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Tiro ao Boneco
Pérfido e vil traidor à pátria, ingrato e rancoroso, mesquinho e malfadado, eis o perfil que convém ao vilão do momento mediático. Na hora de glória do filho mais pródigo da nação, na falta de melhor notícia, nada como uma parangona sobre traição à nação e aos seus símbolos, sobretudo aos de carne e osso. Compreende-se. No momento de idolatrar o melhor do mundo, uma vez esgotada a notícia da vitória, nada como o contraste entre a virtude e a ignomínia, uma notícia para execrar outra personagem. Bem, pelo menos à primeira vista porque após leitura tudo se relativiza. O protagonismo coube a um velho desafortunado da nossa história desportiva, ex-seleccionador nacional de futebol, Carlos Queiroz. Parece que entre os seleccionadores com direito a voto na eleição dos melhores, não favoreceu os compatriotas a concurso.
Terá mesmo votado contra? Em rigor, não! Não, porque não lhe coube a decisão sobre o sentido de voto. Foi mandatado. Se em Roma, sê romano, em Teerão sê iraniano. Parece que entre os persas, tal como nas grandes e liberais democracias do mundo, a lógica de um voto por cada homem cede o lugar ao colégio eleitoral, composto por super-eleitores, treinadores da Iran Pro League, que entre si decidiram o voto do treinador português, seleccionador do Irão e injustiçado vilão de mais esta desventura. O caso não é de todo aquilo que aparenta, mas à maioria pouco importarão os factos. Perante a notícia manipuladora, avançará o pelotão de fuzilamento. Vamos ter tiro ao boneco.
Nacionalize-se o Banco
Foi na passada quarta-feira, que o primo do anterior dono disto tudo foi ao antigo armazém de bananas para fazer a sua comunicação ao país, isto é, dar uma entrevista ao macaquinho de serviço. Começou por manifestar orgulho na família e no seu negócio secular, não obstante a última década, período que reconheceu não ter corrido assim tão bem. Feita a pequena introdução, avançou para o essencial da mensagem e sem rodeios, como é seu hábito, disse o que lhe vai na alma de banqueiro. Quando a ética profissional lhe limitou a frontalidade, lá esteve o interlocutor para complementar e dizer o que não deve ser dito. Útil, eis a vantagem do entrevistador, ser o ponto.
O projecto não mudou muito, é o de sempre. Sonha liderar a instituição fundada pela família há mais de 100 anos, aquela que hoje está à venda. É esse o seu propósito. Uma vez traído na sua intenção pelos novos donos do antigo BESI, pediu a demissão. Confesso a minha simpatia para com esta determinação e foco. Está obstinado e comprometido com o desígnio de recuperar o ancestral negócio familiar. É bonito.
E agora? Bem, gorado o negócio da China, e como dinheiro que chegue não tem, achou por bem denunciar essa prática imunda da comprar, retalhar e vender. Opõe-se ainda a qualquer venda que obrigue a quaisquer garantias ou contra-garantias do estado. Quer ganhar tempo! Demonstrou assim manter intacta a capacidade de compromisso táctico e estratégico. Implacável e pragmático, qual Czar-Vermelho, afirmou peremptório: Nacionalize-se.
Última Hora: Indesmentível e factual
Uma importante investigação jornalística acabou de ser divulgada, gerando grande polémica e espanto entre todos os telespectadores. Os factos são indesmentíveis e foram finalmente divulgados pelos meios de comunicação. As novas tecnologias tiveram um papel preponderante na condução da ciosa investigação, tendo permitido obter provas irrefutáveis dos factos apurados e confirmados pelas fontes anónimas, as quais permitem hoje afirmar com total certeza e convicção que a última hora terminou exactamente sessenta minutos após o seu início.
Eis o exemplo de conteúdo bem-sucedido nas redes sociais. Nem sequer precisa de ser mentira, basta dizer “Última Hora”, ser ilustrado com um rosto conhecido ou polémico, conter ambiguidade quanto baste e claro, repleto de suspeição e mistério. No fim, pode até não dizer nada. A mera ilusão de que algo de grave será revelado é suficiente para despertar a curiosidade do internauta, seja ele ou ela, perspicaz ou denso de processo cognitivo. Somos uma espécie fácil de pescar online, com a agravante do isco ser abundante e por isso acessível a todos.
Nos últimos tempos têm-nos tentado convencer que o problema reside nas chamadas notícias falsas, mentiras torpes que ameaçam um mundo paradisíaco e que nunca até aqui tinha sido palco de qualquer forma de manipulação. Revelam-nos até milagrosos planos de prevenção e combate a esta terrível ameaça ao equilíbrio do planeta. Devemos desconfiar desta nova embalagem da (julgada) extinta censura? Talvez, mas antes de aderir à teoria da conspiração, uma singela, quiçá inocente, pergunta: O problema está nos emissores ou nos receptores?
Regimento
Vivemos o mito da construção europeia como virtuosa obra de salvaguarda do nosso modo de vida, um escudo civilizacional, uma garantia contra a globalização, a ameaça aparentemente oriunda de um local remoto e longínquo. Quem terão sido os precursores da globalização? Fomos nós no século XV, iniciativa portuguesa que posteriormente foi partilhada pelas demais nações do velho continente. Chamava-se então colonialismo. A europa unida como resposta face os riscos da globalização é uma pueril inevitabilidade que apenas procura esconder o seu propósito não democrático. Totalitário até. Qual regime autoritário, nacionalismo sem nação e internacional da normalização rumo à extinção das identidades nacionais para dar lugar ao tal ideal europeu.
Se por um lado, as instituições da união pouco têm de representativo, por outro, as populações distanciam-se. Em qualquer estado membro, a abstenção é superior a 50% em eleições europeias. Esta alienação é cúmplice (e vítima) do processo de menorização dos cidadãos. Quanto menos nos interessamos, mais nos é ocultado pela encenação democrática.
O parlamento europeu é o centro dessa dissimulação do projecto totalitário. Contudo, os únicos representantes democraticamente eleitos, os deputados europeus, disponham ainda de alguns expedientes que importunavam a sacrossanta construção europeia. Foi por isso revisto o regimento, i.e. as regras de funcionamento do parlamento europeu. Apresentado o relatório, as alterações foram aprovadas com discrição. A mudança limita a acção individual, impondo a disciplina de voto na lógica de cada grupo parlamentar. Desresponsabiliza a acção de cada deputado, suprindo a capacidade dos eleitores avaliarem a sua conduta e assim facilitar a aprovação de legislação sem qualquer tipo de escrutínio. Subalterniza ainda a democracia dos estados membros aos resultados eleitorais de apenas dois países, a França e a Alemanha. União? Não! Submissão.
Qui? Moi?
O Cour de Justice de la République – CJR, é um tribunal especial da república francesa sem congénere nacional, uma vez que apenas avalia a conduta dos ministros da república. É portanto um tribunal de governantes, que julga os casos de má conduta durante o exercício de funções. Uma nobre função, uma organização de grande importância para o regular funcionamento das instituições, mas cuja existência se deve cingir a nações com orçamentos desafogados, ou que (pelo menos) os juros da dívida soberana não façam parte das rotinas noticiosas.
Hoje que falta uma dúzia de dias para acabar o ano, o CJR condenou a actual Directora-Geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, por negligência enquanto exerceu funções como ministra da economia da república francesa. O caso envolve um polémico empresário, um fabricante de calçado alemão e um banco francês. O empresário, ele próprio ex-ministro das cidades de França no tempo do malogrado ami Mitterrand, Bernard Tapie é uma espécie de José Sócrates gaulês, mas à devida proporção. Durante uma década, esteve em todas. Dessa feita, à época falido, vendeu a sua participação na Adidas ao banco francês Crédit Lyonnais, que por curiosa coincidência também faliu. Esta venda, culminou em litígio entre o vendedor e o comprador. O desfecho desta disputa foi favorável ao empresário e foi precisamente por não ter recorrido desta decisão que Lagarde foi hoje condenada por negligência. Qual a pena? Nenhuma! É por isso que prescindimos deste tipo de tribunal especial. Seria um custo incomportável para uma função inconsequente.
Nobel da Nota
Vivemos dias de exacerbado orgulho nacional, de repetida celebração dos protagonistas do momento, por isso resolvi relembrar um notável de outros tempos, o primeiro português galardoado com um prémio Nobel. Nascido a 29 de Novembro de 1874 em Estarreja, Aveiro, o Professor Doutor António Egas Moniz não herdou o apelido de seu pai, mas foi por influência do irmão deste que foi baptizado. A família paterna descendia directamente de Egas Moniz de Riba Douro, o Aio, um distinto indivíduo a quem o nobre Conde D. Henrique de Borgonha confiou a educação do seu primogénito, aquele que pela força criou um reino e se fez rei, Afonso I de Portugal.
Hoje, no sexagésimo primeiro aniversário da morte do Professor, invoco a exuberância dos seus órgãos vestibulococleares (vulgo orelhas) característica que o deprimia, mas é sobretudo com muita saudade que lembro a nota criada em sua homenagem, a nota de dez mil escudos, esse símbolo da soberania monetária de outrora, livre no seu perpétuo movimento de desvalorização, mas ainda assim com maior poder aquisitivo que os actuais 50 euros.
Estranha esta saudade, não é? Logo agora que não só não existe inflação como nunca a diversidade de escolha foi tão vasta. Antigamente, quando os preços subiam constantemente, ao invés de milhares de produtos e marcas diferentes, coitados, éramos forçados a consumir os clássicos como a pasta medicinal Couto, o restaurador Olex ou as doces Fantasias de Natal, aquelas em cujo anúncio o Coelhinho ia com o Pai Natal e o Palhaço no comboio ao circo…
Highlander
Um filme épico, uma aventura de guerreiros e espadachins, Highlander marcou a geração de jovens que nasceram na ida década de setenta do século passado. Conta-nos a história da luta dos guerreiros imortais pelo Prémio, um estado de sabedoria superior que proporcionará ao vencedor a capacidade de subjugar toda a humanidade à escravidão. Quem perder a cabeça é eliminado, pois os imortais apenas poderão perder a vida quando são decapitados. No fim, só poderá haver um.
O herói destas aventuras, Rui MacRio, do clã MacRio, luta desde a antiguidade por manter a cabeça. Com momentos de bravura, amor e desventura, a acção atravessa vários séculos, sempre ao som de uma banda sonora de excepção – A Kind of Magic, uma obra de puro rock’n’roll da autoria dos britânicos Queen, um dos últimos álbuns da banda que contou com a prestação do seu insubstituível vocalista, provavelmente uma das melhores vozes do rock de todos os tempos, o malogrado Freddie Mercury. Quem não se lembra do tema “Who Wants To Live Forever“?
É assim, ao som de guitarradas de primeira que a acção se desenrola. Vindo das terras altas do norte, MacRio vive uma vida dupla de proto-candidato ao Prémio, ameaçando, mas não se chegando à frente, negando contactos e alianças, mas por fim dizendo-se apto para o combate com Passos Kurgan, o malvado. O país e o mundo aguardam o desfecho deste confronto, caso se venha a realizar, pois como está não pode continuar. Mais dia, menos dia, terão de rolar cabeças.
Titanic 2
Promovida como embarcação inafundável, a candidatura que se propôs levar a bom porto aquela que seria a primeira mulher presidente dos Estados Unidos da América, naufragou pela segunda vez. A gélida realidade democrática, o iceberg da vontade das gentes comuns deixou mais uma vez o apaixonado casal aquém do destino.
Parece que o mundo inteiro insulta os votantes, que coitados sem culpa exerceram o seu direito de acordo com o critério que muito bem entenderam, pois mesmo que tenha sido sem pensar, foi legitimo. Ilegitimo é o nosso palpite, mesmo que a isso tenhamos sido sugestionados por semanas de intoxicação mediática. Indignamo-nos quando Herr Schäuble disserta sobre a nossa democracia, negamos-lhe o seu direito de preferência, mas não nos coibimos de exibir o nosso. Logo nós que por várias vezes elegemos tão sórdidos e tristes figurões, e não contentes, tratámos de reeleger alguns deles.
O ridículo é noção vaga e distante, sobretudo quando invocamos temores quanto ao futuro do mundo. Tantos que vejo e ouço hoje afirmar que este desfecho será terrível, será horrível, mas esquecem, ou não sabem apontar a razão concreta, para além da antipatia, que aliás partilho. Contudo, uma guerra travada sem ideias, centrada em emoções, por mais visceral e brutal que tenha sido, e foi, nada nos disse sobre as verdadeiras intenções ou planos. De parte a parte, diga-se. Tenho dificuldade em compreender o porquê de tanta preocupação, de tanto drama. Não é que subestime a estupidez humana, simplesmente não creio que outro resultado o evitaria.
Grand Prix
O cancelamento do Grand Prix de Lisboa causou grande tristeza, desalento e até alguma revolta entre os milhares de Tiffosi que se deslocaram à capital para vibrar com as emoções da competição. Os entusiastas suportaram e sobreviveram a grandes privações e desventuras, como voos lowcost, serviços de táxis ou até à compra de bilhetes de metropolitano para no fim se verem obrigados ao regresso, sem o justo premio do evento desportivo. Mais de duas décadas após a primeira corrida que opôs um Burro a um Ferrari, o conceito comprovou o seu enorme potencial de atracção turística. Diz a sabedoria popular que a forma mais sincera de elogio é a imitação, mas nem sempre é possível reeditar os grandes eventos de outras eras. Burros habituados às condições de stress do transito urbano são hoje raros, pelo menos entre quadrúpedes.
Parece então que alguém se desobrigou de comparecer ao compromisso. Os promotores falam em censura, as autoridades municipais dizem que tudo não passou do regular funcionamento das instituições, no caso as sanitárias e de saúde animal. Preocupações com o estado do tempo e a impossibilidade de ferrar o animal para piso molhado estão na base do aviso das autoridades competentes. Por outro lado, as associações de defesa dos direitos dos animais, acusaram os promotores de atentarem contra a dignidade do animal humilhando-o na via publica. Devo dizer que discordo deste argumento – Se alguém sairia humilhado neste evento, seria obviamente o Ferrari, que aliás, foi bloqueado por falta de titulo de estacionamento válido…
Cozinho para o Povo
Estreia esta semana a nova grelha de programação do canal que está a revolucionar a televisão portuguesa. Esta transformação, lenta mas profunda, nota-se particularmente nos serviços informativos. Outrora aborrecidos, sem emoção ou espectáculo, os noticiários são hoje pródigos em sensações fortes. O Canal, o tal revolucionário, é especialista em crime e derivados. Obrigou todos os concorrentes a inovar o alinhamento noticioso, fornecendo-nos (até que enfim!) boas e intensas reportagens de tragédia, violência e miséria moral. Ah, portugalidade esquecida e ostracizada que finalmente é exposta ao escrutínio de toda a população. Agora sim, a televisão como espelho de nós próprios, tal e qual aquilo que somos. Não há psicopata cuja barbárie não seja uma enorme, chocante e totalmente inesperada surpresa para todos os vizinhos e convivas. São pacatos e amigos do seu amigo, adeptos de boa, tradicional e bem condimentada cozinha portuguesa. Paninhos quentes e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém…
Esta massa (a)crítica a que vulgarmente se chama “Classe Média”, clama e agradece todos os programas de comentário e análise. Haja quem explique a culinária! Lá estará o Canal, o tal, a liderar a mudança. Novas causas, novo Menu. Depois da lavoura, da defesa do contribuinte e demais receitas, o irrevogável Chef cedeu o lugar à nova protagonista – Cozinheira de mão cheia, perita de reconhecido mérito em preparados “Redon“, lança-se agora na desinteressada ajuda a todos os telespectadores do Tal Canal, na sua nova rubrica de gastronomia com restos denominada “Cozinho para o Povo“. Pulverizar-nos-á com muita, imensa paprika!












