Author Archives: Gonçalo Moura da Silva

Driving Miss Daisy

DrivingMissDaisy_Seguro_CostaSenhora do seu nariz, Miss Daisy conduzia o seu próprio automóvel. Por mais desconcertante a condução, acreditava em si própria, nunca ligando a buzinadelas ou às infundadas críticas dos outros automobilistas. Afinal, uma senhora é sempre uma senhora. Um dia, um pequeno acidente, foi a desculpa  perfeita para o seu SEGURO cancelar a apólice. Foi um rude golpe na autonomia de Miss Daisy. Seus filhos socráticos, ávidos por restabelecer a alegria dos tempos idos, precipitaram uma solução: Miss Daisy teria um motorista, alguém que a conduzisse sem percalços. “Qual a pressa?” questionou Miss Daisy. Pragmática, decidiu fingir aceitar a vontade de sua prole. O voluntarioso Mr. Hoke Coleburn apresentou-se ao serviço. O desdém e antipatia inicial, foram teatralmente dando lugar à empatia e ao profundo respeito. Os múltiplos prémios e distinções atribuídos a este filme nunca ocultaram a singela verdade:

É uma monumental e inconsequente séca!

DrivingMissSeguro

The Matrix

Matrix à Portuguesa

Pedro Morpheus aceitou o destino que lhe fora revelado por Angela Oracle: Seria ele a encontrar o escolhido. Ao leme do hovercraft “Nebuchadnezzar”, Morpheus manobrava pelos esgotos em busca do salvador. A tripulação partilhava o empenho do seu comandante.OracleMerkel Contudo, Álvaro Cypher vivia descontente. Conhecia a verdade, mas sonhava voltar à ignorância. Trinity Portas, sorria em silêncio. Após uma longa busca, Morpheus encontrou Franquelim Neo, o predestinado. Cypher viu então a oportunidade para se pirar e exclamou: “a escolha é minha, o homem até ajudou a desmascarar o enredo insular”. Morpheus de pronto partilhou a responsabilidade na escolha, fazendo aquilo que dissera nunca fazer, comentar trocas de subalternos. Mas o momento era festivo, por isso abriu uma excepção.

Oliveiraecosta

Agora sim, empreenderemos à séria. Nada, nem ninguém deterá o avanço dos salvadores de Zion. José, o Arquitecto não contesta, não questiona. Contempla a sua obra. Está tudo bem. Fica-nos a importante lição de Manuel, o rapaz da colher. “Não tentes dobrar a colher, isso é impossível. Tenta antes compreender a verdade: a colher não existe”.

Manuel Dias Loureiro

Duodécimo de Actualidade

Cumprimos a meta nominal do défice, voltámos aos mercados e ficámos a saber que a victoria é nossa, é produto do nosso esforço. Quando o “futebolês” entra no léxico governativo, quando o marcador do golo enjeita com falsa modéstia o protagonismo, há confusão no balneário. José MourinhoEstá para breve a chicotada psicológica. Até lá, o grupo está unido, empenhado na preparação do próximo embate, ávido por dar o seu contributo à equipa. Pois…

 

saldosConcluída a época de saldos, nenhuma venda foi ainda concretizada. A companhia aérea por falta de garantias bancárias, a televisão publica pelas adversas condições de mercado, e imagine-se a ironia na anunciada venda da ANA: Gaspar está na mão de Jardim. O disciplinador à mercê do despesista. Tão trágico que chega a ser divertido.

Mais um “não assunto”. O magnânimo Optimist, senhor de muita pose, mas desprovido de pensamento próprio, dá largas à sua soberba: Remodelações de secretários de estado é tema sem envergadura, sem dignidade quanto baste para merecer o seu comentário. Um prodígio!

Do outro lado da barricada, a completa barracada. A carcaça está lá, mas a prazo. A média anuncia um facto e seu contrário. Em que ficamos? Na mesma. Nada disto interessa, nada disto conta. A festa prossegue, valha-nos o havaiano na Nazaré. Somos notícia no mundo. O maior vagalho é nosso. Por mais paupérrimo o país, é vicio que nunca perderemos, a mania das grandezas. Afinal, não há razão para tristezas, animem-se meus caros, 2013 será o melhor ano dos próximos 5. Dúvidas?

Não se esqueçam de se absterem nas próximas eleições! Por certo que governança e oposição tremerão com medo…

Saldos Anónimos

Sóbrios estão os Lusos. Trocámos a nacional euforia da compra, pela globalizada disciplina da venda. Está tudo em Saldo.

Contemplamos a contagem decrescente para a entrada em vigor do vertiginoso orçamento de estado para 2013.

Anónimos, ajustamos.

Relvas150x238px
Ébria está a República. Privatiza a RTP, a TAP e a ANA. Quais presentes de última hora, as decisões seriam desembrulhadas com a máxima descrição.

O insuspeito método “até à última” tranquilizaria os veraneantes. A serenidade dos turistas foi contudo perturbada pelo cristalino anúncio de sua iminência da equivalência, a imaculada consciência.

Deu bandeira, transpareceu alívio. Compreendemos que está feito. Quem vier atrás que feche a porta.

Anónimos, acatamos a providência.

Optimist

Julgando-se comandante de um Galeão da carreira das Índias, declama “Os Lusíadas“. As analogias náuticas que se seguiram à assustadora prova de sensibilidade e cultura, são igualmente mobilizadoras, plenas de emotividade e sonolência. Não encanta, nem navega. Estamos perante um petiz, um aprendiz de Optmist. Explica as crenças de Agosto, mas deixa-nos a dúvida se detêm carta de marinheiro. Não sabe onde fica o cabo das tormentas, mas repete à exaustão a mitológica ameaça do Adamastor. Não camba, clama vela cheia, por isso caça a grande. São as talas que lhe criam a ilusão, mas o aprendiz ignora. Emerso, abraçado à âncora da solução única afoga-se o tripulante, o contribuinte. Estamos sem patrão de alto-mar ou mesmo de costa, e mesmo assim rumamos ao oceano sem içar a âncora. Queimamos as amarras para que se calem os velhos do Restelo, enquanto o comando contínua a alijar a economia. Alguém lhe explique que o chicote é apenas a extremidade de um cabo!

O Fio que Desencanta

Sobre o fio aguarda a carcaça que pacientemente se fez abutre. Não caçou. Jogou pelo seguro e esperou. Lançada a flecha incendiária da TSU, manifestada a inabalável devoção indígena ao consumo, surge finalmente a oportunidade. Enjeitam-se culpas no ninho governativo. Inegável prova de Patriotismo sem limites, abnegada disputa pelo papel de Vítima. Entre eles, quem perder, ganha. Os falcões liberais de outrora, modelam agora intenções. Não falam. Mandam Moedas dar a cara. Não há coroa. Provam agora o seu próprio remédio. Os abutres do pack4 serão as carcaças do próximo Orçamento de Estado. A conta será paga pelos índios. Continuaremos à mercê dos irmãos Dalton, pois claro. Do topo do poste que suporta o fio, Unlucky Cavaco Luke da Silva tem a palavra. Convoca ao saloon os bravos do Oeste. Especula-se sobre uma nova liderança de salvação nacional, na linha da ancestral metodologia dos “paninhos quentes“. “Nunca” avisa o novo abutre. Acrescenta: “tributaremos as PPP’s”. É para isso que ali está, no alto, sobre o fio. Alguns precipitam-se e exclamam: “Bravo!”. Há muito que entre os Peles Vermelhas se perdeu a arte de ler os sinais de fumo: A certeza de justiça nesta distribuição dos sacrifícios é infundada. O prometedor imposto extraordinário garante que nem uma virgula será alterada nos contratos. Reluz, mas não é ouro. Mais do mesmo, com o proveito de sempre: Nenhum.

Quo Vadis

Vitor Gaspar

O nosso “Nero Cláudio César Augusto Germânico” ateou fogo à “pacificamente revoltada” sociedade portuguesa. Pretende arrasar a economia. Não por inspiração artística, mas por uma espectral crença em modelos e dogmas. Das cinzas erguer-se-ão pujantes e competitivas empresas de exportação. Essa reconstrução não será financiada pela cunhagem de moedas “ajustadas“. Nero, enganou o povo de Roma. Desvalorizou a moeda. Gaspar não fará uso do mesmo expediente. A Alemanha não deixa. Não será a porção de ouro que será reduzida à função de revestimento da moeda. Nem pensar. Gaspar não engana o povo, desvaloriza-o, mas mantêm o valor da moeda intacto. “Terra queimada” é estratégia útil a quem não quer pagar, não a quem diz querer. Resultou quando o corso Bonaparte tentou invadir a vasta Rússia, e voltou a servir bem o Grande Urso aquando da operação Barbarossa. No nosso caso é contraditório. Pagar é objectivo ou desculpa?

Nero

Nero massacrou assistências com as suas prestações artísticas, desprovidas de sentido do ridículo, ignorando que não detinha um pingo de aptidão artística. Gaspar brinda-nos com a sua excelente dicção, adequada a tradutores simultâneos ou intérpretes de linguagem gestual, mas profundamente desgastante para quem não desiste e assiste. Lamento que por vezes se esqueça do rigor técnico que o caracteriza, como quando aborda as “poupanças nas PPP”. Ignora a relação entre o relevante valor que anuncia e o prazo a que se refere a poupança. A aptidão artística é manifestamente fraca.

A sacrossanta Troika avaliou. O Governo garantiu o seu álibi por mais um ano, graças à “benevolente” extensão do prazo. O primeiro memorando não foi negociado em função das necessidades, mas sim em função das eleições Alemãs, em 2013, numa típica e tristemente frequente estratégia de “empurrar com a barriga“, tentando a sorte  de uma eventual (ainda que pouco provável) mudança de fundo na Europa. Abdicar da nossa soberania por mais um ano em troca de nada, absolutamente nada, não resolve a falta de liquidez e garante o rumo do ajustamento incendiário e liquidatário. O actual Governo diz ter conseguido novas metas? Mas quais metas? Aquelas que os Gregos nunca cumpriram mas que nunca os privaram de receber o dinheiro da “ajuda”? Porquê? Porque o dito dinheiro visa respeitar as maturidades dos títulos de divida detidos pela banca (sobretudo Alemã e Francesa), e dessa forma tranquilizar os mercados. Mas como, se os mercados sabem que não há dinheiro no mundo que pague as imparidades do sistema financeiro? É esse conhecimento que explica a “histeria” nos mercados.

Perto do seu fim, Nero disse “Que artista falece comigo!” Que dirá Gaspar?

Quem o alheio veste

Foi por encomenda do armador alemão Hamburg-Amerika line (HAPAG) que nos últimos dias do século XIX a sua quilha foi assente nos estaleiros da William Gray & Company Ltd em West Hartlepool, Inglaterra. Lançado no primeiro ano do século XX, 1901, o navio foi baptizado “Numantia”, numa premonitória homenagem à lendária cidade de Numancia, na antiga província Romana, Hispânia. Com 122 metros fora a fora, 16 metros de boca, quase 4500 toneladas de arqueação bruta e aproximadamente 8000 toneladas de arqueação líquida (Sistema Moorsom), o novo cargueiro a vapor, então moderno e eficiente, serviu a nação germânica até Agosto de 1914. A primeira grande guerra ditou o bloqueio naval Britânico a todos os portos Germânicos. Impossibilitado de regressar à Alemanha, o navio rumou ao porto de Mormugão, colónia ultramarina de Goa, Índia, onde lhe foi concedido refúgio ao abrigo da neutralidade que a jovem República Portuguesa mantinha no conflito.

Eis que em 7 de Fevereiro de 1916 tudo se altera. É promulgada a lei nº 480, ao abrigo da qual o governo Português legítima a “requisição de todos os meios de transporte julgados indispensáveis à economia nacional”. Este primeiro passo rumo à beligerância, à época justificado pela necessidade de salvaguardar o comércio colónial, mais não foi que um sintoma da nossa condição de protectorado Britânico. Provou que a jovem república, depois de muito criticar o deposto regime monárquico, não se libertara da subserviência ante o Reino Unido. Portugal observa assim a velha aliança, mas não declara guerra ao Império Germânico, decreta. A 23 de Fevereiro de 1916, o governo mandou publicar o decreto nº 2229, o qual determina a apreensão dos setenta navios Alemães refugiados em território Português. A resposta Alemã, sob a forma de ultimato, exigindo a devolução dos navios foi ignorada, pelo que a brilhante iniciativa legislativa obtém o resultado desejado: a 9 de Março de 1916, a Alemanha declara guerra a Portugal.

A Nação aceita o enorme custo da guerra em troca de uma vasta e moderna frota de navios mercantes, muitíssimo superior à capacidade de investimento e produção naval nacional. Milagrosa resolução desse défice. É neste contexto, com a missão de gerir a nova frota, que nasce a companhia “Transportes Marítimos do Estado” (T.M.E). Contudo, negociações anteriores ao iluminado decreto, garantem o usufruto de 80% desta frota de navios ao Reino Unido, através de contracto de fretamento com o armador Furness, Withy & Co, o famoso contrato Furness. A frota alemã servirá sobretudo o interesse Britânico: à razão de um preço por frete muito inferior aos valores de mercado (<50%) e com prémios de seguro ridiculamente baixos. Acresce a fórmula de cálculo, que em ambos os casos, frete ou perda do navio, tinha por base a arqueação bruta e não a líquida, isto é, com base no peso do navio e não na sua capacidade de carga (a única relevante para o fretador). Condições ruinosas para o armador estatal, válidas ao longo de um prazo singelamente definido por “Seis meses após o fim da guerra”. Uma PPP com garantias do estado Português, em benefício do Britânico e com o patrocínio da iniciativa privada Alemã.

Uma vez reparados os danos resultantes da sabotagem perpetrada pela tripulação teutónica, o “Numantia” foi rebaptizado “Pangim”, em homenagem à cidade Indiana do Império Colónial Português. Recebe tripulação Portuguesa e serve os aliados durante a vigência do contrato Furness, período ao longo do qual vive múltiplas privações e vergonhas, normalmente resultantes da sistemática falta de pagamento do armador estatal aos seus fornecedores. É conhecida uma longa e ruinosa estadia do navio e sua tripulação no porto de Antuérpia, Bélgica. Nada que se compare com o caricatural exemplo do vapor “Sines”, que em Cardiff, País de Gales, esteve arrestado de Fevereiro de 1921 a Janeiro de 1922, vivendo a tripulação em precariedade tal que se viu obrigada a carregar terra para bordo, e nela plantar uma horta em pleno convés do navio. Avulsos exemplos das metodologias e práticas em vigor nos T.M.E, organização verdadeiramente a saque por funcionários e agentes, com um histórico de fraudes e roubo tão vasto e diversificado que pede meças em criatividade e audácia com qualquer outro “caso” da actualidade. É perfeita a analogia com o desfecho do caso BPN: No fim pagámos todos.

Após um longo e complexo processo de liquidação dos T.M.E, o navio é devolvido à iniciativa privada em 1926, ano em que é adquirido pela Companhia Colónial de Navegação (C.C.N.). Recebe então o terceiro e último baptismo, “Cassequel”, também em homenagem a uma cidade do Império colónial, em Angola, desta feita. Fez carreira na Europa, arquipélagos Atlânticos e na África Ocidental Portuguesa, navegando sem sobressaltos até 1933.

Foi em Agosto deste ano que o navio enfrentou um grave incêndio, deflagrado nos fardos de palha destinados à alimentação dos animais que transportava. Navegando de proa ao vento e com a intrépida intervenção da tripulação, o fogo foi controlado. O navio chegou a bom porto pelos seus próprios meios, mas o incêndio foi de tal forma violento que danificou seriamente a superestrutura e destruiu completamente o mastro grande, a meia-nau. Após a reparação, o “Cassequel” viu a sua superestrutura melhorada, pelo que ficou também habilitado ao transporte de passageiros. Foram também adicionadas duas gruas em substituição do mastro perdido. Superado o desafio, melhorado após as reparações, o navio retomou a sua actividade.

A normalidade foi interrompida com o início da segunda guerra mundial. Tendo sobrevivido à primeira guerra, o navio enfrentou a segunda sob protecção da neutralidade Portuguesa. O velho “Cassequel” partiria uma última vez de Lisboa no início da tarde de 13 de Dezembro de 1941. Rumou a sul, em direcção à África Ocidental, com 9 passageiros, 48 tripulantes e uma considerável carga de gasolina a bordo. Comandava Sebastião Augusto da Silva, meu bisavô, pai do pai de meu pai, senhor meu avô. Decorridas mais de 24 horas de viagem, o navio é atacado durante a noite de 14 de Dezembro de 1941, numa posição a mais de duzentas milhas a sudoeste do cabo de São Vicente. O agressor, o submarino Alemão U-108, lançou um torpedo que às ordens do Capitão Kalus Scholz foi apontado à popa do velho vapor, destruindo o leme e a hélice, imobilizando o navio. De pronto foi dada a ordem para abandonar o navio. Arriadas as quatro baleeiras, e apesar de uma delas se ter inicialmente virado, breves minutos bastaram para que todos os tripulantes e passageiros embarcassem nos salva-vidas. Imerso e a coberto da noite, o U-108 nunca foi avistado por nenhum dos náufragos. Através do periscópio, terá o seu Capitão confirmado que todas as baleeiras se afastavam, momento em que ordenou o lançamento do segundo torpedo, desta feita apontando a meia-nau, directo à carga de gasolina a bordo. A enorme explosão partiu o velho vapor a meio, precipitando um afundamento quase instantâneo. Seis dias mais tarde, a 20 de Dezembro de 1941, o navio da Armada Portuguesa, “NRP Douro“, resgata a última das quatro baleeiras. A bordo estavam dez tripulantes, dois passageiros e o meu bisavô, que recebeu com agrado a notícia que todos náufragos estavam a salvo, sem vítimas a registar.

O “Cassequel” cumpriu assim a premonição do seu primeiro baptismo, “Numantia”. O seu arresto em 1916 traiu a neutralidade que o atraíra a território Português, traição devolvida em 1941, com o seu torpedeamento apesar da neutral credencial Lusitana. Qualquer semelhança com a actualidade nacional, é pura obra do destino traçado para a Nação que se fez Estado quando um filho fez guerra à sua mãe. Ouro do Brasil, frotas de modernos navios, fundos estruturais ou moeda única, sabemos que para cada oportunidade estará reservada a respectiva tragédia. É fado, sem saudade ou memória. Por vezes agraciada com as riquezas do mundo, a nau Portugal é com a mesma frequência vítima de si própria. A tripulação não aprende. Ao Leme esteve sempre quem mandou, raras vezes quem sabia mandar.

É sabido que “Quem o alheio veste, na rua o despe”. Porque que o esquecemos tão facilmente?

Inato Repúdio

Imperio Romano e Imperio CartaginêsAs Guerras Púnicas foram travadas entre as cidades de Roma e de Cartago. A primeira, de 264 a 241ac, começou pela disputa da cidade e estreito sicilianos de Messina, confronto ao qual se seguiu a maior batalha naval da antiguidade, Ecnomus em 256ac. Os posteriores avanços e reveses ditados por tempestades obrigaram o Imperio Romano a construir grandes frotas, navios com os quais a cidade destronou Cartago como a maior potência naval do mediterrâneo. Após os combates no norte de África, o conflito regressa à Sicilia, pelo que o medo precipitou o senado a nomear o primeiro dictador Romano, Aulo Atílio Calatino. O desfecho da batalha das Ilhas Aegates ditou a vitória Romana.

A primeira Guerra Púnica teve custos elevadíssimos para as cidades beligerantes, arrasando ambas as economias. Os termos do armistício visaram a rápida recuperação económica de Roma, pelo que foram especialmente penalizadoras para Cartago. As indemnizações pagas a Roma foram de tal forma elevadas que a economia de Cartago não disponha dos recursos necessários. Tal ditou a necessidade de Cartago intensificar e endurecer a tomada de povoações na Hispânia, territórios aos quais extorquiu toda a riqueza com o fito de cumprir os termos da paz com Roma. Curiosas, ou talvez não, são as consequências desta austeridade. Tal como os termos do tratado de Versalhes no sec. XX ditaram a inevitabilidade da segunda guerra mundial, as condições impostas por Roma a Cartago, não só não evitaram novo conflito, como foram a causa da barbárie praticada contra os povos da península ibérica. As crises económicas não se resolvem, deslocam-se…

Inevitável que foi, a segunda guerra púnica deu a conhecer ao mundo um dos melhores estrategas militares de todos os tempos, o General Aníbal. A sua derrota, ofereceu grande prestígio a quem o venceu na Batalha de Zama em 202 ac, o general Romano Cipião Africano – o Velho. Este prestigio foi manchado pela suspeita de suborno por parte de quem acolheu Anibal após a derrota de Cartago, o rei Antíoco III Magno, descendente de Diádoco de Alexandre – o Grande e herdeiro do Império Seleuco. Indignado com a suspeita, Cipião exilou-se até ao final da vida na Hispânia, onde terá ditado o seu epitáfio “Minha pátria ingrata não terá meus ossos”.

A terceira e derradeira guerra púnica resultou do temor Romano, e do velado desejo do seu senado ver a cidade de Cartago arrasada. A missão foi atribuída ao neto adoptivo de Cipião Africano – O velho. Homónimo de seu avô, o general romano Cipião Africano – o Jovem, pôs fim à contenda em 146ac, ano em que sob o seu comando a legião Romana destruiu a cidade de Cartago.

Extinta a ameaça externa, o império Romano concentrou-se na gestão das suas províncias. Muitas batalhas foram travadas na Hispânia, do Ebro ao Douro. Os povos Celtas aí residentes, muitos deles migrados da Lusitânia, foram protagonistas de uma longa e dura luta contra o império Romano na Península Ibérica. Nomeado pelo senado e aclamado pelo povo de Roma, Cipião Africano – o Jovem foi o homem escolhido para “pacificar” definitivamente as províncias romanas. Decorreria uma década até concretizar este objectivo de ajustamento.


As oppidas (oppidum), povoações fortificadas da idade do ferro estiveram no centro da estratégia dos Celtibéricos na luta contra os Romanos. Entre elas, Numância destacou-se pela resistência a um prolongado cerco. Não por um desfecho vitorioso, mas sim pela lenda em torno da sua total e definitiva derrota. Reza a lenda que em 133 ac, a maioria dos habitantes de Numância cometeu suicídio, preferindo morrer livre a servir Roma como escravo. O vitorioso General Cipião Africano – O Jovem não colheu qualquer glória em Numância.

O romantismo da lenda esconde práticas tão decadentes como o canibalismo, mas relembra-nos da mais inata características dos povos ibéricos: Acolhemos todas as culturas, mas nunca nos subjugámos aos imperios!

Dupond e Dupont

Fez hoje exactamente um mês que Dupond e Dupont dividiram tarefas. Conciliaram valores antagônicos e cumpriram as suas obrigações morais na íntegra. Dupond foi à luta. Dupont foi às compras. Com a preciosa ajuda da média, o país dividiu-se. Condenou e Apoiou. Suprema ironia, Dupond e Dupont estiveram de acordo. Diria mesmo mais, não desconcordaram.

Foram nitidamente ajudados pela experiência adquirida no deserto há muitos anos atrás. Compreenderam que tal como eles à época, os Portugueses seguem hoje as próprias pegadas para encontrar a saída do deserto de esperança em que se encontram. Como sempre, os Policiais de Hergé descortinaram o óbvio. Já o Português não. Precipita-se, pois não quer perder a oportunidade de criticar o seu concidadão. É estrutural! Nunca a Nação sofreu de qualquer défice de culpados ou juízos morais ao próximo. Não sou excepção, pelo que há data classifiquei a dicotomia do “dia do trabalhador” vs “dia do consumo” como decadente. Dignificante, por certo que não foi, mas o principal alarme de decadência não suou.

O alvo do Pingo Doce mudou, porque o consumo mudou. Até aqui visava a classe media urbana, procurando diferenciação clara do seu concorrente directo, o benemérito “Continente”, posicionando-se um degrau acima na escada social. Contudo, a contracção do consumo neste segmento socioeconómico é muito significativo. Muito mais do que o desejado por sindicatos e confederações patronais. Quem tem maior poder de compra, ajusta os seus hábitos de consumo com relativa facilidade. A maior abundância de supérfluo no cabaz típico, facilita uma rápida redução do custo. É simples, compram-se menos (a nenhuns) pacotes bolachas ou refrigerantes. O Pingo Doce desceu um degrau.

É este o alarme que não se ouviu nos locais que o país elege para os debates decisivos (por vezes importantes), i.e., as esplanadas e os cafés. Apaixonamo-nos por polémicas, mas abstemo-nos nas decisões. Fazemos de Dupond e Dupont verdadeiros génios, brilhantes na análise e eficazes na acção. Nem Hergé o imaginou possível, destinados que estavam ao papel de palermas…