Vias alegadamente alternativas

A sina de Portugal teima em não se inverter. Alguém continua a meter água transformando solidez em areias movediças que abrem buracos colossais. Desta vez, ao invés do éter económico-financeiro,  aconteceu no plano físico. Numa auto-estrada A14, uma anterior SCUT, que passou a ser portajada em 2010.

Há quem faça a polémica em torno da imputação da responsabilidade, se da construção, se da manutenção sendo certo que o problema potencial estava identificado antes do Inverno e que só por azar, por um capricho da natureza, isto aconteceu agora na Primavera quando já se celebrava a sorte de ter passado mais um Inverno sem nada de grave acontecer. Deixemos a investigação para as autoridades competentes que certamente irão encontrar e punir os culpados, obtendo da entidade gestora a compensação pelos prejuízos causados pelo longo período de encerramento da auto-estrada.

O que me deixa curioso é o facto de por azar a única, e reforço única, alternativa estar também em obras gerando-se o caos naquela zona que aparentemente vai ser resolvido pelo apoio do Exército. Na prática uma demonstração de estradas e localidades não preparadas para tamanha intensidade de tráfego, de sinalização mínima que não orienta de todo quem não tenha conhecimento local daquelas paragens. O quebrar da A14 forçou um retorno ao passado, em termos de opções rodoviárias, que choca com o presente em termos de volume de tráfego, prontidão das infra-estruturas e sinalética rodoviária (que por norma dá grande prioridade ao empurrar dos condutores das ENs para as AEs). Temos assim um presente muito pouco preparado para oferecer aquilo que foi vendido aos Portugueses quando as SCUTs passaram a ser portajadas, alternativas viáveis à rede de auto-estradas concessionadas. O usufruto de uma AE seria em teoria uma opção pessoal e não uma quase obrigação por falta de condições nas estradas alternativas.

O que aconteceria em termos de impactos económicos e sociais se, em demonstração das reais condições e capacidade das vias alternativas, fosse realizado um boicote prolongado às AEs? Para as concessionárias o efeito seria mínimo pois os contratos permitem-lhes ser compensadas pela ausência de tráfego, para o Estado ocorreria um aumento de despesa para pagamento de compensações devidas, para as autarquias seria um caos diário e o aumento de despesas de manutenção, para as empresas um aumento das taxas de absentismo, já para não falar no emperrar do transporte logístico de mercadorias que usa preferencialmente as ENs. Qual julgam que seria o efeito? Uma obrigatoriedade de uso pago das AEs? Ou renegociação de muitas PPPs ou pelo menos a anulação de várias portagens sendo o custo assumido pelo estado? Claro que para acontecer algo desta dimensão teríamos de ter Portugueses diferentes, disponíveis para abdicar do comodismo e inclusive sofrer algumas baixas para demonstrar a falácia da opção de escolha em várias zonas do país.

Para chegarmos a este cenário a fórmula foi simples e repete-se sucessivamente, primeiro um longo período gratuito onde se incutem hábitos nos condutores, depois, quando já existe total alheamento e desinvestimento nas vias alternativas, transfere-se a factura directamente para eles. Primeiro estrebucham, em protesto podem tentar mudar de rotas e rotinas, para depois se resignarem e progressivamente voltarem aos velhos hábitos, agora pagando para poupar ao estado despesas com PPPs supostamente vantajosas a longo prazo para os cofres públicos.

E é assim que com o correr das águas e o abrir de buracos vamos podendo espreitar para os alicerces das nossas estradas tendo melhor noção do verdadeiro leque de opções à nossa disposição.

Vias-supostamente-alternativas

 

About Nuno Faria

Nascido em 1977, informático por formação, vegano por convicção, permacultor por transformação. Desde cedo que observo e escuto atentamente, remoo pensamento até por fim verbalizar a minha opinião e entendimento, integrando o que faz sentido do que é argumentado por quem de mim discorda. Não sei como aconteceu mas quando dei por mim escrevia sobre temas polémicos, tentando encontrar e percorrer o tão difícil caminho do meio, procurando fomentar o pensamento crítico, o livre-arbítrio e a abertura de coração e consciência. Partilho o que ressoa procurando encorajar e propagar a transmissão de informação pertinente e valores construtivos e compassivos.

Posted on Abril 6, 2016, in Ideias para o País, Mentalidade Tuga and tagged , , , . Bookmark the permalink. 1 Comentário.

  1. Rui Moura da Silva

    Estamos perante algo semelhante, na trafulhice, ao “Panama Papers” – o nosso “SCUT Papers” ou “Auto-estradas Papers” (a denominação é à escolha). E não era preciso ir procurar em off-shores …

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