Author Archives: Gonçalo Moura da Silva
Wonder Woman
Wonder woman, entre nós Mulher-Maravilha, é a heroína de hoje. Dotada de super saberes e invulgar agilidade argumentativa, possui um poderoso arsenal. A saber, são três as suas principais armas: O Laço Mágico de Afrodite, que subjuga o capturado a obedecer cegamente; As Irrevogáveis Braceletes, que absorvem o impacto de qualquer ataque; e a sua Tiara, a arma de arremesso de eleição. A Mulher-Maravilha é uma guerreira temida. Os adversários não perdem uma oportunidade para a atacar. O aproveitamento politico é recorrente, mas ela responde sempre, ponto por ponto. Explica bem explicadinho, no seu jeito sintético e definitivo que não há incompatibilidades porque a função é não executiva. Sejamos claros, “não executivo” é um eufemismo para inimputabilidade. Que não restem duvidas! Bem, se as houver, a imunidade parlamentar lá estará para garantir o futuro. Se fosse um cargo executivo, ainda vá, mas assim, com o prefixo “não” extinguem-se quaisquer possibilidades de incompatibilidade. É legal! Será Legitimo?
Sabem que mais, é tudo inveja, difamação infundada e torpe. Pois se até o novo patrão afirma que ela tem enorme experiência em cargos públicos, qual é o problema? Não é óbvio que apenas vai aconselhar? Começa na próxima segunda-feira. Por vezes fico chocado com a precipitação do juízo dos meus compatriotas. Senão vejamos. Poucos entre nós são tão sapientes em matéria de dívida como ela, seja a encher os cofres, seja a fazer contratos de permuta, vulgo swap.
Já alguém pensou que vai entrar divisa estrangeira? Será paga em Libras para aportar valor, não para trabalhar! Digam-me, não é este o sonho lusitano?
Oscars 2016
Por uma vez, que não sirva de exemplo, vou abordar um tema que verdadeiramente vos interessa. Algo importante, algo relevante – A Cerimónia de entrega dos Óscares 2016. Mais um ano passou, a espera foi longa, mas o momento alto da indústria cinematográfica será já no próximo domingo, madrugada dentro. Seguir-se-ão importantes e pertinentes apontamentos e notas sobre o desempenho dos artistas e convidados na celebre passadeira vermelha rumo ao Dolby Theatre. Qual o melhor vestido, qual o pior, as jóias, a falta delas… Nada, absolutamente nada escapará ao rigoroso escrutínio dos especialistas. Haverá algo mais relevante? Poderá o mundo avançar sem saber o preço dos vestidos? Obviamente que não. Uma vez sentados os artistas, começa o espectáculo. Nenhuma outra sala, nem mesmo a do planetário, reunirá tantas estrelas sob o mesmo tecto.
Todos assistiremos em êxtase, a maioria de nós adormecerá, mas alguns conseguirão mesmo ouvir todos os emocionantes discursos de agradecimento dos vencedores, puros momentos de improviso, plenos de autenticidade e emoção. Incrível como os profissionais da farsa e da dissimulação conseguem ser tão autênticos naquele momento de vitória. A graciosidade dos vencidos é igualmente marcante. Na verdade, ninguém perde pois todos os nomeados já são vencedores.
Embora há muito merecedores, nunca nenhum nosso compatriota venceu em qualquer das categorias. Este ano, suspeito que esta tremenda injustiça será finalmente corrigida. Acredito na vitória de uma, senão em todas as seguintes categorias: Melhor edição, Melhor Banda Sonora, Melhores Efeitos Visuais, Melhor filme de Animação e Melhor Figurino. Que ganhe o melhor!
Carranca Costa
Há milhares de anos que a superstição faz parte do quotidiano de qualquer marinheiro. Quando a vida fica à mercê da intempérie é natural que a crença menos convencional prevaleça. Mas por vezes tem explicação racional. Nunca pronunciar após embarque, sob nenhuma circunstância o apelido do ex-primeiro-ministro, é um dos exemplos. Coelho é aquele-que-não-deve-ser-nomeado, é animal maldito. Outra superstição perfeitamente sensata é aquela que exclui o embarque de flores e plantas, pois consomem um recurso valioso, a água doce. Já a moeda de prata sob o mastro tem uma explicação mais mística, remonta ao tempo dos romanos e visa pagar o trânsito das almas, evitando que se eternizem penadas em caso de tragédia. Monstros marinhos e criaturas mitológicas como as Sereias têm também o seu lugar neste universo tão povoado como misterioso, mas a figura mais proeminente é naturalmente a carranca, majestática à proa.
O Mar financeiro, deixado à sua sorte, tende para o equilíbrio. Dizem. Entre nós, povo marinheiro, a barca de supervisão chama-se Banco de Portugal. Independente, regula, previne e decide. Contudo, a cada afundamento, fica a ideia que alguém não fez o que era suposto, que ficou aquém do que devia. Ninguém explica que num sistema que funciona ao segundo, afirmar que os bancos centrais são Reguladores só pode ser uma piada de mau gosto. Perante tamanho eufemismo, alguns, mais mesquinhos, contestam as remunerações a bordo do Banco de Portugal, mas não é isso que me move. Negativo. Venho isso sim, lembrar porque é tão bem pago.
Passo a explicar: Carranca Costa, como qualquer antecessor ou sucessor, é útil para branquear problemas e falhas do sistema. Deu a cara, ilibou o anterior governo e agora é novamente útil como alvo do novo executivo. Singela e sucintamente, é pago para arcar com a culpa e ficar calado!
Je suis Deutsche Bank
Amigas, prezados senhores, excelentíssimas senhoras, companheiros em geral, classe média em particular, este alerta é para vós. Vocês que a tempo resgataram o depósito à ordem no BPN, que oportunamente soltaram amarras da vossa poupança aplicada a prazo no BES, que assim sacrificaram o juro e rumaram a águas mais seguras, vós a quem nem o Banif lesou, quais velhos lobos-do-mar, sábios na arte de evitar as tempestades, eis chegado o momento de repensar a rota. O refúgio nas margens do Meno talvez não seja agora muito avisado. Vem lá borrasca da grossa. Alerta! Nada será como antes. A prudência aconselha agora o cofre, o colchão ou mesmo a roupa interior.
Feito o aviso, estou certo que mandatado por todos vós, não posso deixar de aqui exprimir toda a nossa compaixão e empatia para com todos os contribuintes que a esta causa serão chamados, sejam eles quem forem, estejam eles onde estiverem. Nós sabemos o quanto custa, mesmo que nem sempre seja claro o que é mais difícil: o anúncio que tudo está bem, a surpresa que afinal não está, o choque do valor a pagar ou as subsequentes investigações e comissões de inquérito. Coragem, tudo passa, leva tempo, mas passa. Resistam, não sejam piegas, consolidem, resgatem, façam o que for preciso. Lembrem-se, é para o vosso e o nosso bem. O sistema é perfeito, nunca se esqueçam. Nunca falhou. Vide os nossos casos de polícia…
Todos, todos somos um e a uma só voz diremos: “Je Suis Deutsche Bank”.
O Retrato Oficial
Após algumas semanas de ansiedade, chegou finalmente o dia da apresentação do entediante Orçamento de Estado no Parlamento. Que alivio. Vamos finalmente deixar de assistir ao jogo de parada e resposta entre a dramatização e a desdramatização. O processo apenas serve um propósito – desviar as atenções e banalizar a soberania abdicada. Dirão os euro-crentes que a mesma foi voluntária, que consta de tratados, assinados claro está sem nenhuma arma apontada à cabeça. Uma arma não, mas o Pacto Fiscal Europeu foi assinado em Março de 2012. Por vezes, sobretudo quando conveniente, a emergência financeira é esquecida. Enfim, todo este processo de normalização por anestesia serve apenas para nos habituarmos à ideia do fim da soberania Nacional, para a termos como banal. Para meu profundo desagrado, está a resultar.
Opto então por comentar outro assunto. Prefiro as boas notícias. Preparados? Aqui vai: faltam apenas 28 dias para terminar o mandato do actual Presidente da República! É ou não é uma boa noticia? É excelente! Mas há mais. Há pelo menos mais uma boa noticia: Antecedendo o instante da sentida despedida, será apresentada a mais recente e valiosa peça do acervo do Museu da Presidência da República, mais uma maravilhosa pintura para a Galeria de Retratos Oficiais.
Depois do conservadorismo de artistas como Columbano Bordalo Pinheiro, Henrique Medina e Eduardo Malta terem feito escola, a tradição foi rompida pela originalidade de Júlio Pomar, logo seguido pelo retrato contemporâneo da autoria de Paula Rego. Sei, de fonte insegura, que o Presidente cessante vai manter esta tendência de ruptura com os cânones do retrato presidencial. Vai inovar. Desta feita, a obra fala por si. O autor permanecerá anónimo, mas o seu mérito é inegável. O quadro caracteriza o retratado tão bem como aos seus concidadãos, aqueles que por voto ou omissão o elegeram tantas vezes. Celebremos.
O Aeroplano
Porque nem todos os grandes clássicos do cinema são tragédias e porque nem todas as comédias tem graça, recordamos hoje uma das maiores paródias de todos os tempos – O Aeroplano. Foi estreado em 1980 mas mantém-se em cena até aos nossos dias. Provavelmente um dos mais notáveis exemplos da comédia absurda e do humor negro, relata-nos a emocionante viagem de uma aeronave, metáfora para companhia aérea de bandeira, afectada por um severo caso de intoxicação alimentar. O problema foram os tomates! Ou a falta deles. Certo é que a rambóia é completa e as cenas caricatas sucedem-se a um ritmo alucinante. Acaba por ser fácil adjectivar o argumento: despropositado, incongruente, irracional, contraditório e insensato. Na prática, acaba por satirizar todo um sector, o da aviação civil. Viva a regulação, saudável e intendente. Sobretudo imparcial!
O filme fez o seu trajecto até aos nossos dias, sendo lentamente revelados segredos e pormenores da sua produção. Ficámos há dias a saber, em época de contenção orçamental e de grande rigor na gestão dos dinheiros públicos, que houve aumentos na direcção do regulador. Apenas 150%, mas houve. Tudo legal e com a vantagem de ninguém ter responsabilidade. Pagámos aos ministros das finanças e da economia para nomearem outras pessoas, as quais de graça e sem regalias tomaram as decisões. Não é bom? É excelente! Nada lava mais branco que uma “comissão de vencimentos”. Coincidência, ou talvez não, foi a posterior aprovação da venda da TAP. Resumindo e concluído, quem manda é o boneco, dito piloto automático…
Primeira Volta
As sondagens só acertaram no vencedor. Quanto à proporção de votos nos restantes candidatos, a falha foi total. Diga-se, só não falharam naquilo que todos sabíamos. A noite eleitoral foi de tal forma ligeira que tudo estava despachado à hora das crianças irem para a cama. É o novo tempo dos afectos. Destoou, é certo, o último discurso da noite ser protagonizado por quem nada ganhou, o primeiro-ministro. Tomou-lhe o gosto, será? Diz o protocolo que os últimos são os primeiros, mas enfim. Talvez não tenhamos compreendido o que ganhou ontem. Talvez um aliado, talvez menos inimigos.
Acabou por ser um Domingo tranquilo. O suspense acabou cedo, logo pela hora de jantar. A emoção de uns, o quebrar da expectativa de outros: Não há segunda volta para ninguém! Não há mais fichas, o carrossel eleitoral acabou. Abençoada abstenção. Algo me diz que continuaremos a ser mais de nove milhões de eleitores. Seja. Continuaremos a bater recordes, nem que seja do absurdo. Resta-nos aguardar pelo mês de Março. A oito acaba-se a feira…
Entretanto, procurando ir além dos afectos, imaginamos como será o próximo Presidente da República? Imparcial? Espero que não! A imparcialidade tem protegido a paz podre reinante. Confesso não ter nem grande expectativa, nem grande receio. Diria mesmo, receio algum. Afinal, quem sobreviveu a uma década com o actual inquilino de Belém, não teria qualquer motivo para temores, fosse qual fosse a candidatura vencedora. Por mais ténue, seria sempre uma melhoria. Mesmo não sendo grande consolo, que não é, a criatividade, a alegria que caracteriza o vencedor vai dar mais cor ao panorama Nacional. Não esquecer que o primeiro mandato é sempre um estado de graça, uma serena e tranquila campanha para o próximo mandato. Há sempre uma segunda volta!
Dune
Agora que a campanha começou, digamos, oficialmente, pareceu-me apropriado recordar o filme “Dune”. Baseado no livro de ficção científica de Frank Patrick Herbert, “Dune” é um clássico do cinema do século passado, uma enorme salganhada de efeitos mais ou menos especiais, uma estória de predestinação misturada com audácia e ímpeto. Embora o enredo seja o de uma monarquia, a analogia com a nossa república é no mínimo pertinente. Há um imperador que afinal não manda nada, subjugado e temente a um poder maior – um bicho esquisito que vive num aquário de secção oblonga e que se faz acompanhar por gente tão ranhosa e repulsiva como incompreensível no seu dialecto materno. Os leitores que se recordam do filme compreenderão o que descrevo, aos outros bastará a descrição menos surreal e mais sucinta da organização que dá pelo nome de União Europeia. Ou seja, tudo gira em torno da Especiaria, essa maravilhosa substância que faz girar o Universo. É incrível a assertividade da narrativa deste grande clássico de 1984 com o sistema de criação monetária actual. A metáfora dos Vermes resulta em pleno.
Esta obra-prima do mestre do surrealismo, o realizador David Lynch, é sofisticada na forma, mas simplicíssima nos processos: Os bons trajam ao estilo prussiano, os maus têm borbulhas. Os títulos nobiliárquicos também ajudam: Do lado da virtude o Duque e o seu herdeiro, do lado da infâmia o Barão e seus sobrinhos, um deles famoso por em tempos entoar o poema policial intitulado “De Do Do Do, De Da Da Da”.
Resumido, os maus partem com o desejo de voltar, os bons chegam com o desejo de mudar. Entre os que vão e os que chegam, estão os nativos, os senhores da situação. Muito embora não pareçam, são eles e elas os verdadeiros protagonistas. Todos, mas todos sem excepção são independentes! Não se sabe muito bem de quê ou quem, mas parece ser esse o estatuto preferido. É o caso da governanta Maria de Ninguém Independente.
Se o leitor entretanto se perdeu, não se preocupe, a culpa não é sua… Lembre-se, é o surrealismo.
Ideologia de Natal

Amanhã a esta hora, quem ainda acredita no Pai Natal estará feliz e ansioso pela chegada do momento alto do ano, a meia-noite. Convenhamos, todos abraçámos esta ideologia, algures no passado, pelo menos enquanto pudemos. Depois, acabámos derrotados pela realidade. A fantasia do Pai Natal apenas pode durar algum tempo nas nossas vidas, depois aparecem as facturas para pagar. Não há ideologia que resista aos duros factos da vida adulta, excepto se o adulto for agraciado pelo Sr. Silva, seja cozinheiro, artista, desportista, gestor ou ex-governante. Para estes o Natal chega mais cedo. O Grau esse, depende da grandiosidade dos feitos.
Na sua grande indulgência, sua excelência perdoa até aqueles que no passado lhe teceram grandes e ferozes críticas, mesmo aos da mesma família ideológica. À época, a crítica, até dava um certo jeito, ajudava a compor a ideia da independência, do supra partidarismo que hoje outros procuram replicar.
Enfim, adiante que a hora é do condecorado, o Grande, o Enorme, o inigualável Vice-Rei da Madeira, Porto Santo e arquipélago das Selvagens, Alberto João Jardim, o único político lusitano que não deixou um tostão de défice, apenas obra. E que obra! Nunca o seu record de inaugurações será batido, mesmo se à contagem forem deduzidas as cerimónias repetidas, o seu desempenho é imbatível! São homens (e mulheres) como Alberto João Jardim que nos fazem acreditar que afinal, o Pai Natal existe mesmo. Para alguns, não para todos, mas existe!
Acreditar à Força
Unidos podemos tudo. Unidos pagamos tudo. Unidos na desgraça, divididos nos proveitos, mas sempre salvaguardados pelas robustas, ágeis e eficazes instituições que dão pelo nome de reguladores. São competentíssimos na velha arte do relatório forense. No sector bancário, chamar Regulador à entidade competente é tão absurdo como a considerar independente. São eufemismos. Nem com o maior dos sarcasmos lhes consigo achar graça. Eis derrotado o meu mais perverso sentido de humor negro. Não consigo rir. Afinal o que é que regula este regulador? Afinal é independente de quem? Ou de quê? Só me ocorre uma resposta: dos contribuintes. É o regulamento!
A saída era limpa, os cofres estavam cheios, mas afinal havia mesmo esqueletos no armário. Que bom, temos culpados. Calha bem a indignação, mas tal pouco importa, na verdade dá igual. Unidos, pagamos, tudo o mais é propaganda. Mas mentiram, descaradamente mentiram! É verdade, mas sempre o fizeram, porquê o choque? Unidos, quisemos acreditar. Tanto assim foi que continuamos na senda das crenças, se não todos, alguns: Há quem enalteça a coragem, há quem lhe louve a frontalidade, a verdade que o novo primeiro-ministro sucintamente nos relatou ontem. Sim, reconheço, a forma é bem diferente, mas o conteúdo é o de sempre. Nada mudou.
Unidos pagamos milhares de milhões, como se fossem tostões. O que é de todos não é de ninguém. Mais uma vez, temo não ser a última, unidos acreditamos à força que é desta que o sistema encontra o almejado equilíbrio, a prometida estabilidade. Quase virou rotina. Por aí virão comissões de inquérito, auditorias e muito debate inconsequente, e claro está, descobriremos que afinal será mais caro, mais dispendioso do que o previsto. Culpados muitos, tantos que já não será possível imputar responsabilidade seja a quem for. No fim, ninguém, absolutamente ninguém foi responsável e todos agiram com a melhor das intenções. Típico interesse nacional. Este tipo de assalto, por tão banal, até nos parece normal.













