Category Archives: Mentalidade Tuga
Grand Prix
O cancelamento do Grand Prix de Lisboa causou grande tristeza, desalento e até alguma revolta entre os milhares de Tiffosi que se deslocaram à capital para vibrar com as emoções da competição. Os entusiastas suportaram e sobreviveram a grandes privações e desventuras, como voos lowcost, serviços de táxis ou até à compra de bilhetes de metropolitano para no fim se verem obrigados ao regresso, sem o justo premio do evento desportivo. Mais de duas décadas após a primeira corrida que opôs um Burro a um Ferrari, o conceito comprovou o seu enorme potencial de atracção turística. Diz a sabedoria popular que a forma mais sincera de elogio é a imitação, mas nem sempre é possível reeditar os grandes eventos de outras eras. Burros habituados às condições de stress do transito urbano são hoje raros, pelo menos entre quadrúpedes.
Parece então que alguém se desobrigou de comparecer ao compromisso. Os promotores falam em censura, as autoridades municipais dizem que tudo não passou do regular funcionamento das instituições, no caso as sanitárias e de saúde animal. Preocupações com o estado do tempo e a impossibilidade de ferrar o animal para piso molhado estão na base do aviso das autoridades competentes. Por outro lado, as associações de defesa dos direitos dos animais, acusaram os promotores de atentarem contra a dignidade do animal humilhando-o na via publica. Devo dizer que discordo deste argumento – Se alguém sairia humilhado neste evento, seria obviamente o Ferrari, que aliás, foi bloqueado por falta de titulo de estacionamento válido…
Cozinho para o Povo
Estreia esta semana a nova grelha de programação do canal que está a revolucionar a televisão portuguesa. Esta transformação, lenta mas profunda, nota-se particularmente nos serviços informativos. Outrora aborrecidos, sem emoção ou espectáculo, os noticiários são hoje pródigos em sensações fortes. O Canal, o tal revolucionário, é especialista em crime e derivados. Obrigou todos os concorrentes a inovar o alinhamento noticioso, fornecendo-nos (até que enfim!) boas e intensas reportagens de tragédia, violência e miséria moral. Ah, portugalidade esquecida e ostracizada que finalmente é exposta ao escrutínio de toda a população. Agora sim, a televisão como espelho de nós próprios, tal e qual aquilo que somos. Não há psicopata cuja barbárie não seja uma enorme, chocante e totalmente inesperada surpresa para todos os vizinhos e convivas. São pacatos e amigos do seu amigo, adeptos de boa, tradicional e bem condimentada cozinha portuguesa. Paninhos quentes e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém…
Esta massa (a)crítica a que vulgarmente se chama “Classe Média”, clama e agradece todos os programas de comentário e análise. Haja quem explique a culinária! Lá estará o Canal, o tal, a liderar a mudança. Novas causas, novo Menu. Depois da lavoura, da defesa do contribuinte e demais receitas, o irrevogável Chef cedeu o lugar à nova protagonista – Cozinheira de mão cheia, perita de reconhecido mérito em preparados “Redon“, lança-se agora na desinteressada ajuda a todos os telespectadores do Tal Canal, na sua nova rubrica de gastronomia com restos denominada “Cozinho para o Povo“. Pulverizar-nos-á com muita, imensa paprika!
Catch Me If You Can
Um clássico relativamente recente, um entre muitos dos êxitos do famoso realizador e produtor Steven Spielberg, “Apanha-me se Puderes” é um filme que nos conta a história de um jovem, autodidacta, dinâmico e espertalhão, boy de profissão cuja vivacidade permite exercer toda e qualquer função. Um caso raro de adaptabilidade e improviso. O logro funciona graças à ingenuidade geral. Consta que o próprio cita o conterrâneo de Tom Sawyer, Samuel Clemens: “É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que elas foram enganadas…”. E não é que funciona? Ele foi aviador, sem nunca pilotar, foi médico sem nunca tratar e até foi advogado depois de no exame passar. Assim prossegue o filme, sempre em crescendo de ousadia e descaramento, até à detenção final. Cumprida a pena, é recrutado para ajudar a investigar.
Tal por cá seria impossível! Em nenhum outro país a licenciatura é tão escrutinada como entre nós, não pelo seu valor cientifico ou profissional, mas simplesmente porque deixou de ser uma licença para aprender sozinho para se tornar um sinónimo de prestigio outorgado, independente e imune à (in)competência de quem a ostenta. Pessoalmente, estou-me nas tintas para tudo isto… Muito pior que um falso testemunho, foi a reacção à “investigação” jornalística. Confrontado com os factos, terá tentado enjeitar responsabilidade, dizendo que os dados publicados aquando da nomeação como adjunto do primeiro-ministro “baseiam-se nas informações prestadas pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra datadas de Outubro de 2009″. Inqualificável, mas revelador da estirpe dos “jotas”.
Taxi Driver
Cientes que a cidade de Lisboa seria hoje alvo de repérage para um eventual remake do original de Martin Scorsese, os taxistas da capital apostaram numa mega manifestação contra a concorrência desleal. Compreende-se, quatro décadas depois, a nova versão do filme poderia vir a chamar-se Uber Driver. É a revolução tecnológica pois então. O original, Taxi Driver, relata-nos a história de um jovem indignado com o mundo que o rodeia, manietado por licenciamentos e obrigações várias, revolta-se contra a libertinagem em geral e a pouca vergonha em particular. Na verdade perde as estribeiras e descamba. A intenção inicial, virtuosa que fosse, resvala para o disparate. Perde a empatia de todos, mesmo daqueles que com a sua causa poderiam concordar.
Hoje por cá, talvez procurando atrair os produtores da nova versão deste clássico do cinema, os donos dos táxis e das respectivas (caríssimas!) licenças promoveram aquilo que chamaram uma Manifestação de Taxistas. Alguma imprensa chamou-lhe “greve dos táxis”, o que é estranho, pois os condutores ou são empresários, pelo que o conceito de greve não se aplica, ou são funcionários e como tal estão a trabalhar no protesto, sem prémio de desempenho. Na verdade é uma acção de protesto, uma demonstração de força. Contudo, o bloqueio da cidade dificilmente atrairá simpatia dos habitantes, leia-se, potenciais clientes. Talvez fosse altura de mudar de estratégia, por exemplo procurando aliados em vez de entrar em guerra contra tudo e todos. Esta força que hoje procuraram demonstrar será a (curto) prazo a sua maior fraqueza.
Jabba the Guterres
Eis-nos de volta aos clássicos do cinema e à grande saga “Guerra das Estrelas”. A personagem de hoje está no pedestal da adoração nacional. Devotos de sempre e detractores de outrora, todos, unidos em uníssono elogiam o mestre do dialogo, Jabba the Guterres. O momento festivo resulta da sua nomeação pelo Conselho de Segurança para Secretário-geral das Nações Unidas. Jabba, ex-chefe do executivo desta pequena nação à beira mar plantada nos confins do continente Europeu, será o próximo líder das Nações Unidas. Não, não é ficção cientifica. Deixou a concorrência para tras e ganhou.
Curioso contraste este entre o percurso dos ex-primeiros que nos deixaram a meio do mandando. Um fugiu do pântano, terá um dos mais ingratos e exigentes cargos do mundo, o outro, aquele que encontrou uma nação de tanga, é “consultor” do banco de investimento mais poderoso do mundo. É giro!
A vitória é sem duvida um tónico poderoso, capaz de elevar uma picareta falante ao papel de ídolo nacional, uma unanimidade praticamente inédita. Bem, talvez não seja absolutamente inédita, a aclamação do futebolista Éderzito tem sem duvida semelhanças. De vergonha ao orgulho em segundos. Fantástico! Talvez venha desfilar pela capital abordo de um autocarro de dois andares, acenando à multidão entusiástica e no fim discursar na Alameda Dom Afonso Henriques, bem em frente ao Instituto que o formou, o Superior Técnico e no palanque proferir um patriótico e sucinto discurso enaltecendo a vitória e invocando o Cesto da Gávea, numa clara alusão à nossa tradição marítima…
Smart Silva
Anos a fio, a áurea de homem sério foi quanto baste para se manter a salvo de toda e qualquer acusação. Uma vez invocado o autoproclamado estatuto, aqui e ali adornado com uma ou outra alusão subtil (nunca concretizada) a campanhas orquestradas contra si, todas as suspeitas foram esquecidas, relegadas ao eterno esquecimento. Porém, numa época dominada pela tributação dos imóveis, qual fénix renascida, ressurge a polémica da Gaivota Azul. Ao invés da reacção tradicional, desta feita, nada. Nem sim, nem não. Zero, silencio total.
Noutros tempos teríamos já sido brindados com um categórico e sucinto comunicado desmentido tudo, provavelmente reiterando sound bites do passado, conclusivas singelas e curtas, “por vezes” auto-elogios mas sempre, sempre compatíveis com a persona construída, como a celebre tirada sobre seriedade na qual garantiu ser tanta a sua que para qualquer um de nós ir a meças, teria de nascer mais uma vez. Um conceito complexo, mas seja como for, a moral é simples, diz-se sério.
Parece contudo, a fazer fé em noticias vindas a publico recentemente, que nenhum de nós terá de voltar a nascer para com ele ombrear em seriedade. Já não é preciso, basta ser esperto. Mesmo tendo duvidas, o que hoje é verdadeiramente relevante é a esperteza. Sinal dos tempos, talvez apenas uma manifestação do processo de aculturação em curso, influenciada pela maior e mais liberal economia do mundo, mas parece que actualmente pagar menos impostos é sinal de esperteza. Quem não a tem paga, quem tem paga menos. Muito menos.
Paraquedista
Como quando o Cristiano Ronaldo é candidato a um qualquer prémio internacional, o país sustem a respiração até ao anúncio da vitória. Há como uma partilha, uma redistribuição do mérito e do prestígio conquistado. Na política também. Foi assim quando Diogo Freitas do Amaral foi nomeado Presidente da assembleia geral das Nações Unidas. Depois lá percebemos que a nós pouco beneficiou tal cargo. Mal seria. Esta ideia peregrina que os compatriotas em cargos internacionais nos vão favorecer é absurda. Quanto muito não nos prejudicariam deliberadamente, mas nem a primeira nem a segunda fazem sentido. Apenas a isenção é desejável. O favorecimento de alguns será sempre em prejuízo de outros, logo tudo o que devemos esperar é a equidistância. O percurso do anterior Presidente da comissão europeia deveria ter-nos ensinado qualquer coisa…
A nomeação que se segue é a de secretário-geral das Nações Unidas. Haverá organização internacional mais importante? Certamente que não. E nós, como estamos nesse campeonato? Estamos bem, temos candidato. Não é muito forte em aritmética, mas já venceu 5 das votações preliminares. Tudo corria bem para as nossas cores, mas eis senão quando a organização que procurava ser mais transparente e credível vê o processo de eleição tomado de assalto por uma (já há muito preparada) candidatura: Apoiada pela matriarca alemã, a búlgara Kristalina Georgieva entra na corrida a meio. Deixa a vice-presidência da união europeia e salta destemida para o centro da contenda. Entre nós há algum desconforto contido, entre dentes diz-se que há batota, chamam-lhe até paraquedista…
Caça ao guito
“Temos de perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro” terá sido porventura uma das frases mais infelizes da politiquice recente. A sua autora entretanto já deu mil e uma explicações que procuram aliviar o peso da literalidade desta frase, no entanto, em seu redor, orbitam outros pequenos acontecimentos que só podem deixar inquietos estes privilegiados acumuladores.
- O fisco terá acesso às contas com mais de 50 mil € (não há perigo, é só para fazer umas análises de dados);
- Está em estudo aplicação de nova taxa sobre património acima de valor a definir e vários ponderadores do IMI foram alterados para agravar este imposto sobre casas melhor situadas ou com melhores condições (boa casa só para quem pode);
O argumentos populistas mais utilizados pela esquerda são dois. Um é o de que o leque de contribuintes nestes segmentos é reduzido e tem de contribuir mais porque, hipoteticamente, se consegue acumular tanta riqueza deve-o a algum tipo de exploração (do sistema fiscal, da lei ou de pessoas). O outro é que com a nova receita se poderá por exemplo aumentar 5 € a todas as pensões abaixo de 500 €.
Estas medidas não são mais do que demonstração de fragilidades governamentais que resultam no explorar do elo mais fraco. Preferem rotular todos os acumuladores de riqueza como suspeitos a penalizar (porque em teoria lhes custará menos) ao invés de criar medidas, futuras ou mesmo retro-activas, que consigam acabar com a riqueza indevidamente acumulada por aqueles que verdadeiramente ludibriam o sistema, ou ter a coragem de cessar ou diminuir certas coutadas fiscais sobre quem explora o mercado português.
Mais, com este tipo de discurso e acção, cultiva na sociedade um confronto de classes, em que quem está longe dos patamares falados diz um “Apoiado!” com a convicção de que se o têm é porque são uns porcos capitalistas, no outro lado milhares dos abrangidos pelo estatudo de “acumulador de riqueza” sentem-se insultados por cumprir com as suas obrigações fiscais e ainda virem a ser penalizados por ter tido um comportamento de poupança mesmo no tempo de bonança.
Se existe tão grande clivagem entre determinados segmentos da população a culpa não será maioritariamente dos que estão em melhor situação mas sim dos que legislam e gerem orçamentos por forma a criar as condições laborais e sociais que conduzem à desigualdade.
Todo o princípio de caça à receita através da penalização dos mais abastados, que já cumprem um regime fiscal progressivo, torna-se ridículo a partir de certo ponto. E o argumento da distribuição da riqueza não pega, faria muito mais sentido que ao invés de se proporem a aumentar 5 € em todas as pensões até 500 €, pelo mesmo custo aumentassem 12 € em todas as pensões até 200 € e que concentrassem futuros aumentos de pensões apenas em escalões inferiores para que estes beneficiários abandonem a precariedade mais rapidamente.
Por fim recomendo também que no exercício da caça ao guito a esquerda se foque também naquela que é pretensamente a sua especialidade, a solidariedade social, sim porque para além da acumulação também a distribuição/desperdício de riqueza acumulada por outros (mais de mil milhões de € por ano para as IPSS) deve ser alvo de escrutínio apertado e quiçá seu redireccionamento para outros pontos de maior controlo e eficácia no combate pela igualdade.
A justiça e equidade social também deve ser exercida na governação, sem penalizar em demasia certos grupos a favor de outros, nem que apenas por princípio. Impeça-se o enriquecimento ‘sujo’ mas respeite-se o enriquecimento ‘limpo’ que já é devidamente taxado quando gerado e gasto. Caso contrário iremos caminhar num progressivo nivelar por baixo, em que quem está num percentil acima da média seja sempre visto como a próxima presa a abater para alimentar aqueles que, por desgoverno do país, desesperam e proliferam no limiar da pobreza.
Exterminador Implacável
O “Exterminador Implacável” foi o filme inaugural desta popular saga cinematográfica, uma premonitória visão de um futuro dominado pela tecnologia e onde as viagens no tempo serão (finalmente!) possíveis. Esta civilização das máquinas não temerá quaisquer consequências metafísicas e decidirá alterar o seu presente, manipulando o passado. Enviará um robô humanóide, modelo T-800, vindo do futuro para assassinar o messias salvador da espécie humana. Inigualável e apaixonante narrativa, potenciada pelos sentimentos ambivalentes que este primeiro exterminador provoca na classe média.
Viajar no tempo – Imaginem! Voltar atrás no tempo e alterar o sentido do voto. Não seria bom? Pessoalmente, poupar-me-ia ao desconforto da viagem, pois todo o meu percurso de eleitor é composto por derrotas. Nunca contribui para qualquer vitória eleitoral. Tenho especial orgulho nisso, jamais me abstive e nunca votei em quem ganhou. Estou de consciência tranquila. Por outro lado, sabendo o que sei hoje, talvez pudesse voltar atrás no tempo para votar pela negativa. Se o meu voto é como uma sentença de fracasso eleitoral, poderia regressar para influenciar os resultados, negando com o meu voto a possibilidade de vitória a quem nos tramou. Que bom seria, mas não sendo hoje possível, adiante, que o assunto agora é um filme com muitas explosões. Onde é que eu ia? Ah, sim, o desfecho: depois de eleito e reeleito, o implacável robot foi perdendo o revestimento humano, pack após pack, desnudado até ao chassis, foi detido, perdeu as pernas e caiu no vil metal fundido. Assim terminou este episódio da saga…
Dão-se Alvíssaras
A detalhada, profunda e rigorosa investigação jornalística ao denominado “escândalo” dos “Panamá Papers” decorre com normalidade. Pelo menos até prova em contrário… Aguardemos, afinal, se chegámos ao Verão sem novidades de relevo, podemos perfeitamente esperar mais uns tempos. Pelo menos até à mudança da estação. Por certo que mais dia, menos dia, mais semana menos mês, importantes conclusões serão noticiadas, sem precipitações ou sensacionalismos, como é salutar! Entre nós não há acusações infundadas, nem processos de intenção, nem pensar. Credo! Tanto Pokémon para caçar, tanto disparate para noticiar, porquê antecipar?
Decididamente, não há pressa. A curiosidade inicial perdeu-se, dispersou-se por outros temas, é verdade, mas pelo sim, pelo não, ou na falta de motivo válido, talvez por palermice e infantilidade, possamos, quiçá, lançar uma campanha lá para o Natal, um apelo aos investigadores para emergirem, respirarem um pouco de ar puro e connosco partilharem o fardo, o tenebroso peso do conhecimento à tanto tempo sob reserva. Aqui deixo a ideia, dêem-se alvíssaras a quem conseguir fazer chegar alguma informação, por pouca ou escassa que seja, ao Ministério Público.
A menos que tudo não tenha passado de um embuste, de um truque de entretenimento, um falso escape à indignação com a liberdade oferecida aos capitais. Será? Façamos o teste, analisemos o que mudou desde então, desde do momento em que estoirou a bronca, o dia da revelação! Há legislação nova? Novos meios ao dispor das autoridades, ou está tudo na mesma? Também aí se dão alvíssaras! Alguém nos diga qual foi a evolução.











