Category Archives: Escárnio e mal-dizer
Reformado na Argentina
O revivalismo dá provas de não ser moda passageira. Seja filme, produto, utensílio ou traje do passado, todos têm hoje uma nova oportunidade para brilhar, para atrair milhões de consumidores. O mesmo se passa com as teorias da conspiração. De quando em quando, lá surge como novidade uma conspiração antiga. Reciclada ou com novos indícios, emerge acima da linha de água mediática e ali fica a boiar uns tempos. Depois afunda. Vão alternando, para não fartar. O consumidor é exigente!
São como os boatos, são um produto, uma multiplicação com dois factores: o interesse e a ambiguidade. Quando um deles é zero, o boato anula-se. Ora, a boa teoria da conspiração tem sempre muito interesse e ambiguidade quanto baste para que nada se consiga provar. No fim, tudo se resume à crença de cada um. Uma questão de opinião, de palpite (os anglo-saxónicos chamam-lhe “feeling”) ou até mesmo de fé. Importante é começar por promover bem através do anúncio prévio, tal qual feito nos Panamá Papers…
Não obstante o ocasional fiasco, recebi com entusiasmo o anúncio de regresso da velha teoria conspirativa sobre o austríaco, portador da Cruz de Ferro e líder do nacional-socialismo germânico: não se terá suicidado no bunker da Chancelaria em Berlim, fugiu e viveu tranquilamente até à sua morte na América do Sul.
Não querendo com detalhes estragar a surpresa da próxima semana, devo apenas confirmar que gostava de passear em Buenos Aires e nunca faltava a um jogo da selecção Argentina. Era um fervoroso adepto.
Operação Opereta
A Central Nuclear espanhola de Almaraz fica na margem esquerda do rio Tejo, a cerca de 100 quilómetros da fronteira com Portugal. Construída durante a década de setenta do século passado, começou a funcionar no início da década seguinte. A longevidade inicialmente prevista foi já superada, sendo que a intenção de construir um armazém de resíduos nucleares nas suas imediações denuncia a vontade de mais uma vez estender no tempo a operacionalidade da central, hoje prevista até 2020.
O nosso país, nação não nuclear (com excepção do concelho de Loures), sempre atento, preocupado e intransigente em questões ambientais, manifestou de forma (mais ou menos) atempada a sua preocupação. Face ao processo de decisão unilateral do país vizinho, a nossa máquina diplomática diligenciou com celeridade, manifestando o nosso desagrado. Contudo, tais missivas não produziram qualquer resultado, pelo que de pronto se instalou a polémica. Recordei-me a este propósito de um outro diferendo entre dois países sobre questões deste género, no final do século passado. O diferendo, foi definitivamente resolvido no dia 7 de Junho de 1981, quando o mais pequeno desses países destruiu o reactor nuclear que estava no centro dessa disputa. Esta ousada acção militar ficou conhecida como Operação Ópera, onde aviões F16 voaram baixinho e no limite da sua autonomia bombardearam o alvo.
Por cá, após conversa entre soberanos, o titular da pasta do ambiente foi destemido a Madrid. Viajou de F16 e no regresso até sobrevoou a central, mas a única bomba que largou foi a queixinha. Foi a Operação Opereta… Bufa!
Tiro ao Boneco
Pérfido e vil traidor à pátria, ingrato e rancoroso, mesquinho e malfadado, eis o perfil que convém ao vilão do momento mediático. Na hora de glória do filho mais pródigo da nação, na falta de melhor notícia, nada como uma parangona sobre traição à nação e aos seus símbolos, sobretudo aos de carne e osso. Compreende-se. No momento de idolatrar o melhor do mundo, uma vez esgotada a notícia da vitória, nada como o contraste entre a virtude e a ignomínia, uma notícia para execrar outra personagem. Bem, pelo menos à primeira vista porque após leitura tudo se relativiza. O protagonismo coube a um velho desafortunado da nossa história desportiva, ex-seleccionador nacional de futebol, Carlos Queiroz. Parece que entre os seleccionadores com direito a voto na eleição dos melhores, não favoreceu os compatriotas a concurso.
Terá mesmo votado contra? Em rigor, não! Não, porque não lhe coube a decisão sobre o sentido de voto. Foi mandatado. Se em Roma, sê romano, em Teerão sê iraniano. Parece que entre os persas, tal como nas grandes e liberais democracias do mundo, a lógica de um voto por cada homem cede o lugar ao colégio eleitoral, composto por super-eleitores, treinadores da Iran Pro League, que entre si decidiram o voto do treinador português, seleccionador do Irão e injustiçado vilão de mais esta desventura. O caso não é de todo aquilo que aparenta, mas à maioria pouco importarão os factos. Perante a notícia manipuladora, avançará o pelotão de fuzilamento. Vamos ter tiro ao boneco.
Nacionalize-se o Banco
Foi na passada quarta-feira, que o primo do anterior dono disto tudo foi ao antigo armazém de bananas para fazer a sua comunicação ao país, isto é, dar uma entrevista ao macaquinho de serviço. Começou por manifestar orgulho na família e no seu negócio secular, não obstante a última década, período que reconheceu não ter corrido assim tão bem. Feita a pequena introdução, avançou para o essencial da mensagem e sem rodeios, como é seu hábito, disse o que lhe vai na alma de banqueiro. Quando a ética profissional lhe limitou a frontalidade, lá esteve o interlocutor para complementar e dizer o que não deve ser dito. Útil, eis a vantagem do entrevistador, ser o ponto.
O projecto não mudou muito, é o de sempre. Sonha liderar a instituição fundada pela família há mais de 100 anos, aquela que hoje está à venda. É esse o seu propósito. Uma vez traído na sua intenção pelos novos donos do antigo BESI, pediu a demissão. Confesso a minha simpatia para com esta determinação e foco. Está obstinado e comprometido com o desígnio de recuperar o ancestral negócio familiar. É bonito.
E agora? Bem, gorado o negócio da China, e como dinheiro que chegue não tem, achou por bem denunciar essa prática imunda da comprar, retalhar e vender. Opõe-se ainda a qualquer venda que obrigue a quaisquer garantias ou contra-garantias do estado. Quer ganhar tempo! Demonstrou assim manter intacta a capacidade de compromisso táctico e estratégico. Implacável e pragmático, qual Czar-Vermelho, afirmou peremptório: Nacionalize-se.
Última Hora: Indesmentível e factual
Uma importante investigação jornalística acabou de ser divulgada, gerando grande polémica e espanto entre todos os telespectadores. Os factos são indesmentíveis e foram finalmente divulgados pelos meios de comunicação. As novas tecnologias tiveram um papel preponderante na condução da ciosa investigação, tendo permitido obter provas irrefutáveis dos factos apurados e confirmados pelas fontes anónimas, as quais permitem hoje afirmar com total certeza e convicção que a última hora terminou exactamente sessenta minutos após o seu início.
Eis o exemplo de conteúdo bem-sucedido nas redes sociais. Nem sequer precisa de ser mentira, basta dizer “Última Hora”, ser ilustrado com um rosto conhecido ou polémico, conter ambiguidade quanto baste e claro, repleto de suspeição e mistério. No fim, pode até não dizer nada. A mera ilusão de que algo de grave será revelado é suficiente para despertar a curiosidade do internauta, seja ele ou ela, perspicaz ou denso de processo cognitivo. Somos uma espécie fácil de pescar online, com a agravante do isco ser abundante e por isso acessível a todos.
Nos últimos tempos têm-nos tentado convencer que o problema reside nas chamadas notícias falsas, mentiras torpes que ameaçam um mundo paradisíaco e que nunca até aqui tinha sido palco de qualquer forma de manipulação. Revelam-nos até milagrosos planos de prevenção e combate a esta terrível ameaça ao equilíbrio do planeta. Devemos desconfiar desta nova embalagem da (julgada) extinta censura? Talvez, mas antes de aderir à teoria da conspiração, uma singela, quiçá inocente, pergunta: O problema está nos emissores ou nos receptores?
Qui? Moi?
O Cour de Justice de la République – CJR, é um tribunal especial da república francesa sem congénere nacional, uma vez que apenas avalia a conduta dos ministros da república. É portanto um tribunal de governantes, que julga os casos de má conduta durante o exercício de funções. Uma nobre função, uma organização de grande importância para o regular funcionamento das instituições, mas cuja existência se deve cingir a nações com orçamentos desafogados, ou que (pelo menos) os juros da dívida soberana não façam parte das rotinas noticiosas.
Hoje que falta uma dúzia de dias para acabar o ano, o CJR condenou a actual Directora-Geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, por negligência enquanto exerceu funções como ministra da economia da república francesa. O caso envolve um polémico empresário, um fabricante de calçado alemão e um banco francês. O empresário, ele próprio ex-ministro das cidades de França no tempo do malogrado ami Mitterrand, Bernard Tapie é uma espécie de José Sócrates gaulês, mas à devida proporção. Durante uma década, esteve em todas. Dessa feita, à época falido, vendeu a sua participação na Adidas ao banco francês Crédit Lyonnais, que por curiosa coincidência também faliu. Esta venda, culminou em litígio entre o vendedor e o comprador. O desfecho desta disputa foi favorável ao empresário e foi precisamente por não ter recorrido desta decisão que Lagarde foi hoje condenada por negligência. Qual a pena? Nenhuma! É por isso que prescindimos deste tipo de tribunal especial. Seria um custo incomportável para uma função inconsequente.
Nobel da Nota
Vivemos dias de exacerbado orgulho nacional, de repetida celebração dos protagonistas do momento, por isso resolvi relembrar um notável de outros tempos, o primeiro português galardoado com um prémio Nobel. Nascido a 29 de Novembro de 1874 em Estarreja, Aveiro, o Professor Doutor António Egas Moniz não herdou o apelido de seu pai, mas foi por influência do irmão deste que foi baptizado. A família paterna descendia directamente de Egas Moniz de Riba Douro, o Aio, um distinto indivíduo a quem o nobre Conde D. Henrique de Borgonha confiou a educação do seu primogénito, aquele que pela força criou um reino e se fez rei, Afonso I de Portugal.
Hoje, no sexagésimo primeiro aniversário da morte do Professor, invoco a exuberância dos seus órgãos vestibulococleares (vulgo orelhas) característica que o deprimia, mas é sobretudo com muita saudade que lembro a nota criada em sua homenagem, a nota de dez mil escudos, esse símbolo da soberania monetária de outrora, livre no seu perpétuo movimento de desvalorização, mas ainda assim com maior poder aquisitivo que os actuais 50 euros.
Estranha esta saudade, não é? Logo agora que não só não existe inflação como nunca a diversidade de escolha foi tão vasta. Antigamente, quando os preços subiam constantemente, ao invés de milhares de produtos e marcas diferentes, coitados, éramos forçados a consumir os clássicos como a pasta medicinal Couto, o restaurador Olex ou as doces Fantasias de Natal, aquelas em cujo anúncio o Coelhinho ia com o Pai Natal e o Palhaço no comboio ao circo…
Apollo 13
Uma aventura que deu para o torto, um clássico do cinema sobre a exploração do espaço, a corrida tecnológica entre as potências mundiais, um filme sobre o engenho e perseverança humana.
A Lua, brilhante e altaneira, nosso satélite há milhões de anos, embora sendo o planeta mais próximo, permaneceu inalcançável durante uma eternidade. Parecia impossível, mas aquilo que (aparentemente) foi um pequeno passo para um homem, foi um salto gigante para a lusitanidade. O impossível aconteceu, o homem chegou lá. Após o êxito da missão Apollo 11, a humanidade assistiu emocionada e expectante à partida da missão Apollo 12, mais uma vez bem-sucedida. Subitamente o impossível pareceu banal, pareceu fácil. Todos os riscos, todos os perigos passaram a parecer rotina.
Sentados num poderosíssimo foguetão Saturno 5 mil milhões de euros e mais uns trocos, a equipa da missão Apollo 13 treinava há meses para mais uma alunagem, mas em vésperas da partida surge o problema da declaração de património e rendimentos. A questão ficaria, aparentemente, entregue ao supremo, que a seu tempo diria de sua justiça, posição à qual a tripulação responderia em conformidade, dando tempo ao tempo, isto é, arrastando. Mas os tempos não estão para esperas, a assembleia decidiu, antecipou-se e o piloto escalado viu-se obrigado a ficar em terra…
Alguém resolveu dar a ordem para agitar os tanques de oxigénio, houve faísca e a coisa começou a correr mal. Subitamente, um assunto banal e corriqueiro passou a drama nacional. A tripulação rondará a lua, mas não sabemos se voltará com vida.
USS Zumwalt (DDG-1000)
Recentemente adicionado ao efectivo, o ultra moderno e complexo contratorpedeiro da marinha norte-americana USS Zumwalt (DDG-1000) partiu da costa leste em direcção à sua futura base na costa oeste, em San Diego. Atravessava o canal do Panamá quando, vítima da sua sofisticação avariou e parou, sem capacidade de se mover. Já no passado mês de Setembro a mesma avaria obrigou a uma reparação de dez dias, operação que ditou o cancelamento de alguns dos testes de mar agendados, por forma a cumprir com a data de comissionamento prevista, o que ocorreu a 15 de Outubro deste ano. Lá estiveram muitos ilustres e claro, as madrinhas, as filhas do antigo Chefe de Operações Navais, em honra do qual o navio foi baptizado, o Almirante Elmo Zumwalt. Houve festa, música e champanhe. Ouviu-se o tradicional “Man your ship and bring her to life”. Assim fez o capitão James Kirk – deu ordem à guarnição para embarcar e dar vida ao navio, qual Star Trek a remos.
O primeiro de apenas três navios da classe, não terá ainda bem definida a sua missão. Concebidos para operar perto da costa, sobretudo apoiando acções de desembarque, estes navios não estão preparados para combate em águas profundas. Por outro lado, o elevado custo (22 mil milhões de dólares) constituí uma generosíssima fatia no orçamento da Marinha americana, ditando o adiamento ou mesmo cancelamento da modernização das frotas de Contratorpedeiros e Cruzadores lançadores de mísseis (Classes Arleigh Burke e Ticonderoga), condenando-os a uma obsolescência precoce por incapacidade de se defenderem dos novos mísseis balísticos e de cruzeiro supersónicos das marinhas Chinesa e Russa.
Carenciada de navios de superfície para integrar os grupos de combate liderados pelos seus porta-aviões nucleares, dir-se-ia que a US Navy está hoje refém de brinquedos caros e inúteis…
Highlander
Um filme épico, uma aventura de guerreiros e espadachins, Highlander marcou a geração de jovens que nasceram na ida década de setenta do século passado. Conta-nos a história da luta dos guerreiros imortais pelo Prémio, um estado de sabedoria superior que proporcionará ao vencedor a capacidade de subjugar toda a humanidade à escravidão. Quem perder a cabeça é eliminado, pois os imortais apenas poderão perder a vida quando são decapitados. No fim, só poderá haver um.
O herói destas aventuras, Rui MacRio, do clã MacRio, luta desde a antiguidade por manter a cabeça. Com momentos de bravura, amor e desventura, a acção atravessa vários séculos, sempre ao som de uma banda sonora de excepção – A Kind of Magic, uma obra de puro rock’n’roll da autoria dos britânicos Queen, um dos últimos álbuns da banda que contou com a prestação do seu insubstituível vocalista, provavelmente uma das melhores vozes do rock de todos os tempos, o malogrado Freddie Mercury. Quem não se lembra do tema “Who Wants To Live Forever“?
É assim, ao som de guitarradas de primeira que a acção se desenrola. Vindo das terras altas do norte, MacRio vive uma vida dupla de proto-candidato ao Prémio, ameaçando, mas não se chegando à frente, negando contactos e alianças, mas por fim dizendo-se apto para o combate com Passos Kurgan, o malvado. O país e o mundo aguardam o desfecho deste confronto, caso se venha a realizar, pois como está não pode continuar. Mais dia, menos dia, terão de rolar cabeças.














