Dor de Jonetes

Isabel Jonet tornou-se o centro de uma polémica com o seu discurso franco (atirador?). As redes sociais fervilharam com as críticas e indignação às palavras emitidas, blogs e comentários surgiram como cogumelos ao qual se junta este que aparenta ser venenoso!

Pois a modos que poderá ter sido um pouco custoso ouvir aquilo que foi dito. Uma dúvida que se coloca na cabeça de muitos: Como é que alguém que exerce uma actividade social tão conotada com uma esquerda solidária e comunitária apresenta um discurso com ideologia tão à direita? Temos de empobrecer? Vamos empobrecer?

Este zig-zag entre uma esquerda praticante baseada numa direita teórica tem uma explicação: saber empírico.

A larga maioria dos que se manifestaram a quente são voluntários assíduos do like e do share. Satisfazem-se com isso. Sentem que fazem a parte deles. Quem já foi voluntário assíduo, seja no que fôr, durante largos períodos certamente que terá ouvido aquelas palavras de outra forma. Porque quem se envolve durante anos envolve-se a fundo e contacta directamente com casos verídicos, com situações inenarráveis, com injustiças, com má fé, e não poucas vezes com muito pouco agradecimento até por parte do alvo da ajuda como se não fosse feita mais do que a obrigação.

Ninguém está quase 20 anos envolvido num movimento baseado em voluntariado por puro interesse pessoal, sobretudo quando tem a sorte de nem precisar de trabalhar para ter uma vida confortável. Acreditem que é difícil ter a disponibilidade física, mental, social e pessoal para seguir continuando dia após dia, ano após ano. Verga o corpo, verga o espírito, afeta a vida social e por vezes até a familiar (segundo os seus padrões normais). Não comparem a nível individual o fazer um like, o fazer um share, o dar uma moeda, o dar um saco de comida, o dar um FDS de trabalho à exigência de uma rotina assídua de voluntariado. Muito poucos terão o estatuto necessário para apontar o dedo nesta situação, sobretudo para fazê-lo com razão.

Sim, acredito, e sei por relatos de quem está envolvido nesse tipo de actividades, que existem indíviduos e famílias que se aproveitam destas instituições para poderem ter uma vida mais folgada. Há quem falsifique rendimentos, há quem se apresente como quase indigente e gaste fortunas em tabaco, em alcool, em bens que dão algum status social. E a comida é-lhes entregue não porque necessitem verdadeiramente mas porque a sua iliteracia em finanças domésticas e ‘feitios complicados’ os levam a depender dela para ter uma vida mais digna. Absorvendo recursos finitos que poderiam ser distribuídos a quem mais deles necessitasse. Nos pobres e nos ricos o que não faltam são chico-espertos a fintar e aproveitar-se do sistema. Identificados e que têm de ser tolerados.

O que retive do discurso de Isabel Jonet foi que segundo ela há valores que se perderam, que se fazem sacrificios para proporcionar momentos fugazes, que há uma grande preocupação com o ter e o parecer, descurando-se aspectos básicos da gestão de orçamentos domésticos. Claro que o timing não é o melhor porque se combina com os cortes salariais, com o aumento dos impostos e outros castigos fiscais.

Graças à polémica criada puz-me a pensar no outro dia como as perdas não são proporcionais. Se uma família perder apenas 30% dos seus rendimentos pode perder a quase totalidade do seu nível de vida. Basta deixar de conseguir pagar a casa onde vive. O nosso estilo de vida é (era?) baseado no limite das nossas capacidades financeiras. E as crises financeiras são cíclicas como demonstra a história. Para muitos esta é a primeira. A primeira lição. Depois desta passar provavelmente estarão muito mais preparados para a inevitável segunda e provavelmente terceira no seu tempo de vida.

Concluindo, tiro o chapéu pelo que fez e faz Isabel Jonet e compreendo perfeitamente porque lhe sairam aquelas palavras. Posto isto convido-vos a ouvir novamente aquelas palavras e perguntarem-se se faz sentido a indignação, exigir a sua demissão ou criar movimentos para o boicote de apoio ao Banco Alimentar contra a Fome.

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About Nuno Faria

Nascido em 1977, vegetariano desde 1997 (por convicção própria), com licenciatura de Sistemas de Informação na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1995-1999. Desde 2000 que estou envolvido em projectos de ambiente web, sites, portais e aplicações residentes em Intranets. Em 2003 integrei a equipa da Imoportal.com, hoje absorvida pela Caixatec - Tecnologias de Comunicação SA, onde dei o meu contributo para transformar um site com 30 a 40 mil visitas mensais numa rede de sites que atinge o milhão de visitas mensais. A Internet faz parte da minha vida profissional mas sou também um seu utente. E como tal interessam-me particularmente os mecanismos e dinâmicas capazes de aliciar, convencer e fidelizar visitantes. Preocupo-me em pensar, escrever e criar variados conteúdos que disponibilizo online, como forma de contribuição para o contínuo crescimento da web, não me limitando a ser apenas um seu consumidor.

Posted on Novembro 22, 2012, in Ideias para o País. Bookmark the permalink. 6 comentários.

  1. Denoto algum preconceito na tua definição de “direita” e “esquerda”. Interpreto que para ti a esquerda ajuda, mas a direita não. Estarei equivocado? A caridade é normalmente vista pela esquerda como uma acção de direita que visa a manutenção do status quo, ou seja, o exacto oposto do que expões. Quanto ao resto, estou de acordo.

  2. Rui Moura da Silva

    Analisar as declarações da senhora na base de esquerda versus direita é, considero eu, um erro da (dita) civilização ocidental com a sua mania de etiquetar tudo; as ideias expressas ou têm a nossa concordância ou não têm. Assim, não concordo com a senhora quando ela admite, quase como castigo, a inevitabilidade do emprobecimento que mais não temos senão que aceitar como o nosso destino eterno de miséria, porque, nós malandros, andamos a gastar acima das nossas possibilidades (foram os “inocentes anjinhos dos banqueiros” que nos puseram nesta situação!). A senhora tem razão quando condena os filhos de alguma classe média para quem um qualquer concerto de rock é a suprema necessidade, que a água desperdiçada ao lavar dos dentes reflecte uma total ignorância da importância desse recurso, que comer bifes todos os dias para além de tudo mais faz mal à saúde ou seja ela está a falar exclusivamente das pessoas da SUA classe social. Resumindo: os conteúdos podem estar certos, mas o modo e a forma como os expôs foram completamente desastrados.

    • A analogia feita é entre uma esquerda que fortalece um estado social, com muitas medidas de apoio aos mais desfavorecidos, e uma direita mais liberal e menos sensível às repercussões sociais de uma lei da selva em que “cada um tem o que merece ter”.

      Não me preocupa muito as interpretações de esquerda e direita quando cada vez mais estão de mãos atadas a um gordo centro.

      Não me parece que a senhora estivesse a falar daqueles da sua classe social mas sim daqueles que são seus ‘utentes’.

      Sim, andámos a gastar acima das nossas possibilidades, ludibriados por muitos financiadores e credores. Mas também não queríamos saber. Queríamos era viver. E a vida é isto. Dá muitas voltas. Fiquemos revoltados com tudo, sobretudo connosco e com o que deixámos acontecer quando os sinais eram evidentes para quem estivesse disposto e permeável a lê-los.

      A forma pode estragar o conteúdo numa primeira audição. Mas dê-lhe algum desconto por não ter ido para ali com um discurso preparado, fazer política, lobby ou ser um opinion maker. Provavelmente entrou por aquele caminho sem dar por isso e saiu-lhe o que sentia sem grandes filtros. Mesmo ela, se pudesse, certamente que quereria refrasear algumas partes. Cabe-nos a nós demonstrar que estamos mais perspicazes, mais atentos e ouvir uma, duas, as vezes que sejam precisas até separar a forma do conteúdo. Perceber então se realmente faz sentido o que diz e as reacções imediatas de quem só a ouviu uma vez e provavelmente por alto ou em versões truncadas. Se não formos capazes disso o futuro é negro porque mais cedo ou mais tarde seremos novamente comidos pela classe política em funções e pelas suas máquinas de propaganda chamadas muitas vezes de orgãos de comunicação social.

      Ouçamos, ouçamos, ouçamos, pensemos e então sim digamos de nossa justiça.

  3. Acredito que a Sr.ª expressou uma opinião sincera, empírica e “sem filtros” ou agenda. Não ataco nem a opinião, nem a obra. A iniciativa é bem-sucedida, especialmente pela eficácia na angariação de géneros alimentares. Tem o mérito de ter encontrado uma solução prática e expedita para todos os consumidores. Fácil para quem contribui, dando sem alterar as suas rotinas de consumo. Questiono contudo os impactos junto de quem ajuda, desta forma tão práctica e “limpa”. Até que ponto não contribui para “branquear” a consciência a cada um de nós? Honestamente não sei, apenas questiono.

    Óbvio que se tal efeito negativo ocorre NUNCA poderá ser imputado à iniciativa, nem tão pouco aos seus obreiros.

    Quanto à tua analogia, diria dicotomia esquerda/direita, é redutora.

  4. Será autoflagelação? Pagamento de promessa, convicção ou mera vontade de gerar polémica desnecessária? Começa a parecer-se com o Fernando Nobre, que após uma excelente obra na AMI resolveu saltar para a ribalta e só disse disparates (não teve hipótese de os fazer!).

    http://www.ionline.pt/portugal/isabel-jonet-sou-mais-adepta-da-caridade-da-solidariedade-social

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