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Catch Me If You Can

Um clássico relativamente recente, um entre muitos dos êxitos do famoso realizador e produtor Steven Spielberg, “Apanha-me se Puderes” é um filme que nos conta a história de um jovem, autodidacta, dinâmico e espertalhão, boy de profissão cuja vivacidade permite exercer toda e qualquer função. Um caso raro de adaptabilidade e improviso. O logro funciona graças à ingenuidade geral. Consta que o próprio cita o conterrâneo de Tom Sawyer, Samuel Clemens: “É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que elas foram enganadas…”. E não é que funciona? Ele foi aviador, sem nunca pilotar, foi médico sem nunca tratar e até foi advogado depois de no exame passar. Assim prossegue o filme, sempre em crescendo de ousadia e descaramento, até à detenção final. Cumprida a pena, é recrutado para ajudar a investigar.

Tal por cá seria impossível! Em nenhum outro país a licenciatura é tão escrutinada como entre nós, não pelo seu valor cientifico ou profissional, mas simplesmente porque deixou de ser uma licença para aprender sozinho para se tornar um sinónimo de prestigio outorgado, independente e imune à (in)competência de quem a ostenta. Pessoalmente, estou-me nas tintas para tudo isto… Muito pior que um falso testemunho, foi a reacção à “investigação” jornalística. Confrontado com os factos, terá tentado enjeitar responsabilidade, dizendo que os dados publicados aquando da nomeação como adjunto do primeiro-ministro “baseiam-se nas informações prestadas pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra datadas de Outubro de 2009″. Inqualificável, mas revelador da estirpe dos “jotas”.

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Nobel do Orçamento

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Longa foi a espera, semanas de grande expectativa, inquietação e até alguma ansiedade, mas a Academia Sueca lá divulgou finalmente o novo prémio Nobel do Orçamento. Anunciado o vencedor, de imediato se intensificou a polémica e se extremaram posições entre apoiantes e oponentes. Os críticos atacaram a obra do artista, os fãs enalteceram. Será Literatura? Prosa não é certamente e a poesia, segundo sei, nem sempre é assim. Uma coisa é certa, presta-se a todo o tipo de ambiguidade e a muito pouca certeza.

Em rigor é uma obra incomparável – O Orçamento não é comparável com nenhum dos que o precedeu. Todas as generalizações viáveis, toda a especulação possível, todas as interpretações sustentáveis à luz deste ou daquele detalhe, subtil ou abrupto. Compreender o seu verdadeiro impacto é um exercício de sensibilidade, logo, absolutamente subjectivo. Talvez por isso me incline para a poesia. Deve ser isso que o galardoado documento é, poesia.

Bob Centeno, poeta de fraquíssimos dotes vocais, mas cujo virtuosismo como instrumentista muito tem surpreendido, lá conseguiu dar-nos música, uma melodia manifestamente banal, mas suficientemente harmoniosa para conjugar os graves acordes de Guitarra requeridos pelos parceiros da banda “a geringonça”, com as notas de Harmónica (vulgo Gaita-de-Beiços) tão agudas quanto o exigido pela Europa. Não é de direita, também não é de esquerda, nem de centro. Nem sim, nem não, antes pelo contrário. É um Orçamento de protectorado. Deixámos de ser uma província submissa, obediente e periférica para passarmos a ser uma região quase autónoma, paralisada e dependente.

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Taxi Driver

Cientes que a cidade de Lisboa seria hoje alvo de repérage  para um eventual remake do original de Martin Scorsese, os taxistas da capital apostaram numa mega manifestação contra a concorrência desleal. Compreende-se, quatro décadas depois, a nova versão do filme poderia vir a chamar-se Uber Driver. É a revolução tecnológica pois então. O original, Taxi Driver, relata-nos a história de um jovem indignado com o mundo que o rodeia, manietado por licenciamentos e obrigações várias, revolta-se contra a libertinagem em geral e a pouca vergonha em particular. Na verdade perde as estribeiras e descamba. A intenção inicial, virtuosa que fosse, resvala para o disparate. Perde a empatia de todos, mesmo daqueles que com a sua causa poderiam concordar.

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Hoje por cá, talvez procurando atrair os produtores da nova versão deste clássico do cinema, os donos dos táxis e das respectivas (caríssimas!) licenças promoveram aquilo que chamaram uma Manifestação de Taxistas. Alguma imprensa chamou-lhe “greve dos táxis”, o que é estranho, pois os condutores ou são empresários, pelo que o conceito de greve não se aplica, ou são funcionários e como tal estão a trabalhar no protesto, sem prémio de desempenho. Na verdade é uma acção de protesto, uma demonstração de força. Contudo, o bloqueio da cidade dificilmente atrairá simpatia dos habitantes, leia-se, potenciais clientes. Talvez fosse altura de mudar de estratégia, por exemplo procurando aliados em vez de entrar em guerra contra tudo e todos. Esta força que hoje procuraram demonstrar será a (curto) prazo a sua maior fraqueza.

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Jabba the Guterres

Eis-nos de volta aos clássicos do cinema e à grande saga “Guerra das Estrelas”. A personagem de hoje está no pedestal da adoração nacional. Devotos de sempre e detractores de outrora, todos, unidos em uníssono elogiam o mestre do dialogo, Jabba the Guterres. O momento festivo resulta da sua nomeação pelo Conselho de Segurança para Secretário-geral das Nações Unidas. Jabba, ex-chefe do executivo desta pequena nação à beira mar plantada nos confins do continente Europeu, será o próximo líder das Nações Unidas. Não, não é ficção cientifica. Deixou a concorrência para tras e ganhou.

Curioso contraste este entre o percurso dos ex-primeiros que nos deixaram a meio do mandando. Um fugiu do pântano, terá um dos mais ingratos e exigentes cargos do mundo, o outro, aquele que encontrou uma nação de tanga, é “consultor” do banco de investimento mais poderoso do mundo. É giro!

A vitória é sem duvida um tónico poderoso, capaz de elevar uma picareta falante ao papel de ídolo nacional, uma unanimidade praticamente inédita. Bem, talvez não seja absolutamente inédita, a aclamação do futebolista Éderzito tem sem duvida semelhanças. De vergonha ao orgulho em segundos. Fantástico! Talvez venha desfilar pela capital abordo de um autocarro de dois andares, acenando à multidão entusiástica e no fim discursar na Alameda Dom Afonso Henriques, bem em frente ao Instituto que o formou, o Superior Técnico e no palanque proferir um patriótico e sucinto discurso enaltecendo a vitória e invocando o Cesto da Gávea, numa clara alusão à nossa tradição marítima…

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Smart Silva

Anos a fio, a áurea de homem sério foi quanto baste para se manter a salvo de toda e qualquer acusação. Uma vez invocado o autoproclamado estatuto, aqui e ali adornado com uma ou outra alusão subtil (nunca concretizada) a campanhas orquestradas contra si, todas as suspeitas foram esquecidas, relegadas ao eterno esquecimento. Porém, numa época dominada pela tributação dos imóveis, qual fénix renascida, ressurge a polémica da Gaivota Azul. Ao invés da reacção tradicional, desta feita, nada. Nem sim, nem não. Zero, silencio total.

Noutros tempos teríamos já sido brindados com um categórico e sucinto comunicado desmentido tudo, provavelmente reiterando sound bites do passado, conclusivas singelas e curtas, “por vezes” auto-elogios mas sempre, sempre compatíveis com a persona construída, como a celebre tirada sobre seriedade na qual garantiu ser tanta a sua que para qualquer um de nós ir a meças, teria de nascer mais uma vez. Um conceito complexo, mas seja como for, a moral é simples, diz-se sério.

Parece contudo, a fazer fé em noticias vindas a publico recentemente, que nenhum de nós terá de voltar a nascer para com ele ombrear em seriedade. Já não é preciso, basta ser esperto. Mesmo tendo duvidas, o que hoje é verdadeiramente relevante é a esperteza. Sinal dos tempos, talvez apenas uma manifestação do processo de aculturação em curso, influenciada pela maior e mais liberal economia do mundo, mas parece que actualmente pagar menos impostos é sinal de esperteza. Quem não a tem paga, quem tem paga menos. Muito menos.

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Paraquedista

Como quando o Cristiano Ronaldo é candidato a um qualquer prémio internacional, o país sustem a respiração até ao anúncio da vitória. Há como uma partilha, uma redistribuição do mérito e do prestígio conquistado. Na política também. Foi assim quando Diogo Freitas do Amaral foi nomeado Presidente da assembleia geral das Nações Unidas. Depois lá percebemos que a nós pouco beneficiou tal cargo. Mal seria. Esta ideia peregrina que os compatriotas em cargos internacionais nos vão favorecer é absurda. Quanto muito não nos prejudicariam deliberadamente, mas nem a primeira nem a segunda fazem sentido. Apenas a isenção é desejável. O favorecimento de alguns será sempre em prejuízo de outros, logo tudo o que devemos esperar é a equidistância. O percurso do anterior Presidente da comissão europeia deveria ter-nos ensinado qualquer coisa…

A nomeação que se segue é a de secretário-geral das Nações Unidas. Haverá organização internacional mais importante? Certamente que não. E nós, como estamos nesse campeonato? Estamos bem, temos candidato. Não é muito forte em aritmética, mas já venceu 5 das votações preliminares. Tudo corria bem para as nossas cores, mas eis senão quando a organização que procurava ser mais transparente e credível vê o processo de eleição tomado de assalto por uma (já há muito preparada) candidatura: Apoiada pela matriarca alemã, a búlgara Kristalina Georgieva entra na corrida a meio. Deixa a vice-presidência da união europeia e salta destemida para o centro da contenda. Entre nós há algum desconforto contido, entre dentes diz-se que há batota, chamam-lhe até paraquedista…

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Nadar com Porcos

As Bahamas, um arquipélago de ilhas paradisíacas e terra natal do povo Taíno, são deste a chegada de Colombo em 1492 um território condenado à patifaria. Logo no inicio do século XVI toda a população indígena foi escravizada e enviada para outras paragens. Extraída a mão-de-obra, os espanhóis partiram, deixando o arquipélago completamente deserto durante mais de um século.

Os britânicos começaram a chegar na segunda metade do século XVII, mas só em 1718 as ilhas se tornaram uma colonia britânica. De entre os súbitos de sua majestade, provavelmente o mais celebre de todos os colonos foi Edward Teach, um famoso empreendedor que ficou conhecido como Barba Negra, o pirata.

A independência chegou no século XX, no excelente ano de 1973. Foi em Janeiro desse ano, graças a uma acção de “sedução, roubo e fotocópia” (digna de um filme do 007), a autoridade fiscal norte-americana conseguiu obter de um imprudente funcionário bancário uma lista com o nome de mais de 300 cidadãos americanos. A estes cobrou coercivamente mais de 50 milhões de dólares em impostos não pagos. As quatro décadas seguintes foram absolutamente tranquilas.

Destino turístico de elite, detém uma oferta balnear única no mundo! Nas Bahamas, o turista ao invés de ir a banhos com cetáceos, pode nadar com suínos! Esta singular vivência raramente é partilhada pois os banhistas preferem o sigilo. São férias envoltas em secretismo, uma vez reveladas criam embaraço a quem as usufruiu. A ex-comissária europeia para a concorrência, a holandesa Neelie Kroes que o diga… Na União de Europeia de hoje, carenciada de novos e virtuosos exemplos, a omissão pode vir a custar-lhe a pensão de reforma, mas tal como o anterior episódio da saga “Papers“, a sensação do momento dará rapidamente lugar à inconsequência.

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Exterminador 2

Seria para a semana, mas já não vai acontecer. Lamentavelmente o futuro não será aquele que esperávamos. O dia da Apresentação não chegará. A Saraivada venderá, mas já sem o patrocínio do protagonista do segundo extermínio, o modelo T-1000. Vindo do futuro, o ultra moderno robô evoluiu em relação ao antecessor, uma nova geração com outro nível de plasticidade, inovação que lhe permite assumir qualquer forma inerte, vegetal ou humana. Apresenta-se normalmente na forma de policia vaticinador e tem na viscosidade da sua persona a maior e temível arma. Faz da humildade modo de vida e da boa educação uma marca pessoal – Diz “muito´brigado” como ninguém.

Bravateiro, amigo do seu amigo, nunca volta com a palavra atrás. É lá homem, perdão, robô para isso. Como boa máquina que é, processou primeiro o risco envolvido na ousada apresentação e ponderada a ameaça decidiu avançar, concluiu sem ler a obra que a amizade do autor o colocava ao fresco e que por isso não se queimaria naquele fogo onde outros são chamuscados ou mesmo torrados, mas enganou-se. Mesmo poupado na devassa publicada, foi gravemente atingido na cabeça quando manteve a postura implacável de quem corta a direito, de quem não cede e determinado reiterou no inicio da semana que não faltaria ao amigo naquela hora, mas os danos do episódio são tais que hoje “pediu ao autor, por motivos pessoais, para o desobrigar de estar presente na sessão de lançamento do livro“. Evento cancelado. Terá sido um murro no estômago do arquitecto?

 

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Saraivada

Há quase 27 anos, a revista “Semana Ilustrada” – um pasquim da época, fez capa com um escândalo protagonizado pelo arquitecto Tomás Taveira, figura que pelo carácter e obra nunca fora consensual, mas cuja intensa actividade laboral no escritório das Amoreiras se imortalizou. Quem nunca ouviu as sinceras palavras do arquitecto? Frases como “isto aqui está um inferno” ou “ai menina kookai” permanecem até hoje na nossa memória colectiva. Um raríssimo caso de longevidade num país onde qualquer discurso ou promessa eleitoral são rapidamente esquecidos. Talvez a solução para baixar a abstenção passe por recrutar mais arquitectos para a política, quem sabe…

Na falta de políticos licenciados em arquitectura, talvez os jornalistas com essa formação possam contribuir. Não há muitos, mas um em particular, José António Saraiva, tem vindo a dar o seu contributo, quer escrevendo, quer dirigindo importantes semanários. No auto-intitulado “Hipermercado da informação” foi director durante mais de 20 anos, lugar que mais tarde assumiu no concorrente directo até ao final do ano passado. Ao todo, três décadas a dirigir os principais jornais nacionais! Dirá isto mais sobre quem os detêm do que propriamente sobre o próprio.

Finda a carreira jornalística, e por certo procurando contribuir para ampliar a participação eleitoral dos seus concidadãos, o arquitecto Saraiva decidiu criar de uma assentada uma saraivada de novas “meninas kookai”. Lançará para a semana um livrito sobre a vida íntima dos políticos com quem conviveu, episódios que nunca teve oportunidade de contar, logo a nós, compatriotas que adoramos a devassa da vida privada.

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Tomb Raider

Tantos foram os filmes a estrear esta semana que qualquer cinéfilo que não viva acima das suas possibilidades se vê confrontado com uma escolha difícil. Olhando para a oferta encontramos: policiais com vítimas e justiceiros; intriga e comédia com ex-comissário em degredo milionário para lobista; teoria da conspiração sobre manobras diplomáticas na eleição para secretário-geral das Nações Unidas; e por fim, mas não por ultimo, um drama sobre paternidade e traição, a rebaldaria do anúncio unilateral. Depois de falhado o tema fracturante anterior, a inconsequente tirada sobre os Comandos, havia que fazer algo vistoso até ao final da semana. Lá veio a bomba, a granada lançada pelo bloco que assim se esforça para não parecer uma esquerda no bolso do líder da geringonça. A dita abanou. Foi nítido o desconforto de todos, para gáudio de todos os outros.

Está escolhido o filme! Um clássico para o futuro, mais uma aventura que conta com a irreverência, audácia e competência da mordaz Lara Mortágua. Coube-lhe o papel de protagonista na obra ontem estreada, mais um da saga Tomb Raider, um filme de acção, uma ficção sobre a tributação dos palácios privados. Seja qual for a regra do imposto anunciado por Lara, é irrelevante, importante foi o efeito surpresa, a emoção, a sensação… Seja como for, como propaganda, foi um bom golpe. O Trailer passou em todo o lado e por todo o lado se falou daquilo que ainda não se conhece. Por momentos, pelo menos ontem, o bloco saiu da casca…

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