Plano Companhia Mercearia

Foi recentemente lançada uma nova campanha de acefalia em massa. Refiro-me obviamente ao Plano EDP Continente. A sonae capitaliza notoriedade benemérita. A filantropia não tem fim naquela casa. Depois das acções com os heróis da pequenada Pópóta e Leopoldina, chega-nos agora o plano para os mais crescidos. Desta feita, ao invés de algum anónimo necessitado, ajudamo-nos a nós próprios. Finda a época natalícia, a caridade perdeu adeptos. Regressamos à expressão “já demos” e ao foco no umbigo. É para ele que o Plano aponta. Os tempos são de crise, e nenhuma outra mensagem tem tanto impacto como a empatia: Compreendemos a dificuldade e propomos ajudar. Valha-nos a publicidade! Sem ela estaríamos condenados à depressão, pois a média entregou-se à trilogia do momento: crise, divida e medo, muito medo. A mais pequena migalha de esperança é bem recebida, sobretudo quando aparenta compensar o recente aumento do IVA sobre a electricidade.

“Conte com a nossa Energia, 10% da Electricidade volta em compras”. Apelativo, é certo, mas como sempre a realidade fica aquém da expectativa gerada. Parece que o desconto será directo sobre o valor da factura da EDP, mas não é bem assim. Observadas as condições, constatamos que o desconto não pode incidir sobre os impostos, daí “10% da Electricidade” e não “10% do valor da factura”. São uns malandros estes Publicitários Ocidentais, dirão os novos accionistas da EDP. Ternurenta a ingenuidade asiática. As referidas condições são igualmente profícuas no que toca a alertas e a esclarecimentos adicionais, nomeadamente a cristalina informação que o plano não trará vantagem a quem tenha um “consumo em vazio inferior a 44%”. Seja qual for o significado da expressão, ou respectiva quantificação, é meu dever enaltecer a iniciativa em clarificar a oferta. Assim se mantêm a tradição de comunicação transparente da companhia. Tenho alguma reserva quanto à duração da mesma: o desconto sobre o valor da electricidade consumida, em função da potência contratada, apenas estará em vigor até ao final deste ano, leia-se Dezembro de 2012. O que é bom não dura para sempre, dirão os parceiros da iniciativa…

Ao engano do desconto em cartão, ou cupão, acresce o abandono voluntário do mercado regulado, onde uma entidade supostamente reguladora, define o valor das tarifas de electricidade. Quem o fizer, fá-lo-á de forma irreversível. Para além de aderir ao financiamento do negócio da mercearia, antecipa a adesão ao mercado liberalizado. Este mercado liberalizado de concorrência permitiria, pelo menos teoricamente, a livre escolha do fornecedor de electricidade, em função da competitividade da oferta, ou seja, o melhor preço, o melhor serviço ou a melhor relação entre ambas. Tudo óptimo. Tudo desejável. Um problema: Não existe verdadeira opção à companhia, logo a liberalização será apenas dos preços. Tal como ocorreu no mercado de combustíveis, onde existem diversas marcas na distribuição, mas há apenas um refinador (por acaso também é distribuidor). Por mais que a entidade reguladora nos diga que não há “cartelização” de preços, na prática há um monopólio no sector, e consequentemente não existe a desejável guerra de preços. Talvez por isso, a galp invista milhões em patrocínios às selecções Nacionais, esforçando-se para nos convencer que de alguma forma é “nossa” e não dos seus accionistas.

Em troca de um pouco de ânimo na comunicação, o Plano Companhia Mercearia tenta criar um monopólio onde ele não existe (hipermercados), e ao mesmo tempo antecipa a liberalização dos preços num mercado monopolizado. Bem sei que durante o ano de 2012, a tarifa será igual em ambos os mercados de energia eléctrica, mas exactamente por isso, questiono: Se há défice tarifário na tarifa normal (mercado regulado), como é possível a companhia suportar o desconto adicional? Será que a energia tem custos de produção diferentes em função do tipo de contrato com o cliente final?

Se a tudo isto acrescentarmos a obrigatoriedade do débito directo em conta como método de pagamento à companhia, julgo apropriada a classificação do Plano como um roubo com consentimento da vítima.

Prefiro não fiar ao continente e permanecer no mercado regulado.

Censurem-me!

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About Gonçalo Moura da Silva

... um homem ao Leme. "A minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores. Só me conheço como sinfonia. "

Posted on Janeiro 20, 2012, in Geração "à rasca", Ideias para o País, Teorias da Conspiração and tagged , , , , , . Bookmark the permalink. 7 comentários.

  1. o estúpido que não é parvo

    Mais um exemplo da desonestidade a todos os níveis (ética, intelectual, moral, etc) que cresce assustadoramente neste residuo de pais. Economês, advogês, politiquês são as “linguas” que os mer*** que vamos deixando que mandem(?) nesta jangada de pedra vão utilizando até ao próximo “acontecimento histórico” (como o foram as cortes de Tomar em Abril de 1581 – quem passa a governar é Filipe de Espanha) – ou talvez quando a dona Merkle declarar solenemente que “isto” é dela.

  2. Gente pequena...

    Se faz desconto é porque faz… Se não faz são uma cambada de ladrões… As pessoas gostam muito de dizer mal, sem se interessarem ou verificarem se compensa. Só falta dizer, (como já vi em muitos sítios) que agora como aumento do IVA é que a EDP vai fazer dinheiro…

    Enfim… Como muitos produtos, planos e promoções existem regras a observar. Quem não está interessado não tem que dizer mal ou queixar-se… Tem um óptimo remédio… Não adere…

    Que gentinha…

    • Não procuramos uniformidade de pensamento, pelo que não posso deixar de agradecer a eloquente e claríssima opinião expressa. Muito obrigado.

    • O desconto é bem vindo. É pena é as condições só serem explicadas a quem tem a inteligência de perguntar porque raio é necessário dar novamente todos os dados de identificação e o NIB se já temos um contrato com débito direto.

      Gente pequena é aquela que armadilha a comunicação comercial para provocar uma adesão por impulso que vai alterar completamente as condições contratuais daqui a uns meses.

      Diria que se a mudança de tarifário imposta automaticamente fosse benéfica para o cliente não seria necessário dotá-la de tanta maquilhagem.

      Talvez quem se indigne nem tenha feito bem as contas, talvez a mudança seja vantajosa, mas se assim o é para quê a trapaça?

      Em todo o caso se puder esclarecer os benefícios da transição no imediato, em vez de esperar mais um ano ou dois até que ocorra inevitavelmente, agradeço.

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