Author Archives: Gonçalo Moura da Silva

Lei da Vantagem

A paixão pelo desporto em geral, o fanatismo pelo futebol em particular, faz de nós uma nação peculiar. Quiçá o único sobrevivente da trilogia doutrinária de outrora, o dito desporto rei movimenta milhões e enlouquece os tostões. Os dois clubes rivais, os Milhões e os Tostões, jogam em campeonatos diferentes, mas nenhuma outra partida é alvo de tamanha cobertura mediática. Eis o derby que mais paixões incendeia, a chama imensa da indiferença de todos aqueles que não sabem porque ficam em casa em dia de eleições.

A disponibilidade para analisar o mais complexo dos temas ou polémicas desportivas é total, o empenho em compreender inexcedível, seja a questão financeira, do foro médico dos atletas, ou outra. Nenhum erro desportivo sai impune, livre de críticas ou polémicas. O contraste com a indisponibilidade para outras causas não podia ser mais nítido. No país das Comissões Parlamentares de Inquérito sem fim ou consequência, por mais ruidoso o sintoma, a impunidade dos eleitos é garantida pela inépcia dos votantes. Queremos é desporto!

Os Milhões esses, movimentam-se livremente. Equipa repleta de vedetas, viajam muito pois disputam o campeonato de elite, a liga Offshore. Já os Tostões, equipa sem brilho, integramente constituída por jogadores de natureza infractora, ditos contribuintes, lutam para não descer de divisão. Assim foram os regionais, nenhum cartão ficou por mostrar, nenhuma falta por assinalar! Todos, Milhões e Tostões, conhecem as regras de jogo, mas tal nunca evitará a revolta dos Tostões quando a lei da vantagem é aplicada aos lances de milhões.

Revelações de Milhões

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Enormes, desmesuradamente grandes e avultados fluxos de capital, vulgo dinheiro, são semanalmente anunciados na rubrica televisiva protagonizada pelo virtuoso piloto das massas que dá pelo nome de Mclaren Mentes. Rápido na previsão, pouco preciso na trajectória, raramente acerta mas nunca é confrontado com as previsões por concretizar. Estranho? Não! O formato de entrevista a fingir ajuda, o jornalista não exerce, faz de ponto numa conversa que muitas vezes parece ser (provavelmente é) ensaiada. Lá na estação há, que eu sei, um especialista em verificação de factos, mas por qualquer motivo esse talento na acareação é dispensado.

Compreende-se, não se ataca o próprio produto! Muito embora o grupo tenha no passado dado provas de grande independência editorial, atacando severamente o patrão quando este foi primeiro-ministro, esses tempos de liberdade terminaram. Hoje prevalecem as razões comerciais. O próprio semanário refere Mclaren Mentes como fonte, o que confirma o bom desempenho comercial do rapidíssimo piloto. Há procura para esta oferta. Há, contudo, uma dúvida que me assalta e prende-se com as fontes nunca citadas. Não! Não as quero reveladas, não tenho quanto a isso a menor curiosidade. O que me fascina, o que me deixa perplexo é Mclaren Mentes saber sempre de tudo, sobre todos, invariavelmente antes dos demais, mas sobre si, sobre as suas acções ou negócios, não se lembra, desconhece, nada, nada, nada

Das duas, uma: ou faz da inconfidência sistemática modo de vida, e como tal não se compreende como ainda não secaram as fontes, ou então simplesmente transmite recados.

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Pinocchio

Eis-nos de volta aos clássicos do cinema e à encantadora história de Pinóquio, o boneco de madeira que por magia se transformou em menino de carne e osso. O Conto original de Carlo Lorenzini chega aos nossos dias graças a mais uma enternecedora polémica nacional. Sucintamente: uns pediram o que entenderam, os outros querendo agradar acederam e quando se percebeu que não podiam dar, quem pediu saiu. Bem sei que pode parecer coisa do outro mundo, da exploração espacial, mas não é. Não foi. Já todos, sem excepção sabemos o que se passou e embora não se perceba se foi incompetência ou intensão, ninguém quer saber as motivações.

Debate-se, alvitra-se, mas mais para entreter do que propriamente para chegar a qualquer conclusão. Uns conspiram e afirmam que os outros visaram a aprovação do plano maravilha, e que uma vez aprovado dispensavam a continuidade do pretendido por ser incómodo ao Status quo. Será? Talvez… Outros contrapõem que no fundo quem alimenta a polémica procura a privatização da instituição, mas eu desta última discordo. A privatização pretendida já foi feita sem ruídos ou polémicas de maior. Passou incólume aquando da venda dos CTT, processo com cereja, a oferta da doce licença bancaria. Tudo que de interessante poderia haver na privatização da instituição no centro desta polémica já está entregue a quem de direito, os sacrossantos mercados. Então que temos? Bem, Gepeto quer salvar Pinóquio, filho pródigo que aos opositores irrita solenemente porque os números são o que são e não era suposto serem.

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Celebridade Instantânea

 

andy-warhols-portuguese-soupsFoi durante a época do idealismo e da inocência do século passado, a década de sessenta, que o controverso rei da Pop Art vaticinou que o futuro nos reservava a fama Instantânea. Disse então que a todos nós estariam um dia reservados quinze minutos de fama. Hoje parece uma verdade de La Palice, uma evidência tão estupidamente óbvia que nem parece digna de nota, sobretudo para aqueles que já cresceram com a internet como um “bem de primeira necessidade”. Para todos os outros, para aqueles que como eu a infância foi vivida sem internet ou telemóveis, a ousadia da visão de Andy Warhol permanece sólida.

Esse futuro de então é o nosso presente, mas será uma dádiva? Tenho dúvidas: A exposição e visibilidade pública oferecida pelas redes sociais, qual sopa instantânea, é alimento parco para o intelecto. A forma como é experienciada, especialmente pelos mais novos, revela que o meio é um fim. Os critérios de sucesso são igualmente fúteis. Tipicamente o objectivo de primeira instancia é facilmente explicado pelos protagonistas, singelamente procuram mais “gostos”, mais fãs. Quando questionados sobre qual o retorno desse sucesso, a convicção de resposta esmorece, não sendo raro o silêncio. Descobri que entendem que o propósito da fama se explica por si só, é um bem em si mesmo e que por isso a dúvida não lhes assalta do espírito. Parecer é mais relevante que fazer, e embora Warhol não tenha previsto isso na sua profecia, o seu penteado permanece na moda. Ao mais alto nível…emplastro-em-berlim

Bad Hombres

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Ao contrário da generalidade dos políticos após eleição, o novo inquilino da Casa Branca tem vindo a concretizar as suas promessas eleitorais. Tomar posse e fazer (mesmo!) aquilo que disse em campanha pode ser estranho! É até suspeito! Os eleitores são tolerantes com as contundências do combate eleitoral, relativizam as promessas mais radicais, mais definitivas. Quando, para espanto, o absurdo dá origem ao decreto, o eleitor perde-se entre o pasmo e a estupefacção. Incrédulo, poderá até sentir-se traído. Não era suposto passar de uma promessa vã.

Eis como a mais pura idiotice passa a realidade com o beneplácito dos eleitores. Uns apoiam, estão radiantes, partilham as convicções do eleito. Os outros, coitados, validaram a excentricidade porque tinha piada, avalizaram o espalhafatoso porque não lhes parecia provável e agora perante o rigor e a verdade, recuam, desculpam-se, dizem que não levaram as ameaças a sério. Inocentes, pensaram que era só campanha. Enganaram-se! Alguns queriam vingar-se dos politicos, vulgo “trama-los”, eleger alguém à margem do politicamente correcto para os penalizar pelas promessas não compridas, mas agora, a cada dia parece mais claro que o eleitor castigador é o verdadeiro castigado. A esta causa, a do castigo, aderiram também os abstencionistas, essa massa convicta na revolta do amuo.

Era campanha… Era? Não creio! Tudo aponta para que seja todo um mandato em campanha eleitoral, desta feita global. A digressão vai começar pelo vizinho a sul, o populoso México. Entre a ajuda e a ameaça, a cavalaria avança em perseguição dos homens maus.

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Kamikaze

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O momento era grave, a situação difícil mas foi da surpresa que oportunidade surgiu. O inimigo navegava à vista, crente e confiante na vitória apesar das diferenças de opinião a bordo. A guarnição da geringonça acreditou que podia discordar, unida nos seus antagonismos, mas enganou-se. Pronto para o supremo sacrifício, lá estava Pedro, o Kamikaze Coelho. Não hesitou. No afã de sempre servir o supremo interesse da nação atacou destemido o invasor, a frota do aumento do ordenado mínimo, esses usurpadores!

Fê-lo sem olhar para trás, porque da coerência não reza a história e a dita, como sabemos, é escrita pelos vencedores. Queria ganhar, repelir aqueles que têm revertido a sua obra. Apostou no tudo ao nada, ignorando as consequências, concentrou energias nos danos causados ao inimigo. Preparou-se para partir, tomou o Saquê e proferiu o grito de guerra – Vou salvar a concertação social, em especial as confederações patronais, pobres reféns do governo. O objectivo era nobre, a vontade férrea e o instinto de autopreservação nulo. Determinado, voou picado no seu Zero.

Porém, após o severo impacto, sobretudo mediático, a geringonça reagiu. Lambeu as feridas, reparou os danos e manteve-se à tona. O choque do primeiro embate ao invés de acicatar as diferenças, gerou consensos, refez amizades, restabeleceu afectos. O guerreiro Kamikaze inspirou os seus, mas a geringonça arrumou as hostes graças à violência do ataque. O efeito surpresa fez despertar as consciências na frota de esquerda, a todos relembrou sobre o mal que os une, o ódio a Pedro.

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Missguided

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Paira sobre Londres uma enorme nuvem em forma de cogumelo. O supremo tribunal do Reino Unido confirmou que o governo não pode per si invocar o quinquagésimo artigo do tratado “porreiro pá” de Lisboa. Será a câmara dos comuns a deliberar. Uma bomba atómica para o executivo de Theresa May, mas não é a única. No verão passado, o parlamento britânico debateu, votou e aprovou a continuidade do programa de dissuasão nuclear Trident. Dissuasão, embora pareça eufemismo, consiste num conceito estratégico óbvio, a represália. Qualquer pretensão de ataque nuclear contra as ilhas britânicas é dissuadida pela certeza de retaliação.

O programa Trident é composto por três elementos essenciais: os mísseis balísticos de fabrico norte-americano; as ogivas nucleares de fabrico britânico; e os lançadores, os submarinos da classe Vanguard, também de fabrico britânico. Ora, foi precisamente a substituição desta última componente que foi votada no passado dia 18 de Julho de 2016 (apenas cinco dias após a tomada de posse da actual chefe do executivo) e que aprovou a construção de uma nova classe de submarinos, denominada classe Dreadnough. Optaram por manter a sua capacidade nuclear, capacidade que na NATO apenas é partilhada pela França e pelos Estados Unidos da América. Não quiseram ficar reduzidos à condição de parceiro anão, qual alemão, na aliança atlântica.

Contudo, esta opção estratégica está hoje envolvida em polémica, consequência dos rumores vindos a público que dão conta de um gravíssimo problema durante o último teste de lançamento, efectuado em Junho do ano passado pelo HMS Vengeance (S31). Parece que ao invés de se dirigir para o alvo na costa Africana, o míssil sem ogiva nuclear, ter-se-á dirigido aos Estados Unidos da América. Eventualmente, decidiu voltar a casa com saudades, mas independentemente das razões materiais, o incidente coloca em causa a virtude de tão avultado investimento. Suspeito que o executivo britânico esteja neste momento reunindo no bunker de Pindar em Whitehall…

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Reformado na Argentina

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O revivalismo dá provas de não ser moda passageira. Seja filme, produto, utensílio ou traje do passado, todos têm hoje uma nova oportunidade para brilhar, para atrair milhões de consumidores. O mesmo se passa com as teorias da conspiração. De quando em quando, lá surge como novidade uma conspiração antiga. Reciclada ou com novos indícios, emerge acima da linha de água mediática e ali fica a boiar uns tempos. Depois afunda. Vão alternando, para não fartar. O consumidor é exigente!

São como os boatos, são um produto, uma multiplicação com dois factores: o interesse e a ambiguidade. Quando um deles é zero, o boato anula-se. Ora, a boa teoria da conspiração tem sempre muito interesse e ambiguidade quanto baste para que nada se consiga provar. No fim, tudo se resume à crença de cada um. Uma questão de opinião, de palpite (os anglo-saxónicos chamam-lhe “feeling”) ou até mesmo de fé. Importante é começar por promover bem através do anúncio prévio, tal qual feito nos Panamá Papers

Não obstante o ocasional fiasco, recebi com entusiasmo o anúncio de regresso da velha teoria conspirativa sobre o austríaco, portador da Cruz de Ferro e líder do nacional-socialismo germânico: não se terá suicidado no bunker da Chancelaria em Berlim, fugiu e viveu tranquilamente até à sua morte na América do Sul.

Não querendo com detalhes estragar a surpresa da próxima semana, devo apenas confirmar que gostava de passear em Buenos Aires e nunca faltava a um jogo da selecção Argentina. Era um fervoroso adepto.

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Operação Opereta

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A Central Nuclear espanhola de Almaraz fica na margem esquerda do rio Tejo, a cerca de 100 quilómetros da fronteira com Portugal. Construída durante a década de setenta do século passado, começou a funcionar no início da década seguinte. A longevidade inicialmente prevista foi já superada, sendo que a intenção de construir um armazém de resíduos nucleares nas suas imediações denuncia a vontade de mais uma vez estender no tempo a operacionalidade da central, hoje prevista até 2020.

O nosso país, nação não nuclear (com excepção do concelho de Loures), sempre atento, preocupado e intransigente em questões ambientais, manifestou de forma (mais ou menos) atempada a sua preocupação. Face ao processo de decisão unilateral do país vizinho, a nossa máquina diplomática diligenciou com celeridade, manifestando o nosso desagrado. Contudo, tais missivas não produziram qualquer resultado, pelo que de pronto se instalou a polémica. Recordei-me a este propósito de um outro diferendo entre dois países sobre questões deste género, no final do século passado. O diferendo, foi definitivamente resolvido no dia 7 de Junho de 1981, quando o mais pequeno desses países destruiu o reactor nuclear que estava no centro dessa disputa. Esta ousada acção militar ficou conhecida como Operação Ópera, onde aviões F16 voaram baixinho e no limite da sua autonomia bombardearam o alvo.

Por cá, após conversa entre soberanos, o titular da pasta do ambiente foi destemido a Madrid. Viajou de F16 e no regresso até sobrevoou a central, mas a única bomba que largou foi a queixinha. Foi a Operação Opereta… Bufa!

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Tiro ao Boneco

Pérfido e vil traidor à pátria, ingrato e rancoroso, mesquinho e malfadado, eis o perfil que convém ao vilão do momento mediático. Na hora de glória do filho mais pródigo da nação, na falta de melhor notícia, nada como uma parangona sobre traição à nação e aos seus símbolos, sobretudo aos de carne e osso. Compreende-se. No momento de idolatrar o melhor do mundo, uma vez esgotada a notícia da vitória, nada como o contraste entre a virtude e a ignomínia, uma notícia para execrar outra personagem. Bem, pelo menos à primeira vista porque após leitura tudo se relativiza. O protagonismo coube a um velho desafortunado da nossa história desportiva, ex-seleccionador nacional de futebol, Carlos Queiroz. Parece que entre os seleccionadores com direito a voto na eleição dos melhores, não favoreceu os compatriotas a concurso.

Terá mesmo votado contra? Em rigor, não! Não, porque não lhe coube a decisão sobre o sentido de voto. Foi mandatado. Se em Roma, sê romano, em Teerão sê iraniano. Parece que entre os persas, tal como nas grandes e liberais democracias do mundo, a lógica de um voto por cada homem cede o lugar ao colégio eleitoral, composto por super-eleitores, treinadores da Iran Pro League, que entre si decidiram o voto do treinador português, seleccionador do Irão e injustiçado vilão de mais esta desventura. O caso não é de todo aquilo que aparenta, mas à maioria pouco importarão os factos. Perante a notícia manipuladora, avançará o pelotão de fuzilamento. Vamos ter tiro ao boneco.

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