Arquivos de sites

Um ano de transportes públicos, Grátis!

Gosto muito de publicidade, especialmente da televisiva. Toca-me a profundidade da mensagem, mas aquilo que verdadeiramente me emociona são as cores. Gosto dos tons com que os publicitários pintam os seus quadros. Contemplá-los é simplesmente sublime.

Os tempos são difíceis, e até a arte publicitária se vê privada de meios. São hoje raras as aguarelas ou óleos. Sim, a serigrafia é a receita. Sejam séries grandes ou pequenas, é arte para todos. Belo e democrático.

Até as pequenas empresas chinesas que entre nós empreendem se renderam a esta arte, barata, mas que nos aguça a sensibilidade e enternece o ego. É mesmo muito bonito! De tudo isto, é bom exemplo o mais recente anuncio desse grande mecenas que é a EDP, qual casa de Sabóia dos nossos dias. Só lhe faltam os tons de azul no logótipo.

Muito para além da generosa oferta de 1 Ano de Energia Grátis, há todo um bem-estar que desperta. Digo-vos sem ironia, só me apetece andar de transportes públicos! Quero aqui agradecer a todos quantos contribuíram para este meu despertar, ao mecenas, aos artistas criativos e aos modelos que fazem pose. É preciso ser muito estúpido para não andar de autocarro no nosso país. Obrigado por me recordarem quão maravilhoso é o nosso quotidiano.

EDP_2014

Plano Companhia Mercearia

Foi recentemente lançada uma nova campanha de acefalia em massa. Refiro-me obviamente ao Plano EDP Continente. A sonae capitaliza notoriedade benemérita. A filantropia não tem fim naquela casa. Depois das acções com os heróis da pequenada Pópóta e Leopoldina, chega-nos agora o plano para os mais crescidos. Desta feita, ao invés de algum anónimo necessitado, ajudamo-nos a nós próprios. Finda a época natalícia, a caridade perdeu adeptos. Regressamos à expressão “já demos” e ao foco no umbigo. É para ele que o Plano aponta. Os tempos são de crise, e nenhuma outra mensagem tem tanto impacto como a empatia: Compreendemos a dificuldade e propomos ajudar. Valha-nos a publicidade! Sem ela estaríamos condenados à depressão, pois a média entregou-se à trilogia do momento: crise, divida e medo, muito medo. A mais pequena migalha de esperança é bem recebida, sobretudo quando aparenta compensar o recente aumento do IVA sobre a electricidade.

“Conte com a nossa Energia, 10% da Electricidade volta em compras”. Apelativo, é certo, mas como sempre a realidade fica aquém da expectativa gerada. Parece que o desconto será directo sobre o valor da factura da EDP, mas não é bem assim. Observadas as condições, constatamos que o desconto não pode incidir sobre os impostos, daí “10% da Electricidade” e não “10% do valor da factura”. São uns malandros estes Publicitários Ocidentais, dirão os novos accionistas da EDP. Ternurenta a ingenuidade asiática. As referidas condições são igualmente profícuas no que toca a alertas e a esclarecimentos adicionais, nomeadamente a cristalina informação que o plano não trará vantagem a quem tenha um “consumo em vazio inferior a 44%”. Seja qual for o significado da expressão, ou respectiva quantificação, é meu dever enaltecer a iniciativa em clarificar a oferta. Assim se mantêm a tradição de comunicação transparente da companhia. Tenho alguma reserva quanto à duração da mesma: o desconto sobre o valor da electricidade consumida, em função da potência contratada, apenas estará em vigor até ao final deste ano, leia-se Dezembro de 2012. O que é bom não dura para sempre, dirão os parceiros da iniciativa…

Ao engano do desconto em cartão, ou cupão, acresce o abandono voluntário do mercado regulado, onde uma entidade supostamente reguladora, define o valor das tarifas de electricidade. Quem o fizer, fá-lo-á de forma irreversível. Para além de aderir ao financiamento do negócio da mercearia, antecipa a adesão ao mercado liberalizado. Este mercado liberalizado de concorrência permitiria, pelo menos teoricamente, a livre escolha do fornecedor de electricidade, em função da competitividade da oferta, ou seja, o melhor preço, o melhor serviço ou a melhor relação entre ambas. Tudo óptimo. Tudo desejável. Um problema: Não existe verdadeira opção à companhia, logo a liberalização será apenas dos preços. Tal como ocorreu no mercado de combustíveis, onde existem diversas marcas na distribuição, mas há apenas um refinador (por acaso também é distribuidor). Por mais que a entidade reguladora nos diga que não há “cartelização” de preços, na prática há um monopólio no sector, e consequentemente não existe a desejável guerra de preços. Talvez por isso, a galp invista milhões em patrocínios às selecções Nacionais, esforçando-se para nos convencer que de alguma forma é “nossa” e não dos seus accionistas.

Em troca de um pouco de ânimo na comunicação, o Plano Companhia Mercearia tenta criar um monopólio onde ele não existe (hipermercados), e ao mesmo tempo antecipa a liberalização dos preços num mercado monopolizado. Bem sei que durante o ano de 2012, a tarifa será igual em ambos os mercados de energia eléctrica, mas exactamente por isso, questiono: Se há défice tarifário na tarifa normal (mercado regulado), como é possível a companhia suportar o desconto adicional? Será que a energia tem custos de produção diferentes em função do tipo de contrato com o cliente final?

Se a tudo isto acrescentarmos a obrigatoriedade do débito directo em conta como método de pagamento à companhia, julgo apropriada a classificação do Plano como um roubo com consentimento da vítima.

Prefiro não fiar ao continente e permanecer no mercado regulado.

Censurem-me!