Post do desassossego

O ponto de partida é o escrever como falamos…

O novo acordo ortográfico veio aproximar a verbalização da escrita e assim melhorar do dia para a noite a redacção dos maus redactores e piorar a dos bons. Na dúvida agora verbalizamos as palavras com rasteira antes de as pôr no papel. A regra é “O que não se pronuncia não se escreve” o que dá azo a várias versões porque há quem faça questão de pronunciar o C em palavras como acto ou redacção e há quem não se dê ao trabalho de o fazer.

A melhor justificação para a escrita de uma palavra ouvi-a no programa da RTP Bom Português onde ao perguntarem a um brasileiro porque ele defendia que determinada palavra se escrevia assim ele responde simplesmente “Porque é assim que se escreve no Brasil!”. E não é que tinha razão? Contra a minha própria suposição, ou talvez teimosia, admito.

Piores ficaram os sopinhas de massa e os belfos que são rotulados de analfabetos por escreverem como falam.

Anos luz à frente estão os jovens que contraiem a escrita nos telemóveis e SMS usando e abusando do X e K. Felizmente o K entrou no nosso abecedário e podemos ter esperança na evolução para acompanhar a verbalização vindoura.

… porque de seguida podemos estimar como contamos contos …

Reguadas, raspanetes, obrigação à tomada de atenção e a rever a matéria. Tudo isto eram as respostas dadas quando as contas não batiam certo. Quando a tabuada era adulterada, a divisão ou subtração tiravam mais do que a soma de todas as partes. Tinhamos de aceitar as nossas limitações e estudar mais.

Não sei se fruto de algum acordo fiscal, porque admito não acompanhar estas matérias ao pormenor, mas a verdade é que há contas fiscais a bater muito mal. E nada. Nem uma simples repreensão. Física ou psicológica, tanto faz. O homem faz as contas e projecções com o lema “Quem não se pronuncia não conta” e toca a cortar no social para compôr o ramalhete do capital.

Com uma educação tão cara e cuidada como a sua onde anda o seu professor? Quiçá o único que lhe pode decretar o castigo de voltar à escola.

… que felizmente são histórias de finais felizes …

O amor esse nunca conheceu dias melhores. Devido à debilidade financeira recém-adquirida milhares de casais desavindos são forçados a partilhar o mesmo espaço, e hábitos, porque não conseguem financiar uma separação amigável. Quantos casais não se terão reconciliado por este convívio forçado?

Não contente com apenas isso o nosso governo lembra-se de diminuir em 21% o subsídio de desemprego para quem não tenha um agregado familiar. Estes infelizes solteiros passam assim a receber 301 € mensais. O que quer dizer que se dois solteiros desempregados se apaixonarem de repente, e juntarem trapinhos, poderão aumentar em mais 75 € o seu rendimento individual, ganhando mais 150 € no total!

Ó Cupido, penhora teu arco e setas pois não mais será necessária a tua mira para fazer felizes estas gentes. Ave Passos Coelho por tua grandiosidade e tuas sementes de volúpia e fertilidade. Afinal não nos sabeis apenas foder em 360º. Também cultivais a seara do amor. A felicidade das núpcias é o cruzamento de ambos. Que sabedoria a tua e a dos teus.

… sobretudo quando não há falta de virilidade.

Mas a sabedoria precisa de ser salpicada com vigor e espontaneidade para se libertar de algumas armadilhas colocadas por espíritos pérfidos igualmente sábios. Portugal é lesto a produzir tomates, comprovadamente fá-lo como ninguém. Isso quer dizer que tem entre si dos melhores técnicos para o seu semeio, a sua criação e a sua apanha. Rogo que alguns desses especialistas sejam seleccionados com a missão de auditar os membros do nosso governo. Verificar se efectivamente os têm no sítio. Elemento essencial para dizer “NÃO! BASTA!” a quem se queira aproveitar da nossa fraqueza momentânea para nos iniciar no vil mundo da prostituição e proxenetismo a troco da garantia de uma subsistência razoavelmente confortável.

A conclusão?

Por cá temos a capacidade de nos insultar sem correr grandes riscos de sermos imputados judicialmente, a não ser que o façamos diretamente à nossa elite decisora. Parece coisa pouca mas lá fora há quem batalhe pela legalização do insulto tal é o ponto a que chegou a censura. Claro que um pouco de escárnio e mal-dizer alivia a pressão e ajuda ao sentimento ZEN. No entanto o que nos faz mesmo falta neste momento é uma lei de despejo de representantes de altos cargos cujo currículo e obra feita comprove a sua incompetência, o seu enriquecimento ilícito, a falta de vergonha na cara e ausência de noção do ridículo. A aplicação desta lei consistiria num simples envelope lacrado entregue a quem o merecesse. Lá dentro um simples boletim de voto e o próprio visado escolheria a sua porta de saída.

#1 Exílio (mala de cartão)    #2 Justiça Popular                           #3  Directamente para Prisão

O Plano B, devolvam……….. tudo!

Saberia ele já, que teria de apresentar um plano B, estaria ele já, com ele na cabeça?

Provavelmente!

Acreditando que sim, foi certamente com grande sentido de Estado que se proferiram tais palavras, para os mais distraídos um recado do tamanho do mundo, não fosse ele considerado independente mas com informação privilegiada.

Vejam lá a lata do puto, dirão os catedráticos no partidarismo, académicos de hemiciclo, doutorados em legislaturas, honoris causa em coloração sectária.

Todos fazemos ofertas nos peditórios Nacionais para os mais diversos fins, sempre conscientes que estaremos a ajudar alguém em piores condições que as nossas, mas sempre no anonimato, ele optou por divulgar amplamente a sua beneficência, acho bem, afinal fartos de falsas modéstias andamos todos nós.

Dado o mote a nível particular com enorme sentido de solidariedade perante alguém que outrora prestou ajuda na sua formação, deixando transparecer o verdadeiro sentimento que mesmo sabendo que esse alguém, esbanjou inabilmente durante longos períodos, não poderá ficar sem ser restituído dos valores intrinsecamente adiantados.

o buraco

Bofetada de luva branca, bem ao seu estilo considerando que a educação que devia ser garantida e gratuita para todos, terá de ser vista como um aplicação e como em qualquer outra, o investidor tem o direito de ser ressarcido.

Aos outros porém, a quem ele no seu subconsciente considera eventualmente usurpadores, podem mesmo não ser pedidas devoluções do financiamento da sua formação, até porque a mais importante não é a académica mas sim a da personalidade, carácter e  princípios.

Consciência generalizada de que existem dois mundos, o que já passou e o futuro devem então ser separados, equacionando um desígnio para o futuro, mas este dependente do outro, o passado.

Mandam os cânones do direito que se faça tudo para não lesar o cliente, ora esse cliente eramos todos nós, mas todos, não só eles, os outros, catedráticos em finanças públicas, deveriam ter sabido gerir, ainda os ligados á engenharia deveriam ter sido expeditos em cálculo matemático. Facto é que uns deixaram o cliente ser encarcerado, outros geriram nocivamente juntando-se a esses quem não memorizou a tabuada.

Aproveitando a altura de devoluções impostas e não voluntárias, como a de devolver trabalhadores á inatividade, devolver subsídios para que lhes sejam no virar da esquina novamente entregues como mais uma devolução forçada, pode ele resolver de uma vez por todas estas questões, protegendo-se na obrigatoriedade da apresentação dum plano B e impor voluntariamente mais algumas… aproveitando para simultaneamente devolver a democracia.

Quem sabe mesmo se o autor de palavras de tal grandeza pode contar com a ajuda de outro mencionado já em finais do século passado, como um dos “Global Leaders for Tomorrow” considerado mesmo um “Political Star”.

A metodologia deve ser simples, como a simplicidade aplicada na taxação dos impostos, sempre numa escalada sem fim. Todos os intervenientes na governação fazem prova de rendimentos e bens, o Estado só tem de cobrar, não os custos da educação que lhes proporcionou, pois é pessoa de bem, mas sim os valores implicados aos período em que exerceram funções governativas.

Se durante as ultimas décadas cavaram tamanha lacuna, devem ser os próprios maioritariamente a responder por ela, sem esquecer os sorvedouros partidários e até os subvencionados, seguindo-lhe o repto, devolvendo, com retroativos e ajuste cambial para os mais antigos. Basta contabilizar as últimas três décadas e as contas seriam fáceis de fazer, daria pr’aí, mais que muito dinheiro, rios dele, uns biliões de euros.

A enormidade das necessidades é tal que estaremos a falar de “peanuts”, mas moralizava e lá diz o ditado “grão a grão…”

devolução

Querida, remodelei a democracia!

Dia após dia ocorrem manifestações atrás de manifestações, movimentos de indignados, palavras de ordem e uma sensação de revolução em curso para forçar a saída deste governo. Tanto barulho focado quase a 100% numa ordem de expulsão desejada pela maioria da população. Mas e a alternativa? Ouvem-se as alternativas? Estão planeadas, estimadas, calculadas e prontas a entrar em vigor assim que seja substituído o actual governo? Ou entraremos em novo período de análise e introspeção sob a proteção da cortina de fumo que seria criada com a rápida anulação dos novos impostos e retenção de subsídios?

Idealiza-se um governo de salvação nacional! A próxima falácia. Todos os membros de um possível governo de salvação nacional serão personagens que já estiveram na ribalta política, também eles estiveram envolvidos em cambalachos do seu tempo, também eles puderam tomar ações corretivas e não o fizeram, também eles foram escorraçados dos seus postos por contestação à sua governação.

Mudaremos caras, mudaremos discurso mas é quase inevitável que terá de continuar uma política agreste para com os valores sociais e nível de vida actuais. Na verdade não será um governo de salvação nacional mas sim um governo de distribuição de culpas e responsabilidade. O PSD corre o risco de ser extinto ao ousar executar sozinho as medidas necessárias ao equilibrio das contas do estado (as actuais ou outras). Este período vai torrar qualquer governo em funções, pelo que um  composto por várias cores políticas irá distribuir o mal pelas aldeias e permitir a todos os partidos voltar um dia ao antigo registo de luta política em igualdade de circunstâncias.

O problema da nossa democracia é a falta de responsabilidade política, a sensação de impunidade dos decisores, a impotência dos cidadãos e o poder concedido para fazer danos ao país muito para além do período da legislatura para a qual é eleito um determinado governo. A nossa democracia é jovem e nem os cidadãos sabem ainda exercer os seus deveres e reivindicar os seus direitos (os justos), nem os nossos políticos têm a verdadeira noção do que significa servir a nação.

Este é um período conturbado que poderia ser usado para remodelar completamente a noção de democracia para ajustá-la ao nosso grau de literacia democrática. Em vez de sermos alvos de experiências fiscais e sociais deveríamos antes realizar uma experimentação democrática e governativa que procure romper com a malha de corrupção e favorecimentos que envolve os nossos centros de decisão.

Pus-me a pensar ao estilo de um “Querida, remodelei a democracia!” e cheguei a estas ideias que procuram revolucionar e refrescar o conceito de democracia.

      1. Diminuir duração do mandato para apenas 2 anos. Já todos vimos que 4 anos são mais do que suficientes para se fazer muito mal a um país. Desta forma não haveria espaço para a típica gestão de mandato que executa tudo o que de mau há a fazer nos primeiros dois anos e depois procura lavar a imagem no último ano para tentar uma reeleição. Ao mesmo tempo é dado aos Portugueses mais poder de intervenção, capacitando-os de mudar o rumo dos acontecimentos bem mais cedo do que actualmente.
      2. Limitar o poder decisivo de um governo. Chega de decisões que nos hipotecam durante décadas. Todas as decisões com impacto para além da legislatura devem passar a ter aprovação por 80% do parlamento, independentemente de quem está no governo. Ponto final ao conforto de uma maioria absoluta no parlamento que permite os conhecidos cambalachos e comportamento de vida em redoma, opaca e insonorizadora dos argumentos da oposição e dos parceiros sociais. Decisões como a compra dos Submarinos, as PPPs, construção de novas barragens, vendas de EDP, etc, forçariam um muito maior debate e transparência. Sempre que existissem bloqueios as decisões poderiam passar a referendo público caso tivessem no mínimo um quorum de 60% a favor no parlamento.
      3. Limitar os cargos que podem ser remodelados. O estado deve progressivamente ser dotado de gestores profissionais que cumpram as orientações do governo independentemente da sua cor política. Profissionais que acumulem o saber de décadas de exercício no serviço público e defendam o estado e não o actual governo. O despedimento ou contratação deste profissionais caberia aos gestores profissionais de recursos humanos do estado e não a elementos do governo. Com isto por-se-ia fim à nomeação de boys for the jobs sem competência para além da fidelidade ao partido no poder.
      4. Acabar com assessoria jurídica externa. Gastamos fortunas com acessorias para avaliar o cumprimento e/ou alterações de leis nacionais. Se as leis são do estado não fará sentido que seja o estado o maior especialista na sua avaliação? O estado deveria manter nos seus quadros profissionais que dominem a lei Portuguesa e não tenham clientes a quem apresentar soluções para usar alçapões plantados conscientemente nas novas leis. Para além de maior independência, e maior responsabilidade jurídica e legislativa, seria o fim dos milhões de euros de despesas com gabinetes de advogados que dão pareceres sobre a constitucionalidade ou legalidade de novos projectos ou novas leis.
      5. Criar um sistema de eject. Porque razão num sistema democrátivo o povo pode eleger um governo, através de votação, mas não provocar a sua demissão imediata através de um sistema similar? O povo não terá direito a enganar-se ou sentir-se enganado? Utilizando os cartões de cidadão cada um de nós deveria poder expressar a sua vontade de demissão do governo através de um sistema electrónico acessível a todos. Se atingida uma percentagem significativa (60%?, 70%? 80%?) o governo seria obrigado a demitir-se e a ocorrer novas eleições.
      6. Combate à abstenção. Quem não exerça o seu direito de voto em 3 actos eleitorais deixa de o poder fazer nos próximos 3 actos eleitorais, sendo removido dos cadernos eleitorais.  Poderá requer voltar a participar findo esse período. Ao mesmo tempo os votos em branco passam a ter representação no parlamento mediante cadeiras vazias. Desta forma o ir votar, mesmo que em branco, teria um impacto significativo, refletindo a vontade da população. Quem não vota deixa de contar assumindo sujeitar-se por completo à vontade dos seus concidadãos.

Todas estas medidas iriam fazer com que os políticos passassem a medir de outra forma as suas ações e a dialogar muito mais com oposição, parceiros sociais e movimentos de cidadãos. Ao mesmo tempo trariam uma dinâmica diferente à nossa democracia, capaz de reforçar o envolvimento da população que deixaria de se conformar por largos períodos como hoje acontece.

Isto não vai lá rapidamente com músicas, com marchas, com boa vontade nem com medidas convencionais. Este é o momento para ousar pensar e arriscar em novas ideias e novos conceitos estando todos nós dispostos a correr os riscos que isso acarreta.

A única certeza é que muito pior do que isto não fica, o que já não é mau.

O regresso do RUMPELSTILTSKIN

Rumpelstiltskin

Insistentemente adormecidos pela fábula que nos iam contando, teimávamos em manter a conta com saldo positivo, pedindo cada vez mais palha a passando noites em claro até á exaustão. Acontece que o duende foi-se vangloriando e aos poucos desvendando o seu nome. O ignorante foi descoberto e… Caput! Zangou-se, desapareceu e não mais haveria a fértil prestidigitação.

Assim diz a fábula dos irmãos Grimm onde tudo se torna possível, transportando-nos para um conto de fadas, de gnomos, de duendes, enfim de magia. Mas só nelas funciona assim.

Eis se não quando, surge saltitante por entre a obscura floresta de gabinetes salvaguardo já por outros mestres em produzir ilusões o Rumpelstiltskin, informando vagarosamente para que todos percebam que não tendo voltado atrás, reconsiderou, afinal saberem o seu nome não tem assim grande importância, podendo dar-lhe até notoriedade.

Ironicamente, bem ao seu estilo desvendará como se tornará novamente possível, transformar mais palha em ouro.

Vivêssemos nós num conto de fadas e tudo seria diferente, infelizmente a realidade é outra, nem uma dúzia de duendes nos salvará devido á quantidade de palha necessária.

Por mais noites que as filhas casadoiras do reino passassem a fiar na sua companhia, não iriam conseguir o tão almejado matrimónio, pois deixou apenas de ser o rei a ter de ser sustentado. A emergente fidalguia está sedenta e nem todas as planícies douradas do nosso Alentejo juntas chagariam para satisfazer as suas necessidades.

O escoadouro do vil metal é de tal forma gigantesco que por mais que se inventem novas medidas extractivas, não serão alternativa por um único motivo, o cultivo.

A seara está a secar, fruto de insolações constantes e de um sistema de irrigação outrora de grande capacidade utilizado somente para encharcar restritos canteiros, substituído posteriormente por um inábil sistema de gotejamento.

Inteligentemente o mágico indica a alguns, cultivos mais agrestes ao estilo de Trás os Montes, adestrando os que teimam em não se “pirar” optando antes por manter a sobrevivência junto às suas raízes, ocultando porém que por lá existem zonas onde, “são nove meses de inverno e três de inferno”.

A cooptação involuntária certamente continuará mas como já elucidado noutra fábula, são precisas cautelas, não vá matar-se a galinha dos ovos de ouro.

Galinha

Optimist

Julgando-se comandante de um Galeão da carreira das Índias, declama “Os Lusíadas“. As analogias náuticas que se seguiram à assustadora prova de sensibilidade e cultura, são igualmente mobilizadoras, plenas de emotividade e sonolência. Não encanta, nem navega. Estamos perante um petiz, um aprendiz de Optmist. Explica as crenças de Agosto, mas deixa-nos a dúvida se detêm carta de marinheiro. Não sabe onde fica o cabo das tormentas, mas repete à exaustão a mitológica ameaça do Adamastor. Não camba, clama vela cheia, por isso caça a grande. São as talas que lhe criam a ilusão, mas o aprendiz ignora. Emerso, abraçado à âncora da solução única afoga-se o tripulante, o contribuinte. Estamos sem patrão de alto-mar ou mesmo de costa, e mesmo assim rumamos ao oceano sem içar a âncora. Queimamos as amarras para que se calem os velhos do Restelo, enquanto o comando contínua a alijar a economia. Alguém lhe explique que o chicote é apenas a extremidade de um cabo!

Chega de brincar à democracia e às revoluções

Enquadramento

Um homem comunica ao seu filho que durante os próximos anos não lhe poderá dar a mesada e que terá de recorrer ao partir do seu mealheiro para equilibrar as contas de casa. O filho verbaliza, sem poupar calão, contra o acto e seu autor, revoltado com a injustiça de que é alvo. O pai não lhe disse que todos os ossos de ambos estão penhorados ao bando de agiotas que lhes emprestam o dinheiro necessário para garantir o pão, água e luz. O filho indigna-se. Porque não corta o pai nos vícios, das putas e vinho verde, em vez de lhe reduzir o seu poder de compra? Olha para a sua roupa de marca, consolas de jogos e outros gadjets da moda, oferecidos pelo seu pai em forma de compensação pela conduta menos própria. Terá de os vender para garantir liquidez? Voltar ao marasmo de antes, sem esses mimos?

A realidade é que o pai precisa de dinheiro em caixa para garantir no imediato a integridade dos 412 ossos e não da poupança amealhada no prazo de 1 a 2 anos com o fim dos gastos que sustentam os seus vícios.

O filho poderia ter impedido este momento. Bastaria que na altura em que se apercebeu dos comportamentos impróprios tivesse confrontado o seu pai com essa pouca-vergonha e recusado veementemente ser comprado com ofertas de lavagem de consciência. Provavelmente não teria metade dos bens de hoje mas também não teria chegado até este ponto. Agora o filho não conhece o cenário completo e o pai procura protegê-lo do impacto de saber que corre sério perigo de vida caso não se recorram a duras e injustas medidas de austeridade. Aguentará o filho conhecer a verdade? Será capaz de lidar diretamente com os implacavéis agiotas que financiaram o seu estilo de vida?

Não sei bem que vos diga…

Olho para as manifestações recentes e admito que é bonito de se ver tanta gente junta, unida, a demonstrar a sua insatisfação com estado da nação. Só que é notório que tirando os genéricos impropérios, dirigidos ao inimigo comum, não há um consenso, ou sequer ideias concretas, para apresentar soluções de pagamento da factura. O cerne da questão é “não nos venham ao bolso”. Mas isso não chega. Se o dinheiro não vier daqui virá de onde? Teremos todos noção que estamos falidos de momento? Se não houver injeção de dinheiro do exterior o país fará simplesmente KAPUT. Precisamos de tempo para construir a alternativa e infelizmente esse tempo é comprado e bem caro.

Não há um conhecimento público total de todas as variáveis envolvidas nesta crise e no nosso endividamento, pelo que podemos estar a chamar “FILHOS DA PUTA! CABRÕES!” a quem talvez não o mereça na sua plenitude. Sim, há-os aos potes naquela classe mas também é certo e sabido que quando o barco vai ao fundo as ratazanas são das primeiras a abandonar o barco. Poderão haver por ali algumas pessoas bem intencionadas mas mal assessoradas, mal informadas ou simplesmente manietadas. Se soubessemos toda a história ainda nos tornávamos amigos de algumas delas. Sei que é estranho pensar isto mas também são pessoas.

… mas ainda falta algo …

Lamento mas não sou crente na insurreição da nação. Um pico não é suficiente para me fazer mudar de ideias. Estamos longe de sentir a cidadania em pleno e de estarmos verdadeiramente unidos na luta por direitos e justiça social. Porquê só agora esta manifestação?

Em início de 2011 mais de meio milhão de desempregados não teriam merecido de imediato um aviso à navegação?

Em início de 2012 o corte de subsídios no sector público não seria mais do que justificativo?

Parece que não. Em 2011 os empregados no público e privado não sentiram as dores dos desempregados. Em 2012 com o anúncio dos cortes de subsídios no sector público muitos dos trabalhadores no privado até manifestaram um certo “Sim, senhora. É cortar na gordura do estado que essa gente não faz nada!”.

E agora na recta final de 2012, quando apenas está a ser feita uma sondagem à capacidade de encaixe dos Portugueses dos males que aí vêm,  com a perspectiva de cortes brutais de rendimentos nos privados subitamente os desempregados são pessoas, os funcionários públicos são pessoas, somos todos pessoas, PORTUGUESES IRMÃOS!

De repente não interessa de que classe e sector és. Bora para a rua que agora já toca a todos e assim não se aguenta!

… muito fácil de concretizar.

Gostaria que a coragem, determinação, paixão e insurgência dos Portugueses não surgisse apenas em ambientes onde surgem fenómenos de massa (manifestações, concertos, estádios de futebol). Aí, com as costas quentes qualquer peido se transforma num trovão valente. A revolução à séria dar-se-ia se fossemos tudo isso quando estamos sozinhos,  em discussão com as vozes na nossa cabeça, uma caneta na mão e um boletim de voto à frente. Aí sim. Confrontados com “o que faço com esta merda!?” e ponderando tudo o que temos a perder e ganhar em função do quadrado a cruzar.

Até hoje temos sido uns grande cobardes. Em mais de 30 anos de democracia apenas oscilamos entre duas forças políticas que em conjunto nos trouxeram até aqui. Ao longo deste tempo tivemos conhecimento de casos de corrupção, de favorecimentos lesivos ao estado e identificámos pessoas muito compententes a enriquecer sem tornar o país mais rico. E tudo isto aconteceu em alternância de períodos rosa ou laranja.

Teremos agora a capacidade de ouvir e arriscar apostar noutras caras, noutras ideias, noutras forças políticas? Ou na altura da verdade continuará a maioria a jogar pelo Seguro?

Ainda podes mudar de esquina!

Geralmente ainda com o escrutínio fresco, o poder da mente força- a tentando alterar a condição que nos levou a tal façanha, instigando a alterar a belo preceito o que lhes parecer mais oportuno, respeitando as diretrizes coloridas e de poderes instalados, foi isto que te aconteceu, mas a tua imaturidade politica deixou-te desprotegido.

Podia até cingir-me ao “Bardamerda, caladinho”, mas eras capaz de perceber a coisa só pela metade, obrigando-me por isso de ser mais longo.

Já devias ter aprendido que existem atitudes inadequadas, mas ainda não tens a escola da vida, vê lá que já te apelidam de mentiroso, troca-tintas, sendo estas as expressões mais lisonjeiras, porque até já de galdério foste rotulado.

Sabes, a convivência com o mundo real dá-nos uma escola sem igual, és novo e sabemos que ainda não tiveste essa oportunidade embora oesquina afirmes, caso contrário tinhas aprendido com a vox populi, que “Galdéria não arma estrilho, muda de esquina”

Basta olhares para o teu lado, mas não só, para veres como os que mudaram estão bem de vida, alguns tiveram até tempo de preparar a mudança, mas provavelmente tu não irás ter…

Tens recebido bastantes concelhos, daqueles indirectos para nem todos perceberem, ainda recentemente te disseram que faltam cabelos brancos nos governantes, ora vê lá onde está actualmente um que os tem todos brancos, sabes, aquilo dos pelos púbicos foi só para distrair.

De outra esquina longínqua, dizem-te agora que tens de fazer cumprir, vês mais um que optou por mudar, promovido logo na hora da chegada, estará ele a insinuar que haverá num angulo recto um dos lados ainda disponível.

Mesmo que as ditas esquadrias mais próximas estejam ocupadas, não desesperes e podes sempre pedir auxilio aos teus patronos, pode sempre sobrar alguma coisa das subvenções que recebem, para não teres de andar a pão e água.

Alcanças-te em muito pouco tempo, o que outros demoraram a conseguir, armaste estrilho com todos, desde os alcoviteiros aos companheiros de mesa.

Se tivesses essa tal vivência com a plebe, sabias que eles apenas querem beber a espuma que salta das taças e os primeiros mais negócio. Mas pior, conseguiste até colocar os simples mirones contra ti.

Ó santa ignorância, e dizes tu conhecer o País real… queres agora que o espectador contribua com mais algum, apenas para olhar a luxúria, mas sem lhe poder tocar? Mas isso nem na capital das “red lights” acontece!

Consegues tentar fazer o inimaginável, a arraia-miúda também ensina que “ou há moralidade, ou comem todos” e tu estás a fazer é exactamente o contrário.

Podias ter pelo menos escolhido bons livros que muito ensinam, mas até nas leituras foste errático, leste peças de teatro acreditando nelas como se de reais factos se tratassem, mas “… é muito fácil: demita-se o povo, destitua-se o povo e nomeie-se outro”, é pura ficção, podias pelo menos ter optado por leitura militar e ficarias a saber que a primeira coisa que se faz, quando se lança uma granada é resguardar-se, mas tu não, foste logo expor-te num evento mediático.

Se um dia em desespero de causa começares a chorar num canto escuro e te disserem, sai lá da tua zona de conforto e deixa de ser piegas, verás então a tua virilidade afectada e não irás gostar. Percebes agora porque tens de ser comedido.

Já devias saber que as páginas oficiais das redes sociais não podem ser utilizadas como depositário de desabafos, mas isso pouco interessa, porque outros teus conselheiros fizeram o mesmo, vê lá no que deu… “Puft”, a página morreu.

Falta-te tarimba, aquela que te permite andar pelo meio dos pingos da chuva, não tiveste porém tempo de aprender que a economia e a política, para poderem conviver, tem de convidar quem ensine o “modus operandi” do covil.

Podes ter tido mais tempo para acabar o curso, mas falhou qualquer coisa, caso contrário não te precipitavas na metodologia, fazendo divulgações faseadas tentando inibir o constrangimento, deixando as análises aprofundadas para á posteriori.

Um paladino tem de estar bem assessorado, acreditando que as suas qualidades têm as mesmas limitações dos restantes comuns mortais, compreendo que tenhas tido falta desses conselheiros, até porque os melhores que poderias encontrar são os tais…

Percebes agora porque o povo não vai demitir-se, aproveita agora pois ainda podes,

mudar de esquina.

O Fio que Desencanta

Sobre o fio aguarda a carcaça que pacientemente se fez abutre. Não caçou. Jogou pelo seguro e esperou. Lançada a flecha incendiária da TSU, manifestada a inabalável devoção indígena ao consumo, surge finalmente a oportunidade. Enjeitam-se culpas no ninho governativo. Inegável prova de Patriotismo sem limites, abnegada disputa pelo papel de Vítima. Entre eles, quem perder, ganha. Os falcões liberais de outrora, modelam agora intenções. Não falam. Mandam Moedas dar a cara. Não há coroa. Provam agora o seu próprio remédio. Os abutres do pack4 serão as carcaças do próximo Orçamento de Estado. A conta será paga pelos índios. Continuaremos à mercê dos irmãos Dalton, pois claro. Do topo do poste que suporta o fio, Unlucky Cavaco Luke da Silva tem a palavra. Convoca ao saloon os bravos do Oeste. Especula-se sobre uma nova liderança de salvação nacional, na linha da ancestral metodologia dos “paninhos quentes“. “Nunca” avisa o novo abutre. Acrescenta: “tributaremos as PPP’s”. É para isso que ali está, no alto, sobre o fio. Alguns precipitam-se e exclamam: “Bravo!”. Há muito que entre os Peles Vermelhas se perdeu a arte de ler os sinais de fumo: A certeza de justiça nesta distribuição dos sacrifícios é infundada. O prometedor imposto extraordinário garante que nem uma virgula será alterada nos contratos. Reluz, mas não é ouro. Mais do mesmo, com o proveito de sempre: Nenhum.

Quo Vadis

Vitor Gaspar

O nosso “Nero Cláudio César Augusto Germânico” ateou fogo à “pacificamente revoltada” sociedade portuguesa. Pretende arrasar a economia. Não por inspiração artística, mas por uma espectral crença em modelos e dogmas. Das cinzas erguer-se-ão pujantes e competitivas empresas de exportação. Essa reconstrução não será financiada pela cunhagem de moedas “ajustadas“. Nero, enganou o povo de Roma. Desvalorizou a moeda. Gaspar não fará uso do mesmo expediente. A Alemanha não deixa. Não será a porção de ouro que será reduzida à função de revestimento da moeda. Nem pensar. Gaspar não engana o povo, desvaloriza-o, mas mantêm o valor da moeda intacto. “Terra queimada” é estratégia útil a quem não quer pagar, não a quem diz querer. Resultou quando o corso Bonaparte tentou invadir a vasta Rússia, e voltou a servir bem o Grande Urso aquando da operação Barbarossa. No nosso caso é contraditório. Pagar é objectivo ou desculpa?

Nero

Nero massacrou assistências com as suas prestações artísticas, desprovidas de sentido do ridículo, ignorando que não detinha um pingo de aptidão artística. Gaspar brinda-nos com a sua excelente dicção, adequada a tradutores simultâneos ou intérpretes de linguagem gestual, mas profundamente desgastante para quem não desiste e assiste. Lamento que por vezes se esqueça do rigor técnico que o caracteriza, como quando aborda as “poupanças nas PPP”. Ignora a relação entre o relevante valor que anuncia e o prazo a que se refere a poupança. A aptidão artística é manifestamente fraca.

A sacrossanta Troika avaliou. O Governo garantiu o seu álibi por mais um ano, graças à “benevolente” extensão do prazo. O primeiro memorando não foi negociado em função das necessidades, mas sim em função das eleições Alemãs, em 2013, numa típica e tristemente frequente estratégia de “empurrar com a barriga“, tentando a sorte  de uma eventual (ainda que pouco provável) mudança de fundo na Europa. Abdicar da nossa soberania por mais um ano em troca de nada, absolutamente nada, não resolve a falta de liquidez e garante o rumo do ajustamento incendiário e liquidatário. O actual Governo diz ter conseguido novas metas? Mas quais metas? Aquelas que os Gregos nunca cumpriram mas que nunca os privaram de receber o dinheiro da “ajuda”? Porquê? Porque o dito dinheiro visa respeitar as maturidades dos títulos de divida detidos pela banca (sobretudo Alemã e Francesa), e dessa forma tranquilizar os mercados. Mas como, se os mercados sabem que não há dinheiro no mundo que pague as imparidades do sistema financeiro? É esse conhecimento que explica a “histeria” nos mercados.

Perto do seu fim, Nero disse “Que artista falece comigo!” Que dirá Gaspar?

Quem o alheio veste

Foi por encomenda do armador alemão Hamburg-Amerika line (HAPAG) que nos últimos dias do século XIX a sua quilha foi assente nos estaleiros da William Gray & Company Ltd em West Hartlepool, Inglaterra. Lançado no primeiro ano do século XX, 1901, o navio foi baptizado “Numantia”, numa premonitória homenagem à lendária cidade de Numancia, na antiga província Romana, Hispânia. Com 122 metros fora a fora, 16 metros de boca, quase 4500 toneladas de arqueação bruta e aproximadamente 8000 toneladas de arqueação líquida (Sistema Moorsom), o novo cargueiro a vapor, então moderno e eficiente, serviu a nação germânica até Agosto de 1914. A primeira grande guerra ditou o bloqueio naval Britânico a todos os portos Germânicos. Impossibilitado de regressar à Alemanha, o navio rumou ao porto de Mormugão, colónia ultramarina de Goa, Índia, onde lhe foi concedido refúgio ao abrigo da neutralidade que a jovem República Portuguesa mantinha no conflito.

Eis que em 7 de Fevereiro de 1916 tudo se altera. É promulgada a lei nº 480, ao abrigo da qual o governo Português legítima a “requisição de todos os meios de transporte julgados indispensáveis à economia nacional”. Este primeiro passo rumo à beligerância, à época justificado pela necessidade de salvaguardar o comércio colónial, mais não foi que um sintoma da nossa condição de protectorado Britânico. Provou que a jovem república, depois de muito criticar o deposto regime monárquico, não se libertara da subserviência ante o Reino Unido. Portugal observa assim a velha aliança, mas não declara guerra ao Império Germânico, decreta. A 23 de Fevereiro de 1916, o governo mandou publicar o decreto nº 2229, o qual determina a apreensão dos setenta navios Alemães refugiados em território Português. A resposta Alemã, sob a forma de ultimato, exigindo a devolução dos navios foi ignorada, pelo que a brilhante iniciativa legislativa obtém o resultado desejado: a 9 de Março de 1916, a Alemanha declara guerra a Portugal.

A Nação aceita o enorme custo da guerra em troca de uma vasta e moderna frota de navios mercantes, muitíssimo superior à capacidade de investimento e produção naval nacional. Milagrosa resolução desse défice. É neste contexto, com a missão de gerir a nova frota, que nasce a companhia “Transportes Marítimos do Estado” (T.M.E). Contudo, negociações anteriores ao iluminado decreto, garantem o usufruto de 80% desta frota de navios ao Reino Unido, através de contracto de fretamento com o armador Furness, Withy & Co, o famoso contrato Furness. A frota alemã servirá sobretudo o interesse Britânico: à razão de um preço por frete muito inferior aos valores de mercado (<50%) e com prémios de seguro ridiculamente baixos. Acresce a fórmula de cálculo, que em ambos os casos, frete ou perda do navio, tinha por base a arqueação bruta e não a líquida, isto é, com base no peso do navio e não na sua capacidade de carga (a única relevante para o fretador). Condições ruinosas para o armador estatal, válidas ao longo de um prazo singelamente definido por “Seis meses após o fim da guerra”. Uma PPP com garantias do estado Português, em benefício do Britânico e com o patrocínio da iniciativa privada Alemã.

Uma vez reparados os danos resultantes da sabotagem perpetrada pela tripulação teutónica, o “Numantia” foi rebaptizado “Pangim”, em homenagem à cidade Indiana do Império Colónial Português. Recebe tripulação Portuguesa e serve os aliados durante a vigência do contrato Furness, período ao longo do qual vive múltiplas privações e vergonhas, normalmente resultantes da sistemática falta de pagamento do armador estatal aos seus fornecedores. É conhecida uma longa e ruinosa estadia do navio e sua tripulação no porto de Antuérpia, Bélgica. Nada que se compare com o caricatural exemplo do vapor “Sines”, que em Cardiff, País de Gales, esteve arrestado de Fevereiro de 1921 a Janeiro de 1922, vivendo a tripulação em precariedade tal que se viu obrigada a carregar terra para bordo, e nela plantar uma horta em pleno convés do navio. Avulsos exemplos das metodologias e práticas em vigor nos T.M.E, organização verdadeiramente a saque por funcionários e agentes, com um histórico de fraudes e roubo tão vasto e diversificado que pede meças em criatividade e audácia com qualquer outro “caso” da actualidade. É perfeita a analogia com o desfecho do caso BPN: No fim pagámos todos.

Após um longo e complexo processo de liquidação dos T.M.E, o navio é devolvido à iniciativa privada em 1926, ano em que é adquirido pela Companhia Colónial de Navegação (C.C.N.). Recebe então o terceiro e último baptismo, “Cassequel”, também em homenagem a uma cidade do Império colónial, em Angola, desta feita. Fez carreira na Europa, arquipélagos Atlânticos e na África Ocidental Portuguesa, navegando sem sobressaltos até 1933.

Foi em Agosto deste ano que o navio enfrentou um grave incêndio, deflagrado nos fardos de palha destinados à alimentação dos animais que transportava. Navegando de proa ao vento e com a intrépida intervenção da tripulação, o fogo foi controlado. O navio chegou a bom porto pelos seus próprios meios, mas o incêndio foi de tal forma violento que danificou seriamente a superestrutura e destruiu completamente o mastro grande, a meia-nau. Após a reparação, o “Cassequel” viu a sua superestrutura melhorada, pelo que ficou também habilitado ao transporte de passageiros. Foram também adicionadas duas gruas em substituição do mastro perdido. Superado o desafio, melhorado após as reparações, o navio retomou a sua actividade.

A normalidade foi interrompida com o início da segunda guerra mundial. Tendo sobrevivido à primeira guerra, o navio enfrentou a segunda sob protecção da neutralidade Portuguesa. O velho “Cassequel” partiria uma última vez de Lisboa no início da tarde de 13 de Dezembro de 1941. Rumou a sul, em direcção à África Ocidental, com 9 passageiros, 48 tripulantes e uma considerável carga de gasolina a bordo. Comandava Sebastião Augusto da Silva, meu bisavô, pai do pai de meu pai, senhor meu avô. Decorridas mais de 24 horas de viagem, o navio é atacado durante a noite de 14 de Dezembro de 1941, numa posição a mais de duzentas milhas a sudoeste do cabo de São Vicente. O agressor, o submarino Alemão U-108, lançou um torpedo que às ordens do Capitão Kalus Scholz foi apontado à popa do velho vapor, destruindo o leme e a hélice, imobilizando o navio. De pronto foi dada a ordem para abandonar o navio. Arriadas as quatro baleeiras, e apesar de uma delas se ter inicialmente virado, breves minutos bastaram para que todos os tripulantes e passageiros embarcassem nos salva-vidas. Imerso e a coberto da noite, o U-108 nunca foi avistado por nenhum dos náufragos. Através do periscópio, terá o seu Capitão confirmado que todas as baleeiras se afastavam, momento em que ordenou o lançamento do segundo torpedo, desta feita apontando a meia-nau, directo à carga de gasolina a bordo. A enorme explosão partiu o velho vapor a meio, precipitando um afundamento quase instantâneo. Seis dias mais tarde, a 20 de Dezembro de 1941, o navio da Armada Portuguesa, “NRP Douro“, resgata a última das quatro baleeiras. A bordo estavam dez tripulantes, dois passageiros e o meu bisavô, que recebeu com agrado a notícia que todos náufragos estavam a salvo, sem vítimas a registar.

O “Cassequel” cumpriu assim a premonição do seu primeiro baptismo, “Numantia”. O seu arresto em 1916 traiu a neutralidade que o atraíra a território Português, traição devolvida em 1941, com o seu torpedeamento apesar da neutral credencial Lusitana. Qualquer semelhança com a actualidade nacional, é pura obra do destino traçado para a Nação que se fez Estado quando um filho fez guerra à sua mãe. Ouro do Brasil, frotas de modernos navios, fundos estruturais ou moeda única, sabemos que para cada oportunidade estará reservada a respectiva tragédia. É fado, sem saudade ou memória. Por vezes agraciada com as riquezas do mundo, a nau Portugal é com a mesma frequência vítima de si própria. A tripulação não aprende. Ao Leme esteve sempre quem mandou, raras vezes quem sabia mandar.

É sabido que “Quem o alheio veste, na rua o despe”. Porque que o esquecemos tão facilmente?