Author Archives: Gonçalo Moura da Silva

PPP Lusitânia

cunard_logo_2950No início da Século XX, a famosa Cunard Line perdia a hegemonia comercial na rota transatlântica. Para além das companhias Alemãs, a entrada do magnata JP Morgan  no negócio, motivou a fusão de vários concorrentes de menor dimensão, criando um gigante no sector. Sem meios financeiros, a privada Cunard estava impossibilitada de responder à altura das circunstâncias. É neste contexto que em 1904, o governo britânico decide apoiar a Cunard. Em época de preparação para aquela que viria a ser a primeira guerra mundial, o governo de sua majestade viu com bons olhos a possibilidade de no futuro requisitar novos e rápidos transatlânticos. Nascera uma Parceria Público Privada (PPP). Materializou-se no desenvolvimento e construção de novos navios, o primeiro dos quais foi providencialmente baptizado em memória da antiga província Romana, a Lusitânia.

O desenvolvimento e construção do RMS Lusitânia fizeram justiça à memória e tradição do nome de baptismo. Foram respeitados os valores e virtudes dos herdeiros de Viriato, a megalomania por exemplo: Com projecto ultramoderno, o novo transatlântico seria motorizado por turbinas a vapor. Tamanha inovação, qual via verde para o atlântico norte, ditou um processo de construção nada ortodoxo. A construção da popa do navio aguardou a conclusão dos desenvolvimentos das revolucionárias motorizações, enquanto a construção da proa prosseguiu a todo o vapor. O método tradicional deu lugar à nossa ancestral metodologia “em cima do joelho”. Qual portagem em scut.

Concluída a construção, múltiplas características imergiam como retumbantes provas da identidade Lusitana: era o maior e melhor navio do mundo, era o mais rápido e o mais faustoso. A decoração da primeira classe (estilo rococó) valeu-lhe a alcunha de Versalhes dos Mares. Menos majestosa, a decoração da segunda classe era ainda assim opulenta. Já na terceira classe, a madeira de pinho polida estava omnipresente, luxo a que os passageiros deste estrato socioeconómico não estavam habituados, pelo que lhe enalteciam a beleza e a comodidade. A todo este estratificado conforto, estava também associada outra característica Lusitana, o defeito de fabrico: a alta velocidade a vibração gerava uma ressonância insuportável nos aposentos de segunda classe. Analisado o problema, encontrada a solução. O defeito foi declarado feitio, merecendo apenas ajustamentos: reforço de estrutura, adendas à decoração e está concluído. O último acto da Lusitanidade no berço não resolveu, mas abafou. Típico.

A viagem inaugural em 1907, decorreu sem glória ou desonra. Mediana sorte, obviamente Lusitana. O nevoeiro não permitiu a velocidade necessária para reclamar a “Blue Riband”, conquista apenas concretizada na segunda viagem transatlântica. O tesouro Britânico pagou, a Cunard explorou, milhares de passageiros usufruíram de rapidez e conforto. Ninguém perdeu. A PPP era um sucesso, ao navio faltava-lhe o Fado.

Com o início da primeira grande guerra, o Almirantado Britânico requisitou o navio em 1914, mas devido ao elevado consumo de combustível, foi devolvido ao uso civil. A PPP estava pela primeira vez em dúvida: tal como hoje por cá, o desvio face ao orçamentado foi uma enorme surpresa! Não obstante, a rota transatlântica foi retomada sob austeridade de meios humanos e materiais, o que amputou 30% da velocidade máxima do navio. Persistia contudo a necessidade de justificar a PPP. Foi por isso, com subtileza e descrição dignas do seu baptismo, que o RMS Lusitania começou a transportar munições no trajecto de Nova Iorque para Liverpool. Foi quanto baste para sobre ele atrair a atenção da troika que se opunha à Grã-Bretanha e seus aliados: o Império Alemão, o Império Austro-Húngaro e o Império Otomano. Sobre este último, julgado moribundo, foi planeado um vigoroso ataque naval ao estreito de Dardanelos.

GrandFleetA convicção de vitória era total entre os aliados. Visando partilhar a glória, a Republica Francesa fez questão em enviar os melhores navios da sua Marinha de Guerra, tentando assim ombrear com a maior e mais poderosa Marinha de Guerra da época, a Royal Navy. Curiosa esta tendência francesa para a grandeza a reboque da potência do momento. Mantém-se até aos dias de hoje. Tragicamente, o prognóstico de facilidade revelou-se um enorme erro de avaliação. Modestas minas navais e a poderosa artilharia Otomana impuseram uma pesadíssima derrota às marinhas aliadas. À derrota naval, seguiu-se o desastroso desembarque de Anzacs a 25 de Abril de 1915 nas colinas de Gallipoli. Falhou o objectivo de neutralizar a artilharia Otomana. A dimensão do desastre traduziu-se em mais de meio milhão de baixas registadas de ambos os lados.

Esta pesada derrota aliada ditou a necessidade de envolver os Estados Unidos da América no conflito, sem o qual a vitória da Grã-Bretanha e seus aliados seria impossível. A forte convicção isolacionista do desejado aliado tornava esta tarefa muito difícil. Ao RMS Lusitânia estava reservado o papel principal neste processo, seria esse o seu Fado. O mérito do plano que concretizou o difícil objectivo, ninguém o reclamou, talvez por vergonha ou pudor, mas especula-se que Winston Churchill terá tido um papel determinante: Quer no montar do isco aos Alemães, quer no posterior branqueamento das responsabilidades do Almirantado Britânico (especialmente necessário após a derrota no Mar Egeu).

Desde o início da primeira grande guerra que a Grã-Bretanha impunha o bloqueio aos portos germânicos. A força dos números oferecia esta hipótese à Royal Navy. Apesar de a Kaiserliche Marine possuir navios tecnologicamente mais avançados que a generalidade dos britânicos, a prudência aconselhava evitar um confronto de larga escala. A alternativa estratégica recaiu sobre o uso de uma arma inovadora à época, o submarino. Actualmente, esta arma furtiva encontra paralelo nas agências de notação financeira, as quais torpedeiam as economias mais débeis causando pesadas baixas na guerra económica. O comportamento humano repete-se. As consequentes tragédias também, infelizmente.

Com efeito, após mais de duzentas travessias do Atlântico Norte, o RMS Lusitânia partiria uma última vez da doca da Cunard Line em Nova Iorque a 1 de Maio de 1915, sob o comando do Comodoro William Thomas Turner, com 1959 pessoas a bordo. Entre eles, muitos americanos que ignoraram o anúncio publicado pela embaixada imperial Alemã nos Jornais nova-iorquinos, o qual alertava os cidadãos americanos para os perigos de viajar a bordo de navios britânicos. Peões no xadrez da guerra, que valeram por Rei, Rainha, Bispos, Cavalos e Torres.

Efectivamente, a 7 de Maio de 1915, o isco foi mordido pelo submarino U-20, sob o comando de Walther Schwieger lançou um único torpedo sobre o RMS Lusitânia, que ao largo da costa Irlandesa se afundou em apenas dezoito minutos. Mil e duzentas pessoas perderam a vida. As causas e seus argumentos foram esgrimidos entre os intervenientes, com reciprocidade na atribuição de culpa, mas o facto relevante prevaleceu: Os EUA entraram no conflito ao lado da Grã-Bretanha e seus aliados, entre os quais estava a jovem Republica Portuguesa e a sua apetrechada Armada.

Os acontecimentos relatados demonstram que a globalização tem mais de um século. Nada é estanque, ou isento de consequências noutras latitudes. Ao colapso da banca de investimento Americana, seguiu-se a crise financeira na Europa. De pouco serviu a esta declarar-se imune ao colapso Americano. Meras palavras. A frota aliada que atacou o estreito de Dardanelos era à época tão infalível como o sistema financeiro mundial o é hoje. Os bancos de investimento americanos podem ser “demasiado grandes para falhar”, mas a verdade é que falharam de forma tão trágica como a frota aliada no Mar Egeu. Agora, como então, as populações não previram o efeito, da mesma forma que ainda não compreendem as causas. De forma premeditada, ou mero aproveitamento da oportunidade, o RMS Lusitânia foi instrumentalizado, e sua tragédia explorada no recrutamento para a guerra. Enganam-se aqueles que acreditam que este tipo de propaganda não existe nos dias de hoje. É simplesmente mais sofisticada.

Bacalhaus e Submarinos

Nascido “Elite”, ao bacalhau dedicado, dos Lusos foi o primeiro no arrasto. Decorria o ano de 1909. A Europa vivia dias de “Paz Armada”, um eufemismo para a corrida às armas. Não entrámos. Fomos à pesca por arrasto.

Em 1914, morto o arquiduque Francisco Ferdinando, precipitou-se a Guerra, das grandes a primeira. Entramos desta feita. Como nunca fomos piegas, não lamentámos a falta de preparação para a beligerância: do arrastão de pesca, fizemos um navio de patrulha oceânica. Para tal bastou à Armada requisitar a sofisticada embarcação ao seu dono, a Parceria Geral de Pescarias Lda. Engenho quanto baste, está feito: Canhão à proa, outro à popa. Óptimo. Não mexe.

Rebaptizado “NRP Augusto de Castilho”, assumiu funções como escoltador oceânico. Até ao derradeiro ano das hostilidades, 1918, o arrastão convertido em navio de guerra deu uso às suas armas. Atacou submarinos alemães, tendo registado importantes vitórias, obrigando por duas vezes o inimigo a submergir e partir em retirada.

Tal bravura não passou despercebida ao Almirantado da Kaiserliche Marine. O insolente navio Lusitano seria punido. A “missão” foi confiada a Lothar von Arnauld de la Perière, o às dos ases. Com ascendência Francesa, natural da (hoje) Polónia, Lothar era contudo bisneto de um General Prussiano, tendo dele herdado o inflexível código de conduta. Ao melhor comandante de submarinos de todos os tempos, foi confiado o comando do U-139. Simplesmente o maior e melhor submarido construido à data.

Navio de Transporte São Miguel

O inevitável embate ocorre a 14 de Outubro de 1918 (um mês antes do armistício de Novembro do mesmo ano). Em defesa do Vapor “N/T S. Miguel“, sob o comando do primeiro-tenente José Botelho de Carvalho Araújo, o “NRP Augusto de Castilho” atacou o “U-139“, acto com o qual garantiu a oportunidade de fuga do navio mercante. Contudo fatal. O combate vitimou o comandante e cinco elementos da guarnição. O caos resultante ditou a rendição e consequente ordem para abandonar o navio. Antes de ser desferido o golpe final, entrou em acção o código de conduta dos homens do mar. Aos sobreviventes, foi permitido regressar a bordo e resgatar botes salva-vidas nos quais chegaram à ilha que deu nome ao navio mercante por eles salvo, São Miguel. Esta benevolente iniciativa do comandante Lothar la Perière, foi certamente inspirada pela tradição militar prussiana. A ele, a minha sincera homenagem, pois ao seu gesto devo a minha modesta existência: Entre os sobreviventes que chegaram aos Açores a 19 de Outubro de 1918, estava o 2º Sargento Enfermeiro Acácio Alves de Moura, meu bisavô (ainda solteiro), avô materno de quem meus filhos são netos, senhor meu pai.

Observada a história, explicada a ligação pessoal, constato a analogia deste passado com o futuro da minha prole. Não é que um século depois continuarão à mercê do carácter Germânico? E se no lugar de um integro e vertical Prussiano nos calha um “Schettino” que por lá tenham por engano?

Incontornável é também o eterno desacerto Lusitano: Em 1909 necessitávamos de Navios de Guerra, mas compramos Navios de Pesca, os quais por necessidade convertemos em alvos para submarinos Alemães. Paradoxalmente, necessitamos hoje de Navios de Pesca, mas comprámos submarinos Alemães. Teremos nós o engenho necessário para inovar a arma o suficiente para com ela pescar por arrasto?

Plano Companhia Mercearia

Foi recentemente lançada uma nova campanha de acefalia em massa. Refiro-me obviamente ao Plano EDP Continente. A sonae capitaliza notoriedade benemérita. A filantropia não tem fim naquela casa. Depois das acções com os heróis da pequenada Pópóta e Leopoldina, chega-nos agora o plano para os mais crescidos. Desta feita, ao invés de algum anónimo necessitado, ajudamo-nos a nós próprios. Finda a época natalícia, a caridade perdeu adeptos. Regressamos à expressão “já demos” e ao foco no umbigo. É para ele que o Plano aponta. Os tempos são de crise, e nenhuma outra mensagem tem tanto impacto como a empatia: Compreendemos a dificuldade e propomos ajudar. Valha-nos a publicidade! Sem ela estaríamos condenados à depressão, pois a média entregou-se à trilogia do momento: crise, divida e medo, muito medo. A mais pequena migalha de esperança é bem recebida, sobretudo quando aparenta compensar o recente aumento do IVA sobre a electricidade.

“Conte com a nossa Energia, 10% da Electricidade volta em compras”. Apelativo, é certo, mas como sempre a realidade fica aquém da expectativa gerada. Parece que o desconto será directo sobre o valor da factura da EDP, mas não é bem assim. Observadas as condições, constatamos que o desconto não pode incidir sobre os impostos, daí “10% da Electricidade” e não “10% do valor da factura”. São uns malandros estes Publicitários Ocidentais, dirão os novos accionistas da EDP. Ternurenta a ingenuidade asiática. As referidas condições são igualmente profícuas no que toca a alertas e a esclarecimentos adicionais, nomeadamente a cristalina informação que o plano não trará vantagem a quem tenha um “consumo em vazio inferior a 44%”. Seja qual for o significado da expressão, ou respectiva quantificação, é meu dever enaltecer a iniciativa em clarificar a oferta. Assim se mantêm a tradição de comunicação transparente da companhia. Tenho alguma reserva quanto à duração da mesma: o desconto sobre o valor da electricidade consumida, em função da potência contratada, apenas estará em vigor até ao final deste ano, leia-se Dezembro de 2012. O que é bom não dura para sempre, dirão os parceiros da iniciativa…

Ao engano do desconto em cartão, ou cupão, acresce o abandono voluntário do mercado regulado, onde uma entidade supostamente reguladora, define o valor das tarifas de electricidade. Quem o fizer, fá-lo-á de forma irreversível. Para além de aderir ao financiamento do negócio da mercearia, antecipa a adesão ao mercado liberalizado. Este mercado liberalizado de concorrência permitiria, pelo menos teoricamente, a livre escolha do fornecedor de electricidade, em função da competitividade da oferta, ou seja, o melhor preço, o melhor serviço ou a melhor relação entre ambas. Tudo óptimo. Tudo desejável. Um problema: Não existe verdadeira opção à companhia, logo a liberalização será apenas dos preços. Tal como ocorreu no mercado de combustíveis, onde existem diversas marcas na distribuição, mas há apenas um refinador (por acaso também é distribuidor). Por mais que a entidade reguladora nos diga que não há “cartelização” de preços, na prática há um monopólio no sector, e consequentemente não existe a desejável guerra de preços. Talvez por isso, a galp invista milhões em patrocínios às selecções Nacionais, esforçando-se para nos convencer que de alguma forma é “nossa” e não dos seus accionistas.

Em troca de um pouco de ânimo na comunicação, o Plano Companhia Mercearia tenta criar um monopólio onde ele não existe (hipermercados), e ao mesmo tempo antecipa a liberalização dos preços num mercado monopolizado. Bem sei que durante o ano de 2012, a tarifa será igual em ambos os mercados de energia eléctrica, mas exactamente por isso, questiono: Se há défice tarifário na tarifa normal (mercado regulado), como é possível a companhia suportar o desconto adicional? Será que a energia tem custos de produção diferentes em função do tipo de contrato com o cliente final?

Se a tudo isto acrescentarmos a obrigatoriedade do débito directo em conta como método de pagamento à companhia, julgo apropriada a classificação do Plano como um roubo com consentimento da vítima.

Prefiro não fiar ao continente e permanecer no mercado regulado.

Censurem-me!

Não há pastel…

O governo tenta agora a mensagem positiva, a chamada boa nova. Fraca atenção ao detalhe, ou estratégia deliberada? O raio do logótipo dos pastéis de Belém tem lá escrito “desde 1837”. Na verdade, já em Novembro do ano passado Barack Obama manifestou preocupação sobre a temática do Pastel, ou da falta dele… A revolta dos pastéis de nata está iminente, mas de fazer propaganda não podemos acusar o nosso primeiro. Nem de mau gosto, porque os pastéis são divinais!

Do além chegou-nos também o acordo de concertação social. O Álvaro de pronto falou aos mercados, mas nem tratado por tu os mercados o querem. A empatia não acontece. Contudo, lá ganhou a guerra perdendo a batalha. No movimento sindical não se lê Sun Tzu, nem se aprecia pugilismo… Pena.

Quem terá sido o espertalhão que avançou o isco da meia hora? Terá sido o Relvas, ou foi mesmo obra do Álvaro?…

O Êxodo

Exausto com a abundante e infundada crítica ao filantrópico e mais que avisado conselho à nação, decidi agir. Movo-me, não em defesa do novo messias, nem tão pouco do apóstolo de Alarcão que o antecedeu na doutrina do Êxodo. Enalteço o conteúdo e borrifo-me na forma. A fuga dos Lusos da Europa é uma inevitabilidade e tem fundamento histórico. Quais judeus em fuga do Egipto e da escravatura. A analogia é tão óbvia quanto alucinada.

Não compreenderemos o Êxodo, sem abordar a Génesis da Europa Moderna. Tudo começou em 1948, na urbe que celebra a criança que despudoradamente urina ao vento, Bruxelas. Em 1951, desta feita em Paris, foram tratados o carvão e o aço. A Comunidade nasce em 1957 na cidade eterna, Roma. A fusão ocorreu no regresso a Bruxelas, em 1965. Até aqui, tudo bem, estávamos fora.

Em 1986, um ano após a adesão de Portugal, foi assinado o Acto Único Europeu em Haia e no Luxemburgo. Animados com os fundos estruturais, não ligamos. Aparentemente, já nesta altura a Holanda era um destino desejado. De Maastricht em 1992, partimos para a loucura de Amesterdão em 1997. Falamos, comentamos, mas na verdade continuamos a não ligar. Jorrava, logo, tudo corria de feição. Dividir para reinar foi o lema em Nice em 2001. Novo século, novos membros. Menos, mas ainda jorrava. Eis que chega o sétimo dia e ao invés do descanço, reunimos as hostes em Lisboa. Diz-se desse dia que foi porreiro, pá. Mas não foi, não foi mesmo nada porreiro. Não reparamos na altura, e em boa verdade só agora alguns de nós desconfiam.

Assim foi a Génesis. Desprovida de valores democráticos e de genuína representatividade das populações. Aos tristes exemplos dos referendos “até à resposta certa”, acrescem agora as nomeações de novas equipas executivas em Itália e na Grécia. O momento é de acção, não de eleição. Avassalador: voltamos aos métodos medievais. Tal como na idade das trevas, o medo é usado como arma de submissão, a cultura clássica é erradicada e toda a reflexão é relegada para o estatuto de luxo supérfluo.

Entre todas as inconvenientes actividades humanas, a reflexão é sem duvida a menos oportuna. Exactamente por isso, imprescindivel! Façamo-lo então: Todos os dias, pelo menos cinco milhões de euros saem de Portugal, pelo que o Êxodo de capitais é um sucesso. O Êxodo de ex-primeiros-ministros é igualmente um sucesso. Só cá ficaram dois, um dos quais é Presidente da Republica. Concedo, este Êxodo é apenas um sucesso parcial, mas amplamente compensado pelo Êxodo das sedes fiscais das holdings, o que não sendo novidade, goza agora de grande notoriedade mediática. Aparentemente, e desta feita, constitui crime de lesa-pátria. Será que toda esta cidadania participativa e atenta questiona a frequência desta prática? E as suas causas?

Sejamos francos: O conselho é bom, pois os mandamentos só se aplicam a quem fica!

Rain Man – Encontro de irmãos

Que bonitos são os reencontros. Entre irmãos são comoventes. “Rainman” relata-nos a viagem de dois irmãos a bordo do carro do falecido pai. Na bagageira, correctamente acondicionado, viaja o povo Português.

Ao volante segue Charlie Rabbitt, o yupi de Massamá. No lugar do morto, Raymond Rabbitt, o autista. Para traz ficaram as traquinices da infância, as brincadeiras no ATL das “jotas” e as tropelias da adolescência. Rumam agora à salvação… da crise, do euro e das nossas almas! Não têm GPS, nem mapa, mas avançam. Têm Troika.

Estando de acordo quanto ao itinerário, simulam desacordo para entreter. Raymond repete incessantemente que sabe guiar, insiste, reinsiste e persiste que a folga existe. Procura retirar espaço estratégico ao irmão. Charlie nega, diz não haver gasolina, por isso abranda, poupa e evita a pressão sobre o pedal do acelerador. Aguarda pela recta final, mais perto de Eleições. Têm e pede esperança a quem segue na Bagageira, exclama “aguentem“!

Um bom exemplo como um mau roteiro pode arruinar um bom argumento. Especula-se que tal terá precipitado Steven Spielberg a abandonar o projecto a apenas alguns meses do inicio da rodagem. Optou por investir o seu talento noutro projecto, o Indiana Jones e a Última Cruzada. Fez ele bem!

Acefalia do “Já”

Os mercados não são sensatos. Ou são? Sê-lo-ão os investidores? E o comum dos mortais, o consumidor e contribuinte? Naturalmente todas as respostas são negativas. Digo naturalmente porque não ser sensato é uma característica do ser humano, cuja origem é biológica. Estranho? Nem por isso. Quando a hipótese não é imediata, reflectimos. Se existir um horizonte temporal instantâneo, reagimos. Chamo a isto a Acefalia do “Já”. Manifesta-se em todos aspectos do quotidiano, sendo particularmente nefasto quando o objecto de decisão é o dinheiro: Perante a hipótese da oferta de cinquenta euros já, ou cem euros daqui a uma semana, a esmagadora maioria opta pelos cinquenta já. No entanto, entre cinquenta euros daqui a uma semana, ou cem daqui a um mês, todos optamos por esperar pelo maior ganho. Qual o motivo para esta diferença de comportamento?

Tudo tem origem no nosso código genético. Toda a célula viva tem como missão primordial a manutenção dos parâmetros necessários à existência da própria vida. Tal explica a razão pela qual os seres unicelulares “sabem” quais as acções que devem desenvolver para se manterem vivos, mesmo sem consciência ou cérebro, aparentam raciocinar, o que obviamente não fazem. Reagem. Como tal, o meio é igualmente decisivo. Ironicamente, designamos a nossa envolvente por Pressão Social.

Dotado de consciência, o ser humano é curiosamente mais reactivo que reflectivo. Tendemos a criticar, rejeitar ou condenar tudo o que é simplesmente diferente ou estranho, sem que no fundo tenhamos sobre tal reflectido. O comportamento das crianças à mesa é disto bom exemplo: “não quero, não gosto”; “mas nunca provaste; “pois não, mas não gosto”…

A verdade é que como adultos não somos muito diferentes. Reagimos mais do que agimos com base em reflexão. Daí a publicidade. Ajuda-nos a reagir, a minimizar o raciocínio. Confesso que sou apreciador de toda a publicidade a detergentes, champôs ou pastas de dentes. Na verdade gosto de não ter que reflectir sobre eles. Prefiro reagir. Por esta preguiça, estou disposto a pagar um pouco mais do que o mínimo possível, ou até mesmo comprar um produto inferior ao mesmo preço. São opções. De importância vital para uns, profundamente indiferente para outros, em comum apenas o “Já”.

Somos maus a decidir a curtíssimo prazo. Seremos bons a decidir a médio ou longo prazo. Infelizmente, também não. À acefalia do “já” acresce outra característica humana, a incapacidade de prever o que nos fará felizes. Resolvemos comprando tudo o que nos proporcione conforto e bem-estar. Consumir tornou-se de facto um vicio, que sabemos nefasto, mas reincidimos por falta de melhor solução. Não identificamos as causas do vazio, limitamo-nos a enche-lo. Somos igualmente maus a descrever o que nos fez felizes no passado.

Na conjectura actual, aberta a caça às culpas e culpados, julgo imprescindível o raciocínio em detrimento da reacção. Acredito que não será preciso ir muito longe para encontrar o maior dos culpados: Todos e cada um de nós. Vamos contudo ser sugestionados, qual publicidade a detergente da louça, a condenar o regime democrático. Na verdade assistimos já hoje à capitulação de líderes eleitos democraticamente. Aceitamos, sem raciocinar, que tal é a melhor opção. Porquê? Porque negamos qualquer culpa no que se passa, porque negligenciamos a acefalia do “já” e porque continuamos a ignorar que o conforto proporcionado pelos bens de consumo, não nos trará verdadeira felicidade.

O problema não está no regime democrático, mas sim nas pessoas. Acredito que cada um de nós, uma vez ciente destes factos, fará melhor que reagir. Terá menos preguiça em raciocinar, e finalmente envolver-se na construção de uma sociedade com valores centrados no ser e não no ter, ou seja, uma sociedade menos fútil, materialista e egocêntrica do que a actual.

Esmola aos Ricos

A Europa pediu esmola às economias emergentes. Estas, claro está, mandaram-na passear. Surpreendida, a matriarca de pronto vaticinou uma recuperação com a duração de uma década. Sem negócio da China, nem ouro do Brasil, o súper-marco está em apuros. Tal como muitos europeus, os germânicos não perceberam a quem confiaram o seu rumo. Terão pensado que o pedido foi feito em nome do mal comportado Sul. Como estão enganados. Não compreendem a situação da poderosa Alemanha. A desgraça a Sul tem ocupado o espaço mediático, e a sua ancestral soberba moral tem feito o resto. Os indisciplinados merecem ser punidos, pensam.

Um povo que valoriza o trabalho, o rigor e a disciplina não pode pensar de outra forma. Porém, a competitividade dos produtos alemães não resulta apenas da qualidade do trabalho. O risco está presente, e em grandes proporções. De um ponto de vista financeiro, o investimento no desenvolvimento de novos produtos é muito arriscado. O principal mérito da Industria alemã é a sua capacidade de inovar. O anterior deve tornar-se obsoleto face ao novo. É este conteúdo inovador que gera o desejo de compra. Quando um novo produto substitui outro em fim de ciclo de vida, o tempo para amortização do investimento no seu desenvolvimento será menor. Atendendo a que o seu custo de desenvolvimento foi significativamente maior, o risco financeiro cresceu de forma exponencial.

Quando comparado com o produto que substitui, cada novo produto terá que vender mais e em menos tempo, para permitir a recuperação do montante investido no seu desenvolvimento, com o necessário lucro. Parte significativa deste lucro será reinvestido em novos produtos, por sua vez mais caros de desenvolver, e os quais estarão à venda durante um período de tempo ainda mais curto. O ciclo repete-se indefinidamente. Este sucesso sobre o tabuleiro da competitividade é mérito da gestão alemã, a qual tem sem dúvida o engenho necessário para conjugar capitais, recursos humanos e meios de produção.

Contudo, a prosperidade da indústria alemã não se deve apenas ao conteúdo inovador dos seus produtos, mas também à exportação de capitais, com os quais o mundo lhes compra os óptimos produtos que fabricam, com juros. Tal coloca-os numa condição de risco inversamente proposicional ao prazo. Mínimo a curto prazo, máximo a médio longo prazo. Ao contrário do que nos é dito, a vaga de austeridade não visa o longo, mas sim o curto prazo. Manter o status quo é o único objectivo. Simplesmente impossível.

O virtuoso povo alemão parece alianado destes factos. Talvez por isso não pretenda desvalorizar a moeda unica, nem tão pouco por em causa o 123º artigo do tratado “porreiro pá” de Lisboa. Há que os ilucidar, de os alertar. Opto por um formato informal, a chamada abordagem por “tu”:

Se te dever uns quantos euros e não tiver dinheiro para te pagar, preocupado, não durmo. Se a divida for de uns milhares de euros, preocupados, nenhum de nós dorme. Mas quando a divida são muitos milhões de euros, quem não dorme és tu!

Quem deve a quem?

Um palerma disfarçado de Astérix

Disfarçado de Astérix, o palerma dos tacões altos anunciou com satisfação que o G20 decidiu acabar com os paraísos fiscais.

Diz-nos que serão todos banidos da comunidade internacional, caso não acabem com a pouca vergonha. Até mesmo o ordeiro e disciplinado Liechtenstein está sob pressão para uma rápida conformidade com as novas normas, o mesmo acontecendo com o membro neutral das nações unidas, a Suíça.

Suspeito que com estas boas notícias, prepara a terra da Liberdade, Igualdade e Fraternidade para algum ajuste, daqueles que nós já começamos a perceber como são feitos.

Já os Gauleses não suspeitam, logo não se preparam. Em breve os gauleses compreenderão que vivem num Inferno fiscal, pelo que o fim dos paraísos não lhes trará qualquer benefício.

Enquanto esse momento de clarividência não chega, o falso Astérix avança uma nova ideia, o chamado Núcleo Duro, ou seja construir um muro, uma barreira que divida o Euro de primeira do Euro de segunda. Brilhante chico-espertismo. Nada como declarar a Gália rica, antes que os Romanos a provem pobre.

O Português mais importante do Mundo

Corre o rumor que o Português mais influente no mundo, terá desta feita comprometido a sua imparcialidade em prol de um motivo patriótico. A sua discreta acção de bastidores terá permitido o agendamento da visita do chefe de estado Português, Prof. Aníbal Cavaco Silva à Casa Branca no próximo dia 9 de Novembro deste ano.

A agenda de trabalhos não foi revelada, mas são conhecidas as preocupações do presidente norte-americano Barack Obama com o futuro da zona franca da Madeira, com as filas de espera nos pastéis de Belém e com o assoreamento da Ria Formosa, mesmo em frente à casa onde o democrata John Carry por vezes passa férias.

Preocupações obviamente partilhadas pelo seu homólogo Português, o qual tem sobre os temas proferido os seus clássicos avisos.

Está prevista ainda uma sessão fotográfica nos jardins da Casa Branca, durante a qual o presidente Português agraciará Bo, o Cão-de-água Português da família Obama, com a ordem honorífica do Mérito, em reconhecimento da sua abnegação em favor da colectividade Lusitana, nomeadamente a promoção da visita a Washington, DC.