Desilusão à Canhota

Numa altura em que o feitiço se vira contra o feiticeiro e seus aliados, esperemos que do big bang surja a exploração de novas vias, convém não deixar ao esquecimento o caldo da poção mágica nacional.

A meu ver o Largo do Rato pariu uma colina. Um assento de baixa altitude, sem a solidez da visão possibilitada por maior altitude que permitisse o alargar em muito o horizonte vislumbrado. Nitidamente BE e PCP voltam a baquear, ao invés de ousar subir o degrau que se colocou à sua frente para ascender um patamar na participação activa nas futuras decisões políticas.

Este acordo não passa de um projecto de estabilidade, de um auto de fé, na crença mútua de que ambos os lados cederão o suficiente para que o outro continue a cumprir o seu papel. Na prática deixará o PS refém de um contínuo debate político, dentro de sedes, negociando a pré-aprovação de cada orçamento e cada medida com maior impacto na sociedade. BE e PCP assumem não querer dar a cara por um governo do qual serão a sombra inequívoca.

Já no passado me desapontaram quando se ausentaram das reuniões de preparação do programa da Troika e agora parece estarem a repetir a dose. Pergunto-me se querem ser vistos como o antídoto porque raio temem assim tanto o convívio com as víboras? Muito me aprazeria tê-los ‘infiltrados’ no governo confiando na sua capacidade de detectar, divulgar, e corrigir anomalias de sistema. Desta forma vejo-os agora como padecendo de uma certa cobardia, demasiado confortáveis na sua posição de críticos e delatores dos erros de outrem, quiçá tementes de segurar parte das rédeas e de perder os renovados votos de confiança.

Vejo em tudo isto apenas uma certa continuidade de um calculado e partidário jogo político. O PS julgará que BE e PCP não poderão esticar demasiado a corda pois se o fizerem, e por isso cair o seu governo, a factura política ser-lhe-ás demasiado alta com hipotética transferência de votos para o PS. BE e PCP por sua vez pensarão o inverso, que o PS não se poderá colar em demasia à rota delineada pela Troika e pelo anterior governo PSD-CDS, caso contrário terão plena justificação para deixar cair o governo PS, reforçando a sua própria idoneidade, e assim penalizar o aldrabão PS nas próximas eleições colhendo uma boa parte dos seus eleitores. A PàF já vaticinou este cenário e espera também vir a poder rentabilizá-lo em termos de votos alegando evidente irresponsabilidade da união de esquerda.

Lamento, mas esta não é de todo a solução à esquerda que esperaria e que me daria alguma esperança de uma verdadeira mudança. Ao ponto de até eu vir a ser condescendente para com Cavaco Silva se este decidir não acreditar neste formato de governação.

porrada

Anúncios

About Nuno Faria

Nascido em 1977, vegetariano desde 1997 (por convicção própria), com licenciatura de Sistemas de Informação na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1995-1999. Desde 2000 que estou envolvido em projectos de ambiente web, sites, portais e aplicações residentes em Intranets. Em 2003 integrei a equipa da Imoportal.com, hoje absorvida pela Caixatec - Tecnologias de Comunicação SA, onde dei o meu contributo para transformar um site com 30 a 40 mil visitas mensais numa rede de sites que atinge o milhão de visitas mensais. A Internet faz parte da minha vida profissional mas sou também um seu utente. E como tal interessam-me particularmente os mecanismos e dinâmicas capazes de aliciar, convencer e fidelizar visitantes. Preocupo-me em pensar, escrever e criar variados conteúdos que disponibilizo online, como forma de contribuição para o contínuo crescimento da web, não me limitando a ser apenas um seu consumidor.

Posted on Novembro 16, 2015, in Teorias da Conspiração and tagged , , . Bookmark the permalink. 5 comentários.

  1. Antonio Moreira da Silva

    Nao estou de acordo nem subcrevo o seu comentário, penso que a esquerda desta vez se uniu, sem trair pelas costas, alias as traicoes normalmente estao na direita como concerteza saberá e algumas das ditas contra o PS.
    Concerteza se lembrara queem ajudou a cair o Governo de Socrates e até hoje nao sabemos ou nao queremos saber se o Prec 4 nao seria melhor.
    Que fez o ultimo Governo para alem de mandar emigrar milhres, o desemprego, titar aos que mais necessital, o ensino, a seguranca social, vender Portugal ao desbarato…etc.etc.
    A divida depois de tudo isto esta maior, prestem a sairem metem 100 boys, saidos das Universidades a ganharem no minimo 4.000€, entretanto nao fumentaram forma de recuperar o consumo interno, nem empregos, nao existiu envestimento.
    O que fez Cavaco Silva, para Alem de ajudar a derrubar o PS e manter este desgoverno, nada.
    Nunca fala e quando fala nada diz…..enfim.
    Deve-se pagar de facto o que se deve (mas a culpa nao foi do cidadao que pagou sempre os seus impostos) a culpa deve-se a sucessivos governos e a Banca, que arriscou o dinheiro dos seus clientes, sem que houve-se regulamentacao para tal, por isso faziam o que queriam.
    De qualquer das maneiras a esquerda ganhou mais deputados do que a direita, e o PS como diz o seu nome é Socialista, esteve sempre colado a direita que na altura era democrata pelo menos o PSD, hoje isso nao acontece, no meu parecer Passos, Portas e Cavaco fizeram mal as contas e foram eles que juntaram a esquerda.
    As eleicoes nao sao para partidos sao para deputados e se contarmos os deputados a esquerda tem de facto a maioria…as teorias do papao do PCP, já nao colam, tanto que nao que tem representacao em Bruxelas.
    E se de facto pudesse-mos hoje ir para as eleicoes, ganharia a esquerda por maioria ainda maior do que agora, se fizer o favor de analizar os comentrios no DN e Espresso, verá que o que digo e real, se pudessem alterar a constituicao, o que nao podem neste momento, deveriam também por optar e consagrar a destituicao do Presidente e os Politicos e justica tambem pudessem ser julgados se existissem motivos para isso.
    De qualquer das formas democraticamente aceito o seu comentario, assim como penso que terá de aceitar o meu…cumprimentos,
    A. Moreira da Silva

    • Aceito, respeito, e agrada-me qualquer contraditório porque posso sempre ir buscar um pouco mais de conhecimento nas fundamentações dos outros.
      Concordo com a maioria do que disse, relembro apenas que o PREC 4 foi chumbado por toda a oposição. Exactamente por uma maioria de esquerda ter sido votada então no mínimo, à proporção, cada um dos partidos de esquerda deveria ter representação num hipotético futuro governo. Ficaria tranquilo com um governo de verdadeira esquerda unida ao invés de um governo integralmente PS com tolerância por parte dos restantes. Exactamente porque os Portugueses não deram maioria absoluta ao PS.
      Julgo que a esquerda perdeu a oportunidade de fazer história com uma coligação sólida porque o que apresentaram ficou bastante aquém das minhas expectativas.
      Quanto ao resultado de umas próximas eleições será melhor não contar com o ovo no cu da galinha porque como demonstrado nas últimas eleições nada é verdadeiramente certo em função das circunstâncias. O factor humano é demasiado irracional, imprevisível e manipulável para permitir projectar quem beneficiaria com tudo isto no imediato.

  2. Rui Moura da Silva

    Se o BE ou o PCP fossem fazer parte do governo era, desde logo, o argumento desejado pela direita (cavaco incluído) para dizerem que a Europa e/ou os mercados não iam aceitar tal governo porque não iriam respeitar os tratados a que aderimos (incluindo o tal TTIP que nem sequer está assinado……) e ainda porque sim… pois o desespero desta direita trauliteira a tudo se agarra para não perder o poder de destruir o pais. Aliás a presença no governo de outros partidos com menor peso parlamentar adjacentes a um de maior peso não impediu o ridículo episódio do “irrevogável”; porque convenhamos, a esquerda só está unida (e bem) no desejo de atirar a direita pela borda fora e desejar que “não sejam piegas e emigrem” para muito, muito longe!

    • Sim, isso é óbvio, mas só essa subserviênvia aos caprichos do PR e dos mercados já me desilude. Deveriam assumir frontalmente a mudança e deixar o ónus de uma possível recusa para quem a exercesse. A campanha de BE e PCP assentou muito na transparência e confrontação com os poderes instalados. E quando têm a oportunidade para marcar uma verdadeira posição entram em joguinhos políticos como os outros. Os ideais não se colocam de lado só porque dá jeito.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: