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Não há pastel…

O governo tenta agora a mensagem positiva, a chamada boa nova. Fraca atenção ao detalhe, ou estratégia deliberada? O raio do logótipo dos pastéis de Belém tem lá escrito “desde 1837”. Na verdade, já em Novembro do ano passado Barack Obama manifestou preocupação sobre a temática do Pastel, ou da falta dele… A revolta dos pastéis de nata está iminente, mas de fazer propaganda não podemos acusar o nosso primeiro. Nem de mau gosto, porque os pastéis são divinais!

Do além chegou-nos também o acordo de concertação social. O Álvaro de pronto falou aos mercados, mas nem tratado por tu os mercados o querem. A empatia não acontece. Contudo, lá ganhou a guerra perdendo a batalha. No movimento sindical não se lê Sun Tzu, nem se aprecia pugilismo… Pena.

Quem terá sido o espertalhão que avançou o isco da meia hora? Terá sido o Relvas, ou foi mesmo obra do Álvaro?…

Os truques do Downsizing

Aumento da taxação de impostos, retenção de subsídios durante dois anos no estado, empresas públicas e similares, aumento das taxas moderadoras sobre serviços de saúde, encerramento de unidades de saúde pouco rentáveis, diminuição de participação em medicamentos, fim das SCUTS, diminuição de montante e/ou prazo de pagamento de reformas e outros tipos de subsidiação (entre outros o do desemprego), privatizações de empresas estatais monopolistas que fornecem serviços básicos à população,  etc. Tudo isto para quê?

Em 2012 aumentam os preços de uma enorme gama de produtos alimentares, com IVA revisto, fala-se de aumentos de pelo menos 4% em gás, electricidade e água e os produtos petrolíferos encontram-se em nova espiral de subida de preços. Somando a isto o aumento do custo com portagens e o aumento das despesas de saúde para quem delas necessite, como quantificar a perda real do poder de compra tendo em conta todas estas variáveis? Para muitos Portugueses o orçamento familiar vai ser alvo de revisão forçada e será preciso escolher se se vai destapar os pés ou a cabeça.

Numa altura caracterizada por desemprego de longa duração a diminuição do período de apoio só irá aumentar o número de desempregados sem subsídio. Com a diminuição de serviços médicos e o aumento das listas de espera, que curiosamente estavam em contracção, quantas pessoas correm risco de vida ou prolongamento de vida sofrível porque os tempos não estão de feição? Quantos pensionistas deixarão de fazer medicação adequada com a reformulação em baixa da reforma e da comparticipação em medicamentos?

E o impacto das SCUTs terá sido bem avaliado? Foi estudada a dinâmica social e profissional dos seus utentes? A maioria não poderá suportar estes custos e voltará às velhinhas nacionais aumentando tempo de deslocação, acidentes e transferindo a despesa de manutenção de estradas para a já tão esburacada Estradas de Portugal. E os concessionários das SCUTs com menos tráfego e necessidades de manutenção terão o seu quinhão garantido com as compensações acordadas com o Estado para o caso do volume de utentes não ser o esperado. É como se pagássemos duas vezes sem ter o benefício da melhor solução de deslocação. Será que esta correlação será feita em análises futuras?

Diria que para um governo frio e calculista apenas o grupo dos desempregados poderá ser problemático. Porque é gente activa que fica sem ocupação, capaz de se indignar e ir para as ruas estrilhar. Os outros, pensionistas e utentes regulares do serviço nacional de saúde, a médio prazo têm grande probabilidade de deixar de fazer número. Afinal com menos 42 mil cirurgias entre Setembro e Novembro de 2011 vs Setembro e Novembro de 2012, diminuição de 20% da actividade cirurgica num ano e o bastonário da Ordem dos Médicos a alertar que se está a acumular mensalmente atrasos de semana e meia nas listas de espera, não devem haver muitos pacientes em espera capazes de sobreviver a tal austeridade. Pelo lado social e familiar é mau mas para os números do OE é coisa para ajudar bastante.

Quando uma pessoa está há demasiado tempo sem ter oportunidade de produzir começa a ficar irrequieta e capaz de se mobilizar, sobretudo porque não tem nada a perder para além de um certo anonimato. Talvez por isso o governo tenha emitido fortes sinais de que para os próximos tempos o melhor é mesmo emigrar, procurar soluções no exterior. Com um certo paternalismo, é certo, mas com o sincero desejo de que desta forma consigam diminuir despesas com estes ‘fardos’ e ao mesmo tempo manter uma certa aparência de satisfação e paz social.

Os empregados esses têm que se manter com juízo, comer o pão que o diabo amassa, tal é a pressão causada pelos largos milhares disponíveis para ocupar o seu lugar, ainda por cima a melhor preço, e a falta de outras opções. Dois anos sem subsídio são suficientes para criar esquecimento de que alguma vez existiram e gerar conformidade com as necessidades dos novos tempos.  E as horas de produtividade exigidas a mais hão-de vir de algum lado nem que seja das horas dedicadas à esfera familiar, social e pessoal. Talvez a mitológica, famosa e atribulada vida vestibular existente em ambientes hospitalares se comece a extender a outras áreas de actividade.

Os trabalhadores Portugueses assemelham-se neste momento a Lemmings enfileirados a caminho da falésia com a secreta esperança que após o sacrifício do pelotão da frente se chegue à conclusão que o equilibrio no ecossistema está restabelecido e afinal o seu sacrifício pode ser evitado. RIP e obrigado aos menos afortunados.

Mas o pior ainda há-de estar para vir. O SOS China é uma bóia de salvação para o curto prazo mas sendo-lhes concedido suficiente poder de decisão, a médio prazo existe o real perigo substituição de fornecedores e da invasão de uma mão-de-obra barata não tão qualificada, não tão sindicalizada nem ciente dos seus direitos, mas que cumpre prazos e dá brilho aos orçamentos de obras.

Para o estado tudo vai bem. Menos despesas diretas com as SCUT, menos despesa com subsidição de desemprego (com menos inscritos nos centros de emprego), menos despesa com saúde (com transferência de muitos utentes em fila de espera para as estatísticas de óbitos), menos despesa com pensionistas, menos empresas públicas (inclusive as mais rentáveis e base de serviços essenciais à população) , na globalidade um gigantesco downsizing de sucesso para o livro de contas de 2012 e 2013.

Para os Portugueses em geral não se sabe bem. Vão encaixando downsizing atrás de downsizing aparentemente sem sentir grande necessidade para um achocalhante uprising capaz de retribuir um pouco da austeridade.

PS – Resisti ao ímpeto de aplicar downsizing ao tamanho deste post porque considerei que todos os parágrafos produzidos tinham direito à publicação independentemente de terem maior ou menor ROI em termos de leitura.

O Êxodo

Exausto com a abundante e infundada crítica ao filantrópico e mais que avisado conselho à nação, decidi agir. Movo-me, não em defesa do novo messias, nem tão pouco do apóstolo de Alarcão que o antecedeu na doutrina do Êxodo. Enalteço o conteúdo e borrifo-me na forma. A fuga dos Lusos da Europa é uma inevitabilidade e tem fundamento histórico. Quais judeus em fuga do Egipto e da escravatura. A analogia é tão óbvia quanto alucinada.

Não compreenderemos o Êxodo, sem abordar a Génesis da Europa Moderna. Tudo começou em 1948, na urbe que celebra a criança que despudoradamente urina ao vento, Bruxelas. Em 1951, desta feita em Paris, foram tratados o carvão e o aço. A Comunidade nasce em 1957 na cidade eterna, Roma. A fusão ocorreu no regresso a Bruxelas, em 1965. Até aqui, tudo bem, estávamos fora.

Em 1986, um ano após a adesão de Portugal, foi assinado o Acto Único Europeu em Haia e no Luxemburgo. Animados com os fundos estruturais, não ligamos. Aparentemente, já nesta altura a Holanda era um destino desejado. De Maastricht em 1992, partimos para a loucura de Amesterdão em 1997. Falamos, comentamos, mas na verdade continuamos a não ligar. Jorrava, logo, tudo corria de feição. Dividir para reinar foi o lema em Nice em 2001. Novo século, novos membros. Menos, mas ainda jorrava. Eis que chega o sétimo dia e ao invés do descanço, reunimos as hostes em Lisboa. Diz-se desse dia que foi porreiro, pá. Mas não foi, não foi mesmo nada porreiro. Não reparamos na altura, e em boa verdade só agora alguns de nós desconfiam.

Assim foi a Génesis. Desprovida de valores democráticos e de genuína representatividade das populações. Aos tristes exemplos dos referendos “até à resposta certa”, acrescem agora as nomeações de novas equipas executivas em Itália e na Grécia. O momento é de acção, não de eleição. Avassalador: voltamos aos métodos medievais. Tal como na idade das trevas, o medo é usado como arma de submissão, a cultura clássica é erradicada e toda a reflexão é relegada para o estatuto de luxo supérfluo.

Entre todas as inconvenientes actividades humanas, a reflexão é sem duvida a menos oportuna. Exactamente por isso, imprescindivel! Façamo-lo então: Todos os dias, pelo menos cinco milhões de euros saem de Portugal, pelo que o Êxodo de capitais é um sucesso. O Êxodo de ex-primeiros-ministros é igualmente um sucesso. Só cá ficaram dois, um dos quais é Presidente da Republica. Concedo, este Êxodo é apenas um sucesso parcial, mas amplamente compensado pelo Êxodo das sedes fiscais das holdings, o que não sendo novidade, goza agora de grande notoriedade mediática. Aparentemente, e desta feita, constitui crime de lesa-pátria. Será que toda esta cidadania participativa e atenta questiona a frequência desta prática? E as suas causas?

Sejamos francos: O conselho é bom, pois os mandamentos só se aplicam a quem fica!

Um chavão à procura de rumo

A “Economia Politica” é um chavão muito utilizado, servindo de argumento desde pequenos textos a exuberantes palestras, assistimos porém a uma mistura explosiva na maior parte das ocasiões em que se juntam estas duas palavras.Agulha no Palheiro

Estes dois vocábulos, cada um com seu significado e a milhas de distância do outro, raramente se poderão juntar devido á sua essência. A prova disso é mais que conhecida, com falhanços constantes na política, por via da economia, ou vice-versa.

Se encontrar um mediano economista na política pode ser mais ou menos frequente, encontrar um bom político que o seja também, em economia, é mais transcendente que encontrar uma agulha num palheiro.

Um economista tem de equacionar uma series de factores e interliga-los de forma a atingir um único fim, dar benefício, requalificar algo que não o dá, e baseia-se nos cálculos numéricos, que em boa justiça lhe darão razão, ou não, mais tarde, enquanto um político tem como preocupação primordial fazer isso mesmo, politica, interagir bem com todos, mesmo com aqueles com que não partilha as ideias.

Nas empresas terão forçosamente de existir os dois, por forma, que todos andem satisfeitos e mesmo assim ela dê lucros, aí é que reside a eficácia, numa separação eficaz de valores.

Terá de ser um País, diferente?

VéniaCom um número significativo de jovens com excelsos cérebros, alguns deles noticiados como magníficos, no exterior e nas mais diversas áreas, poderiam eles ser “aproveitados” para gerir a nação. Ficariam exuberantes por tais préstimos e ainda por cima pagos, bem pagos, por isso.

Num cenário de convivência salutar em que os jovens gestores teriam prémios de desempenho unicamente na proporção dos ganhos, deixando as vénias e palmadinhas nas costas para desempoeirar os fatos, aos que amam a política.

Em tempos como o presente, em que dos é dito que temos de cortar com o passado e olhar em frente, será talvez a única salvação da tal famosa “economia politica” aliando duas palavras que nunca se deveriam ter juntado, ou melhor encararíamos isso como efectivo, pois a separação sempre foi evidente.

Melhor que anunciar ao jovens, o promissor destino da emigração é dar-lhes a oportunidade de mostrar o que valem a quem os ajudou a formar, dando-lhes o privilégio de poder retribuir os ensinamentos.Sucesso

Deferência também fica bem

De bandejaNa já de difícil compreensão tabela de categorias laborais, adicionam agora o “Chega-me isso”. Classe a ser incluída nos quadros de remuneração superior, daqueles que dão direito a ajudas de custo e viagens em executiva, porque a intenção hoje não é a exclusão mas sim de obediência.

Uma retrospectiva feita á memória não muito longínqua, lembra casos de mudança unilateral de condições de trabalho, que pelos mais diversos motivos era anunciada uma “promoção” para funções algo estranhas como conferir Diários da República, sublinhar itens em outro qualquer jornal, ou mesmo transladar o arquivo morto para outro túmulo.

Chamavam-lhes na altura os zombies, pessoas colocadas numa secretária despovoada do mais ínfimo artefacto para assim os pressionar ao abandono de funções ou mesmo á demência.

Inadequadamente imputando á generalidade dos nativos, despesismos galopantes e continuados, com juros piores que os de uma dona também presente na nossa memória, tenta agora uma outra dona acompanhada de um galanteador inventar formas para que se cumpra rigorosamente o plano mas com controlo absoluto, temendo uma recessão interna que lhe trás triste memória.

Essa nova categoria já tem dado o seu contributo para alguns dossiês internos, se não, foi o deu a entender. Uns quantos com valor e créditos mais ou menos firmados foram indigitados para, nada!

Às decisões já tomadas era apenas necessário juntar um condimento de honestidade e estudo para iludir os mais incautos.

Para que se almeje mais auxílio aos países necessitados, terá de ser transmitido poder a quem ajuda, isto traduzido para as leis laborais nada mais é que indexar uns quantos intervenientes internos em, mangas-de-alpaca.As contas

Num sentido puro de equidade e constantes melhorias de condições de trabalho, os indigitados para a função terão na sua maioria direito a viatura de serviço e uns quantos ajudantes, mas na realidade não farão mais que chegar os papeis a quem nos quer, já com escritório montado, controlar.

Os que nos “prestam assistência” optam, por tentar dominar tudo e todos de forma que se entenda quem manda, vigiando de perto a eficácia do esperado retorno.

Não é inédito recorrer a este tipo de ajudas e inevitavelmente novamente cumpriremos, salvo se o tiro lhes sair pela culatra, mas ficava-lhes bem algum apreço, não só por quem lhes entrega os escritos mas por todos nós, os que pagamos.Cortesia

欢迎葡萄牙 – Investir na Educação para salvar o Turismo

A Europa está a bater no fundo e nem o turismo parece ser bóia de salvação em tempo de pregação da poupança. Esta dependência total da Europa é muito bonita quando o iceberg não se avista. Mas agora que encalhamos, e o sacana parece capaz de resistir até ao problema do aquecimento global, está na hora de pensar além fronteiras.

Olhando para os dados mais recentes relativos ao turismo, retirados do INE,  vemos que a grande massa turística é proveniente de Espanha, Reino Unido, França e Alemanha. Juntos representam mais de 60% das entradas e receitas do turismo.

Ora os dois primeiros já estão sob regime de austeridade, o terceiro anda um bocado aos papéis a ver se percebe se está abaixo ou acima da linha de água, e o último por uma questão de pudor e rigor não poderá tão cedo vir aproveitar-se da pobreza e austeridade que nos aconselha a impôr para os próximos tempos.

Posto isto quem tem vontade e dinheiro para nos visitar, desfrutar dos nossos recursos, sentir o nosso life style, largando uma nota simpática que permita fazer do turismo uma âncora de emprego e dividendos? Essa é a questão que pode ser a nossa salvação. Afinal Portugal representa apenas 1,5% a 2% da Quota de Turismo Mundial. É ainda daquelas raras quotas em que estamos autorizados a investir para crescer não sendo subsidiados se nada fizermos para isso!

Mais alguns números interessantes para a tomada de decisão:

  • 180 Milhões de falantes de Alemão;
  • 220 Milhões de falantes de Francês;
  • 250 Milhões de falantes de Português;
  • 500 Milhões de falantes de Espanhol;
  • 1 000 Milhões de falantes de Mandarim;
  • 500 Milhões a 1 900 Milhões de falantes de Inglês;

Portugueses somos nós, Espanhol portunhol desenrasca e nasce connosco e o Inglês é uma necessidade obrigatória já colmatada no nosso sistema de ensino. Boa, já temos uma resposta aceitável para um mercado potencial de uns milhares de milhões sem grande esforço. Valerá a pena investir no ensino de Francês e Alemão sendo que particularmente estes últimos dominam também o Inglês?

A Ásia, em particular a China, é uma potência emergente com mercado crescente e sedento de visitar a Europa. Há países mais apetecíveis que o nosso para visitar? Sim, claro. Mas recentemente visitei a Ásia e sentimo-nos completamente desorientados em zonas onde só se fala e escreve Mandarim. É difícil perceber e fazermo-nos perceber sendo até por vezes impeditivo ou limitativo da nossa mobilidade e sustentabilidade. Isto é o que sentem também os turistas desses países quando visitam a Europa sem dominar o Inglês. É por isso que viajam em grupos, com guias de carne e osso e rotas bem definidas. Não desfrutam de uma visita em verdadeira liberdade.

É aqui que podemos fazer a diferença, em 10 a 20 anos, se começarmos já a assumir o pelotão da frente. Tornemos o Mandarim uma língua de ensino obrigatório, pelo menos para estudantes na área de actividades turísticas, e traduzamos as placas públicas das principais zonas turísticas para terem orientações em Português, Inglês e Mandarim. Tornemos as nossas ruas navegáveis por orientais sem necessidade de constante acompanhamento. Vamos brindá-los com algumas conversas de ocasião na sua língua. Tornemo-nos nos perfeitos anfitriões para falantes de Mandarim e em pouco tempo seremos inundados por eles e salvos pelos seus Yuan. Por cada sorriso registado na câmara e postado numa rede social asiática com um “Uau! Eles aqui compreendem-nos! E são tão giros!”  temos milhares de novos clientes a fazer booking no próximo minuto. Dica Bónus: aproveitar as próximas décadas de regime transitório de Macau para a China, onde ainda temos uma presença marcante, para divulgar e semear a nossa recém-adquirida capacidade linguística e dizer-lhes que temos muito mais do que casinos por muito menos.

Além de que eles já são donos de parte de nós e um dia poderemos ter de saber dizer “Yes, boss!” em Mandarim. Eu já ficaria contente se num futuro risonho uma minha netinha entrasse numa qualquer loja chinesa e dissesse “Mãos no ar! Isto é um assalto!” sem correr o risco de não se fazer entender. Sempre se poupava um tiro. Sim, um futuro risonho porque é bom sinal sonhar que ainda se podem sustentar mais duas gerações.

Rain Man – Encontro de irmãos

Que bonitos são os reencontros. Entre irmãos são comoventes. “Rainman” relata-nos a viagem de dois irmãos a bordo do carro do falecido pai. Na bagageira, correctamente acondicionado, viaja o povo Português.

Ao volante segue Charlie Rabbitt, o yupi de Massamá. No lugar do morto, Raymond Rabbitt, o autista. Para traz ficaram as traquinices da infância, as brincadeiras no ATL das “jotas” e as tropelias da adolescência. Rumam agora à salvação… da crise, do euro e das nossas almas! Não têm GPS, nem mapa, mas avançam. Têm Troika.

Estando de acordo quanto ao itinerário, simulam desacordo para entreter. Raymond repete incessantemente que sabe guiar, insiste, reinsiste e persiste que a folga existe. Procura retirar espaço estratégico ao irmão. Charlie nega, diz não haver gasolina, por isso abranda, poupa e evita a pressão sobre o pedal do acelerador. Aguarda pela recta final, mais perto de Eleições. Têm e pede esperança a quem segue na Bagageira, exclama “aguentem“!

Um bom exemplo como um mau roteiro pode arruinar um bom argumento. Especula-se que tal terá precipitado Steven Spielberg a abandonar o projecto a apenas alguns meses do inicio da rodagem. Optou por investir o seu talento noutro projecto, o Indiana Jones e a Última Cruzada. Fez ele bem!

Esmola aos Ricos

A Europa pediu esmola às economias emergentes. Estas, claro está, mandaram-na passear. Surpreendida, a matriarca de pronto vaticinou uma recuperação com a duração de uma década. Sem negócio da China, nem ouro do Brasil, o súper-marco está em apuros. Tal como muitos europeus, os germânicos não perceberam a quem confiaram o seu rumo. Terão pensado que o pedido foi feito em nome do mal comportado Sul. Como estão enganados. Não compreendem a situação da poderosa Alemanha. A desgraça a Sul tem ocupado o espaço mediático, e a sua ancestral soberba moral tem feito o resto. Os indisciplinados merecem ser punidos, pensam.

Um povo que valoriza o trabalho, o rigor e a disciplina não pode pensar de outra forma. Porém, a competitividade dos produtos alemães não resulta apenas da qualidade do trabalho. O risco está presente, e em grandes proporções. De um ponto de vista financeiro, o investimento no desenvolvimento de novos produtos é muito arriscado. O principal mérito da Industria alemã é a sua capacidade de inovar. O anterior deve tornar-se obsoleto face ao novo. É este conteúdo inovador que gera o desejo de compra. Quando um novo produto substitui outro em fim de ciclo de vida, o tempo para amortização do investimento no seu desenvolvimento será menor. Atendendo a que o seu custo de desenvolvimento foi significativamente maior, o risco financeiro cresceu de forma exponencial.

Quando comparado com o produto que substitui, cada novo produto terá que vender mais e em menos tempo, para permitir a recuperação do montante investido no seu desenvolvimento, com o necessário lucro. Parte significativa deste lucro será reinvestido em novos produtos, por sua vez mais caros de desenvolver, e os quais estarão à venda durante um período de tempo ainda mais curto. O ciclo repete-se indefinidamente. Este sucesso sobre o tabuleiro da competitividade é mérito da gestão alemã, a qual tem sem dúvida o engenho necessário para conjugar capitais, recursos humanos e meios de produção.

Contudo, a prosperidade da indústria alemã não se deve apenas ao conteúdo inovador dos seus produtos, mas também à exportação de capitais, com os quais o mundo lhes compra os óptimos produtos que fabricam, com juros. Tal coloca-os numa condição de risco inversamente proposicional ao prazo. Mínimo a curto prazo, máximo a médio longo prazo. Ao contrário do que nos é dito, a vaga de austeridade não visa o longo, mas sim o curto prazo. Manter o status quo é o único objectivo. Simplesmente impossível.

O virtuoso povo alemão parece alianado destes factos. Talvez por isso não pretenda desvalorizar a moeda unica, nem tão pouco por em causa o 123º artigo do tratado “porreiro pá” de Lisboa. Há que os ilucidar, de os alertar. Opto por um formato informal, a chamada abordagem por “tu”:

Se te dever uns quantos euros e não tiver dinheiro para te pagar, preocupado, não durmo. Se a divida for de uns milhares de euros, preocupados, nenhum de nós dorme. Mas quando a divida são muitos milhões de euros, quem não dorme és tu!

Quem deve a quem?

Um palerma disfarçado de Astérix

Disfarçado de Astérix, o palerma dos tacões altos anunciou com satisfação que o G20 decidiu acabar com os paraísos fiscais.

Diz-nos que serão todos banidos da comunidade internacional, caso não acabem com a pouca vergonha. Até mesmo o ordeiro e disciplinado Liechtenstein está sob pressão para uma rápida conformidade com as novas normas, o mesmo acontecendo com o membro neutral das nações unidas, a Suíça.

Suspeito que com estas boas notícias, prepara a terra da Liberdade, Igualdade e Fraternidade para algum ajuste, daqueles que nós já começamos a perceber como são feitos.

Já os Gauleses não suspeitam, logo não se preparam. Em breve os gauleses compreenderão que vivem num Inferno fiscal, pelo que o fim dos paraísos não lhes trará qualquer benefício.

Enquanto esse momento de clarividência não chega, o falso Astérix avança uma nova ideia, o chamado Núcleo Duro, ou seja construir um muro, uma barreira que divida o Euro de primeira do Euro de segunda. Brilhante chico-espertismo. Nada como declarar a Gália rica, antes que os Romanos a provem pobre.

Os aficionados e a lide

euro voandoAnunciada que está a intenção da Alemanha aliviar a carga fiscal dos Germânicos, talvez agora se comece a perceber como algumas coisas funcionam.

Basta recuar na história e relembrar que o BCE, criado por todos nós, cidadãos da União Europeia, na proporção da riqueza de cada país, onde mesmo os que não aderiram ao Euro foram participantes, tinha por função ajudar toda a Europa. Em boa verdade com uma contribuição maioritária da Alemanha, inerente á sua posição em relação aos demais.

Existe ainda muita gente que não percebeu, porque é que se foram enviados capitais para o Banco Central Europeu, quando precisamos deles, temos de recorrer a outros bancos. Sabendo que esses que por sua vez vão á fonte do banco central, ou seja vão buscar o nosso dinheiro para nos emprestar taxando-o para ganhar com isso.

Nem Steve Wynn se terá lembrado duma ideia destas, quando inaugurou o Bellagio. O famoso casino do Ocean’s Eleven.Bellagio

Com umas agências de rating á mistura, dando o seu contributo para majorar essas taxas, baixando as classificações dos países, tentando proporcionar maiores ganhos aos accionistas das instituições envolvidas no processo, deu num descalabro que já obrigou a perdoar metade da divida da Grécia.

Ora os que mais contribuíram, mas que por sinal esperariam ser os que mais ganhariam, estão descontentes pois são eles também participantes dos bancos que agora perderam e muito, do seu capital.

Apesar de não ser possível, pelo menos para já, quase dois terços dos Alemães já tencionavam aderir ao modelo de referendo para questões relacionadas com a moeda única, e com pressões arteriais altas há que tentar acalmar os ânimos. Os donos da praça tentam desta forma que as barreiras não sejam transpostas.

Para esta epopeia serão precisos verdadeiros forcados habituados às lides, que enfrentam o bicho de frente, os aficionados não aplaudem mais artistas sem formação tauromáquica, que tentam apenas as pegas de cernelha deixando o animal, embora mais lento, seguir o seu caminho.Pega de Cernelha - Link Cortesia para uso de imagem