A Competência da Crise

Estou deveras agradecido à crise que germina por este mundo fora.

Havia um conjunto de jarretas resmungões que beliscava o modus operandus do Eden que era a nossa economia e estilo de vida. Eram os comentadores que só sabiam falar mal, do rebenta a bolha, que dirigiam o dedo acusador na direção de culpados que os etiquetavam de senis que só apontam problemas mitológicos sem apresentar soluções utópicas. A vida estava tão boa para tudo e todos que só falaria mal quem estivesse com os pés para a cova e ainda quisesse ter protagonismo antes de se finar. Não eram muito ouvidos porque não tinham espaço mediático e diga-se a verdade porque estava tudo entretido na tal boa vida e era aborrecido procurá-los onde ainda conseguiam espernear. Está bom, não mexe!

Os números dos EBITDAs, liquidez de instrumentos financeiros, facilidade de crédito, indíces de consumo e confiança galopavam desenfreados esmagando qualquer tolo pregador do Armageddon. Em vez de prosperarem e enriquecerem perdiam o tempo a babar saliva. Não eram David contra Golias, eram a formiga Z contra o Hulk.

Estalou a crise e entramos num mundos às avessas. Afinal a tradução de Credit Default Swap era um género de Dona Branca e a solução generalizada para pagar empréstimos milionários é fazer novo empréstimo com juros mais altos à data da liquidação em modo ciclo recursivo infinito. De repente soubemos que não há analistas de risco competentes, a fiscalização de esquemas financeiros confia na boa índole dos agentes financeiros e está isenta de culpa no cartório, os bons gestores de empresas públicas ou público-privadas que através de investimentos arrojados faziam crescer as suas empresas pensavam estar a jogar monopólio num tabuleiro com impressora de notas à descrição, os autarcas abrem buracos financeiros para manter as estradas em condições de serem devidamente arrastadas pelas águas de chuvas torrenciais e por aí a fora. A competência desta crise foi apontar a incompetência das cabeças iluminadas que demonstraram ser antes ilusionistas de grande gabarito.

Melhor do que isso a crise trouxe ao de cima a incompetência do jornalismo. Porque nós, os simplórios do povo, até podemos não dispôr de tempo ou interesse em investigar indícios de actividade ilícita e mastigar números e relatórios públicos para perceber que algo está mal. Mas essa classe é paga para tal e tem o dever de nos informar e de trazer ao de cima as questões fulcrais mesmo que fraturantes, incómodas e contra-corrente. Os media que hoje nos bombardeiam com a crise apocalíptica, e as medidas biblícas a que teremos de nos submeter se quisermos sobreviver, nada fizeram para a denunciar e antecipar quando ainda estava no berço. Mesmo quando nas suas fileiras já tinham vozes que apontavam para um futuro catastrófico. Uns media interessados na verdade, e independentes, não ocultariam o que se passou e o que está a acontecer com a Wikileaks, alvo de sufoco financeiro e jurídico que tenta forçar o seu desaparecimento. Pelo contrário, patrocinariam essa entidade, colaborando no apurar de verdades e no denunciar das injustiças e saques a mando de interesses ocultos por parte de bandos ligados a marionetas incompetentes colocadas estrategicamente em cadeiras de poder.

A competência desta crise foi também criar uma sopa de instabilidade social onde muitos deixam de ter tudo a perder. De onde potencialmente pessoas honestas e competentes poderão passar a ter interesse pela participação direta e ativa na política e quem sabe voltar a endireitar o mundo.

É por isso que apesar de tudo sou obrigado a dizer agradecido: Heil Troika!

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About Nuno Faria

Nascido em 1977, vegetariano desde 1997 (por convicção própria), com licenciatura de Sistemas de Informação na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1995-1999. Desde 2000 que estou envolvido em projectos de ambiente web, sites, portais e aplicações residentes em Intranets. Em 2003 integrei a equipa da Imoportal.com, hoje absorvida pela Caixatec - Tecnologias de Comunicação SA, onde dei o meu contributo para transformar um site com 30 a 40 mil visitas mensais numa rede de sites que atinge o milhão de visitas mensais. A Internet faz parte da minha vida profissional mas sou também um seu utente. E como tal interessam-me particularmente os mecanismos e dinâmicas capazes de aliciar, convencer e fidelizar visitantes. Preocupo-me em pensar, escrever e criar variados conteúdos que disponibilizo online, como forma de contribuição para o contínuo crescimento da web, não me limitando a ser apenas um seu consumidor.

Posted on Novembro 9, 2011, in Geração "à rasca", Teorias da Conspiração and tagged , , . Bookmark the permalink. 1 Comentário.

  1. O parvo que não é estúpido

    De facto, não são só os politicos que são incompetentes (para não lhes chamar merdosos), ignorantes e convencidos que são inteligentes, a esmagadora maioria dos jornalistas são ainda piores. Resultado: os mestres da asneira (os politicos) estão protegidos pelos vesgos (os jornalistas)

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