o alheio veste, na rua o despe”. Porque que o esquecemos tão facilmente?

25 de Abril nas Cabeças dos Portugueses

O 25 de Abril pôs fim a uma ditadura opressora. Antes do 25 de Abril passava-se fome e imperava a lei da rolha. O 25 de Abril pôs fim à guerra colonial. O 25 de Abril foi o parto da democracia em Portugal. A democracia é um regime de governo em que o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos (povo), direta ou indiretamente, por meio de representantes eleitos.

Vamos a caminho das 4 décadas de democracia em Portugal. Nesses 38 anos surgiram dezenas de partidos. E a cadeira do poder foi tomada sobretudo por dois partidos políticos. PS e PSD. Por vezes com uma muleta de um outro partido sendo a mais frequente a muleta CDS/PP. Em 38 anos de democracia temos sensivelmente 18 anos geridos por PS e 18 anos geridos por PSD. UAU! TKO!

Portugal teve a sorte de entrar na União Europeia. De receber milhares de milhões de euros de apoios ao desenvolvimento. Que foi realmente muito apoiado. Só que o dinheiro foi também desbaratado a uma escala magnânima. Milhares de milhões de desperdícios em desvios mais ou menos claros. Só que vivia-se bem! Corrijo! Vivia-se MUITA BEM! E o povo comia, bubia, ria e cantava. Dava para todos. Para mostrar trabalho e para roubar. Que se lixe.

Em Oeiras e na Madeira, alvos de maior turbulência mediática e escarafunchar de cambalachos, vive-se assim descaradamente há décadas sem que o povo se indigne. São os focos de atenção perfeitos. Não só servem de manobra de diversão como não provocam danos reais aos visados que se mantêm em funções alegremente e com júbilo dos seus eleitores.

Só que agora a torneira fechou, a fachada ruiu, os media são megafones de lobbies políticos e económicos, o sector energético é privado, as águas de Portugal hão-de ser, as estradas edificadas não são baratas de usufruir, a educação pública não tem condições para todos, a saúde tornou-se um simples centro de custos, o emprego precário é uma benção dos deuses e temos velhos e desempregados a mais que corroem a sustentabilidade da segurança social. Décadas de crescimento contínuo do nível de vida desabam em apenas um ou dois anos. Volta-se a ter fome. Pode-se conversar em ajuntamentos públicos mas não há alegria nas conversas. Volta-se a não ter esperança. Instiga-se os que estão mal a emigrarem. Culpa-se a classe política.

A nossa democracia está uma merda. Mas a culpa não é dos partidos. Esses são apenas os testas de ferro, representantes dos cidadãos que os elegem. Nunca faltaram vias alternativas. Só que as coisas estavam bem apesar de sabermos que roubavam. Estamos comodistas e temerários de seguir por ângulos que não os da Direita, Centro ou Esquerda.  Já lá vai o tempo em que armazenávamos provisões nos porões, soltávamos as velas e olhando para terra, num primeiro fôlego de saudade, nos deixávamos levar pelos ventos sem saber onde iríamos parar e o que iríamos descobrir. E a ousadia de enfrentarmos exércitos vizinhos mais numerosos nem que à força de pazadas de padeiro? Seremos capazes de reconhecer e reagir a exércitos inimigos internos que precisem de igual tratamento? Ou estaremos já formatados por décadas de facilitismo e boa-ventura?

Agora temos medo e vergonha. Vergonha de ousar votar em desconhecidos sem um CV bem elaborado e sem o amparo de avalanches de referência em canais de media. Temos preguiça de procurar informação noutros canais que não a TV, rádio e jornais que montam as suas hábeis campanhas de condicionamento de pensamentos e opiniões. Assustam-nos discursos disruptores e fraturantes que apressadamente catalogamos como utópicos para nos serenar a consciência e justificar a não adesão e não lutar por aqueles ideiais.

Somos COBARDES por não ir votar ou votar em branco. Ambos são levar ao colo os moços do costume.

A próxima revolução não tem de ser na rua nem no parlamento.

Tem de ser na nossa cabeça tacanha.

Se não nos identificamos com nenhum dos partidos só temos duas opções. Ou infiltrarmo-nos na política e tentar fazer passar a nossa visão ou escolher aqueles com que mais nos identifiquemos mesmo que isso não aconteçaa a 100%. A democracia veio pôr fim à ditadura mas é curioso que não exista governo que se assuma capaz de governar em condições sem ter maioria absoluta. Se não a teve por algo foi. E tê-la alavancada em 40% de taxa de abstenção é uma mentira só possível por quem contibui para essa percentagem.

Democracia é participação.

Não usufruir dela é demonstrar-se confortável com uma qualquer ditadura que não passa apenas por uma forma de regime político como se verifica nos dias de hoje.

25 de Abril todos os dias! Até às próximas eleições…

Nomeação do 1º Lord do Almirantado

A polémica instalou-se no Reino.Se as orientações provem do ministério do mar, e apenas dele, a bondade e mais-valia do novo modelo de gestão é questionada: “se não existe necessidade de conciliar interesses, se a cadeia de comando é simples e as ordens claras, porquê ampliar o almirantado e porquê nomear um 1º lord?”

Modelo de gestão do Almirantado

Julgamos óbvias as respostas:

1) A resposta à primeira questão, concretamente porquê nomear mais Almirantes em tempo de crise orçamental e financeira é que tal decorre da complexa rede de Ancoras e correntes em toda a frota, pelo que o princípio “todos seremos poucos e toda a ajuda é bem-vinda” se aplica na perfeição. Em breve ficará inequivocamente provada a eficiência deste subtil aumento de custo.

2) Se o Reino tem dois soberanos, Rei e Rainha em coligação (excepto colonias ultramarinas), o Almirantado será ajudado pela função conciliadora do 1º Lord. Não obstante a cadeia de comando simples e directa, reportando directamente ao Ministro do Mar em questões de gestão de frota, é relevante para o reino a atenção ao detalhe na venda de todas as embarcações de recreio que a Armanda está comprometida a alienar.

Viva o Reino, a Armada e o Almirantado!

A pesca da Palmeta

A cota de pesca de palmeta no mar do norte atribuída ao Reino excede a capacidade da frota pesqueira. A traineira lusa há muito que deixou de ser referência tecnológica e/ou de ecoeficiência.

A vasta frota pesqueira do Reino de Portugal

Quanto às tripulações, quais desclassificados seres, pouco a nada haverá a dizer. Pobres analfabetos, entram a bordo em busca do pecaminoso prémio por desempenho. Já sobre o Mestre de traineira, ainda que pouco, algo haverá a dizer. É o chefe, é o líder. Sem ele, não há pesca. Nem muita nem pouca, não há! Sentado ao leme, na ponte, assume a responsabilidade de zelar pela embarcação, pelos resultados e até mesmo pela vida da tripulação.

Subindo na hierarquia, o armador, ou dono da traineira é por vezes o Mestre da sua própria embarcação. Quando assim é, está a bordo, partilha riscos e proveitos, e não vê pecado nos prémios por desempenho. Sabe que cada membro da tripulação com ele partilha risco, e por mais desclassificada a pessoa, merece o seu prémio, pois esta exposição ao inesperado é em si uma forma de empenho, um vinculo para com todos a bordo.

E quando o armador não é o Mestre e não está a bordo? Pois bem, nestes casos, a preocupação maior é a eficiência do custo. As variáveis a bordo são secundárias em relação às variáveis em terra. Significa que o custo do Gasóleo dita ajustes “inevitáveis”.

Como fazê-lo nestes casos? Investindo ou cortando?

Investir: melhorias na embarcação, visando a redução do consumo; em meios de detecção de pescado, aumentando a eficácia por dia no mar, e consequentemente reduzindo custos operacionais; na formação e melhoria de procedimentos das tripulações; Não, nenhuma é considerada. Porquê? Porque obrigam a assumir risco! A solução óbvia é cortar, e fazê-lo onde é mais fácil, ou seja, nos prémios por desempenho. Afinal a remuneração do Mestre é intocável. Já os prémios de quem partilha risco, são apetecíveis por tão fáceis de cortar.

O corte é indolor para este tipo de armador, pois ignora por completo o que significa embarcar. Quando navega, só faz por recreio e apenas em dias especialmente escolhidos para o efeito. Julga-se conhecedor de uma realidade sobre a qual não compreende (nem imagina) como está dependente da coragem, ímpeto e empenho de Mestres e tripulações. Tem ainda um aliado inesperado: a rude moral lusitana, a qual atribui um estranho valor pecaminoso ao prémio por desempenho, como se este do demónio emana-se. Ao trabalho não devemos associar desempenho, vontade ou resultados. Não, a Lusa moral diz-nos que o importante é nivelar por baixo, diz que não só não se deve premiar o desempenho, como tudo deve ser feito para proteger a abstinência e a mediocridade.

Minimiza-se o risco, cortando proveitos a quem o está preparado para assumir e partilhar o dito risco. Cumpre-se desta forma o objectivo de curto prazo, relativizando os impactos de médio ou longo prazo: quando a remuneração da Tripulação é exclusivamente dependente dos factores que esta não controla, como o preço do gasóleo, resigna-se, acomoda-se e dedica-se à fé, e não ao trabalho. Os Mestres reformam-se sem transmitir o saber, por não existir a quem transmitir.

De tanto risco conter, nenhum ficou para correr! A frota degrada-se, perde irremediavelmente a competitividade. O Armador muda de negócio…

O Bacalhau dos Pobres

A Palmeta agradece!