Somos todos burros
Um atentado terrorista contra um jornal satírico e de repente somos todos Charlies, defensores inquestionáveis da liberdade de expressão da sociedade ocidental. A análise é pronta. Cartoonistas a exercerem a sua liberdade de expressão, fanáticos religiosos islamitas a realizarem uma execução sumária por pura barbárie.
Aos Charlies gostaria de perguntar:
Quem foi Maomé e o que representa para o Islão?
Têm noção do nível de ofensa das representações satíricas para um islamita?
Qual a linha editorial tomada conscientemente pelo jornal ao longo dos últimos anos?
Tristemente a maioria dos Charlies não saberia responder a estas questões. Pior do que isso, não quer sequer saber a resposta a tal questões. Não interessa. Falamos simplesmente de desenhos e/ou palavras que tiveram como resposta execuções sumárias! Com a agravante do atentado ter sido perpetado por cidadãos franceses, denunciando que existe actualmente na Europa uma falange de extremistas radicais capazes de passar da simples e tolerada indignação à visceral e brutal violência! Manifestemo-nos já contra este terrorismo condicionador da nossa liberdade de expressão!
O que fica exposto é que a liberdade de expressão vigente é apenas uma liberdade de expressão ideológica. A passagem à prática dessa liberdade de expressão acarreta consequências positivas ou negativas em função do contexto social e/ou político bem como do nível de conhecimento e inteligência do seu executor. É preciso saber do que falamos, onde falamos, para quem falamos e como falamos caso queiramos realmente fazer parte de um processo construtivo de desconstrução das ideologias que consideramos estarem erradas. E estarmos receptivos à desconstrução das nossas. Caso contrário partamos simplesmente para a liberdade de expressão ofensiva sem qualquer outro objectivo que não o chocar e o inflamar dos ânimos. O incendiar de uma fronteira entre duas facções cegas e surdas na relação uma com a outra. Estando prontos para lidar com todas as consequências que isso acarreta.
Ainda a quente,
após os atentados em França, reagimos como uma enorme manada de burros. Dizemos o que nos dizem para dizer, fazemos o que nos dizem para fazer, sem questionar ou pensar sobre o contexto, o historial e a motivação do mesmo. Zurramos em reconfortante uníssono.
A base de tudo isto são dois alicerces primordiais: a ignorância e a intolerância
Ignorância porque somos educados desde tenra idade com uma visão muito fechada do mundo e da sociedade. A visão vingente que nos querem impôr para que, nesse modelo, sejamos os cidadãos exemplares de amanhã.
Intolerância porque ao contrário da liberdade de expressão existe uma real opressão à expressão de toda e qualquer ideologia e forma de estar que não esteja em conformidade com a única visão que nos é instruída.
E é este binómio de ignorância e intolerância que nos torna uma manada dócil e fácil de conduzir, sem capacidade de raciocinar para além do óbvio mediatizado.
Se existir real interesse em lutar pela liberdade de expressão então teremos de reformular o processo de educação cívica dos cidadãos de amanhã. A escola deverá assumir o seu papel de formadora ao invés de simplesmente formatadora. As nossas crianças, os nossos jovens, devem obrigatoriamente ter contacto com as principais religiões, modelos de sociedade e filosofias de vida existentes no mundo. Os nossos adolescentes deveriam saber o que é o Catolocismo, o que é o Islão, o que é o Budismo, o que é o Hinduísmo, o que é a democracia, o que é o comunismo, o que é uma ditadura, etc. A diminuição da liberdade de expressão começa exactamente pelo encurtar do leque de opções para a tomada de decisões importantes sobre a forma de olhar e compreender o mundo. Deter este tipo de conhecimento seria também a maior e melhor ponte para o diálogo e respeito pelas crenças e opções de vida dos outros.
Mais, se estão agora preocupados com o controlo da imigração e seu potencial papel nefasto no infiltrar de agentes extremistas radicais capazes de actos terroristas, deveriam então criar um teste de admissão para entrada no território Europeu similar ao que acontece para obter a cidadania americana. Com uma diferença, a bateria de questões abrangeria exactamente o conhecimento sobre as principais religiões, filosofias de vida e modelos de sociedade. A demonstração deste tipo de conhecimento daria alguma garantia de que a pessoa em questão se debruçou por estes temas, tem o conhecimento básico que lhe permita compreender e tolerar o ponto de vista dos outros, com grande probabilidade de ser menos burro, mais Charlie.
Além do que é afinal a liberdade de expressão que devemos defender a todo o custo? Todos devemos ter o direito de dizer/fazer tudo o que nos apeteça sem que existam barreiras nem risco de retaliações intempestivas? É que nesse caso talvez devessemos começar por demolir alguns condicionantes legais que impedem ou dificultam a passagem à prática da nossa liberdade de expressão ideológica. Por exemplo:
- Alguém que opte por ser Vegan, defensor dos direitos dos animais, não pode libertar animais alvos de maus tratos numa unidade de exploração intensiva pois corre o risco de ser preso uma vez que existem impedimentos legais para esse tipo de acção mesmo que éticamente justificável.
- Há quem considere que determinadas personalidades da nossa vida política são palhaços mas não o possa gritar a plenos pulmões, em canais de comunicação ou presencialmente, pois corre o risco de receber um processo penal.
- Posso optar por uma filosofia de vida holística, comprar uma herdade no Alentejo, no entanto vou ter uma dor de cabeça enorme para conseguir garantir que esta seja uma zona livre de caça.
- Uma mulher muçulmana pode optar por uso de Burka, no entanto não pode vesti-la no espaço público de vários países Europeus.
- O jornalismo livre está condicionado por uma linha editorial bem definida que apenas deixa vir a público aquilo que não esbarre com interesses de accionistas, parceiros e/ou patrocinadores.
E tudo isto são formas de abate, não de vidas humanas, mas directamente da liberdade de expressão. Os anti-Charlies mais perigosos não surgem a espaços nem metralham com Kalashinkovs. Estão omnipresentes e servem-se das mesmas armas que os Charlies, palavras, através de notícias, leis e regulamentos que desenham um cenário de liberdade de expressão ilusória com fronteiras devidamente delineadas.
Os Charlies indignam-se com a morte à lei da bala sendo completamente indiferentes à morte silenciosa dos ideais pelos quais se batem, anuindo muitas vezes a serem cúmplices nesse assassinato. Porque, neste grande estábulo instituído, ao contrário da vida de burro, a vida de um verdadeiro Charlie não é pêra doce.
Je ne suis pas…
Não, não sou Charlie Hebdo. Desconheço até o conteúdo da publicação, dita informativa. Independentemente do seu conteúdo, julgo que não devem existir quaisquer limites à forma de expressão. Verdadeira liberdade é a escolha pessoal. Cada um de nós terá o seu limite, a sua fronteira sobre o que é ou não alvo legitimo de sátira ou de ridicularização humorística.
Conheço França francamente mal. Não visito Paris desde o século passado, mas já então era perceptível que as opções urbanísticas estavam a promover uma verdadeira bomba-relógio social. Os tumultos de 2009 não me surpreenderam de todo. Vi, e vivi, a atitude de um certo xenofobismo gaulês, mas também vi, e vivi a atitude de desafio e desprezo pelas normas por parte dos ditos magrebinos. Senti, que se por um lado são excluídos, por outro, eles próprios fazem gala dessa exclusão. São estrangeiros no local de nascença, bem como nos países de origem das suas famílias. Muitos chegaram à idade adulta sem nunca terem vivido o sentimento de pertença. Perante uma causa que os acolhe e valoriza, terão então finalmente um propósito. O objectivo não foi a “vingança do profeta” em si, mas sim o impacto que o “feito” tem junto de quem os acolheu. Tal como nós, não compreendem quando são instrumentalizados. Meras ferramentas de objectivos maiores, que na verdade poderão ser contrários à moral abraçada. Duvido que algum seja capturado com vida. O seu eterno silêncio interessa a todas as partes, principalmente aos promotores do seu treino militar.
Dizem-nos que é terrorismo, mas parece-me guerra. Haverá diferença? Bem, barbárie é barbárie, seja qual for o rotulo que lhe colocarmos. Então porquê o preciosismo com o rotulo a aplicar ao que se está a passar em França? É uma questão de comunicação – A guerra é mais difícil de explicar a um ocidental, enquanto o terrorismo é algo que se auto-explica: São fanáticos, são loucos e basta. A diferença, a intolerância, o desprezo pela nossa liberdade são alguns dos adornos e adendas ao conceito de extremismo, ele próprio generoso na abrangência, mas por isso mesmo desprovido de precisão. Dá para tudo, mas nunca para qualificar nenhuma das acções ocidentais no mundo, recentes ou antigas. Extremismo é sobretudo uma questão de perspectiva.
E nós, os livres, tolerantes e equilibrados ocidentais? Não será estranha a leviandade com que abraçamos as causas digitais? Não será incómoda a facilidade com que aceitamos as explicações que nos são vendidas?
Na minha opinião, foi uma operação de guerra, idêntica às que ocorrem como rotina na Síria, Ucrânia, Colômbia ou em qualquer outro local do mundo. Com a agravante de na verdade não sabermos quem nos atacou. Qualquer objectivo de retaliação será por isso desprositado.
TAPada de luva branca
Uma greve anunciada para um período de pico de actividade culmina com uma requisição civil imposta pelo governo a fim de impossibilitar a sua ocorrência. Pelo meio vejo uma entrevista a um sindicalista da TAP onde o jornalista lhe atira de forma agressiva “Acha moralmente ético os sindicados agendarem a greve para esta altura do ano provocando prejuízos de milhões de euros, dando má imagem ao país e afectando o Natal e Ano Novo de milhares de famílias portuguesas?”
A resposta foi pronta, denunciadora de que a falta de moral e ética tem estado na gestão da TAP, apontando as negociatas concretas em que a TAP foi utilizada como peã de negócios ruinosos. Perante a resposta imediata e esclarecedora que fez o jornalista? Explorou essas acusações? Não, isso seria pedir demais, limita-se a repetir a sua pergunta uma e outra vez como se não fosse importante o que levou a tão grande demonstração de intransigência por parte dos trabalhadores da TAP.
Voltando ao desfecho, a requisição civil, pergunto-me se ela também ocorreria caso a TAP fosse já uma empresa privada. Porque no fundo o que se passou foi um patrão ‘especial’ a utilizar os seus super-poderes para contornar uma situação delicada naquela que é a sua especialidade, os limites da constitucionalidade. No fundo estão a negar aos trabalhadores o seu direito à manifestação justificando que permitir-lhes a concretização da greve teria resultados catastróficos para a empresa e para o país.
A meu ver os trabalhadores estão a ser tratados como um bando de egoístas, imaturos e inconscientes que, focados no seu benefício pessoal, não pensam nem protegem o interesse corporativo e nacional. O que só vem realçar a debilidade da nossa democracia. Uma democracia em que permitimos, toleramos com excessivo poder de encaixe, que uma mão cheia de gestores e políticos arruinem bancos, atirem ao tapete a maior empresa de telecomunicações nacional da qual dependem várias infra-estruturas tecnológicas nacionais, contraiam contratos de PPPs ruinosos com vinculação de décadas, desperdicem milhões de fundos europeus distribuídos de forma corrupta, etc, tudo isto com impacto de milhares de milhões de euros na economia portuguesa.
Faltará algum mecanismo similar à requisição civil para obrigar estes gestores e políticos a executarem as suas funções sem colocarem em greve uma série de competências, valores éticos e morais cuja ausência atenta claramente aos interesses das suas empresas e nacionais?
Se as elites podem tomar decisões ruinosas para o país porque não poderá hipoteticamente a classe trabalhadora de uma empresa cometer um acto lesivo para a mesma? Aos sindicatos devem ser fornecidas pelas administrações as informações que permitam aferir da saúde e estado da gestão das suas empresas. Em posse dessa informação caberá a si decidir como agir. Porque não há-de ser possível a um sindicato decidir cometer um acto lesivo a uma empresa? Será um privilégio apenas reservado ao topo da pirâmide? A que propósito?
Vivemos um tempo conturbado em que os trabalhadores esperam que no mínimo os seus sacríficios se reflictam em respeito pelos mesmos e na condução de uma gestão exemplar. Se a greve é o expoente máximo da indignação, da insatisfação, não é uma requisição civil que vai contribuir de todo para a apaziguação. Vem apenas confirmar que para este governo mais do que sermos um povo capaz de suportar a austeridade mantendo produtividade e empenho há que parecê-lo a qualquer custo, mesmo que o de mais uma lasca da nossa democracia.
TAP – Take Another Plane
De um lado o (des)governo, do outro os trabalhadores da companhia aérea de bandeira. Curiosa, ou talvez não, é a coincidência de argumentos. As partes, ditas contrárias, apresentam as mesmas razões. Tudo se resume a “porque sim”. O executivo privatiza porque sim. Os sindicatos fazem greve porque sim. Extraordinário! Interesse nacional? Interesse da própria empresa? Nada disso é relevante para os protagonistas. Comove-me o empenho de ambas as partes em fazer jus à alcunha que a companhia (infelizmente) tem: TAP – Take Another Plane.
Confesso que não sei o que será mais estúpido, a privatização ou a greve suicida nesta altura do campeonato. Será assim tão difícil compreender que a greve fragiliza a posição dos funcionários da TAP. Será difícil entender que é mais fácil reunir apoio de todos nós se não morderem o isco da greve?

Juntos Podemos
Decorreu neste fim-de-semana a Assembleia Cidadã da qual saiu o movimento JUNTOS PODEMOS, por onde passaram talvez umas duzentas e tal- trezentas pessoas e onde se debateram muitas ideias, algumas repetidas mas muitas novas reflexões sobre as quais deixo aqui algumas notas:

– Ao longo do fim-de-semana foram muitos os que se dirigiram ao ISPA para darem o seu contributo ou simplesmente para ouvirem, algumas pessoas com intervenções passadas ou presentes em outros movimentos sociais, com histórico partidário e cultura política avançada, outros que certamente vinham pela primeira vez e isso é importante, e que constituíram uma assembleia heterogénea em termos de idades;
– Houve vários assuntos e grupos de trabalho com vertentes até aqui novas neste tipo de movimentos e fundamentais para dar várias dimensões ao activismo social, como a corrupção, a habitação, o TTIP (que é a porcaria do Tratado Transatlântico que basicamente e muito resumidamente se for aprovado isto vai ser uma m**da) com o compromisso de virem a ser tratados para futuro debate e desenvolvimento de actividade. Mas não só, a economia, o mercado de trabalho, as privatizações, o serviço público não foram esquecidos e relembrados como transversais a todo o movimento. Adicionalmente foi aprovado uma actuação no sentido de defesa da TAP como empresa fundamental e estratégica para o país, e o compromisso de todos nos solidarizarmos com os funcionários que neste momento travam a dura batalha não só de manter o seu emprego como manter a empresa sob alçada do Estado.
– Das intervenções dos convidados destaco a presença dos companheiros espanhóis do Podemos, que vieram enriquecer-nos com a sua experiência, principalmente a Carolina Bescansa, e que nos permitiram não só ver semelhanças e diferenças sobre a realidade portuguesa e espanhola como nos ajudaram a pensar um pouco o nosso país. Destaco também os convidados nacionais, o José Bateira que trouxe o debate sobre a economia e deu alguns contributos para uma ideia da qual me tenho vindo cada vez mais a aproximar e que há uns anos atrás eu acharia idiota, que é a questão das nossas possibilidades dentro do Euro e fora dele, e que apesar de não ser uma questão vinculativa não é um debate que deva estar fora não só da agenda de futuras assembleias como até do debate nacional. Assinalo também a intervenção da Raquel Varela, dentro do seu estilo muito próprio mas que elevou o debate para questões fundamentais como a dignidade no trabalho e do trabalho, o pensamento critico sobre o modelo económico em que vivemos e as possibilidades que podemos vislumbrar; assinalo também a intervenção da Paula Gil e do seu contributo para algo importante, que é a questão do papel fundamental de uma cidadania mais interventiva para uma mudança efectiva!
– Da votação final da Assembleia, saiu a data de uma nova assembleia, dia 24 de Janeiro de 2015 e a possibilidade do movimento evoluir para um partido, começando desde já a recolha de assinaturas para a eventualidade de ser essa uma das formas que o Juntos Podemos poderá assumir.
– Por último alguns pensamentos:
a) Parabenizar quem organizou durante meses esta assembleia e conseguiu trazer elementos do Podemos para que connosco estivessem;
b) Não sendo eu apologista da tomada enquanto partido, admito as vantagens e os inconvenientes que daí resultam. Por um lado a formação enquanto partido deveria ser uma decisão madura e só e apenas se a disputa pelo poder e eventual tomada se revelasse essencial e última alternativa para a defesa dos direitos. Mas como sempre os tempos são diferentes, não há tempo para maturar, não há tempo a perder, e o tempo eleitoral está a decorrer e com ele a esperança de mudança ou o medo da não-mudança. Todavia mais importante do que termos mais um partido, porque partidos interessados em defender o denominador comum que ali juntou tanta gente existem, o que não existe são as bases sociais de uma cidadania que defenda de forma dinâmica este mesmo denominador comum. Por isso creio que as energias se deverão concentrar na mobilização de todos aqueles que se queiram juntar para defender aquilo que nos poderá unir num movimento: a habitação, a escola pública, a água. Por outro lado existe uma maioria que não se sente representada e que anseia essa representação. Urge igualmente fazer tremer os partidos do arco da governação e evitar danos maiores, e aí a formação do partido é um acto de desespero. Mas esse desespero não deverá nunca ser aproveitado para a exaltação de alguns egos, que em política e em poder sempre aparecem. Apesar de não se ter tratado de uma participação de massas, podem ser construídas pontes de entendimento e enriquecimento mútuo entre o BE e o PCP, afinal alguns dos que ali participaram neles militam e outros tantos por lá passaram;
c) Por último um apelo a todos os que se queiram juntar ao Juntos Podemos que o façam. Será criada uma plataforma na web, de acesso livre e com toda a informação, havendo agora apenas a página no facebook, e os contactos reunidos na assembleia passada. Este será um movimento que vive para e da participação dos cidadãos na construção de um Portugal melhor, porque Juntos Podemos muito mais do que aquilo que imaginamos!
De “Made in China” a “Own by China”
Natal que é Natal não passa sem o facilitismo / pechincha da aquisição de qualquer coisa Made in China. A China há muito que é considerada a fábrica do mundo com o seu atractivo baixo custo numerário em detrimento de um alto custo social e humano. Felizmente, nos tempos mais recentes, as coisas têm vindo a melhorar graças a ONGs que denunciam e pressionam governos, marcas e fabricantes.
Só que o mundo está a mudar rapidamente e os eventos sucedem-se, ou conhecem-se, de forma impressionante. A China, anteriormente vista como um sistema fechado, virado para dentro, encontra-se há algum tempo em expansão contínua de forma subtil. Conquistadora de recursos naturais, marcadora de terreno político, construtora de armas dissuasoras, prepara-se para o assumir de um papel mais activo e preponderante a nível mundial.
Por cá os investimentos sucedem-se, nas ruas vencem claramente o jogo do monopólio da vida real. É impressionante a densidade de lojas chinesas, em detrimento dos pequenos comerciantes que desaparecem em catadupa. A ideia generalizada é a de que a concorrência e as leis do mercado assim o ditam. Os clientes querem barato sendo o preço o seu principal factor de escolha. As lojas chinesas conseguiram criar uma imagem de marca do ter tudo barato a qualidade aceitável captando com isso a preferência de muitos portugueses que fazem compras na onda do desenrasca.
No entanto é ténue a fronteira entre uma imagem e uma ilusão. Senti-o na pele ao comprar uma panela de tamanho XL. Desloquei-me à loja chinesa mais perto, encontrei uma a 20 € e comprei-a sem pensar muito nisso. Na semana seguinte passo num hipermercado e a mesma panela lá estava por 9,99 €! Posteriormente acompanhei colegas a lojas do chinês, com olhar atento, reparando que os preços das roupas estão ao nível das lojas de marcas mais conhecidas dos centros comerciais. Com notória menor qualidade!
Especulo que depois da extinção da concorrência começam a confortavelmente dominar a distribuição local pelo que, beneficiando de diminuição, ou aniquilação, de concorrência, de uma percepção global de qualidade qb e barato, podem agora começar a subir preços testando o limite do suportável pelo cliente. Sendo Portugal hoje em dia considerado por muitas marcas e entidades um laboratório de teste a novos produtos, novas políticas, novas metodologias, temo que também aqui estejamos a ser um bom laboratório de uma ‘invasão’ comercial. Não temos por cá uma típica Chinatown, como acontece noutros países, mas começamos a ser um imenso Chinamarket, acelerador da destruição dos pequenos estabelecimentos de comércio local especializado.
Podemos por exemplo olhar para a nossa tão querida Angola, a fim de um rápido balanço entre o ying e o yang e ponderar que tipo e intensidade de relação queremos com uma futuramente muito mais poderosa China. Porque quanto mais Own by China sejamos menos margem de manobra teremos para qualquer tipo de negociação relativamente a política externa e economia interna.
Como agravante temos ainda o facto dos nossos decisores políticos serem famosos por pensar a um nível de profundidade equivalente ao do seu umbigo, sendo presa fácil para os decisores chineses que são de tal forma estrategos e visionários, em defesa dos seus interesses, que se apossaram até do substantivo “paciência”.
Pré-aviso de que não bastará uma certa serenidade espiritual para os convencer das nossas boas intenções.
Número Primo
Quando factos são infâmias, quando tantos são poucos para tamanha responsabilidade, constatamos que afinal qualquer um de nós poderia tomar posse como administrador bancário. Parece que no fundo ninguém sabe de nada. Há até quem afirme que entra mudo e sai calado. Aposto que assinou presenças e actas.
Nem a densa nomenclatura financeira permite disfarçar o nanismo do regulador. Não é por certo a quantificação anglo-saxónica que o faz pequeno! Já a divulgação de documentação a conta-gotas (e em função das necessidades) demonstra quão defensiva tem sido a postura. Compreende-se, é como regular bolhas de sabão.
Mais uma que rebentou. Uns queixam-se da falta de tempo, outros acusam quem se queixa. Será criptografia baseada na Teoria dos Números? Será a chave assimétrica? Existirá chave publica? Não. Felizmente que não. É bem mais simples. Desta feita a comissão parlamentar vai mesmo esclarecer tudo devidamente. Todos ficaremos abundantemente esclarecidos. Como então? Bom, tal como Euclides demonstrou há mais de mil anos, estamos perante um Número Primo. Tão só e apenas. Sem ele, a bolha não teria rebentado. É que tempo é dinheiro…
RTP – Rádio e Televisão, Pá
Primeiro era para vender tudo. Depois era para vender só um canal. Afinal nada venderam. Que fazer pensou então aquele cuja força anímica já escasseava. Inovou. Foi pioneiro, foi recrutar ao sector das cervejas e refrigerantes. E assim ficou. Contrato de concessão do serviço público e tudo. Porreiro, sem pá, porque a expressão completa já teve melhores dias. Entretanto a força anímica esgotou-se. Pediu substituição, casou e retemperou no Brasil. Fez bem. A nova administração ficou.
E depois? Foi melhor, foi muito melhor. A vantagem mais evidente à época foi o percurso académico do substituto. Porreiro. Tomou pose. Que fazer? Uma vez que não se pode vender, porque o irrevogável não deixa, vamos despolitizar a concessionária. Excelente. Quando se tem estudos é outra coisa! Conselho Geral, assim se chamou, mas pelo sim pelo não, não fossem os menos instruídos questionar, acrescentaram “Independente”. Um pouco de redundância não assusta os académicos. Porreiro, sempre sem pá. Convidem-se as pessoas e a alta autoridade que se prenuncie. Chega a ser comovente ver as instituições a funcionar regularmente.
Qual a missão do dito CGI? Claro e conciso: “supervisionar e fiscalizar a acção do Conselho de Administração”. Outra importante tarefa deste despolitizado Conselho é o de emitir pareceres sobre “a criação de novos serviços de programas (…) ou alterações significativas aos serviços de programas já existentes”. Cheira a lápis azul. Avancemos.
A administração administrou, o Conselho avaliou. Pago por quem? Esquece, é independente. Não vês no nome? Porreiro, vá de retro o pá. Mas avaliou o quê? O Plano Estratégico da administração da concessionária. Chumbou. Não passou no crivo. Problema? A concessionária entrou num leilão onde uma concorrente privada tinha licitado 40% menos. Oh diabo! Se a independência é para isto, acabe-se com ela. Estão a perverter o mercado. Um pecado! Mas porquê? O investimento é irresponsável? Sem a menor perspectiva de retorno? O Plano estratégico diz que o investimento tem retorno porque potencia a venda de publicidade. Será que não respeita os termos do contracto de concessão? Negativo, respeita na integra. Mau…
Que diz o académico? Diz que nada tem a dizer. O Modelo de gestão é independente (não leste o nome, estúpido?) e como tal, nada tem a dizer. Muito bem. Coerente! Espera. Não vimos já este filme no verão? Creio que lhe chamaram Resolução. O executivo criou legislação, participou e palpitou, mas no fim a decisão é exclusivamente de outros. Porreiro. Deu tão bons resultados que o processo se generalizou. Criam-se Conselhos para decidir em silencio e com a devida reserva aquilo que é da esfera de competência do executivo. É óptimo. “Respeitar a independência do conselho geral” é uma excelente resposta. Mantém-se a pose de estado e em simultâneo a postura de democrata e respeitador. Fica bem. Afinal o problema é mesmo só com a constituição.
E o Conselho que diz? Ataca as perspectivas de retorno do investimento? Não. Aponta não-conformidades com o contrato de concessão? Também não. Diz que foi quebrada a lealdade. Porreiro, mas desta feita estou mesmo tentado à adenda do “pá”. Paro e pergunto: Quem é o dono dessa concorrente privada à concessionária? Alguém conhecido? Alguém que também esteja na corrida para a época final dos saldos que se avizinha? Claro que não. O conselho é geral e é independente… Os factos falam por si, Pá!
Camarate
Hoje, pela hora do jantar, contarei aos mais novos lá de casa, como a queda de um pequeno avião bimotor deu origem ao maior mistério da nossa história recente.
“Apenas” 34 anos depois, ainda não sabemos o que se passou. Sabemos que o pequeno Cessna 421 caiu em Camarate após descolagem. Sabemos a matricula – YV-314P. Sabemos quem nele embarcou, sabemos que dele ninguém saiu vivo. Sabemos tudo isto graças ao dedicado esforço de todos quantos investigaram este indecifrável mistério. Conclusões? Acidente? Atentado? Nada. Centenas de pares de mãos cheias de nada.
Então? Cada qual escolhe por si? Seja. Subscrevo a tese do atentado. Sim, digo-o de forma clara: É um atentado! É, porque ainda está a ser. Múltiplas investigações e perícias, uma dezena de comissões de inquérito e pelo menos outras tantas teorias da conspiração transformaram o sucedido num eterno enigma. Inequivocamente encobrimento. Repito, é um atentado. Um atentado à inteligência de todos os portugueses!
Apocalipse Now
Talvez seja apenas poeira levantada pelos pontapés de vento de uma tempestade de areia, talvez em breve se dissipe e depois de umas varridelas a normalidade volte a aziar a nação. Por agora, estranheza. Os tempos recentes têm sido estranhos em termos do desenrolar de imbróglios económicos, fiscais e judiciais.
A implosão consentida do Grupo Espírito Santo, a pressão fiscal sobre os colossos da energia Galp e REN, a frieza com que se lida com o caso PT colocando um resgate/nacionalização de parte, o desenrolar dos Vistos Gold, a detenção de José Sócrates, a condenação de Duarte Lima, tudo são sinais de que há fios da teia que se quebraram.
Independentemente da cor política é inegável que há um suceder de acontecimentos que espontaneamente nos desenham um sorriso de regozijo. Em alguns casos até um surpreendente reconhecer que neste ponto o governo/estado foi corajoso e esteve bem.
O que me deixa a pensar se Pedro Passos Coelho terá visão que lhe permita fazer a leitura de que esta pode ser a fórmula para a sua revitalização. O de ir às gavetas mofadas, que constituem o arsenal judiciário e mediático da guerra política suja, para delas lançar para a praça pública todos os processos duvidosos perpetuados por antigos governos.
Transformar-se-ia assim num paladino, defensor obstinado da rectidão, capaz de sacrificar cabecilhas de qualquer cor política, incluindo da sua e da do seu parceiro de coligação. Se o fizer é certo que, mesmo mantendo este nível de austeridade, obterá o reconhecimento do povo como um líder forte capaz de executar a tão almejada limpeza da República. E na minha opinião só essa faceta seria suficiente para, numa reviravolta inesperada, conceder-lhe o direito a mais um mandato.
Passos Coelho está na posição ideal para o fazer. Os objectivos contabilísticos do governo em vias de serem atingidos, o ser praticamente orfão de apoios de barões, a força do parceiro de coligação que pode ser submergida devido a danos colaterais, uma oposição às aranhas com um único caso que poderá ser destroçada por muitos outros ocorridos nas últimas legislaturas, o aproximar de um final de mandato em que o caos judicial e político, gerado por uma acção de limpeza desta magnitude, manteria nas sombras muitos daqueles que preferem navegar mares menos tempestuosos. O que é uma vinculação à Tecnoforma comparada com o que se encontra no valioso acervo de casos de gestão pública danosa, conflitos de interesses e corrupção?
Diz a bíblia que o apocalipse será o juízo final, em que todos serão julgados, os culpados condenados, os justos poupados e mesmo ressuscitados. Provavelmente muitas cabeças teriam de rolar até que se desse o milagre da ressureição de Pedro Passos Coelho. Há que ter fé, acreditar na eventualidade de um mundo melhor. Afinal um milagre é algo passível de acontecer a qualquer momento. Assim o queira Deus e um homem, corajoso, sem nada a perder, o faça num esforço épico. Por mais absurdo que isto pareça a verdade é que desde o início dos tempos que a história se escreve por linhas tortas. Faço desde já aqui uma jura, não uma promessa, uma JURA, que se tudo isto acontecer, se Portugal castigar quem de si abusou e fôr ressarcido de parte dos danos, doa a quem doer, o meu voto será consagrado a este menino sagrado/profano.
Basta mudares PPP!










