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Literacia tecnocrata em fase de transição

Curioso momento este que atravessamos, em que a igreja se vê na obrigação de redigir uma extensa CARTA ENCÍCLICA MAGNIFICA HUMANITAS DO SANTO PADRE LEÃO XIV SOBRE A SALVAGUARDA DA PESSOA HUMANA NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL onde ressalva num extenso documento, todas as suas preocupações para com o impacto moral, espiritual, social e económico da inteligência artificial (IA) sobre a humanidade.

É inegável que a sociedade está a ser impactada rapidamente de forma silencionsa. Nos últimos anos a dinâmica online transformou-se significativamente. Hoje em dia pelo menos 50% dos novos conteúdos online são gerados por IA e quanto ao consumo de conteúdos existe mais actividade por parte de agentes autónomos inteligentes do que por humanos. Os conteúdos capturam a atenção humana, influenciando a sua percepção e opinião sobre variados temas. Pelo que claramente caminhamos de encontro à distópica teoria da internet morta.

A nível de empregos curiosamente ocorre uma primeira onda de despedimentos massivo de programadores, já que estas ferramentas vieram aumentar a produtividade de quem as domina. O mundo do IT já não oferece as oportunidades de outrora e é comum haver profissionais desta área há meses à procura de emprego, algo impensável há uns anos atrás. Outros sectores estão com maior latência na dimensão mas a vaga de novas oportunidades de trabalho remoto, para reforço do treino multi-disciplinar de modelos de IA, é clara no caminho que está a ser feito para alargar a eficácia e fiabilidade destes modelos de inteligência.

Ao mesmo tempo grandes avanços estão a ser feitos na robótica. Várias empresas contam produzir milhões de robots na próxima década, os quais serão veículos perfeitos para IA generalista ou especializada. Vemos hoje a construção desenfreada de infra-estrutura energética e para centros de dados (computação) que visam sobretudo possibilitar a expansão de serviços digitais e físicos baseados em IA. A própria revolução militar nas novas guerras o está a impulsionar.

Tudo isto parece apenas mais uma etapa evolutiva da nossa civilização, tal como os motores a combustão vieram transformar fábricas e campos, como a electricidade mudou cidades e serviços, como os computadores revolucionaram as tarefas contabílisticas e administrativas, etc. Contudo existem factores tecnológicos, humanos e sociais que irão fazer com que desta vez tudo seja diferente.

Ao contrário das anteriores revoluções, onde infra-estruturas ou equipamentos tinham de ser produzidos e instalados, requerendo primeiro instaladores e depois operadores a tempo inteiro, as novas capacidades dos serviços digitais estarão disponíveis de um dia para o outro, acessíveis a todos num curto espaço de tempo. A latência desta vez está no tempo de evolução das funcionalidades, não na sua distribuição e adopção abrangentes. Assim que uma nova funcionalidade esteja disponível, as empresas poderão transformar-se em semanas ou meses, gerando ondas de despedimentos de pessoas com as mesmas competências a uma velocidade muito maior do que a capacidade de absorção pelo mercado de trabalho. A pressão sobre a segurança social será enorme, ao nível da frustração humana por esta rápida substituição.

Certamente não será totalmente pacífica. Imaginem por exemplo todo um sector de camionistas, taxistas e condutores de uber a ficarem sem actividade num curto prazo porque a condução autónoma é finalmente aprovada. Parece exagero? Veja-se uma simples empresa que todos conhecemos, a Amazon, a planear substituir 75% dos seus empregados, mais de meio milhão, por robots que tratarão de quase toda a logística em armazens. E isto nos próximos 10 anos.

Amadurece cada vez mais a ideia de um rendimento básico universal. que no fundo distribuiria a riqueza, gerada pela automação, por toda a população de forma equitativa. No entanto isto geraria uma profunda alteração da dinâmica social, com uma população a ter de aprender a gerir ócio e lazer a tempo inteiro. Num extremo teríamos a dedicação a aspectos filosóficos e ideológicos, no outro o poder entregar-se em pleno aos pequenos “prazeres” da vida num hedonismo contínuo. Teremos maturidade suficiente para aproveitar o tempo para desenvolvimento pessoal e/ou trabalho colectivo voluntário em prol do bem comum? Ou entraremos em conflito e atrito constantes, originando novos focos de tensão e fragmentação da sociedade?

Neste cenário um sistema de crédito social é inevitável, assim como mecanismos de controlo de acesso e consumo. Haverá que penalizar quem desrespeite as novas normas, terá de se impedir a lotação esgotada de espaços apetecíveis, garantindo que todos os possam aceder periodicamente, terá de evitar-se o açambarcamento e o consumo excessivo de certos produtos, pois apesar de aparente infinito poder económico, existe finitude na produção e nos recursos disponíveis no planeta.

A imersão digital numa realidade virtual será também um meio de atenuar o aparecimento de problemas. Se todos estiverem a maior parte do tempo felizes e contidos espacialmente fica muito mais fácil de gerir a nova humanidade. Até porque convém que não se apercebam do atentado ecológico em seu redor, que garante a energia, computação e produção, basilares para a admirável nova tecnocracia. Pelo que talvez devamos passar a olhar agradecidos para a quantidade de gente que não desgruda dos ecrãs. É um sinal de que o futuro está a ser devidamente preparado para uma pacífica existência civilizada.

Futuristic city with illuminated skyscrapers, flying drones, and smart technology displays

IT Hub: Um Oásis envenenado?

Depois da travessia no deserto Portugal aparenta estar em processo de transformação rumo à conversão num oásis tecnológico. As condições são propícias à instalação de gigantes tecnológicos. Boa localização geográfica, infra-estruturas de excelência, baixo custo de vida, salários muito abaixo dos praticados noutras paragens europeias e provavelmente benefícios fiscais ainda por revelar.

Não há muito tempo a ordem era de desmobilização geral, com muita da nossa mão-de-obra qualificada a emigrar para outras paragens. Agora surgem as oportunidades, vagas e vagas de posições altamente qualificadas por preencher, sem resposta imediata à altura. Provavelmente os salários a praticar não serão suficientemente altos para atrair aqueles que sairam do país encontrando remunerações muito acima das praticadas em Portugal, pelo que só existem dois caminhos possíveis, ou atrair os profissionais insatisfeitos em PMEs e grandes empresas nacionais ou atrair imigrantes de outras paragens para quem os ‘baixos’ salários portugueses sejam vistos como ‘altos’ salários face à sua realidade.

Em termos de emprego, economia e fiscalidade nacional sem dúvida que, a prazo, os ganhos serão muitos a todos os níveis. Poderemos também assistir a uma transformação do ambiente de trabalho das tecnologias de informação para um panorama ainda mais multi-étnico e multi-cultural, o que até casa bem com a nossa portugalidade. No entanto, poderá ser prejudicada a capacidade das nossas empresas. Além do recrutamento agressivo por parte de consultoras, que secando o mercado de talento criam oportunidades para si, as empresas terão agora de competir com gigantes de alto poder de atracção de talento. Existe o perigo real de que percam os melhores profissionais do sector de IT, fragilizando a sua operacionalidade e consequentemente os seus resultados.

Esperemos que, tal como o fizemos na nossa floresta,  não estejamos inadvertidamente a minar este precioso oásis com o plantar de gigantescos e ávidos eucaliptos.