Hashtugas

Num período manchado por um pico de sinais evidentes de corrupção ao mais alto nível, por actos de destruição ambiental, por Pedrogão e seus bastidores, por novo aumento galopante do preço dos combustíveis, pelo contínuo fragilizar do nosso sistema de saúde, as grandes mobilizações chegam-nos em forma de greves orquestradas pelos sindicatos sectoriais. Por onde anda a unidade nacional que conduza a um basta generalizado? Estaremos assim tão confortáveis com o estado da nação?

Nós os portugueses, grandes pioneiros, early adopters, evangelizadores de todo o tipo de novas tecnologias, fomos de tal forma digitalizados que acreditamos que é o meio de comunicação digital a nova meca da indignação e activismo político-social. A nossa luta faz-se agora num palco virtual de volumetria imponente em termos de camaradas e reações emojionais. Apoiamos e lutamos incondicionalmente a favor de causas merecedoras desde que isso não implique uma manifestação física, uma confrontação direta com oposição frontal aos que pensam de outra forma, ou pior com as forças policiais mandatadas pelo governo contestado. Mais, ainda ridicularizamos quem ouse fazê-lo, transformando-nos em pouco mais do que trolls digitais.

Lá fora poderão não ser tão ávidos e aptos na exploração de novas tecnologias, o que faz com que, através da sua maior primitividade, acabem por utilizar os novos meios de comunicação para marcar a diferença, para forçar a mudança ou, pasme-se, mesmo para juntar grandes aglomerados de cidadãos dispostos a dar a cara, a fazer ouvir a sua voz, por algo em que acreditam.

Ao longo dos anos surgiram espontaneamente pelo mundo fora hashtags como #MeToo, #BlackLivesMatter, #WomensMarch, #MarchForOurLifes#ArabSpring, #ElectricYerevan, #Vemprarua, etc, que efectivamente se traduziram em manifestações de milhares nas ruas, forçando o debate e mudanças na sociedade civil.

Por cá as hahstags têm até hoje sido sobretudo utilizadas para fins de entretenimento e marketing corporativo, sem grande expressão ao nível de um activismo que se traduza na manifestação de milhares de Portugueses nas ruas ou na força de colocar em cima da mesa temas que o governo e media varrem para baixo do tapete. Muita sorte teve Timor por há 10 anos atrás não existir o nível de adopção das redes sociais de hoje.

Será que a passividade actual se deve à falta de situações que  justifiquem manifestações de rua? Ou teremos personalizado a hashtag ao ponto de esta se tornar mero adereço decorativo?

 

About Nuno Faria

Nascido em 1977, vegetariano desde 1997 (por convicção própria), com licenciatura de Sistemas de Informação na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1995-1999. Desde 2000 que estou envolvido em projectos de ambiente web, sites, portais e aplicações residentes em Intranets. Em 2003 integrei a equipa da Imoportal.com, hoje absorvida pela Caixatec - Tecnologias de Comunicação SA, onde dei o meu contributo para transformar um site com 30 a 40 mil visitas mensais numa rede de sites que atinge o milhão de visitas mensais. A Internet faz parte da minha vida profissional mas sou também um seu utente. E como tal interessam-me particularmente os mecanismos e dinâmicas capazes de aliciar, convencer e fidelizar visitantes. Preocupo-me em pensar, escrever e criar variados conteúdos que disponibilizo online, como forma de contribuição para o contínuo crescimento da web, não me limitando a ser apenas um seu consumidor.

Posted on Junho 15, 2018, in Escárnio e mal-dizer and tagged , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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