Author Archives: Nuno Faria
O combustível hoje aumentou! – Lado B da Vida
Já não há pachorra para as notícias agressivas sobre todas as medidas opressoras da confiança, optimismo e felicidade. Por isso hoje para variar comento o aumento dos combustíveis de forma ligeira, irónica e bem-disposta. No final deste artigo não vão perceber a gravidade da situação mas ao menos terão um rasgado sorriso que dará férias à cara sorumbática plantada pelos normais noticiários.
Preço dos Combustíveis = Retorno das charrettes?
Depois de um burro ter vencido um Ferrari numa corrida no IC-19 em hora de ponta eis que agora começa a ser mais barato sustentar um cavalo do que um automóvel. O mercado de carroças e equídeos prepara-se para a procura que se avizinha.
Perguntámos a Paula Bobone o que acharia do retorno das charrettes e dos cavalos ao que nos respondeu:
– “Não deixaria de trazer um certo glamour às ruas de Portugal e o revivalismo está na moda. Poderiam alimentá-los apenas a arranjos florais para que os seus cócós perfumassem a cidade.”
Já José Castelo Branco foi mais comedido dizendo:
– “Seguramente algo que envolva cavalos e a minha pessoa tem que envolver também uns charrettes porque para acontecer eu teria que estar drogado, D-R-O-G-A-D-O, para não me lembrar de nada do que se passou naquela quinta com o garanhão chamado Frota.”
Empresas de Transportes preocupadas com nível da Matemática em Portugal
Com o novo aumento dos preços, e o perigo do retorno das charrettes, as empresas de transportes desafiam os Portugueses em acções de marketing com problemas matemáticos de nível básico como:
“Se encher o depósito custa 70 € e gasta dois depósitos por mês no percurso casa-trabalho. Quanto gasta por mês? É mais caro ou mais barato do que o passe de transportes de 50 € por mês? E se adicionar o custo do parqueamento?”
Para espanto dos marketeers a grande maioria dos Portugueses não consegue encontrar as variáveis nem fazer as contas e não chega a qualquer resultado. Por este motivo as empresas de transportes exigem mais e melhor Matemática ao Ministério de Educação.
Governo cria condições para baixar preços de combustíveis
Derivado à falta de orçamento para investir em políticas de educação o governo, preocupado com a situação no mercado pretrolífero e o grande impacto social dos preços dos combustíveis, reuniu de emergência com as petrolíferas e gasolineiras nacionais para concertar esforços no sentido de proporcionar períodos de baixa de preços que aliviem os Portugueses.
A negociação não foi pacífica mas chegou-se ao consenso e a partir de agora os preços dos combustíveis terão 10 casas decimais. Hoje o preço poderá estar a 1,6999999999 mas amanhã poderá estar a 1,6999999998 e no dia seguinte a 1,6999999997 e assim sucessivamente até que progressivamente os preços normalizem para valores razoáveis.
A Europa aplaude atitude do governo e pondera criação da moeda de 0,0000000001 € para facilitar trocos.
Victor Gaspar critica aumento dos combustiveis em Portugal
Apesar do desafio de fazer projeções de receitas exatas à décima casa decimal o Ministro das Finanças está indignado com o novo aumento dos combustíveis. Isto porque inviabilizam a subida do ISP e IVA que em conjunto representam apenas pouco mais de 50% do preço da gasolina.
Segundo planos do próprio os Portugueses são capazes de ser austerizados até aos 1,999 € por litro desde que 80% desse valor fosse para os cofres do estado. É incompreensível que cheguemos em breve a esse valor devido a ação das petrolíferas e não à ação direta do governo. Depois da Troika deveria ser o governo e não o sector privado a gerir a economia nacional. “E agora aumento o quê?” disse um desapontado Victor Gaspar.
Comunidade de Xuning protesta contra aumento dos combustiveis
Já não bastava a crise a limitar a capacidade de evolução contínua dos nossos veículos motorizados e eis que agora o aumento de combustíveis condiciona também a liberdade de expressão na comunicação via raters, roncos e vibratos de tubos de escape.
Um peidinho ou bufa motorizada está ao preço do ouro e não há quem consiga manter a contínua demonstração sonora das capacidades da sua máquina.
O Xuning silencioso não é Xuning. É meio caminho andado para a degradação desta forma de arte para o estatuto de decoração pirosa só ao alcance de alguns bimbos sem tusto
Se esboçaste um sorriso que seja faz um like pá. É de borla! (por enquanto)
O que se extingue com a Freguesia?
As freguesias estão na mira de longo alcance. Hoje são mais de 4 000 delas e a reformulação do governo aponta para o desaparecimento de 1 000 a 1 500.
A freguesia onde cresci, Póvoa de Santo Adrião, bem como a onde moro (que não revelo para não receber ameaças como os árbitros do futebol português), estão prestes a ser extintas.
Ontem foi a manifestação de muita gente contra esta revolução da divisão administrativa.
Sempre pensei que o problema fosse uma questão de ‘status’, de perca de um título, downgrade de freguesia para simples vila, aldeia, localidade ou algo assim. Com a humilhação acrescida de passarmos a ser administrados por uma freguesia adjacente com quem normalmente temos grandes rivalidades desde tenra idade. Afinal a linha de separação de duas freguesias é como uma zona de guerra, sobretudo verbal, que muito contribuiu para o desenvolvimento do vernáculo nacional.
Em Janeiro, altura em que recebi um panfleto a alertar-me para a extinção da freguesia onde resido, fui abordado por três velhotas vizinhas a explicar-me como ia ser terrível porque há ali dezenas de idosos que mal conseguem caminhar até à atual junta receber pensões, pagar água, luz, etc, (a junta faz também de estação de CTT por já ter sido extinta a filial local), quanto mais passar a ir ao local da nova junta que ficaria noutra freguesia a não sei quantos km. Nem têm força nas canetas, nem têm cheta nas carteiras. E que há problemas sociais e tradições que só os locais conhecem e compreendem, e como é com os muitos trabalhadores locais da junta? Vão ser absorvidos? Vão ser despedidos? Ai Meu Deus! Curiosamente hoje, dois meses depois, duas delas já faleceram…
A principal argumentação do governo é a optimização de custos diretos relacionados com as custas com membros das assembleias . Sim, acredito que parte deles sejam apenas uma cambada de chupistas. Uma assembleia de uma junta de freguesia pode ter de 7 a 20 e tal membros dependendo do número de eleitores. As opções de horário para exercício dos cargos são várias bem como os vencimentos aplicáveis. Ou seja há mais do que espaço de manobra para atribuição de tachos em cargos simbólicos.
Mas apesar de tudo são as juntas de freguesia que estão presentes e se preocupam com a dinamização e planeamento do desenvolvimento local. Antes da extinção talvez se devesse reformular a composição e regras aplicáveis aos membros das assembleias das juntas de freguesia para reduzir as suas custas e/ou aumentar a sua produtividade? Fará sentido que os ‘gestores’ de uma freguesia o possam fazer em part-time acumulando cargos públicos e privados e rendimentos daí advindos? Não merecerão os eleitores alguém dedicado a 100% mesmo que sejam menos e melhor pagos os membros das assembleias? Talvez se devesse antes apostar na diplomacia e formação local, com os interlocutores atuais, e fomentar a parceria com as freguesias adjacentes na prestação de serviços comuns?
Extinguir freguesias não fará desaparecer a área territorial a gerir e na verdade não pode simplesmente deixar de existir um determinado número de colaboradores e de gastos operacionais. Além de que as fusões devem ter critérios muito específicos pois nas novas juntas de freguesias terão de existir representantes de cada uma das antigas freguesias para garantir que os seus interesses não serão atropelados pelos da nova ‘casa mãe’.
E quais são os critérios? Estritamente quantitativos ou qualitativos? Uma grande freguesia mal gerida vai absorver pequenas freguesias bem geridas passando os maus presidentes a gerir mais território? Ou será premiada a gestão sendo promovido o melhor presidente de junta das freguesias a agrupar? Quem avalia e decide o desempenho da gestão de cada freguesia?
A fusão não vai ser apenas redução cega de custos. Vai ter custos escondidos como:
- Crispação social pela desconfiança gerada pela deslocalização e afastamento do poder administrativo local;
- Integração e organização do conhecimento e dos registos documentais das freguesias absorvidas;
- Remodelação da comunicação feita pelas juntas de freguesia (sites, brochuras, panfletos, cartazes, papel, carimbos, etc);
- Lidar com a informação online, que se torna errada, sobre freguesias de Portugal. Desde blogs, wikipedia, artigos e diretorios, sobre divisão administrativa, etc, há milhares de artigos online que continuarão a existir com informação totalmente desadequada à nova realidade.
- Ajustamento nos sistemas informáticos nacionais para reflexo da nova divisão administrativa. Numa altura em que tanto se exige mais produtividade vão forçar empresas e organismos públicos e particulares a ter de criar um processo de migração de toda a informação que inclua a indicação de freguesia bem como adaptar os seus sistemas a trabalhar com a nova realidade. Os custos globais desta operação serão certamente na ordem dos milhões de euros e milhares de horas de trabalho não previsto e sem retorno financeiro pois não está a gerar negócio. Fará sentido este desperdício neste difícil período?
Mesmo assim vejo pelo menos três coisas positivas deste frenesim à volta da reformulação da divisão administrativa:
- Aumentou o interesse público em perceber quais os gastos administrativos nas juntas de freguesia. O governo propõe a extinção em massa de freguesias mas não liberta dados relativos a despesas concretas que podem ser reduzidas. São os custos com membros das assembleias? São os custos com pessoal? São os custos de sub-contratação de serviços? Afinal quais os desperdícios das freguesias que esta solução vai eliminar?
- Aumentou a curiosidade sobre a história e estado atual das nossas freguesias do coração.
- Se o governo não vê problemas em extinguir freguesias com séculos de existência está aberta a brecha para não apoiar financeiramente nem justificar a defesa de tradições com a o argumento da sua secularidade, como acontece por exemplo com as famigeradas Touradas.
A mudança não poderá ser apenas administrativa, terá de existir alteração de legislação, e por agora o assunto está numa embrulhada nebulosa tão grande que é apenas uma excelente manobra de diversão.
Este Blog é Desenhado em Portugal, Fabricado em Portugal, Emprega 0 Portugueses e é Livre de Impostos
Os Portugueses têm memória curta e têm algum preguiça em esforçar-se para defender o que é seu. É sabido e provado pela história da nossa democracia, pela dança de cadeiras ocupadas por muitas caras envolvidas em negociatas de cariz duvidoso, que metem em causa a sua honestidade e carácter em passado não tão longíquo.
Uma das melhores maneiras de proteger a nossa economia é com os nossos hábitos de consumo. A defesa da produção, emprego e sistema fiscal nacionais pode e deve ser cultivada pelos mundanos hábitos de consumo. Há povos que o fazem por cultura e hábitos passados de geração em geração. Consomem produtos dos seus países, mesmo que mais caros que os idênticos de marcas de outros países. O povo alemão é um deles por exemplo.
Mas hoje olhamos para as prateleiras e já não reconhecemos todas marcas e nem sequer temos ideia do real contributo que aquelas que conhecemos dão à nossa economia. Com tantos artifícios de boa gestão focada na fuga aos impostos e redução de custos para aumentos dos lucros, haverá marcas muito consumidas que pouco ou nada contribuem para a nossa economia para além do IVA.
Já somos desinteressados por natureza mas quando não temos qualquer apoio à decisão refugiamo-nos simplesmente no mais barato ou no que mais gostamos ignorando tudo o resto. É por isso que sugiro aqui um sistema de etiquetagem ou rotulagem de marcas, serviços e/ou produtos que indique explicitamente:
- Designed By: em que país foi desenhado;
- Made In: em que pais foi produzido;
- Supplied By: %s de matérias primas utilizadas para a sua produção por área geográfica com indicação pelo menos relativa ao país onde está a ser feita a venda;
- Workforce: em que indica quantos trabalhadores emprega por área geográfica com indicação pelo menos relativa ao país onde está a ser feita a venda;
- Taxed In: que indica as %s de taxação sobre os lucros por área geográfica com indicação pelo menos relativa ao país onde está a ser feita a venda;
Com estes dados bastaria olhar para o rótulo ou etiqueta e perceber claramente se esta marca, serviço ou produto está ou não a contribuir, e em que medida, para o emprego, para a produção, para os impostos e consequentemente para a economia nacional. A existir seria certamente um fator decisor na escolha dos consumidores e estaria tão à mão que só não usaria a informação quem não tenha pinga de estima pelo seu país.
Politicamente não é europeísta defender um favorecimento à produção nacional mas a melhoria desta situação não precisa de acção política. Precisa de Marketeers que entendam que esta informação pode ser um bónus para aumentar as suas vendas e penalizar concorrentes que não sejam tão ‘nacionalistas’ nas várias componentes da sua gestão. Claro que para muitas marcas esta transparência pode ser nociva mas se alguém o começar a fazer a opacidade, com a falta de informação, fará mais dano do que a revelação de dados menos ‘simpáticos’ nesta matéria.
Nós os consumidores queremos ajudar a levantar Portugal mas não nos obriguem a trabalhos ciclópicos de investigação para destrinçar quais as marcas supostamente Portuguesas que mais não são do que correios de Euros para sistemas fiscais offshore.
Faróis sobre o que é verdadeiramente “nacional é bom” precisam-se!
E se parte da solução fôr mandar tudo pelos ares?
Com tantos indicadores contraditórios os desempregados já não sabem se hão-de emigrar para um estrangeiro longíquo, com economias emergentes, ou se hão-de por cá permanecer e enveredar pelo caminho mágico do empreendedorismo (que no passado deu azo a muitas PMEs que hoje são alvo da política de saneamento das ‘más’ empresas que contaminam a nossa economia como já foi dito por agentes do actual governo, inclusive pelo nosso Primeiro Ministro).
Portugal pode realmente beneficiar do empreendedorismo levado a cabo pelas centenas de milhares de jovens desempregados com muito sangue na guelra e muita formação qualificada. Num país reconhecido internacionalmente como tendo tendência de early-adopter em várias inovações tecnológicas, um país onde existem mais telemóveis que habitantes, temos ainda um grande calcanhar de Aquiles comparativamente a outros países. O estado da Internet gratuita via Wi-Fi em espaços públicos e comerciais.
Em Portugal a conectividade móvel está predominantemente associada a hot-spots e planos tarifários que afastam muitos dos potenciais utentes, que possuem os terminais capazes para o acesso à Internet, mas sem € nos bolsos que lhes permitam tornar o acesso móvel à Internet como algo trivial no seu quotidiano. Existe actualmente uma vincada preocupação com custos e seu impacto no actualmente parco orçamento pessoal.
Lá fora, em muita Europa, USA e Ásia é já corriqueira a existência de pontos de acesso à Internet gratuitos suportados por estabelecimentos comerciais ou entidades públicas. Seja dentro de estabelecimentos comerciais seja em espaços públicos é possível ligarmo-nos à Internet sem pagar.
Num mundo em que cada vez mais o online deixa de ser conotado com o virtual, assumindo-se como uma extensão do social e profissional, estar conetado sem custos a todo e qualquer momento é um potenciador de relacionamento, criatividade e ideias com aplicações comerciais. Se não há volume de consumidores móveis será mais difícil surgirem projetos portugueses que assentem em serviços online que dependem da mobilidade e acesso fácil à Internet a partir de qualquer ponto.
É por isso que o governo deveria encorajar os proprietários de estabelecimentos comerciais a investirem em equipamentos que providenciem Internet gratuita aos seus clientes, e as autarquias a dotarem de Wi-Fi gratuito os espaços públicos com grande afluência. Afinal 4 em cada 5 pessoas considera este acesso um direito fundamental.
Trabalhemos para que os comportamentos de acesso móvel à Internet sejam independentes de custos e surgirão empreendedores capazes de explorar esse nicho. Bem sei que isto afectará uma fatia de facturação de muitas centenas de milhões de euros em 2011 mas quem precise mesmo de melhor qualidade de serviço continua disposto a pagar mais por isso. Além de que em 2011 houve uma quebra de 6% neste tipo de facturação relativamente aos quartos trimestres de 2010 e 2011. Sinal claro de que o custo inibe a utilização?
Os jovens anseiam por isso e criam online registos das agulhas no palheiro que lhes permitem navegar gratuitamente na extensão online da sua vida. Perguntam em fóruns online e criam páginas como esta com um mapa dos locais com Wi-Fi gratuito em Lisboa.
Fomentar o empreendedorismo passa também por criar mais dificuldades a quem tem alguns tipos de negócios garantidos. Será mais penalizante para a sociedade e economia do país não termos esta facilidade de acesso à Internet (para Portugueses e Turistas) ou arriscar prejudicar os operadores que controlam quem tem direito a esse acesso com planos tarifários por si controlados?
Eu mandaria tudo pelos ares. Doesse a quem doesse.
Da Rua para a Presidência
Ligo a televisão e sobressai o fim dos feriados do 5 de Outubro e do 1 de Dezembro. Manuel Alegre a ressurgir comentando isso e o último episódio de Cavaco Silva. Parece que já há marcação de posição para a eventualidade de movimentos e petições como esta (com mais de 37 000 assinantes) levarem o Presidente da República a submeter-se a um voto de confiança por parte do eleitorado.
Sigo para a leitura da Visão da semana passada, a falta de tempo dá nisto, e leio que na Grécia são às centenas as crianças abandonadas pelos pais subnitridos que não têm condições de ficar com elas, que a taxa de suicídio aumentou 40% e que os pais se entristecem por ver os filhos com piores perspectivas de vida do que eles em 20 anos de ditadura. Com estes números a agitação social nas ruas até parece coisa pouca…
Depois vêm todas as medidas do diploma de concertação social que diminuem custos com desempregados e trabalho extra-ordinário bem como agilizam despedimentos. Logo depois entrevista a Carvalho da Silva da CGTP que está de saída. Diz que no documento original estava a frase depois retirada “o Estado deve servir as empresas na óptica do serviço ao cliente”. Começo a ler a sua entrevista, o seu percurso de vida e o que dizem amigos e inimigos e de repente cai-me a moeda.
Em vez de irmos para a rua manifestar-nos levemos a rua para o Palácio de Belém. Se o governo agora está tão focado para as empresas precisamos de um contra-balanço focado no cidadão / trabalhador. De certeza que teríamos diálogo e discursos constantes da mais alta figura do estado. E seria deveras interessante apimentar a vida política de Portugal com um pouco de contra-corrente para partir a loiça toda.
As agências de rating eram capazes de não gostar mas estamos a chegar ao momento em que isso começa a já não interessar. Era um pouco 8 ou 80. Mas desta vez passávamos austeridade a quem a anda a distribuir de bandeja sem o puxão de orelhas devido.
Não me levem a mal mas não estou a querer apoiar um futuro candidato. Apenas estou farto das opções do costume e a forçar-me a pensar out-of-the-box. Sempre é melhor do que ir para as ruas descarregar para depois ver que a cobertura nos media está suavizada, tem pouca dura e resolve pouco. Ao Carvalho da Silva vejo-o nas ruas há tanto tempo que seria um seu bom representante. Além de que me daria um certo prazer tê-lo a picar os miolos a quem anda a fazer picadinho de nós. Os homens da luta também seriam bons mas se não prestam para ganhar o festival da canção também não prestam para isto.
Como cai um Presidente da República?
O Primeiro Ministro de Singapura, Lee Hsien Loong, vai sofrer corte de 36% passando a ganhar 1,33 milhões de euros ano.
O Presidente de Singapura, Tony Tan, vai sofrer corte de 51% no salário passando a ganhar 907 mil euros ano.
Cavaco Silva, Presidente de Portugal, ganha 84 000 € ano.
Hu Jintao, Presidente da China, ganha 14 130 € ano.
Os dois primeiros ganham fortunas mas têm o seu salário indexado a indicadores económicos que são os seus objectivos como gestores da nação. Conseguiram um crescimento do PIB a quase 15% e uma taxa de desemprego a 2%.
O nosso Presidente não ganha para as despesas mas tem a sorte de viver actualmente num país classificado como lixo com muitas oportunidades de recorrer à coleta de bens deitados fora que podem ser reciclados como por exemplo um banco, parte de uma companhia de electricidade ou uma companhia das águas. Um rendimento extra garantido e bem apreciado.
O Presidente da China à proporção é um miserável, mas capaz de organizar umas poupanças para ir comprando umas pechinchas que um dia há-de voltar a vender banhadas a ouro e cravejadas de diamantes com alta percentagem de chumbo.
Nas últimas eleições presidenciais tinhamos um governo PS a preparar-se para driblar a nação com um conjunto de PECs, um nome diferente para pacotes ou medidas de austeridade. O nosso Presidente assanhou-se e deu indicadores que para um segundo mandato iria ser interventivo e moderador do impacto das medidas na vida dos seus Portugueses não facilitando a vida a José Sócrates. A alternativa era Manuel Alegre, um candidato independente da família socialista, que tinha um discurso mais agressivo e parecia ir chocalhar as águas políticas num momento de pré-crise, ou de crise camuflada, onde qualquer distúrbio poderia empurrar-nos para onde estamos hoje.
Em acréscimo, a tendência das últimas eleições diz que os Portugueses gostam de ver forças políticas distintas nas cadeiras de Primeiro Ministro e de Presidente da República. E assim naturalmente Cavaco Silva ganhou o seu segundo mandato.
Entretanto com o PS a entrar em contradição e a ser forçado à aplicação das medidas necessárias para corrigir as contas, surge um descontentamento social crescente e rapidamente reaprendemos como cai um governo com a concertação dos partidos da oposição que avaliaram ser aquela a hora H para reconquistar as rédeas do poder.
E de repente tudo mudou. Uma guinada à direita, sacudir o capote para a esquerda, fazer o contrário do prometido na campanha eleitoral, a soberania económica de fachada e o caos social instalado. Um retrocesso das condições de vida e do ânimo de viver para milhões. E um Presidente que mudou. Um Presidente que defendia o “deixem-me trabalhar” parece agora gozar com quem trabalha mais por menos. Um Presidente que prometia ser interventivo quanto baste, limita-se a avisar para a inconstitucionalidade e injustiça social de algumas medidas que aprova depois sem o mínimo burburinho, mais não seja que um vetinho estéril para português ver.
Sei que a capacidade de intervenção direta do Presidente é limitada mas os seus discursos podem ser galvanizadores daqueles que estão a ser acossados por medida atrás de medida. Que vinque que o carácter das medidas excepcionais deve ser temporário, que reflita em atos simbólicos as suas críticas prévias sobre as leis que lhe são entregue para aprovação. Parece que a única “força de bloqueio” actualmente em acção é a força das suas mandíbulas cerradas. Temo que tanta ausência de discurso prático o tenha feito perder o discernimento no discurso improvisado. Pior, temo que por improvisação saia o seu pensamento direto sem a censura dos seus acessores de comunicação.
Desculpei os ganhos em bolsa com o BPN, desculpei as giga-jogas com as escrituras da casa na santa terrinha, desculpei os ‘amigos’ envolvidos em casos de corrupção, desculpei um primeiro mandato de mudez mas neste momento não há mais margem de manobra para desculpas a não ser talvez para um Alegre, ou mesmo para um Nobre, que sendo menos politicamente corretos talvez fossem mais socialmente certeiros. Foda-se, pá! Votei em ti, merda! Mea culpa! Mas era para acossares o José Sócrates e não para andares com meninos da família ao colo! E que raio de vícios tens tu que não podem ser sustentados com 10 000 € mês?
Obrigaste-me a aprender como cai um Presidente da República. Aparentemente só é possível a sua destituição via uma de duas formas:
- Mediante Responsabilidade Criminal com condenação de crime praticado.
- Por Renúncia feita pelo próprio em mensagem dirigida à Assembleia da República.
A primeira está fora de questão mas esta segunda só depende do próprio. Haja uma suficientemente grande manifestação social para a sua destituição e acredito que sejas homem para o fazer. Pelo menos o Sócrates foi.
Os truques do Downsizing
Aumento da taxação de impostos, retenção de subsídios durante dois anos no estado, empresas públicas e similares, aumento das taxas moderadoras sobre serviços de saúde, encerramento de unidades de saúde pouco rentáveis, diminuição de participação em medicamentos, fim das SCUTS, diminuição de montante e/ou prazo de pagamento de reformas e outros tipos de subsidiação (entre outros o do desemprego), privatizações de empresas estatais monopolistas que fornecem serviços básicos à população, etc. Tudo isto para quê?
Em 2012 aumentam os preços de uma enorme gama de produtos alimentares, com IVA revisto, fala-se de aumentos de pelo menos 4% em gás, electricidade e água e os produtos petrolíferos encontram-se em nova espiral de subida de preços. Somando a isto o aumento do custo com portagens e o aumento das despesas de saúde para quem delas necessite, como quantificar a perda real do poder de compra tendo em conta todas estas variáveis? Para muitos Portugueses o orçamento familiar vai ser alvo de revisão forçada e será preciso escolher se se vai destapar os pés ou a cabeça.
Numa altura caracterizada por desemprego de longa duração a diminuição do período de apoio só irá aumentar o número de desempregados sem subsídio. Com a diminuição de serviços médicos e o aumento das listas de espera, que curiosamente estavam em contracção, quantas pessoas correm risco de vida ou prolongamento de vida sofrível porque os tempos não estão de feição? Quantos pensionistas deixarão de fazer medicação adequada com a reformulação em baixa da reforma e da comparticipação em medicamentos?
E o impacto das SCUTs terá sido bem avaliado? Foi estudada a dinâmica social e profissional dos seus utentes? A maioria não poderá suportar estes custos e voltará às velhinhas nacionais aumentando tempo de deslocação, acidentes e transferindo a despesa de manutenção de estradas para a já tão esburacada Estradas de Portugal. E os concessionários das SCUTs com menos tráfego e necessidades de manutenção terão o seu quinhão garantido com as compensações acordadas com o Estado para o caso do volume de utentes não ser o esperado. É como se pagássemos duas vezes sem ter o benefício da melhor solução de deslocação. Será que esta correlação será feita em análises futuras?
Diria que para um governo frio e calculista apenas o grupo dos desempregados poderá ser problemático. Porque é gente activa que fica sem ocupação, capaz de se indignar e ir para as ruas estrilhar. Os outros, pensionistas e utentes regulares do serviço nacional de saúde, a médio prazo têm grande probabilidade de deixar de fazer número. Afinal com menos 42 mil cirurgias entre Setembro e Novembro de 2011 vs Setembro e Novembro de 2012, diminuição de 20% da actividade cirurgica num ano e o bastonário da Ordem dos Médicos a alertar que se está a acumular mensalmente atrasos de semana e meia nas listas de espera, não devem haver muitos pacientes em espera capazes de sobreviver a tal austeridade. Pelo lado social e familiar é mau mas para os números do OE é coisa para ajudar bastante.
Quando uma pessoa está há demasiado tempo sem ter oportunidade de produzir começa a ficar irrequieta e capaz de se mobilizar, sobretudo porque não tem nada a perder para além de um certo anonimato. Talvez por isso o governo tenha emitido fortes sinais de que para os próximos tempos o melhor é mesmo emigrar, procurar soluções no exterior. Com um certo paternalismo, é certo, mas com o sincero desejo de que desta forma consigam diminuir despesas com estes ‘fardos’ e ao mesmo tempo manter uma certa aparência de satisfação e paz social.
Os empregados esses têm que se manter com juízo, comer o pão que o diabo amassa, tal é a pressão causada pelos largos milhares disponíveis para ocupar o seu lugar, ainda por cima a melhor preço, e a falta de outras opções. Dois anos sem subsídio são suficientes para criar esquecimento de que alguma vez existiram e gerar conformidade com as necessidades dos novos tempos. E as horas de produtividade exigidas a mais hão-de vir de algum lado nem que seja das horas dedicadas à esfera familiar, social e pessoal. Talvez a mitológica, famosa e atribulada vida vestibular existente em ambientes hospitalares se comece a extender a outras áreas de actividade.
Os trabalhadores Portugueses assemelham-se neste momento a Lemmings enfileirados a caminho da falésia com a secreta esperança que após o sacrifício do pelotão da frente se chegue à conclusão que o equilibrio no ecossistema está restabelecido e afinal o seu sacrifício pode ser evitado. RIP e obrigado aos menos afortunados.
Mas o pior ainda há-de estar para vir. O SOS China é uma bóia de salvação para o curto prazo mas sendo-lhes concedido suficiente poder de decisão, a médio prazo existe o real perigo substituição de fornecedores e da invasão de uma mão-de-obra barata não tão qualificada, não tão sindicalizada nem ciente dos seus direitos, mas que cumpre prazos e dá brilho aos orçamentos de obras.
Para o estado tudo vai bem. Menos despesas diretas com as SCUT, menos despesa com subsidição de desemprego (com menos inscritos nos centros de emprego), menos despesa com saúde (com transferência de muitos utentes em fila de espera para as estatísticas de óbitos), menos despesa com pensionistas, menos empresas públicas (inclusive as mais rentáveis e base de serviços essenciais à população) , na globalidade um gigantesco downsizing de sucesso para o livro de contas de 2012 e 2013.
Para os Portugueses em geral não se sabe bem. Vão encaixando downsizing atrás de downsizing aparentemente sem sentir grande necessidade para um achocalhante uprising capaz de retribuir um pouco da austeridade.
PS – Resisti ao ímpeto de aplicar downsizing ao tamanho deste post porque considerei que todos os parágrafos produzidos tinham direito à publicação independentemente de terem maior ou menor ROI em termos de leitura.
欢迎葡萄牙 – Investir na Educação para salvar o Turismo
A Europa está a bater no fundo e nem o turismo parece ser bóia de salvação em tempo de pregação da poupança. Esta dependência total da Europa é muito bonita quando o iceberg não se avista. Mas agora que encalhamos, e o sacana parece capaz de resistir até ao problema do aquecimento global, está na hora de pensar além fronteiras.
Olhando para os dados mais recentes relativos ao turismo, retirados do INE, vemos que a grande massa turística é proveniente de Espanha, Reino Unido, França e Alemanha. Juntos representam mais de 60% das entradas e receitas do turismo.
Ora os dois primeiros já estão sob regime de austeridade, o terceiro anda um bocado aos papéis a ver se percebe se está abaixo ou acima da linha de água, e o último por uma questão de pudor e rigor não poderá tão cedo vir aproveitar-se da pobreza e austeridade que nos aconselha a impôr para os próximos tempos.
Posto isto quem tem vontade e dinheiro para nos visitar, desfrutar dos nossos recursos, sentir o nosso life style, largando uma nota simpática que permita fazer do turismo uma âncora de emprego e dividendos? Essa é a questão que pode ser a nossa salvação. Afinal Portugal representa apenas 1,5% a 2% da Quota de Turismo Mundial. É ainda daquelas raras quotas em que estamos autorizados a investir para crescer não sendo subsidiados se nada fizermos para isso!
Mais alguns números interessantes para a tomada de decisão:
- 180 Milhões de falantes de Alemão;
- 220 Milhões de falantes de Francês;
- 250 Milhões de falantes de Português;
- 500 Milhões de falantes de Espanhol;
- 1 000 Milhões de falantes de Mandarim;
- 500 Milhões a 1 900 Milhões de falantes de Inglês;
Portugueses somos nós, Espanhol portunhol desenrasca e nasce connosco e o Inglês é uma necessidade obrigatória já colmatada no nosso sistema de ensino. Boa, já temos uma resposta aceitável para um mercado potencial de uns milhares de milhões sem grande esforço. Valerá a pena investir no ensino de Francês e Alemão sendo que particularmente estes últimos dominam também o Inglês?
A Ásia, em particular a China, é uma potência emergente com mercado crescente e sedento de visitar a Europa. Há países mais apetecíveis que o nosso para visitar? Sim, claro. Mas recentemente visitei a Ásia e sentimo-nos completamente desorientados em zonas onde só se fala e escreve Mandarim. É difícil perceber e fazermo-nos perceber sendo até por vezes impeditivo ou limitativo da nossa mobilidade e sustentabilidade. Isto é o que sentem também os turistas desses países quando visitam a Europa sem dominar o Inglês. É por isso que viajam em grupos, com guias de carne e osso e rotas bem definidas. Não desfrutam de uma visita em verdadeira liberdade.
É aqui que podemos fazer a diferença, em 10 a 20 anos, se começarmos já a assumir o pelotão da frente. Tornemos o Mandarim uma língua de ensino obrigatório, pelo menos para estudantes na área de actividades turísticas, e traduzamos as placas públicas das principais zonas turísticas para terem orientações em Português, Inglês e Mandarim. Tornemos as nossas ruas navegáveis por orientais sem necessidade de constante acompanhamento. Vamos brindá-los com algumas conversas de ocasião na sua língua. Tornemo-nos nos perfeitos anfitriões para falantes de Mandarim e em pouco tempo seremos inundados por eles e salvos pelos seus Yuan. Por cada sorriso registado na câmara e postado numa rede social asiática com um “Uau! Eles aqui compreendem-nos! E são tão giros!” temos milhares de novos clientes a fazer booking no próximo minuto. Dica Bónus: aproveitar as próximas décadas de regime transitório de Macau para a China, onde ainda temos uma presença marcante, para divulgar e semear a nossa recém-adquirida capacidade linguística e dizer-lhes que temos muito mais do que casinos por muito menos.
Além de que eles já são donos de parte de nós e um dia poderemos ter de saber dizer “Yes, boss!” em Mandarim. Eu já ficaria contente se num futuro risonho uma minha netinha entrasse numa qualquer loja chinesa e dissesse “Mãos no ar! Isto é um assalto!” sem correr o risco de não se fazer entender. Sempre se poupava um tiro. Sim, um futuro risonho porque é bom sinal sonhar que ainda se podem sustentar mais duas gerações.
Terminal de Declaração Automática
Há tantos tubarões e baleias no aquário que ninguém dá conta da arraia-míuda.
No meio das medidas de austeridade mais diretas e abrangentes há uma que não interessou muito ao público em geral e está agora a ser usada como importante batalha a vencer, para marcar presença e permitir à oposição sonhar que ainda vive e tem influência em tudo o que se está a passar. O belo do aumento do IVA sobre a Hotelaria e Restauração.
São só os setores onde tradicionalmente ocorre o maior volume da chamada economia paralela. É o mundo dos “Quer fatura?” que é como quem diz “Temos mesmo de declarar o consumo que acabou de fazer, incluindo o a taxa de IVA indicada no recibo, ou dá para mandarmos isto para a conta da contabilidade paralela?”. Não tenho pena nenhuma de que os “Quer fatura?” sejam forçados a pagar a fatura e passem a ser os “Tem aqui a fatura.” Mas a verdade é que isto apenas os assusta porque pode afugentar clientes que não estão dispostos a pagar mais pelos serviços ou produtos oferecidos. Porque em termos de economia paralela não há aqui nenhum combate à fraude, evasão e fuga de impostos. É mais um punhado de areia para os olhos da Troika e de quem anda a dormir.
Se o estado quer mesmo obter mais retorno através de IVA, e não apenas do relativo à Hotelaria e Restauração, tem de se focar em combater a economia paralela ainda existente. Pensando, inovando e tirando ideias da algibeira tão descabidas como o Terminal de Declaração Automática. Não interessa se seria um novo terminal ou se seria um software a viver em todos os TPA (terminais de pagamento automático) já omnipresentes em todos os estabelecimentos comerciais. O que interessa é que com esse simples dispositivo, ligado aos sistemas centrais de impostos, cada consumidor poderia exigir imediatamente a declaração do seu consumo para efeitos de garantia da sua taxação. Simples, fácil, usando por exemplo o cartão do cidadão.
Neste momento nós, os consumidores, queremos afugentar a crise para dentro do buraco de onde saiu. E para tal não nos importamos de ser fiscais, de obrigar os “Quer fatura?” a declarar o que já deviam declarar desde sempre. E como prémio deêm-nos algumas benesses como uma percentagem de desconto no IRS sobre a maquia que obrigámos os nossos fornecedores a declarar. Paguem-nos por fazermos o trabalho do Estado mesmo depois de lhe pagarmos através dos nossos impostos para o exercer proativamente e com competência.
A Competência da Crise
Estou deveras agradecido à crise que germina por este mundo fora.
Havia um conjunto de jarretas resmungões que beliscava o modus operandus do Eden que era a nossa economia e estilo de vida. Eram os comentadores que só sabiam falar mal, do rebenta a bolha, que dirigiam o dedo acusador na direção de culpados que os etiquetavam de senis que só apontam problemas mitológicos sem apresentar soluções utópicas. A vida estava tão boa para tudo e todos que só falaria mal quem estivesse com os pés para a cova e ainda quisesse ter protagonismo antes de se finar. Não eram muito ouvidos porque não tinham espaço mediático e diga-se a verdade porque estava tudo entretido na tal boa vida e era aborrecido procurá-los onde ainda conseguiam espernear. Está bom, não mexe!
Os números dos EBITDAs, liquidez de instrumentos financeiros, facilidade de crédito, indíces de consumo e confiança galopavam desenfreados esmagando qualquer tolo pregador do Armageddon. Em vez de prosperarem e enriquecerem perdiam o tempo a babar saliva. Não eram David contra Golias, eram a formiga Z contra o Hulk.
Estalou a crise e entramos num mundos às avessas. Afinal a tradução de Credit Default Swap era um género de Dona Branca e a solução generalizada para pagar empréstimos milionários é fazer novo empréstimo com juros mais altos à data da liquidação em modo ciclo recursivo infinito. De repente soubemos que não há analistas de risco competentes, a fiscalização de esquemas financeiros confia na boa índole dos agentes financeiros e está isenta de culpa no cartório, os bons gestores de empresas públicas ou público-privadas que através de investimentos arrojados faziam crescer as suas empresas pensavam estar a jogar monopólio num tabuleiro com impressora de notas à descrição, os autarcas abrem buracos financeiros para manter as estradas em condições de serem devidamente arrastadas pelas águas de chuvas torrenciais e por aí a fora. A competência desta crise foi apontar a incompetência das cabeças iluminadas que demonstraram ser antes ilusionistas de grande gabarito.
Melhor do que isso a crise trouxe ao de cima a incompetência do jornalismo. Porque nós, os simplórios do povo, até podemos não dispôr de tempo ou interesse em investigar indícios de actividade ilícita e mastigar números e relatórios públicos para perceber que algo está mal. Mas essa classe é paga para tal e tem o dever de nos informar e de trazer ao de cima as questões fulcrais mesmo que fraturantes, incómodas e contra-corrente. Os media que hoje nos bombardeiam com a crise apocalíptica, e as medidas biblícas a que teremos de nos submeter se quisermos sobreviver, nada fizeram para a denunciar e antecipar quando ainda estava no berço. Mesmo quando nas suas fileiras já tinham vozes que apontavam para um futuro catastrófico. Uns media interessados na verdade, e independentes, não ocultariam o que se passou e o que está a acontecer com a Wikileaks, alvo de sufoco financeiro e jurídico que tenta forçar o seu desaparecimento. Pelo contrário, patrocinariam essa entidade, colaborando no apurar de verdades e no denunciar das injustiças e saques a mando de interesses ocultos por parte de bandos ligados a marionetas incompetentes colocadas estrategicamente em cadeiras de poder.
A competência desta crise foi também criar uma sopa de instabilidade social onde muitos deixam de ter tudo a perder. De onde potencialmente pessoas honestas e competentes poderão passar a ter interesse pela participação direta e ativa na política e quem sabe voltar a endireitar o mundo.
É por isso que apesar de tudo sou obrigado a dizer agradecido: Heil Troika!








