Category Archives: Mentalidade Tuga

O Valor das ‘Não Coisas’

Hoje as pessoas não têm tempo para nada.  Nem para conversar.

Se não é o trânsito…

O Valor das 'Não Coisas'

 

 

 

 

 

 

O amigo que vendia férias

O Agostinho foi o maior felizardo que conheci; tive até inveja dele. Sabe porquê? É que o Agostinho, que não vejo faz tempo – Olá Agostinho!; vendia férias. Ólarilas!… o Agostinho tinha tempo livre para vender, e mais, era um tempo que se desmultiplicava ao ponto de poder ser sempre dividido! Olé!…

Veja o que as pessoas conseguem para ganhar a vida.

A empresa dele chamava-se, veja só, “Não Faça Nada – Time-Sharing, Lda.”

O “não faça nada” está-se mesmo a ver, eram as férias, o “time-sharing” era a tal desmultiplicação da coisa (ou multiplicação… dependendo do “ponto de fuga”) e; a cereja no bolo era o “lda.”; porque, ele, de limitado não tinha nada. Vendia tempo livre desmultiplicado a toda a gente e toda a gente lho comprava. Havia tempo para todos! Ai ninas!…

Há qualquer coisa no “fare niente” muito “dolce” para que toda a gente o queira, não é?

Olha!… já anda a bicha… talvez ainda cheguemos a tempo.

(eh eh eh!; cá em cima chamamos bichas às filas… você sabia?)

Hortas de carros

Quando era catraio (sim!, já fui catraio também…) ouvia os velhotes dizerem que um bocadito de terreno, era a fartura das famílias. Qualquer bocadito de chão dava para plantar couves e novidades e ainda se arranjava um cantito para o esgravatar da criação.

Agora, olhe ali!… vê?, num retalho entre muros medra uma plantação de carros em segunda mão, brilhantes como em primeira.

Em cada esquina, em vez de couves, nabiças, alhos, feijão verde, etc., galinhas, patos, perus, coelhos e afins, temos; carros em segunda mão a brilharem de novos.

Porque será que as pessoas se desfazem assim dos haveres, ainda tão novos? Já pensou?

Vá lá… já seguimos de novo. Até estou a gostar do viscoso do trânsito; dá para a cavaqueira, que já tinha saudades.

As lojas do “compro ouro”

Ali no último cruzamento, você não reparou; estava uma loja da moda. Se olhar para trás ainda vê… vê?, isso mesmo!

Toda a gente dizia mal dos chineses (cala-te boca, que nos cortam a luz…) que estavam em todo o lado, em qualquer esquina; enfim… Agora são as lojas do ouro. Que se compra ouro cobrindo qualquer oferta. É forte hã… cobrindo qualquer oferta!

A aflição das pessoas… Levam ali os anéis para ficarem com os dedos é o que é.

Nunca vi tantas lojas destas; deve ser muita a desgraça e precisão.

Já viu bem que se abrem lojas e vendem franchisingues alimentados a desgraça?

Montemos o negócio

– Diga? Não; estava aqui a pensar, não era propriamente a falar consigo agora, mas mais com os meus botões.

Pode ouvir… pode até; olhe… pode até ser meu sócio caso queira e tenha tempo.

O negócio é o seguinte; uma loja de tempo. Isso mesmo!, comercialização e distribuição de tempo. Vai chamar-se Tempo & Bom Senso, SA.

Porquê bom senso? Ó criatura! Porque já não há nem se fabrica.

Ponha lá uma moedinha no parcómetro que isso ainda é um negócio onde nos havemos de meter; vender espaço consoante o tempo!

À Vossa atenção:

Este texto foi publicado a 11 de Jan. de 2012 na página “Ao Leme – Grupo Aberto”, no n/vosso conhecido facebook.

Ao tempo floriam como cogumelos as “lojas ouro”, onde já tinham sido bancos, onde já tinham sido cafés, onde agora se instalam “lojas do cigarro electrónico”, onde amanhã, espero, estejam cafés novamente.

E digo, novamente, não, outra vez. Porque espero que nos tragam, outra vez, algo de novo.

Grato por lerem. Convido a um cimbalino, ali, na habitual mesa da montra, onde passa a vida.

Obrigadinho.

 

sobre a figura:  Apanhada no trânsito da WEB, sem paternidade registada.

VOLTA-FACE! STOP.

Cedário

Escreveu aquilo com um calor de segredo.

Volta-Face! STOP-A apreciada guitarra

Como nos mercados, nunca saberemos se a precedência se passou com a oferta se com a procura; o certo é que o mancebo se deitava com o cabrão e se levantava com a cabra, ocupando o quarto de hora académico com as poucas orações que sabia e o puxar de orelhas à cama rebuliçada desde que o badalo repicara a derradeira.

Era olhado como um valdevinos na Academia, visto até como femeeiro! Veja o que são as más línguas.

O facto de emparelhar com aquele velho sargento-mor conhecedor da vida real, de amiudar nas melhores casas da Rua Direita, ligeira tergiversação do curso a que o propuseram, e de ter horários inconsonantes com os restantes, tinha-lhe até melhorado o vocabulário, do serrano para o universitário como se leu finalmente em ‘B’. Conhecem-se hoje até, e pretende-se demonstrativo da aplicação do académico ao falar Coimbrão, algumas propostas à inclusão na Gíria dos Estudantes, de expressões vertidas no calor dum momento, numa refrega dialética ou outro raciocínio metódico, sendo importante referir para o bom andamento do que aqui se leva em conta que, muito do que foi dito, o foi também graças à companhia do Alfredo, desde a Pampilhosa, e à abertura de espírito que davam os tintos servidos para amparo do coração quando ouvido um fado mais apelativo do sentimento. É também inegável, e por isso se confessa, que muito do que aprendeu o deve a reputadas presenças femininas de arejados pensamentos e fazeres, que alternavam entre a costura e os trabalhos domésticos.

Ora adeus!… e o resto são maldades…

Mas regressemos a Chaves e aos preparativos da quadra que se avizinha, que de ruindades está o Mundo cheio e o que nós precisamos é de paz e harmonia. É ou não é?

Os cuidados da Maria do Amparo, já se podiam sentir nos arranjos da casa. Enquanto a Senhora Dona Maria do Carmo bordava uma toalha de consoada carregada de azevinhos, prendinhas, laçarotes e meninos Jesus, ela arejava o quarto do estudante, trocava as naftalinas, escovava colarinhos, mudava cortinados, encerava o soalho e esperava ansiosamente que o seu menino, porque também o era, regressasse de tão longe para o aconchego do lar «o meu Bastiãozinho, quase doutor, vejam lá», lacrimejava a Maria do Amparo ao limpar o pó do “passepartout” de prata que lhe tinha oferecido pela comunhão solene.

O capitão, esse, bufava aos quatro ventos a impaciência da espera por um telegrama urgente «estes serviços públicos!…» precedente de Coimbra com destino ao Posto dos Correios de Chaves remetido por Sebastião Júnior para Sua Excelência Sr. Capitão Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção.

Mandava balanço! Um filho assim, quase doutor a tratar o pai com aquela pompa… assim sim, valia a pena a despesa da alta mesada, os cuidados num reforçozinho quinzenal, sim, que um homem tem as suas necessidades… e outros mimos a que não se furtava de enviar ao cuidado do Malaquias, agora sargento-mor no Aquartelamento de Sant’ana. Um camarada!

Chegada a missiva «finalmente, pôxa!…», sentou-se nos bancos fronteiriços ao posto e «ora vamos lá ver… deve ser o dia e hora da chegada», desembainhando a unha mindinha para abrir o sobrescrito, ó Sr. Capitão!, então! foi derrubado com uma frase, que o tombou redondo para cima duma senhora sentada ao seu lado que soltou um gritinho de aflição ao ver esbardalhada a corpulência castrense do Sr. Capitão. Ai Jesus!; disse. Perdeu os sentidos; viu-se.

Imediatamente se chamaram uns recoveiros que, como era perto, o pegaram em charola e processionalmente o levaram ao repouso do quarto. Que maçada; o senhor doutor já vai a caminho.

A Sra. Dona Maria do Carmo atarantada com o acontecimento segurando numa mão o copo com água açucarada e na outra um papelito orientava a Maria do Amparo que submetia aos lombos do Sr. Capitão uma almofadinha bem pensada «por môr de lhe amparar as cruzes, Sr. Capitão».

Quando o oficial veio a si, pediu recato e disse à esposa que «não se faz!, tantos cuidados desde catraio, a melhor escola, os melhores cortes no alfaiate, Coimbra… para agora, valha-me Deus, para agora me faltar ao respeito com uma só frase… não se faz…» fizesse a fineza de ler o desaforo e falta de respeito no imperativo duma frase que lhe mandava seu filho.

Dona Maria do Carmo numa solidão materna que só as progenitoras têm e só elas entendem, leu pausadamente, e sentou-se; tirou da manga o lencinho bordado onde fungou, e «coitadinho do meu menino, sempre tão precisado, quanta ternura e respeito em escrever em maiúsculas o nome do Capitão. Até no endereço, quanta consideração. Que lhe terá acontecido para estar tão desprevenido, coitadinho. Uma frase que não é um pedido mas sim, um lamento de desespero de alguém que se antevê na penúria. Ai faz-me tanta pena…»; erguendo-se a custo, requereu:

– Então quando lhe vai valer nesta aflição Sr. Capitão?

Na credência, jazia envergonhado um telegrama amarrotado, onde espreitava uma singela frase, três palavrinhas apenas, o mais que a aflição pôde gastar numa mensagem:

PAI! Mande-me dinheiro. STOP

FIN(almente)

 

Da figura: de Celestino Alves André (zona do Arco da Almedina – entrada do “Quebra Costas”) evocativa do fado [ou canção] de Coimbra. Tributo da J. de Freg. de Almedina à cidade de Coimbra. Inaugurada no dia 18 de Julho de 2013. As foto(s), que agradeço, são de Pedro Coimbra, subtraída(s) do http://devaneiosaoriente.blogspot.pt/

Nota: A apreciada guitarra não pertence aos acontecimentos nem à sua data; que se desconhece.

 

 

Europeias 2014

Que celebração, que vitória! A maior força politica nacional, a abstenção, mostrou a sua raça. Esmagadora. Não se trata de rejeição, nem preguiça. É pior. É convicção! Cada um olha pelo seu umbigo e salve-se quem poder. Não é bonito, mas é verdade. Não escolhem mas elegem. Serão 21 deputados. Um deles foi eleito com menos de 240.000 votos. Quem é ele? Um empreendedor, está bom de ver: Qual Manuel Sérgio dos dias de hoje, fez aquilo que ninguém faz, observou os números. Compreendeu algo muito simples: Se a maioria não vota, cada voto vale o triplo. Nem necessitou de grande orçamento para campanha. Mal de nós se em vez de representar quem o elegeu, optar como os demais, por se representar a si próprio.

Os verdadeiros resultados. Fonte:  http://www.europeias2014.mai.gov.pt/

Os verdadeiros resultados da europeias 2014
Fonte: http://www.europeias2014.mai.gov.pt/

Os “vencedores” de ontem obtiveram o voto de 10% dos inscritos, e os “derrotados mas pouco”, 9%. Fascinante não é? Os partidos do regime, representarão um quinto dos eleitores (20%). Claro que juntos elegeram mais de metade dos deputados ao parlamento Europeu. Não é bom? É óptimo… Talvez seja o início do fim da hipocrisia, da diferença fingida, da alternância sem mudança. Os apelos de sua excelência, el Rey de Boliqueime serão finalmente ouvidos. Pacto de regime, união entre todos, pois de outra forma não existirão maiorias absolutas nas próximas legislativas. Clarificador. Eu por mim, mantenho o apelo à “dictadura”.

O que dizer das mais de 250.000 pessoas que se deslocaram às respectivas assembleias de voto para anularem o dito, ou o entregarem em branco? Agradeço o seu gesto, simbólico mas pleno de significado. Foram lá. Graças à lei eleitoral, também eles engrossaram as fileiras da força oculta, dessa vontade não expressa que é a abstenção, imponente que sem ambiguidade disse: está tudo bem, façam como entenderem. Eles agradecem. Assim farão.

VOLTA-FACE! STOP.

B

(continuando-A)

O hábito que faz o monge, é um costume asseado.

Volta-Face! STOP-In Jornal ‘A Liberdade’ (Viseu), de 22 Out. de 1886, 16º Anno, Nº 829

Ao Sebastião(zinho) Júnior, acabados os estudos com assiduidade no Liceu Nacional de Chaves e pintando-se-lhe já o buço, fora dada a rara oportunidade de estudar em Coimbra; essa Lusa-Atenas onde tantos moços cursaram e donde tantos ilustres saíram enobrecendo Portugal. Frequentaria direito, sabida matéria que patrocina as rectidões necessárias ao Mundo conhecido, e tão privadas ao Mundo sentido.

Percebeu-se um bruaá… pelos lugares circundantes, não que duvidassem das capacidades financeiras do casal, nada disso!, e fora um bruaá… recatado, mas Coimbra… para onde era tão raro ir um conterrâneo, mesmo fidalgo. Tinham portanto razão para que se abrissem as bocas, mormente as mais desdentadas e titilassem as línguas. Era acontecimento para foguetório.

Que não, que era muito longe, muitas horas de caminho, que não aguentaria o latim, não tinha saúde, que queria fazer versos, que…

– Sebas-tião! Que… coisa nenhuma! Está decidido! Filho meu será doutor ou honrará as linhagens da família com uma carreira de armas. Passa pelo Albino a quem já lhe encomendei um traje nas melhores fazendas e te espera para tirar as medidas.

– Mas ó meu pai…

O capitão, lançando-lhe um dedo cominatório, comandou:

– Bastião! Sentido! Ou capa e batina, ou rancho e caserna!

– Pronto meu pai, se vossemecê assim quer… está bem, vou-me a Coimbra…

– Assim é que é Bastião! Descan-sar!…

Dona Maria do Carmo, presa a uma vida de compromissos e rendas, tremia de inquietude e já saudade. Era ao seu filho único, ao seu menino, que traçavam ali o destino e ao vê-lo assim, tão aflito e sem poder opinar, também chorou; chorou e tentou uma intercedência:

– Meu esposo, não leve a mal mas, se o Bastiãozinho não quer ir quem sabe…

– Senhora Dona Maria do Carmo; já fiz as minhas démarches. O futuro do mancebo está decidido.

Ficou-se então a Senhora Dona Maria do Carmo, humedecendo um lenço do enxoval sem sonhar que o capitão, homem avisado em deambulações de tropas e entendendo a mocidade ociosa, pedira já a um seu camarada de caserna que o apresentasse aos rapazes grados de Coimbra por forma a desvia-lo da tentação das tabernas e das sopeiras, fontes sabidas de complicações.

Assim o manda a mais antiga usança em se encontrando amigo a quem não se tolheram os cios nem, no caso, os bolores da caserna adulteraram o conhecimento das ruas circundantes. E a mãe que não se apoquentasse, pois o seu menino não assentaria praça em nenhuma república, abrenúncio!, esse regime de vícios e pouca-vergonha em que os rapazolas se faziam homens e logo regrediam, não! Estava já falado para pensão da Ermelinda, mulher de reputação e asseio conhecidos.

Idas as despedidas, os soluços da partida e passada a Pampilhosa, o estômago borboletava-lhe agora com uma saudade intensa, uma inquietação ignorada que o levava quase ao vómito «é este bambolear cadenciado que me tonteia», dizia à sacola da merenda enquanto rebuscava uns bolinhos de bacalhau que a Maria do Amparo lhe aprimorara para vencer o caminho.

A viagem, em vez de lhe alargar os horizontes não, fechava-lhe o futuro ao irredutível.

Um suspiro mais sonoro, e o cheiro das frituras, alertaram os sentidos dum camarada risonho, sabe-se hoje que do Porto, levando-o às falas e a uma espreitadela ao bornal. Fez-se amizade, repartiu-se o farnel, trocaram-se informações e; ficou Sebastiãozinho a saber que tinha ao seu lado um vizinho de quarto na Pensão e que, precisando de ajuda e explicações estaria ali ao dispor «com três anos de primeiro semestre sei as matérias de fio a pavio, meu menino…».

O conforto da companhia e o esvaziar da sacola aceleraram a viagem e fizerem voar as preocupações a tal ponto que, quando deu por si estava já no quarto, derreado pela subida exterior e interior para o quinto andar do nº_ _ das Escadas do Quebra- Costas. Pousou a mala e sentou-se olhando os telhados que desciam, até se deixar dormir.

Alfredo bateu à porta com energia no momento em que a Ermelinda chamava para o jantar. Conhecido da casa, o Portuense fazia de cicerone apontando as portas dos cómodos e segredando incontáveis que por pudor e recato não se revelam.

A sala de jantar sendo modesta, era familiar «então boas noites…» e o colega prometeu um amanhã cansativo que passaria num salto.

Obliteram-se ao sucedido dois meses de calendário, contados corridos em dias úteis e inúteis, e não serão enumerados os ah!s… caramba!s… céu!s… uis!… puxas!… shh!s…, alto lá!s… arre!s… e irra!s… Senhor me perdoe!s e outras interjeições e locuções que se foram proferindo por essa Coimbra fora e n’algumas passagens por cadeiras leccionadas. Pede-se compreensão, pela abstinência em comentários detalhados que é, em prol do bom nome de presentes e familiares, vivos ou memórias. Respeite-se a Academia e poupe-se o leitor (V.a Exa.); que estão de paciência esgotada.

E o desabotoado não era ostentação! mas sim falta jeito para pregar botões, ora essa!…

Há dois meses tropeçado na Lex Duodecim Tabularum e jamais visto à Porta Férrea, arguiram-lhe uma inadimplência e chamam-no de contumaz, coisa que o pasmou por pouco saber em latins. O apodo dera-lho um lente, que o ameaçara, mos maiorum, com a expulsão da Academia. Credo!…

Tudo na vida é um equivoco, um mal entendido; e este, era da cor do traje. Que apresentar como alegação?

Sem resposta para os telegramas hebdominários do pai, nem notas para apresentar, restavam-lhe as moedas para um pedido.

Mais a acrescentar? Sim, aproximava-se o Natal. Esse era o busílis in diebus illis.

 

Continua para “Cedário” e, Fim.

(da figura: In Jornal ‘A Liberdade’ (Viseu), de 22 Out. de 1886, 16º Anno, Nº 829)

VOLTA-FACE! STOP.

A

Bravuras que um povo olvida.

 

Volta-Face! STOP-Moncorvo e a guerra Fantástica de 1762

 

Quando o capitão chegava trepidante ao cimo do morro era como um clangor e o Zêi, como lhe chamava, parava a freima da pastorícia e antes que ele posicionasse a mão Napoleónica no colete já corria desbarretando-se «às ordens do Sr. Capitão».

Imobilizada a montada «aííí…», duma mansidão que o seu ventre dilatado aceitava sem grandes ondulações, o castrense tonitroava comandando:

– Bom dia Zêi! Então não me alinhaste as ovelhas?

Era assim Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção, terratenente, capitão de cavalaria graduado e colocado em reserva antecipada pelo regimento de Cavalaria de Estremoz, mas no activo, e nas suas quintas. Da sua esposa, melhor dizendo, que o capitão era de antiga e mui nobre família de armas, servidora do reino na Guerra Fantástica e por isso, detentora de lustrosas salvas de prata e ornamentada com vasta medalhagem (embora patinada, como adiante se assestará para registo), mas sem terras conhecidas como suas, além da Pátria.

– Não senhor, senhor capitão, são umas desordenadas!… Mesmo assobiando aos rafeiros um toque a reunir elas não alinham, não senhor…

O ardor de comando e da ordem-unida estava-lhe no sangue e vinha-lhe de seu tetravô (investiga-se ainda, por indeterminação segura de datas, se pentavô); um façanhudo alferes de infantaria que se dera, por razões de entendimento nas diversas movimentações de tropas, com um oficial vindo das Índias Orientais, um tal Robert McNamara, que, olhe, quem sabe… isto das coincidências históricas são realidades tão antigas como hoje estarmos aqui e termos tantos compatriotas de olho azul. Bem, tamanho foi o entendimento que, ao que se sabe, não foi disparado um tiro, alinhada uma alabarda nem arreado um cavalo para que a guerra efectivamente se efectivasse. Razão pela qual se pensa o seu nome não constar nos anais heroicos de tão importante conflito, mas o do estrangeiro sim!, que nós, para os nossos somos uns desagradecidos mas para os de fora são as ondas que se têm visto.

No entanto e ressalve-se, ambos combateram, se assim se pode dizer, na Guerra Fantástica, desenrolada (é o termo certo) em mais de metade do ano de Mil Setecentos e Sessenta e Dois, e bem se lhe pode chamar “fantástica”, pois só em dois casos dois, que se saiba, o povo Português ganhou uma guerra sem que se disparasse um tiro. Duzentos e doze anos depois, secundava-se a façanha.

Seria injusto e incompleto se não se elogiasse aqui também a sua metade, que o era, não só de cara mas de alma e corpo inteiro; Senhora Dona Maria do Carmo Bentes, essa santa de famílias gradas, verdadeiro refrigério dos humores e impulsos do capitão que, ao contrário do que possa parecer pelo que se disse ou dirá, tinha um coração onde cabia o Mundo e sobejava espaço.

Pois a Senhora Dona Maria do Carmo era dos “Bentes” (você deve conhecer…) de Boticas, ali para os lados de Chaves, seu tetravô, os nossos respeitos, servira em infantaria e na mesma guerra que o avô de seu sogro (ou bisavô, é o tal alvitre), ambos participando nas movimentações Alentejanas, durante as quais, após assertivos posicionamentos e, temendo acusações de bastardia, acabou casando com a sua irmã mais nova, uma solteirona até à data. (irmã do futuro cunhado, entenda-se).

Fora um gesto bonito, e, veja como são as coisas; são portanto primos a Senhora Dona Maria do Carmo e o Sr. Capitão de Azinheiro Carvalho e Assumpção.

Era vê-lo galhardo, montado naquele cavalo inteiro dum ruço cardão, «comandando um pelotão de infantaria marchando de Chaves para a Torre de Moncorvo», lia-se na chapinha dum quadro que descansava as telas fendidas ao lado da cristaleira à mão direita quem entra na ampla sala de jantar e onde se via um outro, mais rendado e pequeno, num alinhamento que punha a jeito uma moça airosa, acenando adeuses com um lenço de saudades. Era sua tetravó, Deus haja, que se despedia.

Que quadros, que figuras, que história, quanta memória vertida aos vindouros que saberão, é uma certeza, enaltecê-la, quem sabe em versos, dando-nos o merecido épico pelos acontecimentos decorridos. Oxalá…

É nesses vindouros que uma família confia e nesta, estava depositada em Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção Júnior, primogénito, e até ver, único do casal de quem se fala, a esperança no que se espera.

 

Continua para “B” (com a licença de vosselência)

 

(sobre a figura: Moncorvo e a guerra Fantástica de 1762

In Cartografia Histórica Portuguesa – Catálogo de Manuscritos (Siglos XVII-XVIII)

Real Academia de la Historia Madrid)

Pontuação dos valores de Abril

A Troika, deveras admirada pelo meigo apego demonstrado pelos Portugueses, perguntou a Passos Coelho quantos zeros à esquerda possuem os tão falados valores de Abril.

Passos, indignado, responde que à esquerda não existem quaisquer zeros que sejam um valor Seguro, o futuro está nos zeros à direita!

No acumular de pequenas fracções irrisórias que geram milhares de milhões de euros em receitas. O segredo está na gestão da revelação da soma adicional de cada uma destas parcelas por forma a que a balança, cega, não dê pelo ultrapassar do limite de excesso de carga.

E sobretudo ter o cuidado de não fazer com que o povo deixe de virgular e passe a pontuar. Tal como na conveniente interpretação da legislação a continuidade do poder e governação alicerça-se na ínfima e grandiosa vírgula. Há que eliminar do raciocínio do povo a capacidade de exprimir qualquer pontuação.

O ponto de exclamação é o mais fácil. Basta ao melhor estilo Português lançar sucessivos boatos incendiários e/ou de corte e costura pelos canais oficiais não oficiais. Uns diz que disse, uns exageros, umas hipóteses no cimo da mesa, algo escandaloso como “cada Português terá de contribuir com um lingote de ouro no porão para lastrar o país” Algo que possa ser prontamente rebatido com contra-informação correctiva que introduza medidas retrácteis como “cada Português terá de contribuir com 1/100 de um lingote de ouro no porão para lastrar o país” Que mesmo sendo muito duras são uma grande melhoria vs o inferno que seria o primeiramente anunciado.  Com o passar do tempo esse 1/100 poderá caminhar para 1/10 ou mesmo 1/1 sem que exista manifestação de espanto e repúdio devido à saturação com os enredos da novela governativa.

O ponto de interrogação exige mais coragem. Demonstração de uma firmeza rudimentar, de um quero posso e mando, em que um “Porque sim” ou “Sou o único capaz de indicar o caminho pois só eu detenho o conhecimento total sobre todo o cenário” são as respostas a todas e quaisquer questões pertinentes ou impertinentes. Esta é a forma de melhor instalar o “Não quero saber” ou “Não vale a pena” permitindo a tão desejada indiferença e desinteresse para com as decisões governativas. Perguntar para quê se a resposta é a cassete do costume?

O ponto final é o mais perigoso. Felizmente só pode ocorrer de 4 em 4 anos pelo que pode ser o foco total da atenção no último ano da garantia eleitoral, até porque obriga à anulação das medidas acima tomadas. Apesar de aparentemente antagónico, para evitar o ponto final, há que recuperar os níveis mínimos de pontos de exclamação e interrogação. A arte está em recuperar apenas aqueles que dão jeito! Para que então sejam ouvidos, compreendidos e aceites. Como efeitos colaterais podem surgir exclamações e interrogações relativas à escandalosa redescoberta da audição, compreensão e aceitação da voz do povo. A tentação para aplicar a receita, mais atrás prescrita, para a sua extinção será muito grande e deve ser evitada a todo o custo. A manutenção do virgular exige contenção nesta fase. Se tudo correr bem é evitado o ponto final e uma nova vírgula abre um novo e longo capítulo onde se pode respirar tranquilamente o renovado período de garantia governativa com a receita do costume.

No fundo, apesar dos cortes na área da Cultura, o nosso governo sabe que a boa vida é como a fusão de uma longa à la Manoel de Oliveira com um guião escrito ao estilo de José Saramago,

Oxford comma

Tachada inqualificavelmente típica

tacho  (origem obscura)

substantivo masculino

Utensílio de cozinha, geralmente metálico, pouco fundo e com asas, usado para cozinhar ao lume.

[Informal]  Emprego rendoso; colocação que dá regalias e bom salário. = CONEZIA, MAMA, PREBENDA, SINECURA, TETA,

“tacho”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Hoje é dia de dar largas à imaginação na cozinha. Decidi fazer uma pratada tradicional portuguesa como uma boa desculpa para juntar 10 milhões de pessoas à mesa e servir um tacho.

Ingredientes:

  • 1 Cebola grande
  • 2 Tomates maduros
  • 4 Dentes de alho
  • 1 Batata média;
  • 2 Molhos de espigos
  • 2 Colheres de sopa de mostarda
  • 1 Coelho
  • 1 Cravinho
  • 1 Copo de vinho tinto

Preparação:

  • Picar a cebola bem picadinha até estar em prantos;
  • Cobrir de azeite o fundo de um tacho (com tampa), juntar a cebola picada e deixar refogar;
  • Não cortar os tomates. Guardá-los para uma próxima manifestação em frente à Assembleia. Podem vir a ser úteis;
  • Usar o alho para afugentar os maus espíritos;
  • Lavar bem os espigos e cortá-los em pedaços;
  • Juntar os espigos, envolver bem e deixar suar;
  • Colocar a batata em água a ferver. Quando estiver quente… passar ao próximo;
  • Cortar o putativo líder em pedaços pequenos e adicionar mostarda até lhe subir ao nariz;
  • Deixar cozinhar 4 anos com tampa em lume médio.
    tacho

Et voilá! Sirva um prato inqualificavelmente típico, cheio de portugalidade. Sirva com um cravinho de 40 anos e um copo de vinho de tinto.

 

Pagar impostos é coisa de pobre

Fugir ao fisco é fácil em Portugal. Não é é para todos. Este País não é para pobres nem honestos. Não! Seus palermas! Badamecos! Pés descalços! Andam para aí a contar tostões. Este mês ainda agora começou e já choram com o IMI. Andam a poupar tostão a tostão para depois pagarem o IMI, seguros do carro e da casa e o IUC. Sabem o que fazem os ricos? E sem esforço? Vão de férias. Vão produzir mais pequenos fidalgos. Garantir a proliferação da linhagem.

Capture

Esses, com pasta a sério, estão isentos de um rol de taxas, supostamente porque, e só se, são criadores de emprego. Mas, há sempre um mas, contratar mais pessoas, é uma medida de último recurso para os capitalistas. Ora, apelidá-los de “criadores de emprego” é muito mais do que ser incorrecto. É desonesto.
Quando esta realeza é beneficiada em nome da criação de postos de trabalho, o que acontece é simples. Os ricos ficam mais ricos.
Ora vejamos, se realmente os impostos mais baixos e mais riqueza para os ricos significassem criação de emprego, estaríamos assoberbados de empregos. Estaríamos aos berros a pedir ao resto dos cidadãos europeus que viessem para este país trabalhar em vez de mandar os nossos embora.

Querem tirar o Passos Coelho da cadeira mágica que dá poder pelo rabo acima, querem? E quem é que querem lá meter em troca? O outro? Sentem-se mais seguros com ele é? Ou ainda o outro que não sabe se fica, não sabe se sai mas cola-se sempre a quem está? Não é tudo a mesma coisa? Mais do mesmo? Sai um, entra outro e muda os métodos todos mas a eficácia é a mesma nulidade. Ricos mais ricos e pobres mais pobres. Já viram algum desses partidos com setas viris tiradas do PowerPoint, punhos de rosas ou duas setas opostas que apontam para o mesmo centro (a tal cadeira que dá poder pelo rabo acima) acabar com a corrupção? Algum deles acabou com as leis de isenção fiscal? Algum deles prendeu ou denunciou o rombo no BPN?
Os palermas são vocês e eu. Cambada de atrasos de vida. Nós no fundo até desconfiamos. Lá mesmo no fundo dos fundos dos confins. E o que fazemos? Cruzamos os braços ou mandamos uma gargalhada. Nós gostamos é de sonhar com luxos.

PJ e o seu novo brinquedo

Como grande apreciadora da vida e conduta policial, vibro com novidades fresquinhas sobre os Sô’s Agentes da Autoridade que de autoritários têm muito e de respeitáveis pouco se lhes advinha.

80 mil metros quadrados. Um heliodromo que garatem não vai ficar parado. Tecnologia de ponta. A NASA foi eleita como exemplo tecnológico (os computadores que aqui temos são é Toshiba’s dos anos 90). Advinha-se uma Policia Judiciária discípula de um FBI. Os agentes, de bigodes fartos e barrigas de cevada são os mesmos. As munições são novas e até brilham mas os gatilhos estão engatados. Não há problema. Resolve-se com o cacetete. Resolve-se? Depende. Os populares, aqueles que lhe tão caridosamente lhes oferecem o corpinho ao manifesto à porta da Assembleia da República, esses sim. Vão sentir o poder da nova Sede da PJ. Pumba, pumba, toma lá que já almoçaste. Ai subiste um degrau? Não podes! Pumba! Ai puseste um jornal a arder? Pumba! Que é para aprenderes a reciclar. Ai arrancaste um caixote do lixo? Pumba, pumba, pumba, pumba e pumba e pumba e pumba. Foram mais pumbas porque vieram mais três colegas de profissão ajudar ao pumba, pumba. (“Colegas de profissão” – percebem?)

Mas, atenção ao mas. Mas se forem colegas que se manifestam em frente à Assembleia da República, tenham calma. Vamos dar os braços e fazer um cordão. Somos todos amigos. As armas não funcionam de qualquer das formas e os cacetetes ficaram na esquadra. Isto é uma manifestação que não pode correr mal.

Voltanto ao espectacular edifício da nova Sede da PJ. É lindo. Não é propriamente um edifício verde. Daqueles com preocupações ambientais e tal. Temos Sol 250 dias por ano mas não há cá paneis solares nem coisa que o valha. 80 mil metros quadrados. Uau. Estou de boca aberta com tanto espaço. Compraram baralhos de cartas para toda a gente?

Sede PJ

Segundo a Agenda Cultural de Lisboa, “(…) Houve a preocupação de criar uma fachada principal que se integrasse na zona envolvente […] de modo a minimizar o impacto da sua presença (…)”. É verdade! Mal se dá pelo edifício. É como o policiamento das ruas. Também mal se dá por eles. Eles estão lá. Estão é ocupados com outras coisas. Não os perturbem.

Portugal: analogia de um crime

No final de Janeiro assaltaram-me a casa. Foi evento de estreia.
Como não há muito a fazer acabo por digerir a coisa fazendo um exercício de analogia entre o sucedido e o cenário em Portugal.

Os sinais eram evidentes. Assaltos a casas em redor durante semanas. Apesar de tudo nunca coloquei em causa também eu ser um alvo possível. Até porque tenho três cães de guarda. Tinha algum dinheiro em casa que estava na primeira gaveta da cómoda do quarto sem qualquer tipo de camuflagem.

Os ladrões aproveitaram um dia de intempérie, com muita turbulência e chuva torrencial, para executarem o roubo. Dominaram os cães à pedrada e com spray atordoante. Tentaram arrombar a porta até que rapidamente detectaram uma janela com trinco avariado, entraram, foram directos ao quarto, encontraram o dinheiro e sairam sem mais demora. Um trabalho limpo e rápido sem grandes desarrumos.

Ao chegar a casa tinha vizinhos / testemunhas que viram tudo quando a chuva amainou. Estavam três no meu terreno, dois no carro de apoio à fuga, aparentemente ciganos. Um vizinho que por eles passou lado a lado disse-me que eram assim escuros, com um ar de deliquentes, pensou serem amigos meus que estaria a receber em casa.

Chamei a polícia, na minha zona sou servido pela GNR, e chega um grupo de agentes que posteriormente chama a brigada de investigação pois haviam indícios que podiam ajudar numa investigação em curso. Quando dei por mim tinha 5 polícias em mini-comício no corredor discutindo o roubo das suas condições feito pelo estado e a necessidade de agir com manifestações de larga escala.

Posteriormente os investigadores foram falar com todos os vizinhos / testemunhas e qual não é o meu espanto quando quase todos os relatos minuciosos sobre a forma de agir e aspecto dos ladrões se reduzem a uns “não vi muito bem porque estava ao longe”, por vezes com testemunhos precedidos de um “não me envolva no processo que não quero ter nada a ver com isso! Não quero perder tempo nem gastar dinheiro para ir a tribunal!”. Um dos vizinhos que tinha passado pelo carro dos ladrões disse que não podia deslocar-se ao posto da GNR no dia seguinte para olhar para umas viaturas porque era desempregado e não podia suportar a deslocação.

No relatório da GNR, que fui assinar no FDS seguinte, relatavam que tinha sido assaltado por dois indíviduos segundo relato de vizinha que não pôde ser identificada. Quando coloquei em causa o relato, uma vez que eram cinco e que só não identificaram quem não quiseram, lembraram-se que tinha lá estado a brigada de investigação logo não fazia mal a discrepância. Eles só têm de relatar as coisas mais ou menos como aconteceram. Os investigadores é que são os especialistas. Além do mais se forem apanhados, e seguirem para tribunal, são soltos antes sequer do agente acabar de preencher a papelada protocular.

O que tem isto a ver com Portugal?

Este relato transpira o tradicional ser Português. A vida corre-nos bem porque raio nos devemos preocupar com os sinais de degradação do ‘ecossistema’ que ocorrem em nosso redor? Tal como aconteceu na era de bonança em que o crescendo generalizado das condições de vida nos cegou para a hecatombe que haveria de vir.

As nossas mais valias são por vezes desbaratadas estando à mão de semear daqueles que as cobiçam secretamente, aguardando a oportunidade ideal para as tomar facilmente. Ao estilo das recentes privatizações. Aparentemente a culpa é dos políticos e decisores locais, no entanto os beneficiários são organizações mundiais organizadas peritas em pilhagem legal.

Em teoria as nossas forças armadas estão de prontidão preparados para o que der e vier. No entanto há o real risco de o equipamento ser inadequado, desiludindo quando posto à prova por uma situação real.

Tal como nós, os com pele mais ‘tonificada’, os políticos são todos iguais, todos a mesma escumalha. E desta forma preferimos não participar em actos eleitorais, ao invés de arriscar dar oportunidade a ideias menos usuais defendidas por outros políticos. Ironicamente com o voto em branco ou abstenção acabam por dar ainda mais força aos partidos históricos da nossa democracia.

“Não me pagam para isto!” Um clássico para justificar o laxismo e a incúria. Entra-se em pescada de rabo na boca. No imediato não se trabalha o que se deve porque não nos pagam o que é justo, no longo prazo dá-se o vice-versa e a razão perdeu-se pelo meio. Até nas manifestações há filhos e enteados e aparentemente a indignação de uns suplanta-se à de outros.

Os portugueses são lestos a exigir justiça ao mesmo tempo que vemos, toleramos e compactuamos com injustiças. Todos prestamos e usufruimos dos nossos pequenos compadrios, sem ponderar que independentemente do valor do favor estamos a minar os alicerces da imparcialidade e igualdade.  Aparentemente a justiça dá demasiado trabalho, demasiadas dores de cabeça, tendo muito pouco retorno. Pelo que nos damos por contentes em ladrar e rosnar enquanto o saque trespassa.

Nós olhamos mas não vemos, temos os dados todos ao nosso dispôr mas não pensamos nem planeamos. Fiamo-nos nos especialistas internacionais que disso se ocupam a tempo inteiro. Homens zelosos pela manutenção da democracia e soberania em cada estado membro, desde que os números o permitam.

Dá para concluir alguma coisa desta confusão?

A solução para ambas as situações começa a caminhar para o sujar de mãos. Se queremos tirar os bandidos do poleiro talvez a solução seja um tiro certeiro. Diferentes pessoas de diferentes meios e diferentes classes sociais cada vez mais expressam o seu desabafo em forma de

“Isto só lá vai quando alguns gatunos aparecerem esticados no meio da rua…”

O que quer dizer que o sistema poderá voltar-se contra ele próprio. Apesar de artilhado para desencorajar os mais audazes ele começa a fraquejar. Se as forças de protecção têm meios cada vez mais inadequados, se todos embrutecemos iguais, se as testemunhas caminham para cegas, surdas e mudas desinteressadas, se não vale a pena planear o futuro martirizando-nos com a austeridade presente, em breve surgirá alguém, anónimo, invisível, sem nada a perder que num acesso espontâneo de loucura, transfigurada de clareza iluminada, deixe um ou dois estendidos no meio da rua.

E talvez aí todos vejamos o quão estamos errados.

alienation & revolution