Arquivos de sites

Don’t Look Up

Neste regresso aos nossos clássicos do cinema, focamos o projector num sucesso recente: recuamos apenas uma mão-cheia de anos até ao filme Don’t Look Up. A obra de 2021, então simultaneamente classificada como comédia e drama, hoje poderá parecer sátira política, mas, na minha modesta opinião, sempre foi um ensaio sobre a estupidez cósmica. Questiona, sob múltiplos ângulos, quão fúteis conseguimos ser, sem dúvidas ou remorsos. Como espécie, munidos dos mais sofisticados meios tecnológicos, estamos no pináculo da nossa cegueira.

A história do filme, realizado por Adam McKay e protagonizado por uma verdadeira constelação de estrelas, relata-nos a forma como sociedades e governos lidam com a perspetiva da extinção — leia-se, o fim de algo tão precioso e raro como a vida dita inteligente. O absurdo governa o mundo, mantém-se inabalável mesmo quando a agenda entra em rota de colisão com os acontecimentos, ignorando que nenhum poder é infinito. A realidade, essa, quando adversa, é posta de lado. Vivemos num circo global e mediático, onde a ignorância extrema é valorizada e o conhecimento galacticamente ignorado. Não há risco, só certezas. Lançam retórica como se a sua vontade fosse lei da física, como se o universo se vergasse ao seu desejo.

A bravata perante o fim trágico — mesmo diante da possibilidade de extinção — alerta-nos, ou deveria alertar, para quão frágil a nossa existência é. Perante o cometa em rota de colisão com o planeta, mantemo-nos focados no umbigo, esse buraco negro da compaixão, onde toda a empatia se extingue no horizonte do ego. É precisamente aí que estamos centrados, sentadinhos ora no sofá, ora no carro, enquanto aguardamos na fila para abastecer, como se, de facto, o preço dos combustíveis fosse o verdadeiro problema. Não é. O problema é bem mais profundo e pode, caprichosamente, ser revelado pela superficialidade daqueles que se julgam senhores do cosmos. A sua envergadura é pequena, pequenina, e por isso se esforçam tanto para parecer grandes figuras. Nós, expectantes, assistimos à performance, ignorando que estes protagonistas poderão mesmo ficar para a história como os figurões de uma estória que ninguém ficará para contar.

Mais do que a dificuldade em agir decisivamente perante ameaças reais, o perigo reside hoje na incapacidade de agir racionalmente quando a realidade não vai ao encontro do desfecho súbito e definitivo, tal como idealizado. Aqueles que se julgam no Olimpo, perante a adversidade, não se contentam com o recurso à censura e à manipulação dos factos. Uma vez desmascarados da sua ilusão de invencibilidade, movidos pela sua fútil vaidade, vão, uma vez mais, provar que a arma dos fracos é a força — poderão, em breve, recorrer ao engenho dito tático, numa terceira demonstração do poder escondido dentro do átomo. Ao fazê-lo, dir-nos-ão que o poder destrutivo estava escondido, enriquecido pelo inimigo, e assim tentarão legitimar a ação tomada. Ante este plano de ação da fraqueza e dissimulação, agiremos como no filme: mesmo perante um perigo desta magnitude, continuaremos a discutir versões da realidade, cada qual confortável com aquela que convém à sua tribo. No entanto, a devastação neste cenário, não reconhecerá fronteiras. Tal como no filme, não existe abrigo ideológico nem refúgio geográfico. O imparável cometa, somos nós, crentes na dicotomia do “nós contra eles”, incapazes de compreender que partilhamos o mesmo planeta e como tal, o mesmo destino.

Rembrandt van Vieira

Inquestionavelmente um dos mais talentosos, prestigiados e famosos mestres do período Barroco, Rembrandt ficou conhecido como o pintor da luz e da sombra, um artista que fez do realismo das suas obras uma constante. Este amor à verdade, esta capacidade genial de captar a essência — subtil ou grosseira — foi persistente ao longo de toda a sua vida artística. Traduz-se numa obra ímpar, não isenta de crítica. Alguns, sobretudo os classicistas, acusaram-no de preferir a fealdade à beleza, pois então, tal como hoje, o recurso a filtros, maquilhagem ou efeitos especiais disfarçava verrugas, cicatrizes ou rugas. Pessoalmente, alinho com David Hume: considero que a beleza reside nos olhos de quem vê, especialmente nos auto-retratos.

Hoje, vésperas de mais um acto eleitoral, somos confrontados com mais uma escolha difícil, marcada pela escassez de opções mobilizadoras. Seremos chamados a indicar quem sucederá aos afectos no cargo de maior magistrado da República deste — quase nonocentenário — Estado-nação, este cantinho à beira-mar plantado que chamamos casa.

De um lado, os típicos representantes de si próprios, das suas causas, interesses e vaidades; do outro, Rembrandt van Vieira, personagem-auto-retrato de todos nós: ridiculamente sonhadores e infinitamente capazes de sofrer e sorrir perante o absurdo. Ao contrário dos demais, é romântico na causa, simples nos processos e muito, muitíssimo generoso naquilo que de si dá. Indignados, alguns consideram a sua candidatura uma afronta, um acto de total descaramento e falta de vergonha. “Não se brinca com coisas sérias”, clamam. “O absurdo não tem lugar na democracia”, afirmam. Tenho dúvidas. Contraponho que nenhuma outra candidatura está isenta de descaramento ou absurdo, com uma única e decisiva diferença: todas se levam a sério, embora aquilo que nos propõem seja apenas mais do mesmo — e isso, todos sabemos, não resulta!

Estou grato a Vieira pela sua obra; foi sempre ar fresco em dias abafados. Perante a indignação que a situação exige, o Candidato é a única alternativa viável à abstenção — uma rara oportunidade para manifestar desagrado mantendo a esperança. Num acto de consciência e indignação, Vieira ergue-se contra o conformismo e a rotina eleitoral. Terá o meu voto, ambos ilibados pelo inaudito e desarmante slogan: “Só desisto se ganhar”.