Category Archives: Ideias para o País

Por mais absurda a ideia acreditamos nela e no País!

Nobel do Orçamento

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Longa foi a espera, semanas de grande expectativa, inquietação e até alguma ansiedade, mas a Academia Sueca lá divulgou finalmente o novo prémio Nobel do Orçamento. Anunciado o vencedor, de imediato se intensificou a polémica e se extremaram posições entre apoiantes e oponentes. Os críticos atacaram a obra do artista, os fãs enalteceram. Será Literatura? Prosa não é certamente e a poesia, segundo sei, nem sempre é assim. Uma coisa é certa, presta-se a todo o tipo de ambiguidade e a muito pouca certeza.

Em rigor é uma obra incomparável – O Orçamento não é comparável com nenhum dos que o precedeu. Todas as generalizações viáveis, toda a especulação possível, todas as interpretações sustentáveis à luz deste ou daquele detalhe, subtil ou abrupto. Compreender o seu verdadeiro impacto é um exercício de sensibilidade, logo, absolutamente subjectivo. Talvez por isso me incline para a poesia. Deve ser isso que o galardoado documento é, poesia.

Bob Centeno, poeta de fraquíssimos dotes vocais, mas cujo virtuosismo como instrumentista muito tem surpreendido, lá conseguiu dar-nos música, uma melodia manifestamente banal, mas suficientemente harmoniosa para conjugar os graves acordes de Guitarra requeridos pelos parceiros da banda “a geringonça”, com as notas de Harmónica (vulgo Gaita-de-Beiços) tão agudas quanto o exigido pela Europa. Não é de direita, também não é de esquerda, nem de centro. Nem sim, nem não, antes pelo contrário. É um Orçamento de protectorado. Deixámos de ser uma província submissa, obediente e periférica para passarmos a ser uma região quase autónoma, paralisada e dependente.

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Caça ao guito

“Temos de perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro” terá sido porventura uma das frases mais infelizes da politiquice recente. A sua autora entretanto já  deu mil e uma explicações que procuram aliviar o peso da literalidade desta frase, no entanto, em seu redor, orbitam outros pequenos acontecimentos que só podem deixar inquietos estes privilegiados acumuladores.

O argumentos populistas mais utilizados pela esquerda são dois. Um é o de que o leque de contribuintes nestes segmentos é reduzido e tem de contribuir mais porque, hipoteticamente, se consegue acumular tanta riqueza deve-o a algum tipo de exploração (do sistema fiscal, da lei ou de pessoas). O outro é que com a nova receita se poderá por exemplo aumentar 5 € a todas as pensões abaixo de 500 €.

Estas medidas não são mais do que demonstração de fragilidades governamentais que resultam no explorar do elo mais fraco. Preferem rotular todos os acumuladores de riqueza como suspeitos a penalizar (porque em teoria lhes custará menos) ao invés de criar medidas, futuras ou mesmo retro-activas, que consigam acabar com a riqueza indevidamente acumulada por aqueles que verdadeiramente ludibriam o sistema, ou ter a coragem de cessar ou diminuir certas coutadas fiscais sobre quem explora o mercado português.

Mais, com este tipo de discurso e acção, cultiva na sociedade um confronto de classes, em que quem está longe dos patamares falados diz um “Apoiado!” com a convicção de que se o têm é porque são uns porcos capitalistas, no outro lado milhares dos abrangidos pelo estatudo de “acumulador de riqueza” sentem-se insultados por cumprir com as suas obrigações fiscais e ainda virem a ser penalizados por ter tido um comportamento de poupança mesmo no tempo de bonança.

Se existe tão grande clivagem entre determinados segmentos da população a culpa não será maioritariamente dos que estão em melhor situação mas sim dos que legislam e gerem orçamentos por forma a criar as condições laborais e sociais que conduzem à desigualdade.

Todo o princípio de caça à receita através da penalização dos mais abastados, que já cumprem um regime fiscal progressivo, torna-se ridículo a partir de certo ponto. E o argumento da distribuição da riqueza não pega, faria muito mais sentido que ao invés de se proporem a aumentar 5 € em todas as pensões até 500 €, pelo mesmo custo aumentassem 12 € em todas as pensões até 200 € e que concentrassem futuros aumentos de pensões apenas em escalões inferiores para que estes beneficiários abandonem a precariedade mais rapidamente.

Por fim recomendo também que no exercício da caça ao guito a esquerda se foque também naquela que é pretensamente a sua especialidade, a solidariedade social, sim porque para além da acumulação também a distribuição/desperdício de riqueza acumulada por outros (mais de mil milhões de € por ano para as IPSS) deve ser alvo de escrutínio apertado e quiçá seu redireccionamento para outros pontos de maior controlo e eficácia no combate pela igualdade.

A justiça e equidade social também deve ser exercida na governação, sem penalizar em demasia certos grupos a favor de outros, nem que apenas por princípio. Impeça-se o enriquecimento ‘sujo’ mas respeite-se o enriquecimento ‘limpo’ que já é devidamente taxado quando gerado e gasto. Caso contrário iremos caminhar num progressivo nivelar por baixo, em que quem está num percentil acima da média seja sempre visto como a próxima presa a abater para alimentar aqueles que, por desgoverno do país, desesperam e proliferam no limiar da pobreza.

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Braseiro Lusitano

Ao aterrar de umas férias frescas senti-me algo desorientado ao reentrar no nosso braseiro luso. Primeiro sinto no corpo as temperaturas a roçar os 40º, depois sinto na alma as notícias recorrentes de incêndios a lavrar florestas, terras e mesmo áreas urbanas. Isto com a desresponsabilização do costume, de supostamente haver pouco a fazer preventivamente contra o binómio, mão criminosa mais força da Natureza, que em anos atípicos como o actual é demolidor e incontrolável.

Decidi investigar um pouco o tema, deparando-me com números que demonstram que, de entre os países mediterrâneos Europeus, Portugal, apesar de ser o País com menor área florestal, disputa taco a taco, ganhando em muitos anos, o título de país com maior área ardida e maior número de incêndios por ano. São números de décadas que demonstram que apesar da nossa bravura na luta de terreno temos alguma brandura no estudo, compreensão e/ou aplicação de medidas eficazes que diminuam a ocorrência de incêndios no nosso território. O problema é global, em alguns países como Brasil, Indonésia, Rússia, Austrália, Estados Unidos, Canadá, com escalas exponencialmente maiores do que a nossa. Este será um dos poucos temas onde o factor escala nos favorece. Temos um território relativamente pequeno pelo que o seu controlo e ordenação deveria apresentar-se como um desafio superável ao invés de um inferno perpétuo.

Passo a uma desconstrução sumária do cenário actual.

Os bombeiros são parte importante da nossa protecção civil há mais de 650 anos, deverão existir  em Portugal aproximadamente 30 mil bombeiros dos quais aproximadamente 3 000 são profissionais, só 7% da sua actividade é relacionada com o combate a fogos, existindo para si um regime jurídico particular e uma enorme complexidade na sua organização e gestão.

Em termos de áreas ardidas a grande maioria é composta por mato e pastagens ou áreas florestais, diz-se que parte relevante são “terras abandonadas sem dono” que servem muitas vezes de acendalhas de grandes incêndios.

Quanto a meios e equipamentos foi feito este ano um investimento de mais de 70 milhões de euros, apesar das Forças Armadas fazerem parte do dispositivo de combate ao fogo a nossa Força Aérea não está capacitada para nele participar activamente com meios aéreos.

Passando por cima dos efeitos não quantificáveis de um fogo ficamos com aquilo que pode ser quantificável, os prejuízos económicos, que segundo estimativas do governo ascendem a mais de mil milhões de euros.

Continuam a existir variados interesses ocultos por parte de indústrias e sectores económicos que acabam beneficiados pela ocorrência destas calamidades.

Agora que temos aqui reunida a lenha para a fogueira é chegada a altura de pegar fogo à peça.

Relativamente aos bombeiros a situação é extremamente delicada pois são verdadeiros heróis e qualquer ‘revolução’ na sua estrutura pode ser vista como o colocar em causa do seu trabalho. É inegável o seu contributo para a sociedade, em todas as suas valências de actuação, mas realmente no enfrentar de fogos florestais de grande dimensão nota-se que falta qualquer coisa. Sejam meios, seja coordenação, seja formação, há algo que falha. É clara a prioridade de protecção a vidas, a habitações que culmina muitas vezes num deixa arder do resto. É isto que passa na cobertura mediática onde se registam com frequência queixas da população ou dos próprios bombeiros, mesmo que prontamente abafadas e justificadas como algo do calor do momento. Ser bombeiro é algo exigente em termos de tempo, do físico e de aspectos emocionais/psíquicos. Parece-me que nos dias de hoje, com o volume de ocorrências e as exigências da vida pessoal e profissional, o voluntariado puro possa causar problemas, se não ao nível do número de efectivos disponíveis pelo menos ao nível do seu estado individual de prontidão, da sua capacidade de resposta a todos os níveis em qualquer momento. Combater um fogo, com elevado grau de incerteza da situação e de risco para a integridade física do próprio bombeiro, será certamente muito diferente dos restantes 93% da sua actividade de voluntariado. Por outro lado existem as empresas empregadoras dos bombeiros voluntários potencialmente ‘lesadas’ até 1x mês por ano, já que o bombeiro tem direito a três dias dias por mês (pagos pela empresa) para exercício das suas funções e/ou formação, para além de se verem privadas dos seus trabalhadores durante o período de combate aos incêndios. Será que nos dias de hoje termos bombeiros estritamente profissionais não acabaria por ser mais vantajoso para todos os envolvidos? Isso até aparenta ser um desejo da Liga dos Bombeiros Portugueses, pelo menos para os seus efectivos desempregados que passariam a ser profissionais de uma forma encapotada. Não teria também um impacto positivo em termos da diminuição da taxa de desemprego?

Por outro lado parecer-me-ia útil ter uma unidade de bombeiros exclusivamente dedicados à prevenção e combate  a incêndios que pensem, estudem e lutem contra o fogo a 100% do seu tempo. Seria nela compilada toda a experiência acumulada, a nível nacional e internacional, tornando-se progressivamente na responsável pela coordenação no terreno em qualquer ponto do país. Naturalmente teriam também uma palavra a dizer na ordenação de todo o território florestal. Basicamente poderiam ser mantidos os Corpos de Bombeiros tal como estão hoje, mas extirpar-los em termos administrativos e de gestão, da componente de prevenção e combate ao fogo. Pensar os incêndios como algo sazonal e parcial não tem funcionado de todo, apenas a existência de sapadores florestais localizados tem-se revelado insuficiente, pelo que esta seria uma medida que delegaria numa entidade competente um estado de alerta permanente.

Relativamente às terras consumidas, muito mato e árvores, com uma unidade fiscalizadora, que poderia muito bem ser a acima indicada, rapidamente seriam identificadas as terras que não estão devidamente limpas podendo agir-se em conformidade. Como fazê-lo sem acarretar grandes custos quando o dono das terras não seja conhecido ou não tenha capacidade financeira para o executar? No caso de mato e pastagens seria simples, bastaria criar equipas de pastoreio com rebanhos de caprinos e ovinos que fariam a limpeza do terreno de forma barata e eficaz para além de ainda adubarem e revolverem o solo. No caso de outros tipos de massa combustível, não consumível por rebanhos, teria de se proceder a uma limpeza via trabalho humano que teria de ser suportado pelo estado, ou autarquia, sendo que aqui não me chocaria nada recorrer a grupos de voluntários, reclusos e/ou desempregados, devidamente recompensados por forma a baixar consideravelmente os custos comparativamente à contratação de serviços a empresas.

Para protecção de habitações e das copas das árvores deveríamos apostar em investigação tecnológica para diminuir custos de investimento em equipamento capaz de retardar, ou mesmo parar, fogos em zonas de alta densidade florestal. Por exemplo a construção de torres de água de alta capacidade que realizem a captação de águas pluviais no Outono / Inverno e tenham a capacidade de realizar a sua aspersão sobre as copas das árvores quando necessário, invenção de novos tipos de descarga de água por meios aéreos que sejam mais próximos de uma chuva contínua e prolongada do que de um largar de bomba aquática altamente concentrado e mesmo destrutivo, utilização de drones ou câmaras de alta precisão instaladas em torres eólicas que sejam atraídas por focos de temperaturas extremas por forma a antecipar ao máximo o envio de alertas, dotar as casas remotas de sistema de aspersão para o exterior a partir das suas paredes e telhados para que a sua defesa deixe de ser uma preocupação constante e prioritária sobre tudo o resto, etc. Como referido no início este é um problema mundial com tendência a agravar devido às alterações climáticas, o que quer dizer que é também um nicho de negócio emergente, sobretudo devido à gravidade de fogos recentes e suas repercussões ambientais e económicas em todo o globo. Ao invés de termos vários sectores económicos a beneficiar da ocorrência de fogos criaríamos novos sectores que beneficiariam da cada vez menor ocorrência de fogos.

Quanto aos meios aéreos parece que a única coisa a voar como deve de ser são os milhões de euros… nos últimos anos são frequentes ecos mediáticos da necessidade de mais ou melhores meios aéreos de combate aos incêndios. Acho um pouco estranho o não envolvimento da Força Aérea (FA). Compreendo que em termos técnicos existam condicionantes que o impeçam, poderá ser justificável se o custo de adaptação de um aparelho de aviação militar ao combate a incêndio seja demasiado caro ou se isso lhe retira capacidade operacional do ponto de vista militar, mas será que não poderiam gerir a frota ou ao menos facultar pilotos para pilotar os meios aéreos existentes? O combate aos incêndios pode ser um teatro real para treino de pilotos da FA reduzindo ao mesmo tempo custos nos contratos com privados (que incluem a pilotagem). Facto inegável é que a gestão da frota realizada nos últimos anos, fora da FA. levou à dependência quase total de meios facultados por privados ou auxílio de terceiros, estes últimos com custos diplomáticos no futuro.

E por favor estabeleçam-se objectivos concretos que permitam acabar com a dança dos números para mascarar a ineficácia da prevenção e combate aos fogos. Não é aceitável a demagogia habitual, que se diga que o ano foi positivo porque ardeu menos área que o ano passado, porque não houve vítimas de incêndio, porque não houve danos em habitações, etc. Isto é gestão populista pois certamente existem situações em que é preferível deixar arder habitações, que se recuperam num ano, para salvar largos milhares de hectares de floresta que demoram décadas a restabelecer-se. São decisões difíceis que devem ser tomadas por especialistas na gestão de fogos e de território florestal. Portugal tem de ter um número fixo de hectares máximos definidos como perda aceitável anual, a nível regional, e tudo o que passe além disso terá de ser considerado um fracasso. Pelo menos o Algarve já definiu este indicador. Considerando 400 mil ha de área florestal os 0,8% indicados representariam 32 mil ha como marca aceitável para esta região pelo que parece que alguém está a ter sucesso nesta batalha. Transparência e informação é ao menos a obrigação de divulgar o evoluir destes números sempre que se faça a cobertura mediática do combate aos fogos.

Tudo isto custará dinheiro que terá de vir de algum lado, mas tendo em conta o volume de prejuízos acumulados ao longo dos anos rapidamente se verificará que do ponto de vista económico existirá uma poupança real se realizado maior investimento na prevenção  e combate do fogo ao invés de se garantir o ressarcir de investimentos realizados.

Por fim, uma outra forma de reforçar a actuação dos governos no combate aos fogos, seria o imputar a cada país o volume de emissão de carbono gerados pelos incêndios no seu território. Este seria um indicador com impacto relevante quando todos os países têm como meta a diminuição drástica da emissão de CO2. Seria mais uma forma de trazer ao de cima uma realidade nacional que na verdade tem um efeito a nível mundial. Um incêndio não apenas emite gases tóxicos como durante um longo período reduz em muito a capacidade de absorção de CO2 por parte da flora atingida. Ou ainda acreditam que isto do aquecimento global é um mito?

Posto isto, depois de ler várias sugestões e dissertações de quem está envolvido directamente nesta guerra ao fogo, algumas das quais convergentes com ideias aqui deixadas, temo que este post não passe de mais um pouco de chover no molhado quando esta chuva de ideias deveria sim ser canalizada para a resolução do Portugal ardente. Mais do que dependência meteorológica a resolução deste problema tem dependência política pelo que a previsão não é favorável já que infelizmente a actual geringonça foi pensada para apagar outro tipo de fogos que se reacenderão assim que sejam extintas as chamas do fogo real.

 

braseiro-lusitano

Dão-se Alvíssaras

A detalhada, profunda e rigorosa investigação jornalística ao denominado “escândalo” dos “Panamá Papers” decorre com normalidade. Pelo menos até prova em contrário… Aguardemos, afinal, se chegámos ao Verão sem novidades de relevo, podemos perfeitamente esperar mais uns tempos. Pelo menos até à mudança da estação. Por certo que mais dia, menos dia, mais semana menos mês, importantes conclusões serão noticiadas, sem precipitações ou sensacionalismos, como é salutar! Entre nós não há acusações infundadas, nem processos de intenção, nem pensar. Credo! Tanto Pokémon para caçar, tanto disparate para noticiar, porquê antecipar?

Decididamente, não há pressa. A curiosidade inicial perdeu-se, dispersou-se por outros temas, é verdade, mas pelo sim, pelo não, ou na falta de motivo válido, talvez por palermice e infantilidade, possamos, quiçá, lançar uma campanha lá para o Natal, um apelo aos investigadores para emergirem, respirarem um pouco de ar puro e connosco partilharem o fardo, o tenebroso peso do conhecimento à tanto tempo sob reserva. Aqui deixo a ideia, dêem-se alvíssaras a quem conseguir fazer chegar alguma informação, por pouca ou escassa que seja, ao Ministério Público.

A menos que tudo não tenha passado de um embuste, de um truque de entretenimento, um falso escape à indignação com a liberdade oferecida aos capitais. Será? Façamos o teste, analisemos o que mudou desde então, desde do momento em que estoirou a bronca, o dia da revelação! Há legislação nova? Novos meios ao dispor das autoridades, ou está tudo na mesma? Também aí se dão alvíssaras! Alguém nos diga qual foi a evolução.

Dao-se-alvissaras

Pesca à Francesa

Ao contrário do que é popular, não só reconheço a necessidade, como apoio a capacidade submarina da nossa Marinha. Bem sei que o processo de aquisição da quinta esquadrilha não deixou saudade a ninguém, sendo fácil lançar torpedos sobre o tema, mas julgo que a separação entre o processo de compra e a necessidade que lhe está na origem é no mínimo salutar. Sei que é fácil aderir ao facilitismo e validar ideias absurdas como “não precisamos de submarinos para nada”, mas basta observar a extensão do nosso território Atlântico para compreender quão desprovida de sentido é a contundente e popular afirmação. Um nítido problema de avaliação. O Mar como desígnio da Nação, nunca será uma realidade enquanto não for um desígnio individual de cada um de nós. Nunca seremos todos marinheiros, mas não é essa a questão. Enquanto individualmente não valorizarmos o desígnio Atlântico como um propósito que nos une, a superficialidade e ligeireza de conclusões prevalecerá.

A nossa história fornece bons exemplos de dicotomia entre o que é popular e aquilo que realmente é importante, como foi o caso do popular D. João I, o aclamado Mestre de Avis, e do seu antecessor, D. Fernando. O primeiro é celebrado como aquele que promoveu a expansão marítima, o segundo rotulado como irresponsável e aventureiro que não deixou descendente nem obra louvável. Contudo, foi D. Fernando que promoveu a construção naval e criou o primeiro arsenal português. Tal como hoje, recorreu então à tecnologia alemã, tendo para tal atraído até nós mestres fundidores germânicos, saber com o qual se passou a fundir as peças de artilharia entre nós, ao invés de as importar. Sem os meios e infra-estruturas lançadas por D. Fernando, a dinastia de Avis não teria passado de Ceuta, onde de resto esteve fechada durante 40 anos…

E os submarinos? Pois bem, devíamos ter mais, mas tal como fez D. Fernando, não deveríamos importar, mas sim fabricar. Absurdo? Será? Pois é precisamente aquilo que fazem os Sul Coreanos, compraram não o produto acabado, mas sim o direito de o construir. Tratar as armas como automóveis que primeiro são importados e depois fazem a manutenção na marca, pode ser a medida do possível no contexto e circunstância em que nos encontramos, mas a soberania exige mais. Por fim, mas não por último, queria abordar o factor mais importante e decisivo da capacidade submarina nacional, o humano. O saber acumulado pelas muitas guarnições que operam as 5 esquadrilhas que envergaram o nosso jaque, é um valor sem preço. A qualidade destes marinheiros especiais, os submarinistas, é até hoje ignorada ou desvalorizada pela população. Poucos de nós partilham o entusiasmo e orgulho pela prestação da actual Classe Tridente, e sobre a classe que a precedeu, apenas alguns de nós se lembra do feito do N.R.P. Barracuda (S164), quando em 1983 conseguiu posicionar-se sob o porta-aviões norte-americano USS Dwight D. Eisenhower (CVN69), iludindo toda a cobertura de superfície e área que escoltava este imponente navio, o que lhe permitiu assumir uma posição de ataque simulado com torpedos, sem nunca ser detectado, prestação surpreendente e a todos os níveis meritória, sobretudo porque a quarta esquadrilha à qual pertencia o Barracuda, de fabrico francês e designada por Classe Albacora, era já à época obsoleta por comparação aos meios que nesse exercício defrontou. Inquestionável prova do valor dos nossos submarinistas.

Ciente de tudo isto, talvez por sensacionalismo, mas sobretudo porque já chega de “falar” a sério, relato-vos o mais recente episódio protagonizado pelos nossos amigos franceses. Depois do ataque ao joelho do melhor do mundo, após a despeitosa decoração da torre Eiffel em dia de celebração lusitana, tentaram esta semana levar o nosso submarino N.R.P. Tridente (S160) até à lota de Saint-Brieuc. O ataque perpetrado pelo ligeiro e ágil navio de pesca, o arrastão Daytona (SB.912361), ficará para a história como a “pesca à francesa”, manobra cujo resultado, tal como todas as desconsiderações anteriores, foi um estrondoso fracasso, sem danos a registar, nem materiais, nem humanos. Mais uma vez ganhámos por empate.

pescada

Eta! Caracas! A coisa está preta!

Tenho orgulho, orgulho, em ser português! Português! Português! Português!

A emigração portuguesa sempre foi uma solução de ante-penúltimo recurso que muitos dos nossos conterrâneos não temeram enveredar. (sendo o penúltimo roubar e o último arriscar mudar o estado das coisas correndo com políticos corruptos e inábeis eleitos por via da abstenção)

Emigraram em massa para vários pontos do globo, com maior concentração em alguns países, aliviando a pressão social  interna e posteriormente injectando capital na nossa economia com o aumento do envio de remessas. Sejamos francos, o nosso maior sucesso de exportação são as pessoas! É de tudo! Desde as mal às altamente qualificadas. O que de certa forma nos pode remeter para os tempos de antigamente em que também exportávamos pessoas em modalidade de pré-pagamento de remessas futuras fruto de árduo trabalho.

Existe agora um pequeno senão. E lá diz o provérbio popular “não há duas sem três”!

Da primeira vez, quando a mudança global de ciclo quebrou este mercado de força de trabalho, os emigrados forçados ficaram por lá, onde se encontravam, seja porque havia economia para os encaixar seja porque não havia interesse político e/ou capacidade financeira para devolver milhões ao seu país de origem onde já outros interesses estavam instalados.

Da segunda vez fomos expropriados à força de terras, que na verdade não eram nossas, sendo forçado ao acolhimento de um grande número de nossos retornados/refugiados.

A terceira aparenta estar mais perto do que aquilo que se imagina sendo que na próxima mudança de ciclo o cenário será completamente diferente. A crise é mundial, muitos portugueses encontram-se em países que atravessam momentos de convulsão (Brasil, Venezuela, Moçambique, Angola, mesmo França e Reino Unido)  pelo que não será de excluir a hipótese de parte considerável das centenas de milhares (ou mesmo milhões) de emigrados se ver forçado a retornar a Portugal. Pior, em alguns casos poderão não ter condições para o fazer e terá de ser o país a dar a resposta necessária, e obrigatória, para trazer de volta essa nossa gente.

Mesmo com vozes alarmantes, com os sinais mais do que evidentes, a reacção à crise dos refugiados foi tardia e inconsequente. Agora estamos em altura de nos prepararmos para o potencial de outra crise humanitária, não de refugiados, mas de retornados. De gente que certamente quererá vir para Portugal quando lhe estendam a mão, as pontes aéreas e/ou marítimas, as condições de alojamento e apoios financeiros, pois é esta a terra das suas raízes. Espero sinceramente que, se necessário, Portugal esteja preparado para estender essa mão, mesmo que sem anéis ao menos que mantenha todos os seus dedos. O resto faz-se com distribuição martelos, picaretas, enchadas, forquilhas e outras ferramentas de apoio à criação de novas culturas e reabilitação de edifícios desde a sua fundação.

Apesar de aparentemente ser um mau cenário quem sabe se a prazo não traria benefícios a Portugal? Gente lusa que bebeu conhecimento de outras culturas, de olho e cabeça mais abertos, com garra, sem medos de começar a vida do zero, só poderia ser uma boa influência sobre todos nós e ajudar a revitalizar a nossa economia com o aumento exponencial do número de consumidores.

Para começar a preparação deste cenário só teremos de garantir posição dominante sobre uma companhia aérea nacional e o exemplar funcionamento dos nossos portos.

Estaremos no bom caminho?

Emigração-Boomerang

 

Fichas Novas

O grande Casino Europeu está finalmente a criar novas fichas de jogo. A delegação germânica inovou, criou uma nova ficha e deu-lhe um nome. Chamar-se-á “Planeta Terra“. Terá o valor facial de 5 Euros, mas além das ligas metálicas habituais, adicionou plástico azul!  Sim, um bonito plástico azul que simboliza a atmosfera. Quanto custa? Bem, um pouco mais de 15 euros. Vale 5 mas custa 15? Afirmativo, serão mais de 22,5 milhões de receita, mas apenas 7,5 milhões em fichas a circular no salão do casino. Então e a inflação? Adiante… Seguir-se-á uma edição especial para coleccionadores, de igual valor facial, mas (apenas) 5 vezes mais cara. Nos Casinos, ganha sempre a casa.

Salvaguardada a devida distância e regra de proporcionalidade, a delegação portuguesa do grande Casino Europeu vai também proceder à cunhagem de novas fichas. Motivo? O Planeta? Não, a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro. Duas emissões comemorativas. Uma para circular no Salão do Casino, como corrente comemorativa e a outra especial de corrida, apenas para coleccionadores. Olhando para elas fico baralhado. A primeira vale o que custa, é ficha corrente e terá o valor facial de 2 euros. A segunda custa 4 euros, é especial de corrida, artigo de colecção que terá um valor facial insólito, 2,5 Euros. Uma inspirada no Coração de Viana do Castelo, bem bonita por sinal, mas a outra nem por isso. Na verdade é bem feia e vulgar. À inspiração em filigrana opõem-se a inspiração na ordenha. Estranhei, na minha ignorância pensei que a preferência dos coleccionadores fosse pelo requinte…

A-nova-moeda-final

Laivo de Clarividência

Nem sempre é nítido o contraste entre o absurdo e o óbvio. Vivemos tempos estranhos. Apenas o viral é real. Tudo o mais não existe. O virtual até já impõe agenda aos media, mas grosso modo prevalece o princípio da exclusividade absoluta da verdade: a televisiva. Se o noticiário não relatou não aconteceu.

Exposto o abstracto, vamos ao concreto. O exemplo: Num laivo de clarividência, o presidente da comissão europeia, o homem da terra da competitividade fiscal, o luxemburguês Jean-Claude Juncker disse ontem o óbvio! Por cá não passou, pois foi dia de propaganda sobre avisos e críticas à soberania lusitana, logo não houve espaço mediático. Assim se vende em permanência a ideia que nós, entregues a nós próprios, só fazemos asneiras. Resumindo, em dia de divulgação de ameaças, esqueceram-se de nos informar sobre as palavras de Junker. Que disse ele? Que a União Europeia (imagine-se!) errou. Reconheceu que a legislação Europeia é excessivamente intrusiva, que interfere demasiado nos processos legislativos nacionais dos países membros e que por essa razão os cidadãos se afastam cada vez mais do ideal europeu.

Este recado para britânicos, em nítido contraste com a mensagem que ontem nos estava destinada, é tão lúcido como verdadeiro. Traduz a percepção crescente entre os europeus, de um extremo ao outro do campo ideológico. Seja a extrema-direita de leste ou a extrema-esquerda dos periféricos, ninguém quer ser europeu deixando de ser aquilo que nasceu, cidadão do seu país. União não é, não pode nem será, uniformização. Ninguém a quer!

Laivo-de-Clarividencia

 

Plástico de Cidadania

Fez ontem 30 anos que faleceu em Paris a escritora Simone de Beauvoir. Por cá, em Lisboa, o partido que se diz inteiro e em bloco, tentou homenagear a prestigiada intelectual, activista política e feminista convicta, mas não conseguiu. Acto falhado. Teria sido bonito, mas fracassou. Não foi uma questão de forma, correcta aliás, foi mesmo o conteúdo. Alguém anda com falta de ideias para temas fracturantes. A proposta é de tal forma oca que muitos duvidaram da sua autenticidade. Os outros, aqueles que acreditaram ser real e verdadeira, choraram. Comoção? Não, gargalhada.

Mas rir faz mal? Negativo! É até muito salutar! Faz bem, especialmente em dias cinzentos e chuvosos. Contudo, o progresso social é sobretudo um processo geracional, nada tem de instantâneo, nem mesmo juntando muita água. Há reivindicações que se tornam absurdas, por vezes ultrapassadas pelos próprios acontecimentos e hábitos. Afogam-se no idealismo. A Lei dos Piropos é disto bom exemplo, não por serem agradáveis, mas simplesmente porque estão em desuso. Nós, os jovens na quinta década de vida, não praticamos o lançamento do piropo. Sem a sua proibição, a nossa descendência nem saberia o que foi essa arte de outrora, entre o elegante elogio e a boçalidade. O pretenso simbolismo falha por falta de quem o contemple.

A proposta de ontem padece do mesmo tipo de excesso de sofisticação progressista, mas têm o seu mérito linguístico. Aponta o problema de género e apresenta uma solução. Porém, preciosismo por preciosismo, pois que o rigor seja imaculado. O documento em causa não é de cartão, é de plástico. Proceda-se em conformidade.

Plastico-de-Cidadania

 

 

Yabba-Dabba-Do

Os pré-históricos Flintstones foram hoje à periferia da capital lusitana, mais concretamente à cidade da Amadora, inaugurar a nova estação de metropolitano da Reboleira. Vieram no seu automóvel, a conhecida Geringonça de tracção pedonal pelos ocupantes, veículo ecoeficiente e 100% reciclável. Salvem o planeta, reciclem! Nunca é cedo demais para mudar o que está mal, o que está errado. Culturalmente estamos conversados, o desporto vai pelo mesmo caminho e na defesa a coisa está negra, mas adiante que nem Willian Hanna nem Joseph Barbera tiveram imaginação que chegue para isto. Ninguém ousaria a tanto em tão pouco tempo. Avancemos que a agenda está cheia.

O evento correu bem, os convidados compareceram, os protagonistas também. Houve discursos e bons concelhos, animação em geral e muita alegria em particular. Como se quer. Todos os bancos eram bons, excepto para quem viajou de pé. Ora, foi disto que nos falou Fred. Avisou. Eis chegado o momento de mudar, de transformar principescos hábitos em altruístas virtudes. Mais do que não abastecer em Espanha, mais do que não poluir, é saúde. Isso! Fred a Pé anunciou a imediata extinção dos nefastos automóveis das cidades nacionais.

Andar a pé faz bem, eu cá pratico e gosto, mas será que todos podem? Quantos moram perto do trabalho? Não muitos, não é verdade? Esta ideia de a todos enfiar no Metro é coisa de quem nele não passeia há muito. Com a euforia do dia confundiu a abertura de mais uma estação com uma verdadeira rede de transportes públicos, que na realidade não temos.
Fred-a-pe