Author Archives: Gonçalo Moura da Silva

Laivo de Clarividência

Nem sempre é nítido o contraste entre o absurdo e o óbvio. Vivemos tempos estranhos. Apenas o viral é real. Tudo o mais não existe. O virtual até já impõe agenda aos media, mas grosso modo prevalece o princípio da exclusividade absoluta da verdade: a televisiva. Se o noticiário não relatou não aconteceu.

Exposto o abstracto, vamos ao concreto. O exemplo: Num laivo de clarividência, o presidente da comissão europeia, o homem da terra da competitividade fiscal, o luxemburguês Jean-Claude Juncker disse ontem o óbvio! Por cá não passou, pois foi dia de propaganda sobre avisos e críticas à soberania lusitana, logo não houve espaço mediático. Assim se vende em permanência a ideia que nós, entregues a nós próprios, só fazemos asneiras. Resumindo, em dia de divulgação de ameaças, esqueceram-se de nos informar sobre as palavras de Junker. Que disse ele? Que a União Europeia (imagine-se!) errou. Reconheceu que a legislação Europeia é excessivamente intrusiva, que interfere demasiado nos processos legislativos nacionais dos países membros e que por essa razão os cidadãos se afastam cada vez mais do ideal europeu.

Este recado para britânicos, em nítido contraste com a mensagem que ontem nos estava destinada, é tão lúcido como verdadeiro. Traduz a percepção crescente entre os europeus, de um extremo ao outro do campo ideológico. Seja a extrema-direita de leste ou a extrema-esquerda dos periféricos, ninguém quer ser europeu deixando de ser aquilo que nasceu, cidadão do seu país. União não é, não pode nem será, uniformização. Ninguém a quer!

Laivo-de-Clarividencia

 

Plástico de Cidadania

Fez ontem 30 anos que faleceu em Paris a escritora Simone de Beauvoir. Por cá, em Lisboa, o partido que se diz inteiro e em bloco, tentou homenagear a prestigiada intelectual, activista política e feminista convicta, mas não conseguiu. Acto falhado. Teria sido bonito, mas fracassou. Não foi uma questão de forma, correcta aliás, foi mesmo o conteúdo. Alguém anda com falta de ideias para temas fracturantes. A proposta é de tal forma oca que muitos duvidaram da sua autenticidade. Os outros, aqueles que acreditaram ser real e verdadeira, choraram. Comoção? Não, gargalhada.

Mas rir faz mal? Negativo! É até muito salutar! Faz bem, especialmente em dias cinzentos e chuvosos. Contudo, o progresso social é sobretudo um processo geracional, nada tem de instantâneo, nem mesmo juntando muita água. Há reivindicações que se tornam absurdas, por vezes ultrapassadas pelos próprios acontecimentos e hábitos. Afogam-se no idealismo. A Lei dos Piropos é disto bom exemplo, não por serem agradáveis, mas simplesmente porque estão em desuso. Nós, os jovens na quinta década de vida, não praticamos o lançamento do piropo. Sem a sua proibição, a nossa descendência nem saberia o que foi essa arte de outrora, entre o elegante elogio e a boçalidade. O pretenso simbolismo falha por falta de quem o contemple.

A proposta de ontem padece do mesmo tipo de excesso de sofisticação progressista, mas têm o seu mérito linguístico. Aponta o problema de género e apresenta uma solução. Porém, preciosismo por preciosismo, pois que o rigor seja imaculado. O documento em causa não é de cartão, é de plástico. Proceda-se em conformidade.

Plastico-de-Cidadania

 

 

Yabba-Dabba-Do

Os pré-históricos Flintstones foram hoje à periferia da capital lusitana, mais concretamente à cidade da Amadora, inaugurar a nova estação de metropolitano da Reboleira. Vieram no seu automóvel, a conhecida Geringonça de tracção pedonal pelos ocupantes, veículo ecoeficiente e 100% reciclável. Salvem o planeta, reciclem! Nunca é cedo demais para mudar o que está mal, o que está errado. Culturalmente estamos conversados, o desporto vai pelo mesmo caminho e na defesa a coisa está negra, mas adiante que nem Willian Hanna nem Joseph Barbera tiveram imaginação que chegue para isto. Ninguém ousaria a tanto em tão pouco tempo. Avancemos que a agenda está cheia.

O evento correu bem, os convidados compareceram, os protagonistas também. Houve discursos e bons concelhos, animação em geral e muita alegria em particular. Como se quer. Todos os bancos eram bons, excepto para quem viajou de pé. Ora, foi disto que nos falou Fred. Avisou. Eis chegado o momento de mudar, de transformar principescos hábitos em altruístas virtudes. Mais do que não abastecer em Espanha, mais do que não poluir, é saúde. Isso! Fred a Pé anunciou a imediata extinção dos nefastos automóveis das cidades nacionais.

Andar a pé faz bem, eu cá pratico e gosto, mas será que todos podem? Quantos moram perto do trabalho? Não muitos, não é verdade? Esta ideia de a todos enfiar no Metro é coisa de quem nele não passeia há muito. Com a euforia do dia confundiu a abertura de mais uma estação com uma verdadeira rede de transportes públicos, que na realidade não temos.
Fred-a-pe

Noddy, Mário Noddy

O prometido é devido, mesmo que a contragosto, eis-me a cumprir com a palavra dada. Hoje sim, é dia do herói principal destas aventuras. Mais tarde voltaremos às outras personagens. São tantas, tão ricas e diversificadas que a tarefa não se avizinha fácil, mas fica a promessa. Vamos ao que interessa, à ordem do dia.

Reuniu ontem o conselho de estado, em virtude de o cargo de Presidente da República ter sido novamente preenchido após longo hiato de uma década. Estamos portanto na chamada fase do “estado de graça”, consequência do alto patrocínio do factor novidade. Tanta é a ternura nesta nova era dos afectos que os conselheiros foram brindados com um convidado especial. Já se sabe que recebemos bem, que os convivas apreciam o clima e a gastronomia, mas nunca a satisfação do turista foi para nós tão importante.

Abram alas para o Mário! Viva! Chegou e disse, falou e foi-se. Reformar é a ordem. Reformar sem reverter, porque as reformas foram todas óptimas. O crescimento económico bate à porta, em linha com a Europa. Olha que bom! Importante por cá, no país dos brinquedos, são os juros da dívida soberana. Soberana? Confesso que não consigo escrever isto sem me rir. Soberana. Trágico, não é? Como podemos sequer usar a palavra quando é o Noddy que tudo faz? É ele, não os mercados, nem as reformas, que faz baixar os juros, logo, é ele, o Noddy quem manda. Gostamos? Não, mesmo nada, mas também de nada nos serve fingir.

Draghi-Noody

Incrível Hulk

Fruto da criatividade da dupla Stan Lee e Jack Kirby, a personagem de hoje destaca-se das demais criações dos mesmos autores pela fonte da inspiração, algo inédito e totalmente inovador: uma poderosa e explosiva mistura de dois livros, os famosos “Frankenstein” e “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Sr. Hyde”, da autoria de Mary Wollstonecraft Shelley e Robert Louis Stevenson respectivamente.

Esteve para ser cinzento, mas ditou o acaso que fosse verde, numa tonalidade imprevista pelos seus criadores mas que se impôs até hoje. Começou por ser noctívago, transformando-se apenas a coberto da noite, qual lobisomem ou transformista. Não tem penas, nem voa, mas quis o destino que abandonasse esta faceta mais recatada, dando asas ao seu lado selvagem, libertando-o para um quotidiano sem restrições ao mau feitio, revelando-se a qualquer hora do dia ou da noite. Eis como um pacato e tranquilo João Soares se transforma num temível e terrível monstro quando se irrita. Vira bicho! É esta a descrição mais sucinta deste herói da banda desenhada, ele próprio um clássico do cinema, o incrível Hulk, a outra faceta, consequência da exposição a raios gama na moleirinha, redes sociais à mistura e pronto, é quanto baste para que o super-herói da Marvel ameace os seus críticos.

Tanto que poderíamos dizer, tão pouco tempo (e espaço!) para o fazer, de filho pródigo a sobrevivente a desastre aéreo, de autarca a comentador, hoje ministro, um trajecto e pêras. Há quem diga diamantes, mas cuidado, não vá o matulão se enervar….

Hulk-Soares

Lesados dos Offshore

O mundo mediático está ao rubro com a investigação jornalística aos documentos de uma sociedade de advogados no Panamá. A ansiedade é grande. Aguardamos por nomes, queremos sangue. Por enquanto, apenas um compatriota, um sexagenário que inspirado pelas pedras parideiras do concelho vizinho ao seu, vendeu à petrolífera brasileira um poço vazio. Só na Rússia o compreenderão, talvez por isso a personalidade que abre todos os noticiários, muito embora o seu nome não surja em nenhum documento, é do actual Czar. Parece que a afinidade basta. Acho bem, também por lá existem pedras parideiras.

Mais não temos, não nos dizem. Investigam, dizem, com grande rigor. Parece que afinal a livre circulação de capitais pode não ser a mais perfeita das invenções. Será a isto que eles chamam auto-regulação? Seja o que for, acontece. Falam em branqueamento de capitais, mas eu discordo. Para mim é escurecimento de capitais. Os lesados? Somos nós que resgatamos os bancos, bancos esses que concedem empréstimos sem garantias e que dão esses valores como perdidos. Há também quem lhes chame activos tóxicos.

Enfim, todo um mundo de subtis e sofisticados eufemismos, que apenas encobrem algo de muito simples: roubo. No fundo, já todos o sabíamos. Há contudo mais para além do óbvio. As denúncias nunca servem o interesse geral nem a justiça. Servem, isso sim, causas concretas. Será este sector do Offshore muito concorrencial? Compreendo que o mercado publicitário lhes esteja vedado, e que talvez por isso denegrir a oferta concorrente seja a estratégia do dia. Afinal, sem segredo, não há negócio.

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Dia das Mentiras

A origem do Dia das Mentiras está relacionada com a história do calendário, mais concretamente com a chegada do ano novo, o qual era celebrado desde o equinócio da Primavera até ao primeiro dia de Abril. Para nós ocidentais, o ciclo anual não coincidia então com o movimento de Translação da Terra, ou seja, o calendário estava desfasado do ano solar. As mudanças de estação ocorriam em alturas diferentes a cada ano, ora num mês, ora noutro, pelo que a celebração do ano novo era naturalmente imprecisa.

Foi Júlio César quem primeiro se propôs resolver este problema. Começou por decretar o ano da confusão, em 46 a.C., que com os seus 15 meses e 455 dias permitiu acertar o calendário ao tempo natural. No ano seguinte, 45 a.C., foi então implementado o Calendário Juliano, com os seus 12 meses e 365 dias. Mesmo assim, todos os anos sobravam 6 horas, sendo esta a razão para os anos bissextos. De quatro em quatro anos, o mês de Fevereiro tem mais um dia para compensar as 6 horas adicionais dos 4 anos anteriores. Corrigido o problema, as celebrações do ano novo decorreram com exactidão até ao primeiro dia de Abril. Assim foi até 1564, ano em que o Rei Carlos IX de França mandou publicar o decreto “Edict of Roussillon“, o qual está na origem da tradição do dia das mentiras, ao determinar que o ano novo começava a 1 de Janeiro. Desde então que aos tolos se reservam convites para festas que não vão acontecer…

Nascera a tradição do dia de hoje, mas o calendário Juliano continha um problema eclesiástico, pois gerava o desfasamento com o calendário litúrgico, nomeadamente com a celebração da Páscoa. Foi para corrigir este problema que o Papa Gregório XIII promulgou em 1582 a bula “Inter Gravissima”, instituindo o calendário Gregoriano, o qual se manteve em vigor até 1964, ano em que foi implementado o Calendário dos nossos dias, o calendário Pirelli, o qual como sabemos, não tem qualquer problema ou questão. É perfeito!

1Abril

Sandokan Costa

Finda a sua carreira na marinha mercante, o escritor Emilio Salgari criou várias personagens inspiradas nas suas viagens pela costa asiática. Um destes heróis navais, foi o famosíssimo Sandokan, o pirata do século XIX. Na realidade o “Tigre da Malásia” nasceu em Verona. Foi um verdadeiro precursor do género Western Spaghetti. Entre nós, celebrizou-se na década de 70 do século passado, quando a televisão estatal passou a produção da sua congénere transalpina. A geração à qual pertenço recordar-se-á facilmente da musica desta série, mais provavelmente da versão em português, infantil e algo brejeira, de rima fácil em torno de roupa interior de senhora…

O saudosismo é um dos negócios dos nossos dias. Hoje, qualquer sucesso do passado tem direito a um novo começo. Seja detergente, filme, série televisiva ou modelo automóvel. Basta a embalagem ser parecida. Resulta! Há quem compre!

Assistimos há já alguns meses às novas aventuras do pirata António Sandokan Costa. Comanda o navio sem nome, a que alguns chamaram “Gerigonça”. Negoceia, manobra no fio da navalha entre a bonança e a tempestade. A primeira lição da navegação à vela é sobre uma singela palavra, a paciência. Até aqui tudo bem, ou pelo menos, menos mal, mas eis senão quando começam as garantias. Sensação déjà vu! São este tipo de certezas que têm precedido as inevitabilidades, os novos bancos e as soluções in extremis que prejudicam apenas e sempre os mesmos, nós, os contribuintes. Sabemos que a declaração de indubitável solidez do sistema antecede a sua falha, geralmente catastrófica.

Sandokan-Costa

Sempre-em-pé

Aconteceu ontem, no País dos Brinquedos, a reeleição quase unânime. Sem Sonso ou Mafarrico a baralhar as contas, o processo foi claro, inócuo, mas simples. É assim que os brinquedos gostam. Abram Alas! A seu tempo trataremos do Noddy, o ingénuo mas muito leal e justo protagonista destas aventuras, mas para já vou adiar.  Compreendam, tenho um trauma musical. Há temas assim, marcam pela violência como invadiram os nossos lares.

Como pai, sei que não estou só nesta minha profunda aversão à banda sonora, comum a muitos cuja prole ronda hoje os 15/16 anos de idade. Reconheço, é uma empatia impossível de explicar a quem não partilhou a vivência, por isso avanço para o herói do dia, o mestre dos não assuntos. Diz sempre o que não é, é o que não diz ser, e coerentemente fez sempre o contrário daquilo que prometera fazer. Refiro-me, obviamente ao Sr. Sempre-em-pé. Disse, e foi peremptório, não ser um sempre-em-pé, ou seja, é. Julgo ser esta a regra de desencriptação das suas mensagens. Como sempre, é à excepção que compete confirmar a regra.

Neste caso a excepção manifestou-se na incompreendida declaração da passada sexta-feira. Foi sincero, partilhou o seu entendimento sobre a ética aplicável aos ex-governantes. Disse que não podem ser uma “espécie de eunucos”. A forma mais simples de explicar esta frase obrigar-me-ia a recorrer ao vernáculo, o que recuso, por isso opto por uma explicação menos instantânea: O Sr. Sempre-em-pé entende que depois de mandatado para a prática do coito continuado, deve a população aceitar que o ex-governante mantenha intacto o privilégio de cópula após ter cessado funções.

O símbolo desse privilégio é o pin na lapela…

 

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A Inexplicável Evolução

Hoje, ao sexagésimo quinto dia de 2016, o nosso blog ultrapassou o número de visitas recebidas durante todo o primeiro ano, 2011. Não sabemos se a evolução resulta de um trabalho bem feito ou se é mera consequência da propagação da demência pela população portuguesa. Embora a imodéstia nos empurre para a primeira, algures em nós persiste uma réstia de realismo que nos leva a suspeitar da segunda.

Amamos a nossa língua materna e muito embora a possamos mal tratar, fazemo-lo sempre por manifesta ignorância e nunca por velada vontade. Não obstante esta opção pela expressão numa só língua, a nossa, as visitas ao nosso blog são oriundas de um número crescente de países. Com excepção das regiões polares, chegamos a todos os continentes do planeta. Também desconhecemos a causa para esta disseminação à escala global. Ignoramos se é igualmente influenciada por razões do foro da saúde mental, ou se é mera manifestação da diáspora. Talvez ambas. São mais as dúvidas do que as certezas, por isso caro internauta, se anda perdido, não nos siga.

Apesar da inexplicabilidade dos motivos para os fenómenos acima relatados, não ficará mal o agradecimento. Estamos gratos a todos, aos que conosco partilham o rumo, mas igualmente aos outros, àqueles que ainda mantêm alguma sanidade, pelo menos a suficiente para não terem ainda embarcado na nossa deriva.
Obrigado! Bem-haja a todos.

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