O Êxodo
Exausto com a abundante e infundada crítica ao filantrópico e mais que avisado conselho à nação, decidi agir. Movo-me, não em defesa do novo messias, nem tão pouco do apóstolo de Alarcão que o antecedeu na doutrina do Êxodo. Enalteço o conteúdo e borrifo-me na forma. A fuga dos Lusos da Europa é uma inevitabilidade e tem fundamento histórico. Quais judeus em fuga do Egipto e da escravatura. A analogia é tão óbvia quanto alucinada.
Não compreenderemos o Êxodo, sem abordar a Génesis da Europa Moderna. Tudo começou em 1948, na urbe que celebra a criança que despudoradamente urina ao vento, Bruxelas. Em 1951, desta feita em Paris, foram tratados o carvão e o aço. A Comunidade nasce em 1957 na cidade eterna, Roma. A fusão ocorreu no regresso a Bruxelas, em 1965. Até aqui, tudo bem, estávamos fora.
Em 1986, um ano após a adesão de Portugal, foi assinado o Acto Único Europeu em Haia e no Luxemburgo. Animados com os fundos estruturais, não ligamos. Aparentemente, já nesta altura a Holanda era um destino desejado. De Maastricht em 1992, partimos para a loucura de Amesterdão em 1997. Falamos, comentamos, mas na verdade continuamos a não ligar. Jorrava, logo, tudo corria de feição. Dividir para reinar foi o lema em Nice em 2001. Novo século, novos membros. Menos, mas ainda jorrava. Eis que chega o sétimo dia e ao invés do descanço, reunimos as hostes em Lisboa. Diz-se desse dia que foi porreiro, pá. Mas não foi, não foi mesmo nada porreiro. Não reparamos na altura, e em boa verdade só agora alguns de nós desconfiam.
Assim foi a Génesis. Desprovida de valores democráticos e de genuína representatividade das populações. Aos tristes exemplos dos referendos “até à resposta certa”, acrescem agora as nomeações de novas equipas executivas em Itália e na Grécia. O momento é de acção, não de eleição. Avassalador: voltamos aos métodos medievais. Tal como na idade das trevas, o medo é usado como arma de submissão, a cultura clássica é erradicada e toda a reflexão é relegada para o estatuto de luxo supérfluo.
Entre todas as inconvenientes actividades humanas, a reflexão é sem duvida a menos oportuna. Exactamente por isso, imprescindivel! Façamo-lo então: Todos os dias, pelo menos cinco milhões de euros saem de Portugal, pelo que o Êxodo de capitais é um sucesso. O Êxodo de ex-primeiros-ministros é igualmente um sucesso. Só cá ficaram dois, um dos quais é Presidente da Republica. Concedo, este Êxodo é apenas um sucesso parcial, mas amplamente compensado pelo Êxodo das sedes fiscais das holdings, o que não sendo novidade, goza agora de grande notoriedade mediática. Aparentemente, e desta feita, constitui crime de lesa-pátria. Será que toda esta cidadania participativa e atenta questiona a frequência desta prática? E as suas causas?
Sejamos francos: O conselho é bom, pois os mandamentos só se aplicam a quem fica!
Um chavão à procura de rumo
A “Economia Politica” é um chavão muito utilizado, servindo de argumento desde pequenos textos a exuberantes palestras, assistimos porém a uma mistura explosiva na maior parte das ocasiões em que se juntam estas duas palavras.
Estes dois vocábulos, cada um com seu significado e a milhas de distância do outro, raramente se poderão juntar devido á sua essência. A prova disso é mais que conhecida, com falhanços constantes na política, por via da economia, ou vice-versa.
Se encontrar um mediano economista na política pode ser mais ou menos frequente, encontrar um bom político que o seja também, em economia, é mais transcendente que encontrar uma agulha num palheiro.
Um economista tem de equacionar uma series de factores e interliga-los de forma a atingir um único fim, dar benefício, requalificar algo que não o dá, e baseia-se nos cálculos numéricos, que em boa justiça lhe darão razão, ou não, mais tarde, enquanto um político tem como preocupação primordial fazer isso mesmo, politica, interagir bem com todos, mesmo com aqueles com que não partilha as ideias.
Nas empresas terão forçosamente de existir os dois, por forma, que todos andem satisfeitos e mesmo assim ela dê lucros, aí é que reside a eficácia, numa separação eficaz de valores.
Terá de ser um País, diferente?
Com um número significativo de jovens com excelsos cérebros, alguns deles noticiados como magníficos, no exterior e nas mais diversas áreas, poderiam eles ser “aproveitados” para gerir a nação. Ficariam exuberantes por tais préstimos e ainda por cima pagos, bem pagos, por isso.
Num cenário de convivência salutar em que os jovens gestores teriam prémios de desempenho unicamente na proporção dos ganhos, deixando as vénias e palmadinhas nas costas para desempoeirar os fatos, aos que amam a política.
Em tempos como o presente, em que dos é dito que temos de cortar com o passado e olhar em frente, será talvez a única salvação da tal famosa “economia politica” aliando duas palavras que nunca se deveriam ter juntado, ou melhor encararíamos isso como efectivo, pois a separação sempre foi evidente.
Melhor que anunciar ao jovens, o promissor destino da emigração é dar-lhes a oportunidade de mostrar o que valem a quem os ajudou a formar, dando-lhes o privilégio de poder retribuir os ensinamentos.
Deferência também fica bem
Na já de difícil compreensão tabela de categorias laborais, adicionam agora o “Chega-me isso”. Classe a ser incluída nos quadros de remuneração superior, daqueles que dão direito a ajudas de custo e viagens em executiva, porque a intenção hoje não é a exclusão mas sim de obediência.
Uma retrospectiva feita á memória não muito longínqua, lembra casos de mudança unilateral de condições de trabalho, que pelos mais diversos motivos era anunciada uma “promoção” para funções algo estranhas como conferir Diários da República, sublinhar itens em outro qualquer jornal, ou mesmo transladar o arquivo morto para outro túmulo.
Chamavam-lhes na altura os zombies, pessoas colocadas numa secretária despovoada do mais ínfimo artefacto para assim os pressionar ao abandono de funções ou mesmo á demência.
Inadequadamente imputando á generalidade dos nativos, despesismos galopantes e continuados, com juros piores que os de uma dona também presente na nossa memória, tenta agora uma outra dona acompanhada de um galanteador inventar formas para que se cumpra rigorosamente o plano mas com controlo absoluto, temendo uma recessão interna que lhe trás triste memória.
Essa nova categoria já tem dado o seu contributo para alguns dossiês internos, se não, foi o deu a entender. Uns quantos com valor e créditos mais ou menos firmados foram indigitados para, nada!
Às decisões já tomadas era apenas necessário juntar um condimento de honestidade e estudo para iludir os mais incautos.
Para que se almeje mais auxílio aos países necessitados, terá de ser transmitido poder a quem ajuda, isto traduzido para as leis laborais nada mais é que indexar uns quantos intervenientes internos em, mangas-de-alpaca.
Num sentido puro de equidade e constantes melhorias de condições de trabalho, os indigitados para a função terão na sua maioria direito a viatura de serviço e uns quantos ajudantes, mas na realidade não farão mais que chegar os papeis a quem nos quer, já com escritório montado, controlar.
Os que nos “prestam assistência” optam, por tentar dominar tudo e todos de forma que se entenda quem manda, vigiando de perto a eficácia do esperado retorno.
Não é inédito recorrer a este tipo de ajudas e inevitavelmente novamente cumpriremos, salvo se o tiro lhes sair pela culatra, mas ficava-lhes bem algum apreço, não só por quem lhes entrega os escritos mas por todos nós, os que pagamos.
欢迎葡萄牙 – Investir na Educação para salvar o Turismo
A Europa está a bater no fundo e nem o turismo parece ser bóia de salvação em tempo de pregação da poupança. Esta dependência total da Europa é muito bonita quando o iceberg não se avista. Mas agora que encalhamos, e o sacana parece capaz de resistir até ao problema do aquecimento global, está na hora de pensar além fronteiras.
Olhando para os dados mais recentes relativos ao turismo, retirados do INE, vemos que a grande massa turística é proveniente de Espanha, Reino Unido, França e Alemanha. Juntos representam mais de 60% das entradas e receitas do turismo.
Ora os dois primeiros já estão sob regime de austeridade, o terceiro anda um bocado aos papéis a ver se percebe se está abaixo ou acima da linha de água, e o último por uma questão de pudor e rigor não poderá tão cedo vir aproveitar-se da pobreza e austeridade que nos aconselha a impôr para os próximos tempos.
Posto isto quem tem vontade e dinheiro para nos visitar, desfrutar dos nossos recursos, sentir o nosso life style, largando uma nota simpática que permita fazer do turismo uma âncora de emprego e dividendos? Essa é a questão que pode ser a nossa salvação. Afinal Portugal representa apenas 1,5% a 2% da Quota de Turismo Mundial. É ainda daquelas raras quotas em que estamos autorizados a investir para crescer não sendo subsidiados se nada fizermos para isso!
Mais alguns números interessantes para a tomada de decisão:
- 180 Milhões de falantes de Alemão;
- 220 Milhões de falantes de Francês;
- 250 Milhões de falantes de Português;
- 500 Milhões de falantes de Espanhol;
- 1 000 Milhões de falantes de Mandarim;
- 500 Milhões a 1 900 Milhões de falantes de Inglês;
Portugueses somos nós, Espanhol portunhol desenrasca e nasce connosco e o Inglês é uma necessidade obrigatória já colmatada no nosso sistema de ensino. Boa, já temos uma resposta aceitável para um mercado potencial de uns milhares de milhões sem grande esforço. Valerá a pena investir no ensino de Francês e Alemão sendo que particularmente estes últimos dominam também o Inglês?
A Ásia, em particular a China, é uma potência emergente com mercado crescente e sedento de visitar a Europa. Há países mais apetecíveis que o nosso para visitar? Sim, claro. Mas recentemente visitei a Ásia e sentimo-nos completamente desorientados em zonas onde só se fala e escreve Mandarim. É difícil perceber e fazermo-nos perceber sendo até por vezes impeditivo ou limitativo da nossa mobilidade e sustentabilidade. Isto é o que sentem também os turistas desses países quando visitam a Europa sem dominar o Inglês. É por isso que viajam em grupos, com guias de carne e osso e rotas bem definidas. Não desfrutam de uma visita em verdadeira liberdade.
É aqui que podemos fazer a diferença, em 10 a 20 anos, se começarmos já a assumir o pelotão da frente. Tornemos o Mandarim uma língua de ensino obrigatório, pelo menos para estudantes na área de actividades turísticas, e traduzamos as placas públicas das principais zonas turísticas para terem orientações em Português, Inglês e Mandarim. Tornemos as nossas ruas navegáveis por orientais sem necessidade de constante acompanhamento. Vamos brindá-los com algumas conversas de ocasião na sua língua. Tornemo-nos nos perfeitos anfitriões para falantes de Mandarim e em pouco tempo seremos inundados por eles e salvos pelos seus Yuan. Por cada sorriso registado na câmara e postado numa rede social asiática com um “Uau! Eles aqui compreendem-nos! E são tão giros!” temos milhares de novos clientes a fazer booking no próximo minuto. Dica Bónus: aproveitar as próximas décadas de regime transitório de Macau para a China, onde ainda temos uma presença marcante, para divulgar e semear a nossa recém-adquirida capacidade linguística e dizer-lhes que temos muito mais do que casinos por muito menos.
Além de que eles já são donos de parte de nós e um dia poderemos ter de saber dizer “Yes, boss!” em Mandarim. Eu já ficaria contente se num futuro risonho uma minha netinha entrasse numa qualquer loja chinesa e dissesse “Mãos no ar! Isto é um assalto!” sem correr o risco de não se fazer entender. Sempre se poupava um tiro. Sim, um futuro risonho porque é bom sinal sonhar que ainda se podem sustentar mais duas gerações.
Ventos do Advento
Numa fase conturbada da Europa, em que alguns dos chamados periféricos já recorreram á ajuda financeira, preparam-se outros para lhes seguir as pisadas. Até já as grandes economias do velho continente se vêm a braços com as baixas de rating e escalada de taxas de juros.
Um dos corsários tenta ainda resistir imune a toda esta epidemia, restringindo para si os antibióticos, querendo encobrir com uma manta curta a alquimia para a cura, mas a maleita está a chegar-lhe pelos membros inferiores. O microrganismo viaja mais rápido que o previsto ao centro do continente e bafeja quem não pretendia ser incomodado e se sentia isento da situação, apenas querendo tirar dividendos disso.
Nós por cá, alegando factos históricos que por hora não explorarei, temos o costume de dizer que daquela banda, “nem bons ventos nem bons casamentos” e dificilmente estaremos dispostos e reinventar esse dito, mas devemos contemplar o momento.
A poucos dias do inicio do advento, época Natalícia e de oferendas, pode ser que tenhamos algo para nos dar uma ínfima alegria. Com um numero já significativo de companheiros a solicitar vigilância às suas contas e apregoando intenções de pedidos de ajuda, dizendo embora alguns que se tratam de preventivos e não curativos, fará obrigatoriamente mudar o rumo de quem tenta desesperadamente, que a desgraça não lhes entre casa adentro.
Nesta época de preparação não será sensato esperar que a chaminé fique repleta de oferendas, algumas antecipando o festim já chegaram, com o talão agrafado para que saibamos quanto o seu real custo.
Desengane-se quem pense que chegará das bandas da Lapónia, esses querem manter a tradição de presentear apenas aqueles que se portam bem. Virá antes dum centro tecnologicamente avançado e com nome de genérico, alegando ser um medicamento com a mesma substância activa, mas de valor inferior, caso contrário todos os Estados podem levar á falência o laboratório.
Rain Man – Encontro de irmãos
Que bonitos são os reencontros. Entre irmãos são comoventes. “Rainman” relata-nos a viagem de dois irmãos a bordo do carro do falecido pai. Na bagageira, correctamente acondicionado, viaja o povo Português.
Ao volante segue Charlie Rabbitt, o yupi de Massamá. No lugar do morto, Raymond Rabbitt, o autista. Para traz ficaram as traquinices da infância, as brincadeiras no ATL das “jotas” e as tropelias da adolescência. Rumam agora à salvação… da crise, do euro e das nossas almas! Não têm GPS, nem mapa, mas avançam. Têm Troika.
Estando de acordo quanto ao itinerário, simulam desacordo para entreter. Raymond repete incessantemente que sabe guiar, insiste, reinsiste e persiste que a folga existe. Procura retirar espaço estratégico ao irmão. Charlie nega, diz não haver gasolina, por isso abranda, poupa e evita a pressão sobre o pedal do acelerador. Aguarda pela recta final, mais perto de Eleições. Têm e pede esperança a quem segue na Bagageira, exclama “aguentem“!
Um bom exemplo como um mau roteiro pode arruinar um bom argumento. Especula-se que tal terá precipitado Steven Spielberg a abandonar o projecto a apenas alguns meses do inicio da rodagem. Optou por investir o seu talento noutro projecto, o Indiana Jones e a Última Cruzada. Fez ele bem!
Alforriar, para conseguir Aforrar
A convivência com o papel-moeda é salutar e quanto mais cedo se incutir essa parceria nos mais novos melhor. Lembrem-se das horas passadas a jogar o célebre jogo do Monopólio com notas coloridas que se trocavam por casas e hotéis, tudo mudou e hoje esse mesmo jogo vem com uma máquina de ler cartões de crédito, retirando-nos a sensação de riqueza, já não guardamos debaixo das propriedades o maço do dinheiro, tornando-se muito inferior a sensação de perda.
Estando infinitamente provado que os hábitos dos adultos são o fruto da sua vivência enquanto crianças, no âmbito financeiro não é diferente. Urge por isso ensinar a poupar, tornando essa demonstração aliciante para os mais novos, o mealheiro deverá ser transparente e não como o porquinho que nós tivemos, para que se tenha a real motivação para o crescimento das economias.
Somos hoje netos de gentes de mãos calejadas, porventura sem tradição literária, os chamados incultos, mas com a escola da vida onde as aulas lhes foram administradas pela geada do campo e pelo calor das searas, mesmo assim, conseguiram aprender entre muitas outras coisas uma palavra que entretanto entrou em desuso, “aforrar”.
Quando eles nos diziam que tinham de fazer uma casinha para a reforma, quereriam porventura exprimir muito mais, mas fruto da inseparável irreverência juvenil teremos desvalorizado o assunto, mesmo quando nos ensinavam provérbios como “Pai rico, filho nobre, neto pobre”, proferido de um jeito que só eles sabem, não demos a devida atenção.
Somos hoje esses netos, e anos a fio essa palavra não entrou no nosso vocabulário, nem na escola, onde devem ensinar além da leitura e da matemática muitas outras coisas, nem fora dela. Os ciclos da história repetem-se e teremos forçosamente de iniciar mais um. Os jovens são sabedores já hoje do que lhes vai acontecer amanhã, por isso temos que dar início a essa tarefa, quanto mais cedo melhor.
Um Estado Social pensado num período específico e com dados ao tempo, com uma conjugação infindável de variáveis e projecções futuras baseadas em elementos que não se vieram a concretizar, um consumismo desmedido que nos foi incutido por um marketing violento, tiveram como resultado uma perca gradual e silenciosa de valores, monetários e consequentemente sociais. Alforriar os hábitos de consumo enraizados será uma tarefa difícil, mas iremos demonstrar que “grão a grão, enche a galinha o papo”.
Ainda recentemente divulgado que foi um estudo do ISCTE, demonstrou que os Portugueses estão insatisfeitos com os seus níveis de poupança, pois bem, o Banco de Portugal poderia lançar uma campanha Nacional sobre a poupança direccionada aos mais jovens, mandando o Alex e a Ana às escolas oferecer um livro educativo com o título:
Terminal de Declaração Automática
Há tantos tubarões e baleias no aquário que ninguém dá conta da arraia-míuda.
No meio das medidas de austeridade mais diretas e abrangentes há uma que não interessou muito ao público em geral e está agora a ser usada como importante batalha a vencer, para marcar presença e permitir à oposição sonhar que ainda vive e tem influência em tudo o que se está a passar. O belo do aumento do IVA sobre a Hotelaria e Restauração.
São só os setores onde tradicionalmente ocorre o maior volume da chamada economia paralela. É o mundo dos “Quer fatura?” que é como quem diz “Temos mesmo de declarar o consumo que acabou de fazer, incluindo o a taxa de IVA indicada no recibo, ou dá para mandarmos isto para a conta da contabilidade paralela?”. Não tenho pena nenhuma de que os “Quer fatura?” sejam forçados a pagar a fatura e passem a ser os “Tem aqui a fatura.” Mas a verdade é que isto apenas os assusta porque pode afugentar clientes que não estão dispostos a pagar mais pelos serviços ou produtos oferecidos. Porque em termos de economia paralela não há aqui nenhum combate à fraude, evasão e fuga de impostos. É mais um punhado de areia para os olhos da Troika e de quem anda a dormir.
Se o estado quer mesmo obter mais retorno através de IVA, e não apenas do relativo à Hotelaria e Restauração, tem de se focar em combater a economia paralela ainda existente. Pensando, inovando e tirando ideias da algibeira tão descabidas como o Terminal de Declaração Automática. Não interessa se seria um novo terminal ou se seria um software a viver em todos os TPA (terminais de pagamento automático) já omnipresentes em todos os estabelecimentos comerciais. O que interessa é que com esse simples dispositivo, ligado aos sistemas centrais de impostos, cada consumidor poderia exigir imediatamente a declaração do seu consumo para efeitos de garantia da sua taxação. Simples, fácil, usando por exemplo o cartão do cidadão.
Neste momento nós, os consumidores, queremos afugentar a crise para dentro do buraco de onde saiu. E para tal não nos importamos de ser fiscais, de obrigar os “Quer fatura?” a declarar o que já deviam declarar desde sempre. E como prémio deêm-nos algumas benesses como uma percentagem de desconto no IRS sobre a maquia que obrigámos os nossos fornecedores a declarar. Paguem-nos por fazermos o trabalho do Estado mesmo depois de lhe pagarmos através dos nossos impostos para o exercer proativamente e com competência.
Acefalia do “Já”
Os mercados não são sensatos. Ou são? Sê-lo-ão os investidores? E o comum dos mortais, o consumidor e contribuinte? Naturalmente todas as respostas são negativas. Digo naturalmente porque não ser sensato é uma característica do ser humano, cuja origem é biológica. Estranho? Nem por isso. Quando a hipótese não é imediata, reflectimos. Se existir um horizonte temporal instantâneo, reagimos. Chamo a isto a Acefalia do “Já”. Manifesta-se em todos aspectos do quotidiano, sendo particularmente nefasto quando o objecto de decisão é o dinheiro: Perante a hipótese da oferta de cinquenta euros já, ou cem euros daqui a uma semana, a esmagadora maioria opta pelos cinquenta já. No entanto, entre cinquenta euros daqui a uma semana, ou cem daqui a um mês, todos optamos por esperar pelo maior ganho. Qual o motivo para esta diferença de comportamento?
Tudo tem origem no nosso código genético. Toda a célula viva tem como missão primordial a manutenção dos parâmetros necessários à existência da própria vida. Tal explica a razão pela qual os seres unicelulares “sabem” quais as acções que devem desenvolver para se manterem vivos, mesmo sem consciência ou cérebro, aparentam raciocinar, o que obviamente não fazem. Reagem. Como tal, o meio é igualmente decisivo. Ironicamente, designamos a nossa envolvente por Pressão Social.
Dotado de consciência, o ser humano é curiosamente mais reactivo que reflectivo. Tendemos a criticar, rejeitar ou condenar tudo o que é simplesmente diferente ou estranho, sem que no fundo tenhamos sobre tal reflectido. O comportamento das crianças à mesa é disto bom exemplo: “não quero, não gosto”; “mas nunca provaste; “pois não, mas não gosto”…
A verdade é que como adultos não somos muito diferentes. Reagimos mais do que agimos com base em reflexão. Daí a publicidade. Ajuda-nos a reagir, a minimizar o raciocínio. Confesso que sou apreciador de toda a publicidade a detergentes, champôs ou pastas de dentes. Na verdade gosto de não ter que reflectir sobre eles. Prefiro reagir. Por esta preguiça, estou disposto a pagar um pouco mais do que o mínimo possível, ou até mesmo comprar um produto inferior ao mesmo preço. São opções. De importância vital para uns, profundamente indiferente para outros, em comum apenas o “Já”.
Somos maus a decidir a curtíssimo prazo. Seremos bons a decidir a médio ou longo prazo. Infelizmente, também não. À acefalia do “já” acresce outra característica humana, a incapacidade de prever o que nos fará felizes. Resolvemos comprando tudo o que nos proporcione conforto e bem-estar. Consumir tornou-se de facto um vicio, que sabemos nefasto, mas reincidimos por falta de melhor solução. Não identificamos as causas do vazio, limitamo-nos a enche-lo. Somos igualmente maus a descrever o que nos fez felizes no passado.
Na conjectura actual, aberta a caça às culpas e culpados, julgo imprescindível o raciocínio em detrimento da reacção. Acredito que não será preciso ir muito longe para encontrar o maior dos culpados: Todos e cada um de nós. Vamos contudo ser sugestionados, qual publicidade a detergente da louça, a condenar o regime democrático. Na verdade assistimos já hoje à capitulação de líderes eleitos democraticamente. Aceitamos, sem raciocinar, que tal é a melhor opção. Porquê? Porque negamos qualquer culpa no que se passa, porque negligenciamos a acefalia do “já” e porque continuamos a ignorar que o conforto proporcionado pelos bens de consumo, não nos trará verdadeira felicidade.
O problema não está no regime democrático, mas sim nas pessoas. Acredito que cada um de nós, uma vez ciente destes factos, fará melhor que reagir. Terá menos preguiça em raciocinar, e finalmente envolver-se na construção de uma sociedade com valores centrados no ser e não no ter, ou seja, uma sociedade menos fútil, materialista e egocêntrica do que a actual.
A Conjectura da Maturação
Seria até bom que se pudessem suprimir partes da história, certamente teriam sido feitos muitos retoques, quem sabe até, operações plásticas de forma a transfigurar as atitudes nefastas que marcaram para todo o sempre a humanidade. Inimizades combatidas de arma em punho, tentativas de seriação racial ou mesmo incidentes nucleares não nos orgulham, mas não foram anulados da história, muitas vezes são até dados como exemplo daquilo que não se deve fazer.
Ininterrupto, o calendário alheio a tudo isto não permite que lhe apaguem instantes, consequentemente temos de olhar em frente, mesmo nas ocasiões em que o sol nos encandeia e temos de franzir os olhos. Se há alturas em que cortes com o passado são necessários, esta é uma delas, ficando o que se passou sobejamente docume
ntado.
Ironicamente quem nos “ajuda” não pensa assim, dizendo que é preferível este método de recapitalização, ao invés dos milhões serem directamente para liquidação de dívidas. Segundo eles, assim seria retirada dos balanços das empresas e dos bancos o rasto e a pressão, das opções que foram tomadas no passado.
Décadas a fio, foram cometidos erros crassos e jogos de malandragem (para não chamar outra coisa), que em poucos levaram muitos á situação actual. É sabido que não fomos os únicos, mas com o mal dos outros…
Fruto de débeis chefias, utópicas mas de vistas curtas, hoje as economias cotizadas ao longo de muitos anos estão arrasadas. Uns falsos beneméritos apregoam agora a hipótese de colmatar esses desacertos, mas avisam que terá de ser á maneira deles.
Estes prestamistas evoluídos, fazendo futurologia, optam por não amortizar, para que não se apague história, mas sim emprestar ciclicamente, para que a história se repita, perspectivando já a vénia que alguns lhes vão fazer.
Com uma dívida que se cifra em muitos milhões de euros, irá mais uma vez por ordem de outros injectar-se dinheiro, para que se cumpram padrões, tentando assegurar-se á partida assento nas participadas para mais uns quantos. Previamente estão a preparar o séquito daqueles que rapidamente se fartarão de ao final de cada mês, levar para casa o parco salário de ministro ou secretário de estado.
Talvez equacionem a maturação a quatro anos, para final da legislatura, mas com a efervescência actual dos mercados podem produzir-se prazos mais curtos.







