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A sociedade quântica: um sistema fechado

Ao contemplar a obra de Gustav Klimt, notamos que o brilho domina as suas telas, como no “Retrato de Adele Bloch-Bauer I”, conhecido como “A Mulher em Dourado”. Envolta num manto de sacro esplendor, a mulher, à semelhança de um gato sem contornos, define-se pela ornamentação. O ouro não apenas exalta; representa uma caixa dourada, bela e elaborada, na qual se encerra a protagonista, tão felina quanto sedutora.

Um outro austríaco, o físico Erwin Schrödinger, contemporâneo de Klimt, foi, como ele, um homem de gatos. Schrödinger elevou a espécie a outro papel, muito além do tangível: promoveu-o a protagonista da mecânica quântica quando, em 1935, formulou a sua célebre experiência mental. Um gato fechado numa caixa com um dispositivo que, aleatoriamente, pode ou não matá-lo: um evento quântico que, dependendo do decaimento de uma partícula atómica, determina o destino da criatura. Só abrindo a caixa saberemos se está vivo ou morto — Fechado, o gato encontra-se num estado paradoxal, simultaneamente vivo e morto. Isolado, o protagonista desconhece esta dupla condição.

E se a caixa nunca for aberta?

Na física, o paradoxo expõe os limites da interpretação quântica. Numa metáfora social, a caixa representa o poder, fechado e auto-referencial. Um sistema que controla a informação e, sobretudo, o momento da revelação. A incerteza deixa de ser fenómeno natural e torna-se instrumento político. O gato, somos nós.

Vivemos em contradição: livres e condicionados, envolvidos e marginalizados, informados e manipulados. A promessa de equidade resume-se à existência na ambiguidade. Todos envoltos pelo mesmo ornamento dourado, ao abrigo da mesma ordem, sob a mesma lei. Mas quem detém a chave da observação não está dentro da caixa.

Tal como no quadro de Klimt, o ouro cria a ilusão de transcendência e transmite elevação, mas é garante da imobilidade. Uma figura majestosa como protagonista, porém inerte. A moldura simbólica torna-se fronteira. A caixa oferece conforto, estabilidade e pertença. O mal conhecido veste-se de liberdade; a resignação apresenta-se como maturidade política.

O observador, na experiência de Schrödinger, determina o estado final. Na analogia, o observador é a elite que molda narrativas, define o aceitável, delimita o horizonte do possível. O seu poder reside na suspensão.

Mas ninguém abre a caixa?

As elites nunca o farão, simplesmente porque o poder é o status quo. Qualquer espreitar de relance serve propósitos de luta elitista, mera contenda entre poderosos; como tal, não só a caixa rapidamente se volta a fechar, como é coberta por um manto de dúvida para que nada se conclua sobre o que se viu. Tão óbvio que não carece de exemplos, actuais ou antigos, sejam de mentiras feitas verdade, gritantes dualidades de critério ou perversão impune.

E o gato? A caixa é dourada; a promessa de igualdade, embora reduzida à uniformização, oferece segurança. Questionar implica risco; aceitar mantém o conforto conhecido. A caixa transforma-se em cultura e mantém-se enquanto for aceite como inevitável.

Ao resignar-se, o gato contraria o instinto, abdica do juízo próprio e comete um duplo pecado anti-natura: reprime a própria consciência e transmite essa repressão às gerações futuras. A clausura torna-se herança; o hábito, prisão. Somos convidados a pensar todos da mesma forma e, como formigas, a agir em uníssono. A diferença deixa de ser virtude e passa a ser ameaça.

Mas há um ponto onde a metáfora se rompe, onde a esperança quebra o ciclo vicioso e o sistema desmorona. Ao contrário do felino da experiência de Schrödinger, os humanos possuem consciência reflexiva. Não somos apenas objecto de observação. Podemos questionar a caixa, interrogar o ouro que nos envolve e distinguir entre ilusão e liberdade. A maior dádiva da vida humana é a consciência.

Urge darmos crédito ao nosso instincto, à nossa intuição, ao impulso que emana do nosso âmago e nos diz: fugir ou lutar.

Talvez assim, a caixa dourada da nossa metáfora perca o brilho hipnótico. Quem sabe o gato sai da caixa por vontade própria. É, antes de mais, o observador de si mesmo. Não é apenas a sua consciência individual, é dever moral colectivo.

Rede Neuronal

Termina hoje em Lisboa a auto-intitulada “melhor conferência tecnológica do planeta”. A velha capital acolheu nos últimos 3 dias o chamado “mundo tecnológico”. Nada me move contra o evento, muito pelo contrário. Que venham, que usufruam, que gastem e que partam com desejo de regressar. Quantos mais melhor e desta feita foram mesmo muitos. Sem ironia ou sarcasmo, o evento proporcionará no mínimo um retorno auspicioso. Um impacto inequivocamente positivo.

Face à extensa lista de oradores e à diversidade de temas, a cobertura jornalística nunca seria fácil. Nem tão pouco é suposto a comunicação social relatar tudo quando por lá se passou, pois o evento é para quem pagou e nele participou, mas haveria sempre a necessidade de encontrar uma ideia forte para propagar. Desta feita, a escolha recaiu sobre a “Inteligência Artificial” e teve num casal de robots humanóides os protagonistas: Ela, repetente no evento mas pioneira na cidadania (é cidadã saudita imagine-se…). Ele, um clone do criador da Teoria da Relatividade. O diálogo entre ambos espantou os presentes e maravilhou a media que se apressou a anunciar uma nova era. Subitamente, da notícia ao comentário, o tema da Inteligência Artificial proliferou qual apoteótica novidade.

Apesar da rápida expansão da aplicabilidade comercial, a Inteligência Artificial está longe de ser novidade. Nem tão pouco recente! Tudo começou há muitos anos, mais concretamente em 1943, quando dois improváveis amigos, Walter Harry Pitts e Warren Sturgis McCulloch, apresentaram a primeira teoria mecanicista da mente. Hoje sabemos, também graças ao trabalho do português António Damásio, que falharam na sua intenção de explicar o funcionamento mecânico da mente humana, mas estabeleceram com o seu trabalho a primeira abordagem computacional da neurociência, o design lógico de computadores modernos e os pilares da Inteligência Artificial – o modelo McCulloch-Pitts.

Não obstante os contornos sensacionalistas de hoje, a Inteligência Artificial é septuagenária e para além disso, há muito que máquinas “estúpidas” têm vindo a assumir tarefas outrora apenas confiadas a humanos. Então, porquê a “novidade”? Bom, a ideia lançada é simples e óbvia na sua relação causa/efeito: os robots estão a ficar tão “inteligentes” que em breve nos tornaremos obsoletos e dispensáveis para o mercado laboral. Mais que debate, a ideia gera medo, o temor de em breve não ser só a baixa qualificação profissional a ser preterida. Será? Será que esse futuro é já amanhã, ou será que ao invés de as nossas máquinas serem cada vez mais “espertas”, nós é que estamos a ficar cada vez mais estúpidos, ávidos por comprar tudo que nos queiram vender?

Minuetto dei Ciechi

Outrora obcecada com as prementes questões financeiras da nação, a nossa comunicação social divergiu o foco para o mais mundano e sazonal tema da combustão. O panorama político em tempos de geringonça assemelha-se a um quadro de naturezas mortas. Qual “Peru Morto” de Francisco Goya, a técnica é meticulosa, as cores são quentes, mas a sua mais pura essência é triste. Talvez por isso, talvez por previsivelmente nada de significativo mudará tão cedo, a comunicação social enveredou pela busca de emoções, estejam elas onde estiverem. Agitam-se as águas. Na ausência de verdadeira oposição, a comunicação social assume-lhe o papel. Porém incendiar, noticiar rumores não confirmados tem o seu custo e se numa primeira fase pode até não se reflectir nas receitas, os danos reputacionais limitam severamente a credibilidade para exercer este salutar papel de contra poder.

silly season não augura melhorias a este já de si enfadonho panorama, antes pelo contrário, o quadro pode até ficar bastante mais escuro.

Bem, se a analogia com as artes plásticas não resulta animadora, talvez a ironia musical nos traga alguma, eventualmente patética, alegria. Lembrei-me da encantadora obra de Luigi Boccherini, compositor e violoncelista italiano radicado em Espanha, que tal como Goya teve como patrono o infante Luís António de Borbón. Diria que todos sem excepção conhecemos pelo menos uma peça de Boccherini, quanto mais não seja porque algures no tempo aguardámos pacientemente numa qualquer fila de espera telefónica, mas julgo que a peça que melhor sintetiza a nossa actualidade é sem dúvida a “Musica notturna delle strade di Madrid”, obra apenas publicada após a morte do compositor, pois este acreditava que nunca “uma audiência fora de Espanha poderá alguma vez aspirar compreender a sua essência”. Como estava profundamente enganado! Particularmente em relação ao 3º movimento – Minuetto dei Ciechi, o minuete dos pedintes cegos…

Incrível Hulk

Fruto da criatividade da dupla Stan Lee e Jack Kirby, a personagem de hoje destaca-se das demais criações dos mesmos autores pela fonte da inspiração, algo inédito e totalmente inovador: uma poderosa e explosiva mistura de dois livros, os famosos “Frankenstein” e “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Sr. Hyde”, da autoria de Mary Wollstonecraft Shelley e Robert Louis Stevenson respectivamente.

Esteve para ser cinzento, mas ditou o acaso que fosse verde, numa tonalidade imprevista pelos seus criadores mas que se impôs até hoje. Começou por ser noctívago, transformando-se apenas a coberto da noite, qual lobisomem ou transformista. Não tem penas, nem voa, mas quis o destino que abandonasse esta faceta mais recatada, dando asas ao seu lado selvagem, libertando-o para um quotidiano sem restrições ao mau feitio, revelando-se a qualquer hora do dia ou da noite. Eis como um pacato e tranquilo João Soares se transforma num temível e terrível monstro quando se irrita. Vira bicho! É esta a descrição mais sucinta deste herói da banda desenhada, ele próprio um clássico do cinema, o incrível Hulk, a outra faceta, consequência da exposição a raios gama na moleirinha, redes sociais à mistura e pronto, é quanto baste para que o super-herói da Marvel ameace os seus críticos.

Tanto que poderíamos dizer, tão pouco tempo (e espaço!) para o fazer, de filho pródigo a sobrevivente a desastre aéreo, de autarca a comentador, hoje ministro, um trajecto e pêras. Há quem diga diamantes, mas cuidado, não vá o matulão se enervar….

Hulk-Soares

Star Wars – Droid C3PO

Porque dos pequenos também reza a história, chegou hoje a vez do primeiro dos Droids. A personagem em si pouco acresce aos destinos da Galáxia, não fora ele um mero Droid de protocolo. Tantas vezes desprezado, Jorge C3PO Xavier de seu nome, entende que o entretenimento é uma forma de cultura. Talvez por isso desempenhe tantas vezes a importante missão de oferecer algum humor ao enredo.

Este robot humanóide adora desafios, por isso aceitou o cargo de secretário. É tradutor, domina mais de 6 milhões de formas de comunicação. Assume portanto a importante missão de traduzir os desígnios dos sacrossantos mercados a quem de direito, à cultura lusitana. Nação recente de um planeta longínquo, nem 9 séculos de existência. Coisa pouca, nada que justifique o custo de um Ministério da Cultura. Ele aceita. Concorda com tudo que o amo lhe ordene, não contesta, não discute. Reabriu museus e rentabilizou acervos. Uma máquina!

C3PO_1