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Para quando a necessária tempestade política?
É impossível ficar indiferente ao nível de destruição e provação a que está neste momento sujeita uma grande parte da nossa população. Portugal não está habituado a tempestades deste nível, o que infelizmente potenciou o impacto. Todos vemos nas notícias o resultado dos ventos ciclónicos. Alguns, como eu, terão tido um contacto mais directo, apesar de distante, com moradores das zonas afectadas e é muito triste sentir o desalento e desorientação em que foram mergulhados.
O trauma humano
Muitas pessoas passaram pela ruína das suas habitações, outras viram-se no meio de um cenário de guerra, onde imediatamente foi sentida a falta de serviços básicos como água, luz, comunicações e abastecimento de combustível e alimentos. Pior do que não saber o que se passa fora da “bolha” física e local que lhes foi imposta, é sentir que nada chega do exterior, como se estivessem ao abandono e esquecimento.
Obviamente a magnitude do evento não permite a resposta global, mas essa racionalidade não é suficiente para fazer esquecer esse sentimento e a constatação de que há momentos em que só podemos contar connosco e com os que estão em nosso redor.
Ao imediatismo da necessidade de sobrevivência, junta-se o fantasma da incerteza quanto ao fim da provação (já que as chuvas torrenciais não param) e ao futuro financeiro e laboral, pelo que é preciso também zelar pela saúde mental nas áreas afectadas, criando as medidas necessárias para o proporcionar.
O real impacto económico
Apesar de as TVs focarem o que se passa na cidade de Coimbra, o território severamente afectado alarga-se no mínimo à maioria dos distritos de Leiria, Coimbra, Santarém e parte de Castelo Branco (havendo outros distritos afectados consideravelmente).
Falando apenas nos três primeiros estes representam 12% a 15% do PIB nacional, com cerca de 1,3 milhões de habitantes e 750.000 trabalhadores. É indiscutível que o foco deve ser a recuperação e regenaração de comunidades e economia, custe o que custar. Mas vai fazer mossa nos anos vindouros.
Onde estão os planos de prevenção e acção?
No tema das campanhas de sensibilização relativamente a “alterações climáticas” e eventos extremos que irão assolar Portugal a bota não bate com a perdigota. Campanhas mediáticas justicam-nos enormes investimentos para preparar Portugal para o combater e prevenir, mas quando somos alvo de um real evento extremo percebemos que pode ser apenas propaganda.
Falha nas comunicações
Temos um sistema de telecomunicações para emergência e socorro baseado em antenas e fornecimento de energia que pelos vistos está altamente vulnerável, perdendo o pio exactamente nos momentos em que é necessário. Pior, a população perdeu todas as comunicações, a única viabilidade foi sintonizar sinais de rádio, o que foi feito por muita gente. No entanto isso só gerou indignação porque, esperando orientações e actualização sobre o que se passa no terreno, a fórmula era a mesma de sempre: música, entretenimento, notícias generalistas e futebol. Pelos vistos as ferramentas de alienação não têm o mesmo efeito quando foi activado o modo de sobrevivência. O que a população esperava era articulação de acções, ajuntamentos, mensagens de esperança, demonstração de progresso no terreno, o que teve foi uma desvalorização total da sua desgraça e ocupação da única ferramenta de comunicação com conteúdos totalmente inúteis e desenquadrados.
Existem soluções de recurso, por exemplo redes de walkie talkies prontas a distribuir e usar, que permitam ligar as populações próximas e agilizar a sua entre-ajuda evitando deslocações complicadas. Não faz sentido não haver prontidão local para casos de blackout de comunicações e SIRESP.
É preciso desenhar um circuito de informações centralizada que permita comunicar o que se passa dentro das zonas afectadas para o exterior e vice-versa. Para tranquilizar familiares e evitar deslocações em massa por impulso que podem ainda prejudicar mais a situação ao criar pressão acrescida numa zona sem condições.
Falha nas infrastruturas
É compreensível que partes da rede eléctrica, com décadas, estejam assentes em estruturas não preparadas para resistir às forças a que foram submetidas, inclusive há que reconhecer o bom trabalho no restabelecimento desta infraestrutura básica (61 postes de alta tensão foram derrubados). No entanto, há que questionar com muita veemência como é possível instalar telhados e estruturas industriais não preparadas para o que nos dizem vir a ser o cenário futuro do clima em Portugal.
Pior, os recentemente subsidiados painéis solares não resisitaram aos efeitos daquilo para o qual supostamente são uma medida preventiva. Um só exemplo, no parque industrial de Gaia, na Figueira da Foz, a empresa United Resins teve 800 painéis solares completamente destruídos. Em Ferreira do Zêzere, onde 85% das casas sofreram danos, estima-se que centenas de sistemas solares domésticos foram arrancados ou danificados por detritos projectados pelo vento. Posto isto será o solar a solução tendo em conta a sua vulnerabilidade para este tipo de eventos!? Significando que o dia seguinte é blackout garantido?
Falha na preparação
Obviamente as autoridades competentes deveriam estar preparadas para este tipo de cenários. Garantir comunicação a fluir para toda a população, ordenar fluxos de movimentação, organizar grupos de trabalho, etc. No entanto, também cada um de nós deve estar ciente que há momentos em que nos cabe a nós (re)agir. Saber o que fazer, ter mantimentos e combustível armazenados para x dias, estar preparado mentalmente para um cenário de blackout em que temos de nos relacionar e interajudar com a comunidade local. Essa preparação para a adversidade ou a catástrofe faz parte dos países normalmente alvo delas. Por cá os preppers são muitas vezes vistos como pessoas desequilibradas ou pessimistas mas talvez tenhamos de repensar os nossos programas escolares para introduzir tópicos de sobrevivência, resiliência e trabalho de grupo em condições extremas. Muitos vão ter essa aprendizagem agora, pela via mais dura, mas que nos sirva como reflexão para futuro pois é essencial para tornar estes momentos mais serenos.
A lentidão na decisão
Parece que tivemos um ministro lesto em fazer uma produção para as redes sociais, onde transparecia a sua dedicação e esforço, a partir de uma sala de crise constantemente ao telefone, vá lá que no terreno poucos lhe tiveram acesso por falta de electricidade ou comunicações, talvez por isso se tenha safo de um linchamento público, também compreensível nestes momentos.
Na TV assistimos a exaspero e desabafos dos que estão naquela penitência, nas redes sociais isso é ainda mais exarcebado com múltiplos posts de pessoas a partilhar a sua experiência, angústias e consternação. Na política assistimos à tacticidade do costume. Avaliação de estragos, definição de timings, polimento das declarações políticas, patati patata.
Não sei o que precisam para perceber que precisamos de decisões políticas de rajada, de preferência à mesma velocidade dos ventos que nos assolaram. Até ver o governo
- Activou rede de apoios de emergência com bens de primeira necessidade, alojamento e cuidados de saúde;
- Acelerou financiamento para recuperação urgente de infrastruturas;
- Vai providenciar indemnizações às famílias de vítimas mortais ou com lesões incapacitantes;
- Criou linhas de poio financeiro para recuperação de habitações, parques industriais e agrícolas;
O que é a resposta padrão a quaisquer eventos de calamidade, no entanto, tendo em conta a dimensão dos estragos, diria que o ideal seria
- Dar condições para quem o desejasse, vivendo nas zonas afectadas ou sendo familiar directo de quem aí habite, pudesse simplesmente pausar a sua actividade laboral, sem perda de emprego, para dedicação total à reconstrução da zona e comunidade. Com custas pagas pelo estado ou suspensão de responsabilidades relacionadas com empréstimos. Dar tempo e espaço ao refazer das vidas.
- Garantir a resposta necessária a todos os trabalhos de reconstrução que vão ser precisos. Será preciso deslocar empreiteiros? Usar a população local para fazer esses trabalhos? O sector da construção já é por natureza lento na resposta à procura, pelo que algo é necessário para acelerar.
- Ser implacável com quem comete pilhagens e roubos, seja directamente no terreno ou online com falsas campanhas de angariação de fundos.
- Até plena regularização de comunicações utilizar os canais de comunicação activos para maioritariamente comunicar sobre o que se passa no terreno, inclusive tempos de espera em bombas e supermercados disponíveis.
Isto foi o que me saiu a quente, aquele território precisa de tempo, foco e tranquilidade, certamente quem está a viver a situação terá bem mais e melhores sugestões do que quem está a ver de fora. Fica aqui o convite para o deixarem patente nos comentários.
Eleições quê?
Finalmente deixo um último pensamento. Se esta situação não estiver resolvida no prazo de uma semana que sentido faz haver umas eleições presidenciais que neste momento foram inclusive relegadas para segundo plano? Além desta população poder correr risco de não poder votar devido às circunstâncias, certamente na sua cabeça a eleição para a presidência é neste momento uma minudência. Respeitando o momento talvez estas devessem ser adiadas. Em último caso, se as entidades oficiais não tiverem essa sensibilidade, porque não uma abstenção solidária para que não se corra o risco de uma parte significativa do país não ter condições para expressar o seu voto?

Rembrandt van Vieira
Inquestionavelmente um dos mais talentosos, prestigiados e famosos mestres do período Barroco, Rembrandt ficou conhecido como o pintor da luz e da sombra, um artista que fez do realismo das suas obras uma constante. Este amor à verdade, esta capacidade genial de captar a essência — subtil ou grosseira — foi persistente ao longo de toda a sua vida artística. Traduz-se numa obra ímpar, não isenta de crítica. Alguns, sobretudo os classicistas, acusaram-no de preferir a fealdade à beleza, pois então, tal como hoje, o recurso a filtros, maquilhagem ou efeitos especiais disfarçava verrugas, cicatrizes ou rugas. Pessoalmente, alinho com David Hume: considero que a beleza reside nos olhos de quem vê, especialmente nos auto-retratos.
Hoje, vésperas de mais um acto eleitoral, somos confrontados com mais uma escolha difícil, marcada pela escassez de opções mobilizadoras. Seremos chamados a indicar quem sucederá aos afectos no cargo de maior magistrado da República deste — quase nonocentenário — Estado-nação, este cantinho à beira-mar plantado que chamamos casa.
De um lado, os típicos representantes de si próprios, das suas causas, interesses e vaidades; do outro, Rembrandt van Vieira, personagem-auto-retrato de todos nós: ridiculamente sonhadores e infinitamente capazes de sofrer e sorrir perante o absurdo. Ao contrário dos demais, é romântico na causa, simples nos processos e muito, muitíssimo generoso naquilo que de si dá. Indignados, alguns consideram a sua candidatura uma afronta, um acto de total descaramento e falta de vergonha. “Não se brinca com coisas sérias”, clamam. “O absurdo não tem lugar na democracia”, afirmam. Tenho dúvidas. Contraponho que nenhuma outra candidatura está isenta de descaramento ou absurdo, com uma única e decisiva diferença: todas se levam a sério, embora aquilo que nos propõem seja apenas mais do mesmo — e isso, todos sabemos, não resulta!
Estou grato a Vieira pela sua obra; foi sempre ar fresco em dias abafados. Perante a indignação que a situação exige, o Candidato é a única alternativa viável à abstenção — uma rara oportunidade para manifestar desagrado mantendo a esperança. Num acto de consciência e indignação, Vieira ergue-se contra o conformismo e a rotina eleitoral. Terá o meu voto, ambos ilibados pelo inaudito e desarmante slogan: “Só desisto se ganhar”.
Debates Presidenciais em Foco: Análise dos Candidatos de 2026
O embate colectivo dos candidatos à presidência da república tem sido bastante curioso, firmando a emergência de um formato contemporâneo, em que a efusividade na expressão e os ataques a carácter e/ou competências de adversários, se sobrepõem à construção de uma ilusão de imagem pública e defesa de uma linha de presidência a exercer.
Aparentemente deixa de ser crucial transparecer sentido de estado, nobreza, imparcialidade e a capacidade técnica para o exercício da função. O foco está na beligerância, seja para com governo em funções, seja para com adversários na corrida à presidência. Como corolário podemos pegar por exemplo nos debates/combates entre Marques Mendes e Gouveia e Melo, ou de Catarina Martins e André Ventura, onde esta chega ao fim sem postura nem freios e abertamente declara que o debate serviu para tudo menos para focar em presidenciais.
Tendo em conta que amanhã se iniciam votações antecipadas deixarei aqui um parco contributo para ajudar a confudir os indecisos. A sequência reflecte o alinhamento das posições cimeiras da sondagem diária mais actualizada a esta data.
André Ventura
Vejo-o como o rei sapo, com uma língua muito forte, capaz de enormes saltos em qualquer direcção. Veste a capa da defesa dos portugueses de gema, verbalizando sentimentos generalizados gerados por políticas do passado algo permissivas e aceleradoras de marcante transformação social e cultural.
É sem dúvida demolidor nos embates um para um. Foi apanhado de supresa pela cavalgada na preferência de voto, habilmente transformando o que seria um exercício alargado de tempo de antena extra numa fórmula única de dar a pedrada no charco do sistema. Porque o sistema democrático via legislativas é muito lento, tem o handicap da menor cobertura mediática dada ao seu partido, a governação só seria viável com maioria absoluta e mesmo que eleito exigiria demasiada concertação e dependência do escrutínio do Presidente da República em exercício.
Há quem diga que a sua eleição seria uma grande machadada no Chega a nível de expressão parlamentar mas isso não é certo e temos várias figuras em formação e crescimento como facilmente se pode observar nos painéis de comentadores em rádios e televisões. O que seria certo é que ascenderia ao cargo de Presidente alguém que exerceria a sua influência sem complexos, estaria disposto a alterar a constituição e certamente poria a boca no trombone sempre que precisasse da força da opinião pública para vergar governo e instituições.
Vendo de fora preferia que caso os portugueses lhe entendessem dar uma oportunidade que começasse pela governação. Isto porque apesar de tudo seria um cenário onde poderia ser destituído por acção presidencial. Se for directamente para Presidente da República é como se saltasse do campo de treino directamente para o controlo da arma atómica (a capacidade de destituir governos).
O Presidente da República em Portugal não pode ser demitido por ninguém, pois não tem responsabilidade política perante outros órgãos; ele pode apenas renunciar ao mandato por vontade própria, dirigida à Assembleia da República, ou ser afastado em caso de impossibilidade física permanente, verificado pelo Tribunal Constitucional. A Constituição Portuguesa assegura a sua independência, com atos não anuláveis pelo Tribunal Constitucional, embora possa dissolver o Parlamento ou demitir o Governo em certas circunstâncias, segundo o artigo 133º da CRP.
António José Seguro
Confesso que o via como mais um cromo do costume até que vi como se aguentou no debate com André Ventura, julgo inclusive que a sua postura e capacidade de anular as técnicas de desorientação e atropelo normalmente usadas pelo Ventura fez escola para capacitar os outros candidatos de melhor defesa contra elas. Por um lado demonstrou capacidade de enfrentar momentos tensos e adversários beligerantes, por outro se o Ventura não tinha “podres” constrangedores sobre a sua vida política é porque realmente pode ser dos políticos com menor poluição moral.
Acho interessante ter iniciado candidatura fora do PS e mais tarde obter apoio do PS, que foi conquistado e não natural, e assumir plenamente as decisões que tomou como oposição durante período da Troika bem como de ter aberto as eleições do PS a simpatizantes e com isso perder liderança para António Costa. Não se envergonha, não se arrepende, não demonstra rancor público.
Foi de todos sem dúvida o menos atacável a níve pessoal, é beliscado com posições do PS mas sendo esta uma eleição com foco no individual acaba por sair incólume. Este é para mim um pequeno sinal de alguma virtude e até respeito por opositores. Provavelmente o que transparece a maior aura de sentido de estado mantendo-se estóico na sua armadura em pleno centro do furacão eleitoral.
João Coutrim Figueiredo
Bem falante, ideias ordenadas, mas a sua linguagem corporal e algumas expressões (e outdoors) evocam em mim a imagem de um certo narcisismo e deslumbramento. Julgo que é o único defeito que lhe encontro reconhecendo-lhe a capacidade técnica para discutir qualquer tema e empenho para exercício da função. Tem elegância mas falta-lhe ser um pouco mais aguerrido e vigoroso parecendo estar sempre num discurso intelectual e tecnicamente perfeito mas com pouca emoção. Seria interessante vê-lo numa segunda volta com alguém com as mesmas hipóteses de ser eleito para um último escrutínio do seu perfil.
Henrique Gouveia e Melo
Apesar da péssima gestão do timing para anunciar candidatura começou embalado na imagem de “salvador da pátria”, construída na era COVID, mas rapidamente começou a perder gás quando começou a ter de falar mais e os outros candidatos iniciaram as suas dinâmicas de campanha. A pressão fez o que sempre faz, trouxe ao de cima o verdadeiro carácter, passando de choninhas sorridente com discurso vago e de lugares comuns, a almirante beligerante que assume tempo de guerra e torpedeia os seus adversários mais próximos com o arsenal à disposição, sem qualquer pudor. Revelou-se um completo homem elástico sendo capaz de dar golpes a vários adversários em simultâneo.
Diz ser um candidato pela positiva mas o seu discurso assenta em medo e receio pelos “tempos difíceis que se avizinham”, insinuando que a evolução da geo-política requer alguém com conhecimentos militares no mais alto cargo da nação. Ao invés de enaltecer e detalhar as suas qualidades individuais, coloca em causa as competências e carácter dos adversários. De alguém que se diz supra-partidário e com um sistema de valores acima dos políticos convencionais a sua postura é algo antagónica e por exemplo nada similar à referência de um Ramalho Eanes.
Subjectivamente a sua figura não transpira transparência, sempre rodeado de cábulas e lenga lengas a debitar, agindo como um militar programado e não um candidato presidencial preparado. Ao mesmo tempo não me posso esquecer de que quando teve poder foi várias vezes arrogante e opressivo para com subordinados. Por exemplo quando liderava a logística da vacinação poderia ter sido mais pedagógico ao ter de lidar com aqueles que decidiram não vacinar-se, ao invés disso apressou-se a rotulá-los de negacionistas e pior, curiosamente esse milhão de portugueses por aqui anda e certamente não votará em alguém que ao vez de tentar informar ou debater simplesmente decidiu discriminar a minoria da época. Outro exemplo é o famoso incidente com a tripulação do NPR Mondego que se recusou a embarcar num navio sem condições para navegar. Demonstra que ou é alguém sem a necessária abrangência para discussão inclusiva de temas complexos ou é alguém que simplesmente cumpre missões endereçadas indepentemente do contexto em causa e danos colaterais.
Luis Marques Mendes
Diria que neste momento é o homem de lama invisível. Isto porque foi quem mais arcou com o lançamento de esterco por parte dos opositores. Não sei se foram novos factos ou só repescagem de histórias conhecidas, mas pegaram e destabilizaram. Dos lugares cimeiros parece o mais distante do combate, no último debate colectivo foi notório o seu constrangimento e desorientação, com frase estranhas como dizer que certamente tinha errado e injustiçado muito no passado e que pedia desculpa a quem tivesse sido visado. Tive pena de o ver, focou-se no preparo para o discurso do politicamente correcto e formato de embates directos de há 10 anos atrás, foi completamente atropelado pela nova era da comunicação em campanha.
Fica cabalmente demonstrado que sem contraditório é um mestre na oratória e exposição analítica dos acontecimentos mas que não tem capacidade de entrar em frente a frente aguerrido e confrontacional. O próprio decidiu antecipar novos ataques, com uma suposta transparência voluntária, que evidenciou ter beneficiado muito dos seus contactos e influências obtendo rendimentos astronómicos em simples actividade de “consultoria”. Um hara-kiri forçado pelas jogadas dos adversários.
Pelo aumento da representatividade da vontade e sentir dos portugueses
Claramente temos a população portuguesa divididade de forma muito equitativa entre estes 5 candidatos. O que quer dizer que para quatro quintos da população a escolha do Presidente na segunda volta será de recurso, o mal menor. Esta parece-me mais uma falhar da democracia, acabar por concentrar a diversidade de visões para a presidência numa única que apenas agrada a uma pequena parte dos portugueses. Poderíamos melhorar isto facilmente, bastaria colocar uma regra para que qualquer candidato que atinja os 10% de votação na primeira volta tenha de obrigatoriamente fazer parte do futuro concelho de estado. Desta forma forçariamos a consideração da voz e sentir de parte significativa dos portugueses e o aumento do escrutínio sobre potenciais abusos de poder uma vez assumido o cargo. Fica a ideia.
Bom voto se decidir votar mas acima de tudo uma boa vivência em máxima soberania individual.

Amarração de Amor ao Serviço Público
Depois da disrupção de 2019-2022 finalmente estabilizámos no marasmo de sempre, com o país encalhado nas más condições dos serviços públicos de saúde, educação, justiça e transportes.
É enorme a tolerância de governantes e administração pública para com a deterioração dos níveis de serviço e insatisfação dos seus funcionários, relativizando para um “não é assim tão mau como querem fazer crer”. Em resposta crescem o peso dos privados em educação e saúde, o tempo de espera para decisões judiciais, o recorrer a viatura própria nas deslocações quotidianas.
Para resolver os graves problemas existentes precisamos de gente capaz e sensível que, mais do que dominar questões procedimentais, protocolares, de gestão ou administrativas, saiba na pele o que significa ser utente do serviço público, em todas as suas valências. Como podemos ter confiança em decisores, gestores e administradores que, alicerçados na sua esfera de influência ou no seu poder financeiro, contornam todas as dificuldades porque não estão para se melindrar?
Assim sendo deixo aqui uma linha orientadora que poderá salvar o serviço público, seja no facultar das condições necessárias para o seu exercício, seja na devida compensação e respeito aos profissionais que o asseguram. É muito simples. Um decreto de vinculação obrigatória à utilização exclusiva dos serviços públicos de todos os agentes políticos, governantes, administradores públicos e sua assessoria (englobando desde as chefias de topo às chefias intermédias), por si e por todos os membros da sua família directa, sem qualquer priorização ou discriminação positiva face a restantes utentes.
Imaginem. A sua prole a ser forçada a estudar em escolas e universidades públicas, a terem de agendar consultas no SNS respeitando as filas de espera em vigor, a serem privados de viaturas atribuídas tendo de se deslocar usando a rede de transportes públicos. É duro? Sim, mas precisamos de reeducar as nossas “elites” para que voltem a sentir o pulso à vida real das pessoas comuns. Só assim teremos confiança que agem pelo interesse comum, que neste caso é obrigatoriamente o seu.
Relativamente à justiça o caminho seria o inverso, deveria ser dada prioridade de investigação e tramitação a todos os processos que envolvam estas pessoas chave. Se necessário até criar unidades próprias de investigação, despacho e julgamento, com sessões registadas e conclusões sumárias disponibilizadas publicamente para fácil referência futura. Roça o incostitucional mas infelizmente só este acelerador e nível de transparência pode desmontar os artifícios legais utilizados para gerar atrasos entrópicos e a condução de processos à prescrição.
Com este nível de amarração, teríamos a certeza de que só seriam candidatas e executoras destes cargos pessoas 100% dedicadas e interessadas, que iriam aplicar todo o seu amor e carinho no desenvolvimento e aumento da robustez dos nossos serviços públicos. Fica a ideia.
PS – não estamos dormentes mas sim mais activos, num outro formato na plataforma Telegram
Tribalismo viral
Tenho dado conta de que com o passar dos dias o confinamento tem resultado em cada vez maior refinamento ideológico.
Depois das eleições assistimos nas redes sociais à abertura da caça ao facho, em que vários foram os convites públicos de desamigamento Facebookiano voluntário, endereçado a quem tenha ousado votar no Chega, culminando num pedido formal de ilegalização de um partido “com ideias perigosas”, por parte de uma candidata vencida que o tinha prometido caso fosse eleita.
Patriotas, activistas, defensores da liberdade lusa, não hesitam em censurar e oprimir uma força política diametralmente oposta. #$%&%! Não fosse o confinamento era certinha uma guerra civil para limpeza ideológica!
Que tristeza considerar que o perigo está na expressão de certas ideias. Que desconsideração pela liberdade em ser bronco. Ser bronco não é fácil nos dias de hoje, deu muito trabalho passar por um sistema de educação, conseguir a inserção num mercado de trabalho, integrar a adoção de um modelo de sociedade onde a realização pessoal assenta no consumismo, voyeurismo e narcisismo egocêntrico. Foram anos de participação num projecto político e económico, construído por forças ideológicas benevolentes, resultante num grande número de mártires sociais amparados por suporte de vida em contínuo. Como poderá esta fórmula de sucesso ter resultado num terreno fértil para implantação de um egóico, divisionário, discurso de ódio?
E se a sociedade portuguesa decidir usar a democracia para valorizar forças normalmente associadas à sua destruição? Não será mais vantajoso à sociedade saber com o que conta? Dar expressão parlamentar ao que é o sentimento de parte significativa dos eleitores? Não seria mais perigosa a insurgência inesperada de força clandestina crescente por impedimento preventivo da sua representatividade política? Não seria anti-democrático, ou pior, uma maquilhagem da sociedade real, aplicar limitações aos possíveis resultados nefastos de uma plena democracia?
Renegar os que desesperaram é atitude fraternal? Desrespeitar os resultados eleitorais não é coisa de facho? Findar o diálogo por pura cegueira ideológica não é coisa de bronco? Temer ideologias é demonstrar fraqueza, uma descrença absoluta nos valores e ideais opostos, como se não houvessem argumentos cabais capazes de desconstruir populimos oportunistas.
O distanciamento social está a quebrar a sociedade. Da deriva num oceano de gente, em constante troca de ideias e experiências, fomos amedrontados, acossados, reduzindo a navegação aos que nos são mais próximos, alguns chegando mesmo ao pleno isolamento em naufrágio individual. Por força das circunstâncias a nossa tribo foi reduzida, com isso prejudicando a nossa tolerância, sabedoria e ponderação. A abertura de horizontes tem sido tentada no mundo online, aumentando os que são reféns de algoritmos ilusórios, criadores da ideia de que o “meu” sentimento é o sentimento de uma maioria pujante, dando força e alento para rugir, censurar, obliterar de forma ameaçadora sem ter noção da fragilidade dos seus alicerces.
Sei que pareço um
ladrãofacho…Mas há muitos que eu conheço
Que não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço
Adaptação do original de António Aleixo (sem facho e sem rasura)
Updating…
Tipicamente, um dos mais entediantes e banais momentos dos nossos dias começa naquele instante em que o nosso computador, tablet ou telemóvel nos diz que necessita de uma actualização. Defraudados no nosso ímpeto de acesso, desapontados com esta faceta menos simpática da tecnologia, anuímos ao aborrecimento em troca da alegada melhoria, seja desempenho, segurança ou correcção de anomalia entretanto descoberta. Evolução a cada actualização, o equipamento torna-se mais rápido, mais capaz e seguro, mas não lhe é acrescentado valor, tão só uma sucessiva (nunca acabada) supressão de defeitos e fragilidades, desejavelmente ao ritmo que são detectadas, mas em rigor apenas e só à medida que a implementação se torna economicamente viável.
Ora, não obstante o nosso empenho em actualizar sistemas operativos, antivírus e firewalls, os nossos equipamentos nunca estarão 100% imunes. Por exemplo, neste preciso momento, a sua máquina pode já estar contaminada com um vírus “ainda sem nome”, cuja acção é imperceptível. Não sendo conhecido à data, não significa que não existe, apenas não foi detectado. Tão pouco se saberá como se transmite, consequentemente a forma como ocorreu o contágio. Terá entrado num email, numa actualização de um programa gratuito ou terá sido naquele site apagado do histórico de navegação?
Este mesmo vírus, sendo aparentemente inofensivo para a sua máquina, poderá criar problemas complicados, quiçá fatais, a equipamentos mais antigos ou frágeis, situações em que a derradeira falha será diagnosticada como o natural e expectável fim de ciclo de vida.
Contudo, o vírus “ainda sem nome” poderá entretanto manifestar-se num importante servidor central de uma qualquer organização relevante, dotada de poderosos recursos técnicos e para a qual possa constituir ameaça real. Nesse mesmo dia, o vírus será baptizado e classificado como “Novo”. Dias, senão horas depois, a sua definição constará de todos os antivírus deste mundo e consequentemente terá início uma vertiginosa contagem de infectados. Face ao aparente ritmo de contágio, assustados ou explorando uma oportunidade de negócio (qual bug do milénio), talvez seja declarada pandemia…
Psicologia do Cumprimento de Cenário
Lançado em 1982, o USS Vincennes (CG-49) foi um Cruzador da Classe Ticonderoga, terceiro navio da US Navy equipado com o sistema de combate Aegis. Em 1988, em plena guerra Irão-Iraque o navio foi enviado para o Golfo Pérsico, missão durante a qual se tornaria tragicamente célebre, ao despropositadamente abater um avião comercial a 3 de Julho de 1988. A aeronave, um Airbus A300 da Iran Airways, matricula EP-IBU, realizava o voo 655, com origem no aeroporto de Bandar Abbas no Irão e com 290 pessoas a bordo. Nenhum sobreviveu.
Importa explicar que o aeroporto em causa também é utilizado pelos militares iranianos. Acresce que a região era, é e será um dos pontos mais “quentes” do planeta (assim continuará enquanto o mundo se mover a petróleo), pelo que o contexto em que o navio operava era bastante hostil, logo propenso a precipitações e mal-entendidos. Como sempre acontece nestas tragédias, as nações envolvidas trocam acusações, negam responsabilidades e apresentam dados contraditórios. Qualquer entendimento, reparação de danos ou pedido de desculpa leva anos, podendo até nunca acontecer. No caso, as famílias das vítimas foram indemnizadas pelos Estado Unidos da América, os militares envolvidos foram condecorados e nunca foi apresentado nenhum pedido formal de desculpas. Para a história fica a explicação que foi dada para o sucedido – Scenario Fulfillment, em português Cumprimento de Cenário, i.e., o fenómeno psicológico que precipita a concretização das condições exaustivamente treinadas: Perante situações similares, os automatismos tomam o controlo do discernimento. Assim foi, aquilo que a guarnição e o comandante viram nos seus monitores não foi aquilo que o sofisticado sistema Aegis lhes mostrava. Reagindo ao treino que receberam, tomaram a decisão que deles se esperava.
Por vezes este tipo de fenómeno ocorre no conforto das nossas casas, quando mesmo sem todos os factos, tomamos como certo aquilo que os dados não confirmam.
O Aprendiz
O Sr. Chega disse Basta! Basta do Chega? Ambas, embora acabe por não ser nenhuma! Confuso? Nem pensar, é produto mediático. Hoje dizem-se “Experiências Sociais”, outrora chamavam-lhes “Reality Shows”. A media é mesmo assim, uma indústria que se reinventa sistematicamente. Uma perpétua transformação, que tudo mantém igual, perfeitamente imutável. Aos mestres deste mundo da mudança, chamamos Produtores. O mestre de todos os mestres, é aquele que para além de produtor, é o protagonista. Ninguém como ele domina o momento mediático.
Diz o que pensa ou aquilo que o seu alvo quer ouvir? Ora, frases há, que pela sua simplicidade, resultam sempre – “É uma vergonha” exemplifica bem esta formula de sucesso. Quem disser o contrário é conivente, é beneficiário do sistema, é um situacionista. Bem, se tudo fosse perfeito no nosso país, fosse esta uma terra de equidade, justiça e bem-estar, sem burocracia, corrupção e compadrio, então garantidamente não teria audiência. As sondagens demonstram-no à saciedade. “Um escândalo!”? Não será sempre? Obviamente que sim.
Eis a genialidade do modus operandi – apelar à indignação que habita dentro de todos e cada um dos portugueses, aquilo que faz de nós uma “colectividade pacífica de revoltados”. Claro que se ao invés de Torga, citar Eça, dispara nas intenções de votos. Julgar é sempre mais fácil que reflectir. Haja polémica! Na falta dela, perante a escassez de ajudas, ele próprio a criará! Dirá, “Basta!”. Deixará o palco político, a ribalta mediática? Nunca! Demissão logo seguida de candidatura. Uma espécie de noite das facas longas, mas à luz do dia e sem facas. Apenas um sublinhar de quem manda. Extrema-direita? Sem doutrina coerente, é simplesmente um déspota, e no que à media e à comunicação moderna diz respeito, bastante esclarecido.
Nem O Aprendiz original se teria lembrado de algo tão brilhante como despedir-se a si próprio.
Serena, Katar Moreira
Serena, Katar Moreira, disputa com a direcção do Livre o derradeiro ponto do primeiro Set. Anunciado o Set Point, fez-se silêncio, apenas se ouve o bater das bolas no fundo do corte. Ninguém sobe à rede. Entretanto, o plano de jogo não foi cumprido, o treinador diz-se surpreendido, os fãs mostram-se profundamente desiludidos. Errou no serviço, fez dupla falta: não só se absteve no voto de condenação como falhou a pancada mais emblemática do seu jogo, a Lei da Nacionalidade. Erro de principiante, a falta de pé ao servir poderá eliminar a tenista logo na primeira ronda do torneio.
Resta saber quem se está a tentar ver livre de quem…
A diversidade na representação parlamentar é bem-vinda, quando mais amplo o espectro, melhor. Contudo, a regeneração do sistema político por vezes começa pela regeneração das próprias forças regeneradoras, tumulto que poderá muito facilmente conduzir à sua própria extinção. Tipicamente o eleitor que neles vota é aquele que não se sente representado pelo sistema dito tradicional, tem expectativas elevadas, desiludi-lo é letal. Assim foi com o “Partido dos Reformados”. Ora, quando a eleita não marca a agenda pelo conteúdo, mas sim por sucessivos episódios de superficialidade, como sejam indumentárias de assessores ou considerações de desamor em debates quinzenais, não se lhe augura grande futuro no exigente mundo do ténis profissional. Foi tempo perdido em faits divers, uma presença em Court desperdiçada. A oportunidade para uma primeira boa impressão foi arrasada.
Pior só se resolver a frustração com a cartada do racismo.
And Now For Something Completely Different: OE2019
O que levará alguém a abdicar de uma vida normal e abraçar a vida circense? É sabido que o mundo é das crianças e talvez por isso se diga que os palhaços são as estrelas da companhia, mas nem só de gargalhada se faz o espectáculo. Outros artistas brilham, tais como acrobatas, contorcionistas, domadores de feras ou ilusionistas, mas tal como o estado precisa de orçamento, o circo carece de malabaristas. Sendo um número já visto, a destreza exigida ao artista é competência rara e se o talento por um lado ajuda, por outro só a prática permite atingir a perfeição.
O público é implacável e não perdoa erros – Quando a cascata falha e a bola cai ao chão, a vaia é garantidamente estrondosa. Coisas da democracia, aproximam-se as Eleições Legislativas e muito embora metade do público não participe, todos tecerão a sua crítica, ou porque é eleitoralista ou porque não é suficientemente generoso e redistributivo. Provavelmente todos terão a sua razão, mas o seu a seu dono, o malabarista continua sem deixar cair nenhuma bola.
O verdadeiro artista é assim, sabe gerir a expectativa do seu público, sabe que não pode falhar, mas também sabe que nada supera o impacto de uma correcção in extremis, vulgo cativação. Orçamenta-se, mas não se gasta. Em finanças públicas, tal como no circo, usam-se estas técnicas antigas, gastas, mas eternamente actuais. É caso para dizer… e agora algo completamente diferente: absolutamente nada. Desmonta-se a tenda e parte-se rumo ao próximo destino. São nómadas!









