Author Archives: Mafalda Dias

E depois de Hiroshima e Nagasaki?

Fez hoje 70 anos que os EUA lançaram sobre Hiroshima a primeira das duas bombas atómicas que levaram à rendição do Japão na 2ª Guerra Mundial.

Três dias depois, fará no domingo 70 anos, foi lançada a segunda bomba em Nagasaki.

11 h Nagasaki

A investigação cientifica, o investimento em armas, a economia de guerra, a vontade e a acção humana mataram no Japão mais muito mais das 200 mil pessoas, número redondo, que morreram queimadas com o calor e o fogo. Outro número redondo qualquer bastante mais impreciso, forma o número de pessoas que vieram a morrer meses e anos depois devido à exposição à radioactividade. Os efeitos causados fez com que os seus sobreviventes transmitissem as lesões para as próximas gerações. Ainda hoje, crianças nascem com problemas genéticos causados pela radiação das bombas. As bombas varreram as cidades de Hiroshima e Nagasaki, levando tudo, prédios, pessoas, animais, árvores, tudo, afectou os solos, entrou na própria genética daqueles que sobreviveram a este horror, e manchou para sempre a Humanidade.

Hiroshima

Sombras de Hiroshima

Nagasaki

Não existe dignidade na guerra. E é nestes momentos que me apetece malhar nos americanos… Não por Hiroshima nem Nagasaki, porque só nos resta um silêncio ensurdecedor e o fingir esquecer aquilo que jamais poderá ser esquecido… mas porque mantém uma economia da guerra, porque fazem dinheiro com a guerra, porque fazem guerras simplesmente porque sim (como com o Iraque que quiseram porque quiseram ir chagar o Saddam devido às armas de destruição massiva que nunca foram encontradas!), porque vão para o Afeganistão e a coisa é sempre pintada em forma de ameaça à paz mundial, temos lá nós ferramentas para avaliar a situação… resta-nos acreditar nos jornais, no presidente sempre idóneo dos EUA e nos chamados peritos (que de resto estamos na era deles!). E assim foi a segunda metade do séc.XX, e assim se entrou no séc XXI e estamos em 2015 e só se houve falar das ofensivas americanas.

Não quero discutir as razões para os conflitos armados em cada década e a cada guerra. Quero apenas recordar aquilo que me esmaga enquanto ser humano: os milhares de pessoas mortas, feridas, sobreviventes e gerações seguintes, todos vítimas há 70 anos da bomba atómica.

E quero recordar que as décadas seguintes a este verão de 1945 foram de corrida ao armamento, com imensos pretextos, e que armas bem mais poderosas e destrutivas estão desenvolvidas. O ensurdecedor silêncio não chegou!

E falamos do euro, da gorda alemã, do Bruno Maçães que é um idiota mas não é pior do que todos os outros, falamos das eleições, falamos muito de precariedade mas pouco das suas consequências práticas, e de quando em vez ouvimos as ofensivas americanas, e no outro dia foi a mega ofensiva turca contra jihadistas e curdos do PKK, que são obrigados a lutar para sobreviver… mas de Paz falamos tão pouco! E do Desarmamento nem falamos… Armam-se porque os outros se armam, há discussões e pressões para o acesso à bomba atómica, há quem desista, há quem jure que não tem, há quem tenha e nem jura… Quando deveria-se jurar era o efectivo compromisso de desarmamento nuclear mundial!

Mas depois de Hiroshima e Nagasaki nem sei como a poesia sobreviveu, mesmo depois de ter sido dada como morta. Será isso aquilo a que chamam esperança?


Hiroshima

Grécia, será que racha?

Eu acho desde o inicio que nem vai nem racha! As negociações sobre a Grécia são confusas, atropelam-se em novidades, em acertos, prolongamentos, indecisões, momentos quentes, negações, ameaças… É um braço de ferro politico! É a Europa a tentar disciplinar um país!

A informação é a toda a hora, e de facto se houve coisa que esta crise em 2008 me fez mudar foi a importância que dou ao imediatismo. Esta urgência dos prazos, este jorrar de informação contraditória, este entendimento seguido de desentendimento, faz com que eu não queira embarcar nesta onda em mar revolto, e fique a olhar para a tempestade a ver a rebentação e à espera que chegue a mim a onda ou acalme para que nela possa mergulhar segura. Toda a informação imediata se desactualiza e nos impede de reflectir sobre ela, porque a seguir vem outra e outra e outra. Para nos ajudar temos opiniões, crónicas e comentadores, que falam em números e pacotes, mas muito pouco naquilo que realmente importa. E assim temos informação, opiniões e conclusões, e não temos que pensar. E o que eu vejo nesta tempestade é um partido de esquerda que ganhou as eleições na Grécia, mas que foi muito mal recebido na Europa. O Syriza, esses loucos da esquerda radical, completamente fanáticos, anti europa e que no final mostraram ser tudo menos radicais, fanáticos e anti europeus. O Tsípras e Varoufakis logo se empenharam em conversar com os parceiros europeus, exporem as suas ideias, num esforço de diálogo e negociações de modo a chegarem a um entendimento. Mas Angela Merkel logo avisou a Grécia.

Desde então o objectivo passou por tentar derrotar todas as possibilidades que poderiam ser levantadas para que o projecto do governo grego fosse a bom porto. Para a União Europeia, a Troika, o FMI, a Alemanha, França, não existem alternativas. A doutrina TINA (There is No Alternative)  propagandeada pelos partidos dominantes e representativa dos interesses da alta burguesia europeia, assegura as transferências da riqueza do trabalho e políticas de ajustamento em programas de austeridade que atacam direitos sociais elementares em toda a Europa, mas principalmente nos países intervencionados. E não há alternativa! Nem democracia, como é lógico! A alternância será o financiamento com o banco dos países BRIC’s (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e com todo o interesse para a o governo da Rússia e para alguns russos. A Grécia terá sempre que pagar o que ficar acordado, nos termos que lhe sejam impostos.

Após o prolongamento do plano de austeridade em Fevereiro por 4 meses, havia que renegociar agora. O Tsípras e o Varoufakis negociaram. E cederam, e cederam, e cederam tanto que o programa proposto é o prolongamento da austeridade. O programa é já visto como pior que o memorando. E afinal onde está o radicalismo? Eu arrisco dizer que as pessoas tendem a assumir uma posição de classe neste processo negocial entre o governo grego e os credores. Para os que vêm futuro na Europa, as negociações entre o governo grego e a Europa foi um sucesso na medida em que a Grécia se possa manter no euro e as medidas negociadas são mais vantajosas que as inicialmente colocadas em cima da mesa, não colocando em causa a estabilidade europeia. Para quem acha que a dignidade de um povo e de um país não tem preço, este suposto acordo atingido é uma clara derrota. O Tsípras falhou, o Varoufakis falhou, e a Europa mostra que independentemente do governo eleito, as políticas entre os países não mudam e a soberania nacional está completamente subjugada no eixo Berlim-Paris, com a conivência dos demais países e independentemente do que seja melhor para o país em questão. O acordo é um falhanço para várias camadas sociais gregas, um claro ataque aos trabalhadores e aos mais desprotegidos, para além do efeito negativo nas lutas sociais e sindicais por toda a Europa. E eu penso que seja por isso mesmo que Tsípras e Varoufakis decidiram referendar o acordo que lhes foi imposto. Tendo ganho as eleições com a promessa de negociação com os credores e o fim da austeridade (dois pressupostos que se vislumbram incompatíveis, porque lá está, não há alternativa), e sendo este acordo, e segundo eles, uma humilhação para o povo grego, decidiram colocar este acordo a referendo, uma vez que em boa verdade, não têm legitimidade democrática para o aplicar. Estou curiosa no entanto, para saber qual será a recomendação de voto do Syriza. Todavia, este é um acto de honestidade e uma declaração de derrota da parte do governo grego. Mas a Europa é anti democrática, e não aceita o referendo, pois não aceita que os credores sejam colocados sob escrutínio popular, até porque a austeridade só pode ser imposta e não referendada. Esta é, no entanto, uma jogada perigosa tanto para o Syriza como para a Europa. Se a Grécia for para eleições antecipadas este ano, vai ao mesmo tempo que Espanha e Portugal. E em Espanha está o Podemos a apelar ao mau comportamento de voto. Tsípras com Pablo Iglésias, fundador do Podemos

A questão é que a Grécia não consegue reembolsar nos termos que lhe são impostos. E o valor moral de pagamento de uma dívida não deve estar acima de tudo, independentemente do custo social do mesmo. Mas no entanto, não é este o pensamento das instituições europeias mediante um país que elegeu um governo que não é do agrado nem da cor das instituições europeias. Por outro lado, a Europa não quer deixar que a dívida seja colocada em causa, nem o seu pagamento nem a sua origem. As dívidas dos países são um negócio para outros países e para muitos investidores e credores, e os interesses estão assegurados pelos tecnocratas no poder dos países europeus. A perda dos investidores, sejam eles a banca, países ou ilustres singulares, é bastante mais importante do que a perda de dignidade de um povo. Repensar a dívida é repensar toda a economia e a estrutura financeira, e isso não seria uma crise, mas uma revolução!

A Grécia vive uma crise humanitária, que foi falada em tempos na comunicação social mas que hoje é silenciada. O desemprego é um flagelo social, com apoios sociais sucessivamente cortados, quase sem direito à saúde. A miséria instalou-se. O novo acordo só vem piorar ainda mais tudo aquilo que aquela gente já sofreu. Há momentos na história decisivos. Há momentos em que se defende a barbárie, e essa é sempre defendida e legitimada por aqueles que também são vítimas, foi sempre assim que se instalou a barbárie e a exploração. Mas há sempre quem se impõe, quem nega, quem luta, quem diz não! Contudo este não é o momento em que os euro-cépticos ganharam a ideia de que a Europa é impossível, e também não é o momento em que os europeístas convictos e bem intencionados caíram do seu sonho de uma Europa democrática e solidária. Este é apenas mais um momento em que se vê que o grande império europeu, criado sob o signo da paz e da cooperação, foi assaltado por uma ideologia ultraliberal que quer legitimar a exploração das pessoas em nome do sacro santo lucro, juro e propriedade. E assim os países do sul tem sido assaltados, com governos tecnocratas obedientes, sem legitimidade democrática para a implantação das medidas de austeridade e sem legitimidade para a expropriação (através de atractivas privatizações a preço de saldo) de empresas públicas e bens públicos e de direitos sociais conquistados. Esta é a conquista das nações e das populações através da dívida.

Mas é em tempos obscuros que a luz da liberdade é acendida e se nega a barbárie e se conquista o futuro. Não sem imensas dificuldades mas com a mais convicta confiança na vitória e no futuro. A transformação só pode ser operada pela mobilização, organização e acção dos trabalhadores, assim como dos desempregados e pensionistas gregos, com a solidariedade de todos os trabalhadores europeus conscientes politicamente do momento actual. O resultado da auditoria cidadã à divida grega espera-se honesto. A origem da dívida deve ser assim apurada e se houver uma parte que seja odiosa não deve ser paga pelo povo que não a contraiu. A dívida deverá ser paga se e quando houver condições para a pagar. Deverá haver coragem para uma profunda transformação das instituições gregas que conduziram à dívida de modo a que mais dívida não seja gerada. Mas também uma profunda transformação nas instituições europeias que fomentaram o apelaram ao endividamento dos Estados em 2008 para salvar a banca e que agora exigem que sejam as populações a pagarem essa dívida. E o Syriza deve manter-se fiel ao povo que o elegeu, sem vaidade nem vitorias pré anunciadas, defendendo os interesses de quem os elegeu e não os interesses dos que se sentam do outro lado da mesa.

O País do Eça de Queiróz

A gestão de oportunidades no país do Eça de Queiroz mantém os contornos da época, já na altura atrasada. Com a crise financeira, que na altura do Eça já eram traço característico deste “país paris onde me deito”, a gestão de oportunidades torna-se mais exigente. As oportunidades estão coladas aos centros de decisão. Em todos os países, os oportunistas, capitalistas, taxistas, graxistas ficam próximos dos centros de decisão, tentam influencia-los e conseguem, tentam comprá-los e frequentemente também conseguem. Ramires sabia-o! Mas esta é uma terra de oportunidades! Em países desenvolvidos, os agentes que ocupam os cargos dos centros de decisão, apesar das pressões, das influências, não esquecem por completo a sua missão, os seus objectivos, sejam eles governar uma nação, gerir uma empresa pública, gerir uma empresa privada, presidir a um banco. Sabem que terão que prestar contas. Na colisão de interesses, há o chamado pudor ou prudência. Aperfeiçoa-se lá fora a arte de negociação e da conciliação. Se, por ventura, tiver faltado a vergonha e se tornar pública, a demissão é imediata. No país do Eça de Queirós, porém, já nem é feito o esforço por mentir bem, não é dada a preocupação de se fazer uma negociação parcial nem que seja para entreter os tolos, não é feito o mínimo esforço para minorar o preço dos interesses privados quando estes se sobrepõem aos interesses públicos. Neste “país de rabichos e aldrabões”, todos os dias, o interesse público é ostensivamente passado para segundo plano. Neste nosso país, os governantes são apanhados em falso mas nem isso os demove.

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Nesta relíquia de país herdada de uma tia Patrocínio, a gestão de oportunidades é algo feito com muita minúcia. A chamada cunha é precisa para tudo: para o emprego no banco do estado para a filha de um empresário que no Ribatejo que está ligado à construção das estradas, para o concurso a carreira diplomática cujo exame é conhecido pelos filhos dos diplomatas, pelo contracto ainda que precário que se segue ao estágio e só existe porque o estagiário é filho de uma pessoa ligada ao sector onde a empresa opera. A rede social não é importante, é essencial para quem deseja chegar a algum lado. Para ganhar um concurso publico numa obra pública cujo empresário é amigo íntimo do presidente da câmara, mas também para ganhar um concurso para dar formação, na função pública ou na segurança social, a desempregados ou a pessoas em desintoxicação em alguma comunidade evangélica qualquer que vive dos drogados, bêbados, da Segurança Social e da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Mas não só no sector publico. Para aceder a um cargo numa empresa privada também, para prestar um serviço a essa mesma empresa, para dar formação nessa mesma empresa. A rede social é importante e até certo modo diminui os riscos da incerteza quanto ao desempenho dessas funções. O problema é quando essa rede social funciona como a gestão de oportunidades apenas para quem tem acesso a essa rede, criando uma legião de excluídos, com mérito, mas que não têm oportunidades. Daí nasce a emigração de jovens que nem tentam arranjar emprego cá, ou de jovens que se cansaram desta dinâmica e optam por emigrar. E daí também nasce um enorme custo para a sociedade e para as próprias empresas e instituições.

A antiga directora, durante anos, de uma faculdade de economia, a Dra. Fátima Barros, não sendo por isso o Conselheiro Acácio, referiu uma vez, numa apresentação, que o mais importante que os alunos levariam da faculdade não era o conhecimento adquirido, ou seja a formação académica por excelência, mas a rede social, as pessoas que ali conheciam e que mais tarde poderiam dar jeito, porque bons são todos, mas conhecer a pessoa certa é que nem todos conhecem. Atitude talvez pedante mas certamente sincera, que merece a revolta mas que traduz fielmente parte da funcionalidade da sociedade e reproduz a atitude das escolas de gestão, sobre as quais recai também o debate sobre o que nos trouxe à crise de 2008.

O primo Basílio, “que foi o pai das minhas sensações”, é agora um grande empreendedor. Foi ter com o Ramires a Angola e são sócios em importantes investimentos. Ramires já não conta regressar à política, depois de nela ter desonrado os seus ancestrais antepassados. Pensa que  mesmo com o preço do petróleo a ameaçar a economia angolana e a assustar os seus colegas empreendedores, que temem a ruína, isso será passageiro.

Luísa continua a sonhar com Basílio e com as suas conversas de alcova, sempre cheias de aventuras. E a empregada Juliana, arreliada e amargurada pela inveja e pelo cansaço de uma vida de trabalho, para ter no fundo tão pouco, continua a tratar das roupas com cheiro a amor e traição.

A desconstrução do género no dia da mulher

Hoje, no dia da mulher, gostaria de trazer uma das mulheres que mais admiro e de certo modo, até invejo, a Judith Butler.

A inveja é em mim um sentimento extremamente raro, e por isso, para mim, estranho. A Judith Butler é a autora que nos anos 90 surge com uma nova proposta de género, absolutamente revolucionária e que ultrapassava os esquemas categóricos que dominavam todo o pensamento de género até à altura. Com a obra “Gender Trouble” ela rompe com tudo o que as feministas da primeira e segunda vaga disseram, abrindo assim caminho ao Feminismo de Terceira Vaga. O que vos trago hoje é, resumidamente, o essencial do contributo de Butler para o feminismo e para todo o pensamento de género.

Butler criticou a incapacidade demonstrada pelas feministas de 2ª vaga em romper com a concepção normativa de género, binária, entre homem e mulher, ignorando aquilo que realmente incomodava, a total ausência, como se não existisse, uma ausência surda e que estava na essência da manutenção deste esquema de pensamento: a transsexualidade.

Por outro lado Butler vem chamar as vozes das mulheres que não tiveram voz no feminismo, as mulheres excluídas, porque inseridas em grupos também eles excluídos: as mulheres negras, a voz das mulheres colonizadas, as mulheres do Terceiro Mundo, as mulheres trabalhadores das classes mais baixas. Fez assim uma forte crítica ao elitismo dos feminismos anteriores, de mulheres brancas burguesas, que analisaram somente a condição das mulheres da classe a que elas próprias pertenciam. Butler vem então romper com o feminismo de classe, feito não só pela burguesia mas também pelo feminismo das correntes socialistas.

Judith Butler vem então romper com a dicotomia entre homem e mulher e com o essencialismo em que muitas feministas caíram assim como os estudos femininos e masculinos. Ao afirmar a pluralidade gigantesca de mulheres sem que as mesmas constituam um grupo homogéneo, invalida-se as teorias feitas até então face à sua representatividade das verdadeiras condições das mulheres, mas apenas a condição de algumas mulheres. Butler pretende acabar com esta ilusória universalidade, trazendo à tona conflitos que estiveram presentes na construção da identidade da mulher representada no movimento feminista, e que mais não era do que o estabelecimento do centro através das margens.

É portanto assumindo a multiplicidade de identidades que Butler parte para uma análise de género baseada na subordinação. Para ela o problema de género não é a desigualdade e a subordinação da mulher ao homem, mas antes as identidades de género que ocupam uma posição subordinada nas relações de poder, tal como a mulher, o gay, a lésbica, os transgéneros. Deste modo, Butler agarrou nas identidades de género masculinas e femininas e procurou desvincular as diferenças biológicas dos comportamentos esperados dos homens e das mulheres. Butler argumentou então que esses comportamentos não eram de ordem natural mas sim produto de regras sociais que determinam um conjunto de características e comportamentos que distinguem o masculino do feminino e reproduzem a diferença institucionalizada entre homens e mulheres. Esta visão estende-se também à interpretação dos estilos corporais, nomeadamente a forma de andar, de se vestir e de estar em sociedade. E é aqui que Butler justifica a dicotomia existente entre sexo-género, em que o género reproduz a identidade sexual visível dos corpos. Deste modo o processo de construção de género é limitado pelo sexo, ou seja, pelas características biológicas de uma suposta essência, à qual a cultura atribuiu significados simbolicamente imutáveis e inquestionáveis: o do masculino e do feminino, e toda a cultura gira em torno desta dicotomia. É na anatomia dos corpos que a dicotomia sexo-género encontra a estabilidade para se assumir como universal. Há a apropriação dos corpos como protutos culturais, dos quais se fazem interpretações também elas culturais das diferenças de género.

Contudo é na biologia que Butler se vai apoiar para combater exactamente aquilo que a sociedade afirma como biológico, o macho e a fêmea. Porque esta dicotomia não justifica a existência de intersexos, de homosessuxuais e transexuais. A heteronormatividade encaixa na dicotomia, explica provavelmente uma boa parte da realidade, mas não a total. De fora ficam todos aqueles que não se inserem nestas categorias: homem, mulher, heterossexual. Estas categorias, construídas pela diferença, produziram uma série de marginalizados que não se inserem no centro. Esta norma tem uma enorme força social, é uma construção cultural de comportamentos esperados, que são repetidos todos os dias numa tentativa dos sujeitos se adequarem à norma, ao centro, e que levam a mulher a ser “feminina” e o homem a ser “masculino”. Este comportamento não é, contudo, um acto inteiramente livre, mas um esforço para ir de encontro ao que a sociedade espera que as pessoas sejam. Há assim uma necessidade de se reafirmar a própria sexualidade, todos os dias, criando a ilusão da naturalidade do feminino e do masculino, pois a heterossexualidade é regra obrigatória da sexualidade, a regra da feminilidade e da masculinidade.

E assim nasce a famosa Teoria Queer, que incorpora três dimensões: sexo, género e sexualidade. Sexo enquanto identidade biológica, que não tem que ser binária, e com suporte da biologia, o sexo é uma variável contínua como outros atributos humanos, como a cor da pele, a gordura nas ancas, o tamanho dos seios ou a cor dos olhos. O género como representação de palco, repetidamente demonstrada pelos seres humanos. Sexualidade enquanto desejo sexual por outro. Butler encontra então, nas Drag Queen a resistência à performance feminina. Porque as Drag Queen são a representação da subversão, da imitação da artificialidade feminina socialmente fabricada, desconstruindo a identidade de género e a sexualidade, constituindo para Butler a “imitação e a insubordinação de género”.

Mais do que diferenças entre mulheres e diferenças entre homens, o que é aqui proposto é uma diferença entre indivíduos e dentro dos próprios indivíduos. Entre os indivíduos porque cada um é diferente entre si, rompendo com as categorias per si, uma vez que o pensamento categorial não nos consegue explicar as verdadeiras diferenças, mas apenas as diferenças do centro em relação à margem, e sobre o que é o centro. Então, se o género não é um facto social imutável, toda a sociedade poderá ser questionada e pode ser vista como potenciando diferenças radicais. Romper com as categorias é romper com um esquema de pensamento que marginaliza, que não explica os factos, mas apenas a visão de algumas características por contraste da diferença. Esta é também uma proposta de género da diferença dentro dos indivíduos porque permite a “contradição”, permite uma compreensão mais profunda e mais real do que é o sexo, o género e a sexualidade, que não têm que coincidir. Uma pessoa pode ser um intersexual, mas assumir uma performance de género de uma mulher e sentir-se atraído por mulheres. Porque o sexo não tem que coincidir com o género e estes últimos não têm que ter a si associados um determinado desejo sexual.

Deambulações à Esquerda

A Comissão dinamizadora do Movimento Juntos Podemos retirou-se e parece que a coisa não acabou nada bem. O colectivo da revista Rubra seguiu-lhes as pisadas e bateu com a porta. Confesso que não fui às reuniões posteriores à assembleia e não acompanhei o desenrolar de toda uma racha que se voltou a abrir entre os movimentos sociais em Portugal. O certo é que a coisa foi tão boa ou tão má, que a polémica tem feito bater os teclados nos blogues… E eu depois de umas gargalhadas cá venho humildemente, aqui que ninguém nos lê, rabiscar umas coisas.

Tal não é coisa que se estranhe. A Comissão Dinamizadora acusa o MAS (Movimento de Alternativa Socialista) de querer dominar o movimento. O MAS e o João Labrincha (da Academia Cidadã) acusam o PCP de boicotar o Juntos Podemos. Enfim… não se percebe patavina. Entendo que não fique bem haver partidos dentro de um partido (mas o Juntos Podemos já era partido e ninguém avisou?), mas não creio que isso fosse razão de cisão. O MAS não teve grande expressão nas últimas eleições, e não vejo como de tão pequeno tenha aspirações gigantes. E também não percebo o que raio impede pessoas de um partido ajudarem à criação de um movimento. Se formos por aí, todos os movimentos socias têm partido de militantes de partidos políticos. A questão é que o MAS se precipitou a tornar pública a sua integração num movimento que agora surge. Foi ingenuidade. E creio que o MAS é constituído por pessoas que querem mesmo mudar isto, e que se enquanto partido não o conseguem fazer sozinho, juntam-se a quem quer participar dessa mudança. Já as acusações ao PCP não as entendo…

Mas talvez a quem criou o Movimento Juntos Podemos, com intenções claramente eleitorais, não ficasse bem ficar ligado a um anão político como o MAS, que faz barulho nas manifestações, que é mal comportado, mas que não tem medo de assumir o que pensa, como prisão para quem roubou e endividou o país, o regresso da moeda nacional etc… Não fica bem ficar ligado a um partido que não cede aos jogos políticos, que é pequeno e que tem tanta coisa ainda para maturar. Mas que tem uma coisa, vontade de mudar, sangue na guelra, amor para transformar e raiva para lutar. E é o que no fundo todos têm. O que eles não têm é medo da explosão e da falta de controlo. E falta-lhes alguns traços característicos dos esquerdistas. Talvez essa seja a real questão: não nasce das fileiras intelectuais, não é snob o suficiente para debater filosofia politica, não está ligado directamente ao meio académico, não participa nos blogues “bem” da esquerda, e isso torna-o menor aos olhos das corujas da esquerda.

A questão talvez seja o protagonismo e o sentimento de posse por parte de quem cria os movimentos e que os deseja controlar. O sentimento de altruísmo e desapego é importante. A tolerância (que é escassa) é essencial… e não é à mínima coisa que se começa aos berros, em acusações e insultos. E outra coisa, a esquerda em Portugal ainda tem traços de hereditariedade. Ainda fica bem e dá estatuto ser filho de comunistas perseguidos, de sindicalistas assassinados, de anarquistas resistentes e inspiradores. Muitos ainda se legitimam nessa herança de família, na cultura desde o berço da esquerda, da ditadura que não viveram mas ouviram contar na primeira pessoa. Isso é interessante, valoriza o próprio, mas não legitima os propósitos! E assim se vai limitando a orientação dos movimentos sociais, porque as pessoas que os dirigem pertencem a uma elite criada no pós 25 de Abril, e ainda que arreigada a ideais hoje assaltados, mantém-se numa posição de conforto na situação actual.

E a questão é que se tem sido muito tímido em questões de se deixar levar os movimentos sociais avante. O QSLT era altamente fechado e secreto, não se abria a novos membros e só por convite expresso é que se poderia participar nas reuniões. Quando aquilo esteve a morrer com a debandada de muitos elementos decidiram fazer umas reuniões mais abertas, mas muito a medo… Tinham por único objectivo fazer Grandes Manifestações. Nada mais. Foram bons nisso. Mas poderiam ter sido muito mais audazes, mas a audácia eles negaram quando isso lhes poderia retirar a participação popular nas ruas ou o comprometimento em determinadas questões. Senão fossem os devisionismos e os assombros da falta de controlo teríamos hoje um outro tipo de movimentos sociais, mais maduros, com mais gente, a atraírem mais pessoas e com um outro tipo de actuação. Em vez disso, a Troika não se lixou, foi-se embora pelo próprio pé e os mesmos que criaram o QSLT mudaram-se para o POT. Há sempre qualquer coisa que impede que se arrisque e se avance, então nunca se sai da zona de conforto. É confortável para muitos andarmos na eterna guerrilha entre esquerdas, divisionismos, acusações baratas… E assim tudo isto mantém a ordem actual das coisas e enquanto se discute o que divide a esquerda (que todos já estamos fartos de saber) não se discute aquilo que a une.

E sempre que os problemas dos esquerdismos aparecem eu recordo o momento em que percebi o Álvaro Cunhal:

“No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista uma força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas e as massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…) Os radicais pequeno-burgueses são incapazes de compreender que os objectivos fundamentais da revolução não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os.” 

Álvaro Cunhal, «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», 1970.

E é impossível não concordar com Cunhal nisto. E verdade seja dita já vi pessoas ligadas ao BE a tentarem dominar e conduzir acções  (até na defesa dos direitos dos animais) mas nunca vi nenhum comunista impor o seu ponto de vista.

Todavia e agora sem Joana Amaral Dias para fazer “vistassa” aos olhos de homens mais vulneráveis aos encantos femininos, o Movimentos Juntos Podemos irá continuar. Parece-me que mais do que nunca avançará determinado à luta eleitoral. Foi hoje, na Ler Devagar, a reunião de preparação para a assembleia cidadã no Porto. Não estive presente e apesar de não pretender alterar as minhas intenções de voto, mas admitindo que há uma larga maioria que não se sente representada, e dado que o movimento avançará, convido todos a estarem atentos.

Espero sinceramente que mais do que um partido, não deixem morrer um movimento que pode colher a simpatia e a mobilização social para a transformação social urgente em Portugal. Porque há muito a fazer, famílias a serem despejadas, desempregados sem esperança, trabalhadores que não se conseguem sustentar com o salário que ganham, o SNS a colapsar, a TAP a ser vendida, a PT que já foi vendida e está agora à vista o resultado da privatização, a justiça inoperante, o ensino a ser precarizado, teatros a fecharem, conservatórios sem terem como abrir no dia seguinte, os transportes a ser literalmente gozados pelo governo, a RTP idem idem… E isto em parte porque temos permitido!

Juntos Podemos

Decorreu neste fim-de-semana a Assembleia Cidadã da qual saiu o movimento JUNTOS PODEMOS, por onde passaram talvez umas duzentas e tal- trezentas pessoas e onde se debateram muitas ideias, algumas repetidas mas muitas novas reflexões sobre as quais deixo aqui algumas notas:

– Ao longo do fim-de-semana foram muitos os que se dirigiram ao ISPA para darem o seu contributo ou simplesmente para ouvirem, algumas pessoas com intervenções passadas ou presentes em outros movimentos sociais, com histórico partidário e cultura política avançada, outros que certamente vinham pela primeira vez e isso é importante, e que constituíram uma assembleia heterogénea em termos de idades;

– Houve vários assuntos e grupos de trabalho com vertentes até aqui novas neste tipo de movimentos e fundamentais para dar várias dimensões ao activismo social, como a corrupção, a habitação, o TTIP (que é a porcaria do Tratado Transatlântico que basicamente e muito resumidamente se for aprovado isto vai ser uma m**da) com o compromisso de virem a ser tratados para futuro debate e desenvolvimento de actividade. Mas não só, a economia, o mercado de trabalho, as privatizações, o serviço público não foram esquecidos e relembrados como transversais a todo o movimento. Adicionalmente foi aprovado uma actuação no sentido de defesa da TAP como empresa fundamental e estratégica para o país, e o compromisso de todos nos solidarizarmos com os funcionários que neste momento travam a dura batalha não só de manter o seu emprego como manter a empresa sob alçada do Estado.

– Das intervenções dos convidados destaco a presença dos companheiros espanhóis do Podemos, que vieram enriquecer-nos com a sua experiência, principalmente a Carolina Bescansa, e que nos permitiram não só ver semelhanças e diferenças sobre a realidade portuguesa e espanhola como nos ajudaram a pensar um pouco o nosso país. Destaco também os convidados nacionais, o José Bateira que trouxe o debate sobre a economia e deu alguns contributos para uma ideia da qual me tenho vindo cada vez mais a aproximar e que há uns anos atrás eu acharia idiota, que é a questão das nossas possibilidades dentro do Euro e fora dele, e que apesar de não ser uma questão vinculativa não é um debate que deva estar fora não só da agenda de futuras assembleias como até do debate nacional. Assinalo também a intervenção da Raquel Varela, dentro do seu estilo muito próprio mas que elevou o debate para questões fundamentais como a dignidade no trabalho e do trabalho, o pensamento critico sobre o modelo económico em que vivemos e as possibilidades que podemos vislumbrar; assinalo também a intervenção da Paula Gil e do seu contributo para algo importante, que é a questão do papel fundamental de uma cidadania mais interventiva para uma mudança efectiva!

– Da votação final da Assembleia, saiu a data de uma nova assembleia, dia 24 de Janeiro de 2015 e a possibilidade do movimento evoluir para um partido, começando desde já a recolha de assinaturas para a eventualidade de ser essa uma das formas que o Juntos Podemos poderá assumir.

– Por último alguns pensamentos:

a) Parabenizar quem organizou durante meses esta assembleia e conseguiu trazer elementos do Podemos para que connosco estivessem;

b) Não sendo eu apologista da tomada enquanto partido, admito as vantagens e os inconvenientes que daí resultam. Por um lado a formação enquanto partido deveria ser uma decisão madura e só e apenas se a disputa pelo poder e eventual tomada se revelasse essencial e última alternativa para a defesa dos direitos. Mas como sempre os tempos são diferentes, não há tempo para maturar, não há tempo a perder, e o tempo eleitoral está a decorrer e com ele a esperança de mudança ou o medo da não-mudança. Todavia mais importante do que termos mais um partido, porque partidos interessados em defender o denominador comum que ali juntou tanta gente existem, o que não existe são as bases sociais de uma cidadania que defenda de forma dinâmica este mesmo denominador comum. Por isso creio que as energias se deverão concentrar na mobilização de todos aqueles que se queiram juntar para defender aquilo que nos poderá unir num movimento: a habitação, a escola pública, a água. Por outro lado existe uma maioria que não se sente representada e que anseia essa representação. Urge igualmente fazer tremer os partidos do arco da governação e evitar danos maiores, e aí a formação do partido é um acto de desespero. Mas esse desespero não deverá nunca ser aproveitado para a exaltação de alguns egos, que em política e em poder sempre aparecem. Apesar de não se ter tratado de uma participação de massas, podem ser construídas pontes de entendimento e enriquecimento mútuo entre o BE e o PCP, afinal alguns dos que ali participaram neles militam e outros tantos por lá passaram;

c) Por último um apelo a todos os que se queiram juntar ao Juntos Podemos que o façam. Será criada uma plataforma na web, de acesso livre e com toda a informação, havendo agora apenas a página no facebook, e os contactos reunidos na assembleia passada. Este será um movimento que vive para e da participação dos cidadãos na construção de um Portugal melhor, porque Juntos Podemos muito mais do que aquilo que imaginamos!

Seara que canta para o Mundo

Hoje, e após meses de enxurradas de escândalos e sapos que não conseguem mais estar debaixo do tapete, eis uma boa noticia: O Cante Alentejano é Património da Humanidade! Na verdade isto nem tem assim tanta importância, tem mais importância para nós e no dever de conservarmos esta parte da nossa cultura e do nosso património. Para além disso dá-nos mais uns pózitos de visibilidade lá fora e mais uma razão da exploração do turismo no Alentejo.

Isto é parte daquilo que somos, raiz de muitos portugueses, é o cante do povo, de um povo cuja história foi dura, vida de agruras e muito trabalho e exploração. Curiosamente o Cante Alentejano é elevado a Património Imaterial da Humanidade um dia depois dos 39 anos do 25 de Novembro de 1975, data que marca o fim do PREC… Quem comemorou Abril chorou Novembro, quem comemora Novembro chorou Abril… Passados 39 anos, quem construiu Novembro continua a governar-nos. Por isso, a todos os alentejanos que choram Novembro, esta é uma prenda merecida.

O Cante Alentejano é o cante da classe trabalhadora agrícola, cujo único bem que possuía era a força do seu trabalho aplicado nos latifúndios. Trabalho duro, quase escravo, em troca do insuficiente para viver. O Cante Alentejano que às vezes é um lamento outras vezes uma brincadeira, às vezes é de amor, outras de saudade de quem partia para a guerra. É também o canto entoado pelos trabalhadores enquanto ceifavam, animando-se debaixo do escaldante sol alentejano. É o canto dos trabalhadores que se animam e descobrem que é na união que está a sua força. É o canto de quem foi explorado, de quem teve a coragem de gritar “A Terra é de quem a Trabalha”.

Hoje, passados décadas da Reforma Agrária, e do PREC ser tantas vezes desmentido e outras tantas demonizado, depois da devolução dos latifúndios aos seus originais proprietários, e depois do processo de desruralização do país por via do natural progresso tecnológico, o Alentejo é diferente daquele que é cantado nas canções. Hoje existem terras abandonas e um claro desinvestimento na agricultura que obrigou muitos alentejanos ao êxodo. Os trabalhadores agrícolas que laboram nos belos campos alentejanos são cada vez mais estrangeiros que aceitem salários baixos e condições de trabalho algumas tão precárias como há 60 anos, como por exemplo trabalhar à jorna. Não é possível negar: perderam-se algumas batalhas e esperam-se dias melhores. Urge entretanto conservar a cultura destas gentes, que encontra neste canto a ligação entre si e entre cada um deles e as suas origens.

Que a esperança, a capacidade de resistência e a coragem do Alentejo saiam hoje revigoradas e inspirem o mundo. Porque hoje o Cante Alentejano deixou de ser de Portugal e passou a ser da Humanidade.

 

 

Regresso às Aulas

Hoje foi a abertura oficial do ano lectivo. E como neste último ano algumas coisas me têm levado a pensar e a questionar o nosso sistema de ensino, decidi escrever sobre ele hoje. A crise do país, este sentimento de inevitabilidade, esta sensação de impotência, esta sensação de ser levado na corrente e depois esta vontade do não querer saber, do não querer ouvir mais, este esgotamento de uma situação que parece não ser ultrapassada… Que futuro existe para um país onde os jovens não encontram futuro? Às vezes ponho-me a pensar o que, dadas as circunstâncias, a crise no ensino e as duras batalhas dos professores, terão eles a dizerem aos alunos? Que futuro mostrarão os professores aos seus alunos? Que futuro verá um professor nos alunos se tiver em casa um filho licenciado que não consegue encontrar trabalho? Ou se tiver o cônjuge desempregado? Que esperança transmitirá um professor se ele mesmo apenas conseguir sobreviver com o seu salário, sem saber se para o ano será colocado?

Pus-me a pensar nisto tudo e noutras coisas. Pensei em algumas conversas que tive com professores que conheço. Um dizia-me que o ensino actualmente é castrado de ferramentas do pensamento e da transformação. A história política é passada para segundo plano, e isto é corroborado por outro professor que conheço. O programa de história, dizem ambos, não tem interesse. O primeiro luta contra o que diz ser um determinado tipo de programas e afirma querer ensinar os seus alunos a pensar, a questionar, quer dar-lhes ferramentas de análise, transmitir-lhes as linhas do pensamento e das diferentes ideologias que tantas vezes estão escondidas e por desvendar. É professor de filosofia. O segundo diz que o programa de história não tem interesse, que o ensino da história cada vez perde mais importância e que os conteúdos são cada vez mais práticos e pouco contam sobre os períodos quentes de transformação política (que é o que ele mais gosta), mas cada vez falam mais de transformações tecnológicas. É, como será fácil de perceber, professor de história. A sua visão para o país é desesperançosa, seremos sempre um país de tolos diz, e transmite aos seus alunos que o futuro estará lá fora, pensa que na Ásia se ganha bem e será um bom destino para os alunos, ou quiçá para o filho que frequenta o 2º ciclo. O primeiro, o professor de filosofia, quer ao contrário, acreditar num futuro melhor, mas a sua situação laboral é difícil, o ensino público está em processo de destruição, vive e sofre com o desrespeito pela sua classe que perde autoridade em frente dos alunos. Com as turmas maiores sobram professores, e o desgaste dos anos já ele o sente na pele, e afirma quase resignado, que o ensino já não tem lugar para ele. Perdeu o encanto pela sua profissão. Cansado de lutar contra os programas e de ensinar tanto para lá deles, sentindo muitas vezes represálias por isso, e agora esmagado pelas condições sociais, sente-se vencido! Mas sei que no fundo do seu coração existe aquela chama de esperança na transformação social, e sei que, por mais triste e esgotado da luta por um ensino que forme acima de tudo cidadãos, nunca mas nunca deixará de passar aos seus alunos a certeza da mudança na sociedade.

E a propósito destes dois exemplos, lembrei-me do poema da Natália Correia, Queixa das Almas Jovens Censuradas, que na voz do José Mário Branco marcou uma geração e é o lamento dos jovens a quem é cerceada a liberdade e representa uma critica ao ensino no tempo do Salazar. O que até vem a propósito, uma vez que tenho ouvido aqui e ali, do Durão Barroso, do Crato e de outros membros do governo, afirmações de que o ensino no tempo do Estado Novo era mais eficiente e servia melhor as necessidades do país, ou que o ensino dual é o que melhor responde às necessidades do mercado de trabalho e da economia. O tipo de ensino dual que a democracia veio quebrar, servia de facto melhor algumas necessidades, não certamente a dos estudantes nem as do país, mas as de uma classe que dominava a economia. Reprodutor social, canalizava para a escola comercial os filhos das pessoas ligadas ao comércio, e para a escola industrial os filhos das classes ligadas à industria. Apenas uma taxa muito pequena chegaria à universidade, a maioria seguindo as pisadas dos familiares. Ou seja, os filhos seguiam as pisadas dos pais, que normalmente lhes arranjavam trabalho. É o que existe na Alemanha! Reprodutor das classes e das desigualdades, praticamente congelou a ascensão social. Ao contrário, a democratização do ensino possibilitou uma promoção social nunca antes pensada, filhos de operários que se tornavam em doutores, filhos de comerciantes que viraram médicos… Uma verdadeira transformação social. Uns dirão que isto é um país de doutores, mas a mesma legitimidade teríamos para dizer que isto seria um país de analfabetos em 2001, aquando dos censos (página 14), cuja percentagem de população com um diploma académico era similar à população analfabeta. É uma espécie de inveja social, até porque a realidade é que em termos de escolaridade ainda continuamos atrasados, apesar do rápido desenvolvimento que a democracia trouxe. Mas temos que ver que partimos de uma base extremamente baixa.

É incrível como a educação varia em função da ideologia. Num período de democratização, o ensino expandiu-se para todos. Muitos dirão que esta expansão teve como custo a diminuição da exigência, mas isso não é um fenómeno só português. Na verdade a questão da exigência vista de perto pode parecer grave, mas se nos distanciarmos perde importância. Mas é um custo, mas baixo quando está em causa a expansão para a inclusão de mais pessoas, e a educação para todos é algo que não tem preço! Com a democracia instituiu-se o direito ao conhecimento! Vivemos hoje sob o paradigma mundial do “life long learning”, por isso desinvestir na educação é não querer que as pessoas estejam dentro do paradigma, é chutá-las para a margem, é dizer que elas não têm lugar naquilo que é tido como pensamento dominante. Por isso, quando governantes põe em questão o desenvolvimento do nosso sistema de educação que foi e ainda é um dos melhores, é dizer que esta inclusão foi mal feita, foi ilegítima. Dizer que o sistema de ensino não serve as necessidades da economia, significa tão somente que a economia e os empresários não acompanharam os tempos e que continuamos numa economia atrasada com elevadas necessidades de mão-de-obra não qualificada. E isto só pode ser explicado por uma realidade, é que os empresários portugueses são muito pouco qualificados e descapitalizados. E é dizer que os colossais fundos estruturais que deveriam ter consolidado de uma vez por todas a nossa Industrialização (mais do que atrasada) mais não fizeram do que adiá-la definitivamente para um depois de uma terciarização já consolidada, mas cuja riqueza criada fica muito aquém das nossas reais possibilidades e necessidades. Isto não significa que o ensino não possa ser reformado, mas para melhor, não deixando para segundo plano umas áreas do conhecimento e determinado tipo de temas para passarem à frente de outros. A matemática é fundamental, mas a filosofia também… ambas são fontes de raciocínio. O inglês é importante mas a história também. Conhecer a Revolução Cientifica é importante mas saber da Revolução Francesa é fundamental!

E é por isto que este saudosismo do ensino dual fez-me pensar no actual ensino e no quanto ainda falta para ele se cumprir e no papel fundamental dos professores numa sociedade. Porra pá, estão a tentar destruir aquilo que ainda não se efectivou! Já parece a nossa Industrialização! O ensino deve dar ferramentas de pensamento, de reinvenção, de transformação. Eu frequentei uma escola cujo lema era “formar bons cristãos e virtuosos cidadãos”, e o lema de ensino deve ser efectivamente formar virtuosos cidadãos (vamos deixar cair os cristãos, que o ensino é laico e muito bem)! E o que é um virtuoso cidadão? Virtuoso cidadão vai para além de votar, vai até ao transformar. Mas para transformar é preciso sonhar! E há que saber que não só é permitido sonhar como que é possível transformar sonhos em realidade. É possível transformar! E mesmo que o sonho não se concretize por completo, o que for feito para a sua concretização já é transformação! E é preciso que saibam que isso não só não é pouco, como é muito, muitíssimo, e que vale sempre a pena! É preciso saber acima de tudo aquilo que se quer da sociedade. Transformar é trabalhar todos os dias para uma sociedade melhor, no trabalho, na família, nos amigos, no café, no super-mercado. É espalhar uma ideia! Mas é mais do que isso! É mais do que fazer! É acreditar! É negar as inevitabilidades! Na sociedade elas não existem! Não existem inevitabilidades! Não existem! Isto não é um fado a que estamos condenados! Mas isto que vivemos também não é uma fraude! É um caminho que se escolheu. Mas por alguém um dia ter escolhido este caminho não significa que por aqui continuemos a caminhar! Nem se quer tem que significar que o caminho estava errado, pode simplesmente querer dizer que este caminho já nada tem para nos oferecer! E podemos sempre escolher outros caminhos, e trilhar novos rumos e novos caminhos. E é nesta crença no futuro, nesta negação das fatalidades, nesta certeza de que podemos sonhar e trabalhar por um amanhã com um futuro que vale a pena que os professores são fundamentais. Os miúdos não se podem sentar nos bancos da escola a pensar que o seu país os educa para emigrarem, que aqui não haverá trabalho, que aqui não há lugar para serem felizes! Não há lugar nenhum onde valha mais a pena trabalharmos e sermos felizes do que no país em que nascemos, a nossa terra! Não se podem sentar crianças na escola a pensarem que o seu futuro será viver longe de tudo o que no presente os rodeia. Se o futuro lhes reservar a emigração como destino, que seja por opção e jamais por não terem opção! Porque aqui existem opções! Existem! E senão existirem nada melhor do que as criarmos!

“Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
não é a vida. Nem é a morte.”

Natália Correia, Dimensão Encontrada, 1957

Queixa das Almas Jovens Censuradas foi escrita num tempo de ditadura e de censura, e é o que vos trago para pensarmos no nosso sistema de ensino e no que ele não nos trouxe para o momento actual. Este é o lamento de toda uma geração que, mais do que a minha, foi obrigada a receber (daí a repetição ao longo do poema do “dão-nos”) uma educação (ir à escola) destinada a produzir bonecos (“manequins”, de “corda”) sem alma (“nossa ausência”, “vazios”), sem ideias próprias (“penteiam-nos os crânios com as cabeleiras dos avós”), sem identidade (“onde não vem a nossa idade”), sem nada! Uma educação que procurava fazer dos jovens cadáveres adiados (” a nossa dimensão, /não é a Vida nem a Morte”).

A antítese “lírio/canivete”, na primeira estrofe, anuncia duas ideias que estão em permanente tensão no poema: vida e morte. Tensão reflectida também no título por “almas jovens censuradas”: a juventude é já por si revolucionária; enquanto a censura esgotava os seus paradigmas num terreno infértil. A liberdade revela-se cerceada no poema: “e uma alma para ir à escola”. Se a alma é sinónimo de desprendimento, a escola tem o significado de educação, pedagogia, uma espécie de condicionamento da alma.

A repetição ao longo do poema “dão-nos” é aquilo que a censura dava aos jovens. Dava-lhes uma educação que os formatava para serem obedientes (uma contradição face à inerente rebeldia da juventude), retirando-lhes assim a garra, e não lhes davam as ferramentas para mudarem o seu futuro: “Mas não nos dão o animal que espeta os cornos no destino”. Os esquartejamento das parte dos corpo (“Dão-nos um cravo preso à cabeça / E uma cabeça presa à cintura” “Penteiam-nos os crânios ermos / Com as cabeleiras dos avós / Para jamais nos parecermos / Connosco quando estamos sós.”) é a deformação que a censura provoca nos jovens.

No final, a dimensão do eu revela-se outra: nem a vida, nem a morte, mas numa condição exilada “com carimbo no passaporte”. Continua perfeitamente actual… Toda uma geração que se vê condicionada na sua liberdade, só que desta vez não é a censura enquanto instituição que cerceia, são as condições de vida e os direitos roubados, utilizando a democracia como meio de concretização desse roubo, e a dívida como justificação. Vivemos numa liberdade aparente, institucionalizada mas que continua por sentir, por se materializar. A liberdade que a democracia nos trouxe devia ter sido acompanhada por um ensino cada vez mais voltado para a transformação, para a reflexão social! Porque a democracia e a liberdade necessitam de ferramentas para lidar com essa democracia e com essa liberdade, para o efectivo exercício de ambas. É uma questão de escolha de conteúdos. Formar virtuosos cidadãos é dar-lhes ferramentas para enfrentarem o futuro, as adversidades, para verem e criarem as alternativas. Isso é ensinar e dar a liberdade. Mas ainda assim, e ao contrário de ontem, hoje temos mais ferramentas, mais meios, e mais conhecimento para mudarmos o nosso destino, ainda que nos queiram impingir a ideia de uma fatalidade. Temos essa vantagem e essa possibilidade! E por isso e ainda mais intensamente, se mantém viva a esperança no “letreiro” que se ganha com a promessa que ele se metamorfoseará em uma flôr: “raízes, hastes e corola”.

Lisboa Menina e Moça que os meus olhos te vêm tão pobre

Lisboa está na moda! Em rota de contra-ciclo com a economia portuguesa, o turismo da capital tem ganho um novo fulgor. De repente, as sete colinas, a luz e o pitoresco das ruas atraem a atenção dos jornalistas da especialidade.

Para mim, nada mais óbvio. Sempre que visitei o estrangeiro e as outras capitais europeias, e por mais belas e monumentais que fossem, sempre achei que lhes faltava a claridade e a proximidade do rio que Lisboa possui.

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O turismo é encarado como algo positivo em Portugal, e ai de quem disser o contrário, afinal mexe com os interesses de muitos e o trabalho de tantos. Contudo o país virar-se para o turismo como aposta é errado e não se coaduna com um país que se quer desenvolvido. Nós portugueses, nunca fomos mesmo bons nesta coisa de se pensar no que se quer do país. Nós só pensamos o país de repente, quando a coisa corre para o torto, e de repente todos sabíamos que isto ia dar mau resultado, mas também de repente paramos de pensar…

A aposta no turismo como modelo económico de determinadas zona do país como o Algarve e a Madeira, para além de descaracterizarem as religiões (o Algarve todos o vêm como zona balnear, com casas vazias e hotéis que se enchem no verão, e todos desconhecem o Algarve das gentes rurais, de povoamentos isolados, das gentes pobres que caminhavam quilómetros e quilómetros sob o sol que queima para chegar ao médico, à biblioteca, à farmácia). Essa aposta leva a que essas zonas para além de dependerem de uma actividade sazonal (no caso do Algarve cujo pico de turismo é no verão) expõe-o às flutuações das condições económicas (veja-se aquando do início da crise de 2008 o sufoco que foi no Algarve e também na Madeira devido à queda da procura generalizada). Para além de que para estas duas zonas, o turismo não tem sido uma boa arma para fixar a população jovem, sendo zonas de grande êxodo.

O Douro, que já está em rampa de lançamento acelerado para o turismo, corre um certo risco de descaracterização, embora menor do que aquele a que o Algarve esteve e está exposto, mas depende da vontade de quem domina esse turismo, e lembre-mo-nos que as grandes propriedades vinícolas do Douro estão nas mãos de estrangeiros. Neste processo de descaracterização que o turismo provoca, é cultura que se perde. E a cultura é aquilo que nos une enquanto povo.

O turismo tem ainda outro risco, é que ele é apenas um serviço, e não cria riqueza. Talvez por isso, o turismo em Portugal tem sido gerador de postos de trabalho precários, empregando muita mão-de-obra pouco qualificada e com taxas de sindicalização muito baixas, o que reduz ainda mais os salários, não pingando para a sociedade os recursos adquiridos com a actividade. O comércio criado ao serviço deste turismo também não cria postos de trabalho seguros. A giríssima marca “LisbonLovers” é acusada de contratar os seus trabalhadores a recibos verdes. 

Quando o turismo é uma aposta em anos de empobrecimento e de acentuação profunda das desigualdades, e quando é um sector que nesses anos cresce sem que haja condições do fomento da procura interna mas o enfoque na atracção da procura externa, é só mais um sinal de empobrecimento e um veículo de aprofundamento das desigualdades. Isto acontece em Portugal e nós não temos desculpa, porque sabemos muito bem o que é o turismo. Tornar o país num destino turístico sem que haja uma visão estratégica para o país, sem que o turismo seja enquadrado como apenas mais uma dimensão, mas em vez disso como oportunidade e recurso de criação de riqueza a curto prazo, é uma mentalidade terceiro mundista, própria de países pobres e atrasados que não têm mais nada para oferecer.

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Atenção, eu não estou contra o turismo. Ele cria postos de trabalho e acima de tudo promove a requalificação urbana da cidade. Mas não nego que me causa a sensação de soco no estômago quando na minha hora de almoço, diariamente, dia após dia, vejo a pobreza que vai nas ruas da capital. Os sem-abrigos são em número nunca visto, os portugueses passam nas ruas de olhos tristes, após 8 horas, 9 horas, 10 horas ou até mais de trabalho, sem conseguirem fazer face às despesas,  com familiares em casa desempregados e crianças para cuidar, na incerteza de um futuro que não se quer ver, ou os portugueses que já nem trabalho têm nem a esperança de um dia o voltar a ter e que caminham vencidos neste país, que em vez de os apoiar os engole.

Diariamente, várias vezes ao dia, passo pelos mesmos pedintes, pelos mesmos rostos, alguns já idosos, outros mais jovens, uns alcoólicos que desistiram já deste mundo, uns que aparecem num dia e no outro já não os vejo, outros que um dia apareceram e desde aí todos os dias os vejo, outros ainda que terão casa e tecto mas simplesmente o rendimentos não lhes basta para o dia-a-dia. Alguns é certo, conheço-os há anos demais e não posso culpar a crise: há um senhor que vende fotografias e relógios de sol e tem dois cães, chegou a ter 11 samoiedos, conheço-o desde miúda, creio que é da América do Sul e gosto dele.  Existe ainda a famosa D.Maria que canta o fado à porta da Lord, ou o grupo de freaks que na rua do Carmo pedem dinheiro para cerveja e charros. Mas e os outros todos? E o velhote que está todas as manhãs à saída do parque Camões e pede repetidamente “uma moedinha”? E a velhota que em vários pontos da cidade ao passarem por ela no passeio grita que está cega e pede 10euros para pagar a renda?  E as duas senhoras que vendem poemas entre o Carmo e a Rua Garret? Em torno do Teatro D. Maria uma fila de sem-abrigos dormem lado a lado. Pela Avenida da Liberdade outros não sei quantos fazem daquela calçada sua cama. O Sofitel recentemente colocou ferros para evitar que os sem abrigo se deitem ali. A loja da Gant há vários anos que partilha o seu tapete da rua com um sem abrigo, jovem, toxicodependente. Ao lado do São Luís 3 homens dormem, pelo menos 1 está lá sempre. Tem um cartaz a pedir respeito e para não o incomodarem. Sempre existiram sem abrigos, mas não neste número. Os Restauradores, ao cair da noite, transforma-se num dos dormitórios de Lisboa. Santa Apolónia assiste ao engrossamento do seu exército de hóspedes há anos. O número de sem-abrigos cresceu silenciosamente, o perfil do sem-abrigo mudou. Há famílias a viveram na rua, em carros, em dormitórios incertos. Arriscam manchar o turismo da cidade.

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Na cidade onde ainda aqueles que trabalham (mas não conseguem já aqui morar, porque muitos foram empurrados para procurar casa longe da sua cidade natal), ou na cidade daqueles que ainda aqui moram, nesta cidade abrem hotéis atrás de hotéis, transformam-se terraços em restaurantes de luxo e bares finos, nos quais a maioria dos lisboetas não poderá jamais jantar ou beber uma imperial. As ruas desta cidade desenhada por colinas, onde abrem esplanadas no mesmo sítio onde antes brincaram os lisboetas, são de facto lindas. Os turistas são bem vindos, os lisboetas certamente ficam felizes por verem Lisboa reconhecida por aquilo que eles sempre souberam: é a mais bela cidade do mundo. Mas os lisboetas desta cidade da moda agonizam, e com eles agoniza também a cidade. Porque onde abre um hotel foi antes a casa de alguém ou os escritórios de uma importante empresa, onde abre um restaurante de um qualquer chef, foi uma loja habitual de muitos lisboetas, ou o seu ponto de encontro. E uma após outra loja foram fechando e vão fechando, cedendo ao low cost, às lojas dos chineses, às lojas dos indianos, aos hotéis, aos restaurantes… Livrarias, alfarrabistas, ourivesarias, capelistas, lojas de roupa, pastelarias, tascas… E uma e outra, vão morrendo, e com elas morre também uma parte de Lisboa.

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O Turismo é bom. Mas este turismo que ameaça a memória da cidade, que destrói postos de trabalho, e que é feito ao lado da miséria de tantos e que exclui os lisboetas e os portugueses, este turismo destrói!

Adeus Troika! Olá Mercados! Olá Eleições!

Já é oficial: A Troika foi-se embora! O programa chegou ao final e o Governo optou por não querer um programa cautelar. Ou seja, a Troika foi-se, pelo menos oficialmente, embora! Vamos lá ver quem é que aterra amanhã na Portela depois da noite de hoje…

Devemos muito à Troika! Graças a ela o Sócrates foi-se embora e nós pudemos matar saudades de ver o Portas outra vez ministro: qual peru engalanado rumo ao seu sempre sonhado Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mas mais, o Paulinho das Feiras, pôde inaugurar o novo cargo da República, Vice-Primeiro Ministro. E com ele todos nós vibrámos, por termos mais de menos, que dará sempre mais. Ao lado do famoso líder da JSD, Pedro Passos Coelho, formaram uma dupla que ficará nos anais da história.

Graças a estes senhores, aprendemos muito sobre nós. Impossibilitados de reflectirmos sobre nós próprios e o nosso passado recente, Passos Coelho fê-lo por nós, fez-nos ver a nossa real dimensão: país pobre, corrupto, improdutivo, com vícios insuportáveis de pagar, com direitos impensáveis, com um Estado Social que não poderíamos nem merecíamos ter. Famílias endividadas souberam que não se podiam ter endividado e que teriam que pagar não só as suas dívidas (o luxo de se comprar casa e ter um carro… como se almejassem ter um nível de vida comparável aos dos restantes cidadãos europeus) como as dívidas que elas não contraíram.

Os trabalhadores viram com os seus salários diminuídos porque não eram produtivos o suficiente, e por isso passaram a trabalhar feriados e a ganhar menos pelas horas extras, em contrapartida pagariam mais IRS, para não acusarem o governo de diminuir tudo (e para não falar nos outros direitos laborais completamente varridos por este governo em sede de desconcertação social). É que os rácios do trabalho sobre o capital teriam de se aproximar dos níveis da Alemanha (o famoso modelo alemão, que anda aí fazer correr tinta em papers académicos e jornais da especialidade), todavia ninguém se lembrou que os nossos níveis de capital são muito inferiores e o nosso modelo produtivo também, logo a nossa capacidade de acumulação de capital também o é. Todavia eis que o custo marginal do trabalho (e aqui já se lembraram da nossa estrutura económica) não se deveria aproximar à Alemanha, mas antes aos países com os quais competimos a nível internacional: o sudoeste asiático.

Desempregados dependentes da segurança social ficaram também a saber que afinal não tinham direito aos apoios para os quais descontaram, que é para não termos dúvidas: a Segurança Social não é a Santa Casa da Misericórdia. E para terem direito ao subsídio para o qual descontaram passaram a ter que fazer apresentações periódicas e frequentarem cursos de formação, durante os quais deixam de fazer parte da taxa de desemprego, contribuindo assim para o melhoramento das estatísticas nacionais.

Os jovens desempregados também levam da Troika uma lição de vida: se estão desempregados é porque não são empreendedores. Neste país, os jovens ou emigram ou criam empresas, que este país não investiu tanto na educação para agora os jovens estarem em casa no facebook (já diz a Isabelucha Jonet e com toda a razão).

Ficámos também a saber que somos responsáveis também pelo endividamento dos bancos portugueses. Os mesmos emprestaram dinheiro a famílias pouco conscienciosas (não se fala no endividamento das empresas nem da cultura empresarial deste país, porque isso fica-lhes mal…então coitadinhas, criam postos de trabalho…os créditos são para pagar os chorudos salários de trabalhadores mandriões). Por isso, nada mais justo do que usar o dinheiro do resgate do FMI para injectar nos bancos, afinal o dinheiro é de um Fundo Monetário Internacional…Nada mais apropriado. Afinal a dívida dos bancos não pertence aos bancos, mas a todos nós!

Mas aprendemos mais: aprendemos que os direitos não são direitos, mas regalias. Que afinal o trabalho não é um direito, mas um privilégio. Que isso do direito à saúde, educação, habitação, segurança social são lirismos próprios de um povo saudosista… Só faltava cantarmos todos “a paz o pão habitação, saúde, educação”… paroles paroles.

Mas mais, e esta é uma lição a ter em conta: O Estado não é para ter empresas. Por isso, e para corrigir esses desequilíbrios antigos, privatizou-se a EDP (vendeu-se ao Partido Comunista Chinês….e não, não foi o PCP, foi o PSD) e aumentou-se as PPP na saúde. Chegou-se à conclusão que afinal as PPP’s não são um saco sem fundo para o qual escorre o dinheiro do Estado, mas alternativas à gestão pública que se revelou danosa.

E com tudo isto, e passado este período de intervenção externa, de ocupação estrangeira, voltámos aos mercados para nos refinanciarmos para podermos pagar a nossa dívida e…os juros voltaram a subir!

Mas mais do que juros, mais do que mercados, mais do que dívida… a suposta saída limpa deve-se ao grandioso dia de hoje: as eleições europeias! Como todos sabemos, as agendas políticas e os interesses partidários não podem ser ameaçados. Apesar de todos sabermos que o PSD chumbou o PEC4 do Sócrates porque os portugueses não aguentavam mais austeridade, num oportunismo muito politiqueiro, também agora o PSD bateu o pé e quis uma saída limpa, sem Troikas, sem cautelares, sem manchas para o seu partido, e levando para a campanha eleitoral a vitória da expulsão da Troika que eles mesmos obrigaram a chamar. Nesta semana, e em plena campanha eleitoral, eu fiquei muito descansada pelo conhecimento e pela verdade expressas pelos candidatos do PS e da Aliança Portugal à cerca do que é para cada um deles a crise do país. Para o PS e para Francisco Assis, a crise começou com o chumbo do PEC4 pelo PSD, ou seja, para o PS tudo reside na queda do Sócrates, cujas políticas estavam a fazer Portugal prosperar. Para o PSD o que nos levou à crise foram as “políticas socialistas” do PS. Ou seja, para Paulo Rangel, privatizações, reformas profundas nas leis laborais, desregulações económicas etc são políticas socialistas.  Por um lado, Francisco Assis com uma memória que não vai além dos 3 anos, e o Paulo Rangel sem saber o que é o socialismo, e que o socialismo no PS terminou no dia em que o Mário Soares o decidiu colocar definitivamente na gaveta.

Terminado o período eleitoral cujo resultado hoje se saberá, e terminada mais uma campanha eleitoral europeia onde se fala de tudo mas muito pouco da incomoda Europa, saberemos finalmente que tipo de saída limpa efectivamente temos. Uma coisa é certa, o vencedor destas eleições será, em toda a Europa, a abstenção… Sendo a prova de que uma Europa construída nas costas dos cidadãos tem como resposta em eleições, as costas dos mesmos.