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O boicote é livre

Os poderes governativos julgam estarmos reféns de aspectos legais e constitucionais. Primeiro-ministo e presidente da república em funções, têm o poder de despoletar os mecanismos legais que permitem um adiamento eleitoral. Optaram conscientemente por não o fazer, alargando o leque de erros cometidos na antecipação e reacção às calamidades ocorridas um pouco por todo o país.

Neste momento temos pessoas desalojadas, ou em condições precárias, agravamento no FDS das condições metereológicas e de crise para grande parte do território, pessoas deslocando-se dos seus concelhos de residência para acudir a família/amigos ou defender propriedades que tenham em zonas de risco, sendo certo o reforço do justificado trauma colectivo que assola o nosso país. Muitos não sabem o que será o dia seguinte e certamente as eleições estão no fundo da sua lista de prioridades.

Um dos candidatos teve a audácia de sugerir o adiamento das eleições e isso tornou-se um momento marcante na definição do estilo de presidência que cada um pode oferecer. Ventura, goste-se ou desgoste-se, teve um acto de bom senso e respeito para com os portugueses afectados. Seguro revelou-se aquilo de que Ventura o acusa. De ser um político táctico, preso aos limites de jogo definidos pelo sistema, remetendo para os árbitros a decisão de adiar, apresentando atabalhoadas soluções de eleições por etapas à medida que os concelhos vão tendo condições para exercicío do direito de voto, caindo no rídiculo de insinuar que pode perder a eleição se esta não acontecer no Domingo, com adesão em massa, e que se isso acontecesse seria um golpe sujo que defraudaria a nação.

Independentemente dos jogos políticos, de forma fria, vejo um candidato supostamente sem hipóteses de ganhar a optar por manifestar empatia e mostrar-se disposto a moldar as regras do jogo para melhor servir a população, outro de vitória garantida a optar por manter-nos dentro dos limites definidos, apelando ao esforço e sacrifício para combater um terrível “inimigo” comum. Seguro perdeu o chão, a cara e a imagem sem que Ventura tenha necessariamente feito a sua conquista para si.

Em 2021 tivemos um pico de 60% de taxa de abstenção nas presidenciais. O nível de abstenção não anula umas eleições mas coloca mais ou menos legitimidade no seu resultado. Uma grande demonstração da vontade e força do povo seria neste momento a desvalorização das eleições através do seu boicote. Essa é uma linguagem política clara que fragiliza quem quer que seja que vença as próximas eleições. Se a data das eleições se mantém inadiável, terei todo o gosto em demonstrar o meu descontentamento à desvalorização dada ao momento que o país atravessa, através de uma clara abstenção solidária.

Há momentos em que para estarmos seguros é necessária uma clara definição de prioridades. Este FDS votar em nada contribui para isso. Relembro que sermos ingovernáveis no momento certo é meio caminho andado para a construção de uma governação justa, competente e de bom-senso.

Alterações a padrões de transumância eleitoral

Estas eleições manifestaram um grande sinal da mudança dos tempos. Destruiram os conceitos de “eleitorado do X” que lealmente e consistemente mantém o voto no candidato do seu partido ou do que mais próximo está da sua tendência ideológica.

O eleitorado flutou em função do dia-a-dia de debates, reportagens e declarações, com foco nos traços individuais e não propriamente na visão política de futuro. O trio Ventura, Coutrim e Gouveia e Melo teve o mérito de quebrar os normais padrões de campanha e transformar o formato de debates e campanhas. O reflexo foi um grande envolvimento e interesse por parte do público, com altos níveis de dúvida e indecisão até ao momento de submissão de um voto consciente.

O que se segue agora? Ao contrário de muitos, que pensam que Seguro está garantido, considero que Ventura tem real hipótese de ser eleito. Teremos pela frente três semanas de campanha que será certamente um combate feroz pela preferência da maioria dos portugueses.

O que vi na primeira reacção aos resultados, antes das declarações oficiais, foi um Seguro estereótipo do normal político presidente, contido, com discurso neutro e cauteloso chutando para o firmar dos números que as projecções apontavam. Já Ventura reagiu de forma mais transparente, humana com emoção e empolgamento, projectando imediatamente o que seria a sua estratégia se se confirmasse a sua passagem à segunda volta. Este pequeno momento diz mais sobre o que se pode esperar do estilo de presidência de cada um do que os discursos preparados que viriam depois.

Ventura aparecerá transformado, mais ponderado e abrangente, surpreendendo quem o vê apenas como o populista dos sound bites asquerosos. Apesar de ter começado com o clichet de direita vs esquerda provavelmente o alvo principal será o governo, reagindo às fragilidades correntes como se fora já Presidente da República, numa demonstração antecipada do que seria a sua presidência. Talvez procure encontrar ou repescar alguns rabos de palha de Seguro, no entanto, se não o fez na primeira volta, talvez não exista matéria suficiente para enveredar por esta estratégia. Em simultâneo veremos no parlamento o florescer das segundas e terceiras linhas do Chega, a tapar o buraco parlamentar aberto pela suspensão do mandato de Ventura. Se verá também qual o odor deste jardim.

Seguro será inevitavelmente arrastado para uma situação em que terá de se mostrar muito mais interventivo do que aquilo que estaria à espera. A pressão será muito alta. A estratégia passiva, observando as quezílias entre outros candidatos, que lhe permitiu sobressair como mais ponderado e recto, não será aplicável a esta segunda volta. Será bom para os Portugueses por à prova aquele que à partida é o candidato preferencial e no processo serem expostos ao argumentário adversário para abanar ideias e assunções cristalizadas. Seguro parte como vencedor da segunda volta, tal como Gouveia e Melo o fez na primeira.

Que sera, sera.

Debates Presidenciais em Foco: Análise dos Candidatos de 2026

O embate colectivo dos candidatos à presidência da república tem sido bastante curioso, firmando a emergência de um formato contemporâneo, em que a efusividade na expressão e os ataques a carácter e/ou competências de adversários, se sobrepõem à construção de uma ilusão de imagem pública e defesa de uma linha de presidência a exercer.

Aparentemente deixa de ser crucial transparecer sentido de estado, nobreza, imparcialidade e a capacidade técnica para o exercício da função. O foco está na beligerância, seja para com governo em funções, seja para com adversários na corrida à presidência. Como corolário podemos pegar por exemplo nos debates/combates entre Marques Mendes e Gouveia e Melo, ou de Catarina Martins e André Ventura, onde esta chega ao fim sem postura nem freios e abertamente declara que o debate serviu para tudo menos para focar em presidenciais.

Tendo em conta que amanhã se iniciam votações antecipadas deixarei aqui um parco contributo para ajudar a confudir os indecisos. A sequência reflecte o alinhamento das posições cimeiras da sondagem diária mais actualizada a esta data.

André Ventura

Vejo-o como o rei sapo, com uma língua muito forte, capaz de enormes saltos em qualquer direcção. Veste a capa da defesa dos portugueses de gema, verbalizando sentimentos generalizados gerados por políticas do passado algo permissivas e aceleradoras de marcante transformação social e cultural.

É sem dúvida demolidor nos embates um para um. Foi apanhado de supresa pela cavalgada na preferência de voto, habilmente transformando o que seria um exercício alargado de tempo de antena extra numa fórmula única de dar a pedrada no charco do sistema. Porque o sistema democrático via legislativas é muito lento, tem o handicap da menor cobertura mediática dada ao seu partido, a governação só seria viável com maioria absoluta e mesmo que eleito exigiria demasiada concertação e dependência do escrutínio do Presidente da República em exercício.

Há quem diga que a sua eleição seria uma grande machadada no Chega a nível de expressão parlamentar mas isso não é certo e temos várias figuras em formação e crescimento como facilmente se pode observar nos painéis de comentadores em rádios e televisões. O que seria certo é que ascenderia ao cargo de Presidente alguém que exerceria a sua influência sem complexos, estaria disposto a alterar a constituição e certamente poria a boca no trombone sempre que precisasse da força da opinião pública para vergar governo e instituições.

Vendo de fora preferia que caso os portugueses lhe entendessem dar uma oportunidade que começasse pela governação. Isto porque apesar de tudo seria um cenário onde poderia ser destituído por acção presidencial. Se for directamente para Presidente da República é como se saltasse do campo de treino directamente para o controlo da arma atómica (a capacidade de destituir governos).

O Presidente da República em Portugal não pode ser demitido por ninguém, pois não tem responsabilidade política perante outros órgãos; ele pode apenas renunciar ao mandato por vontade própria, dirigida à Assembleia da República, ou ser afastado em caso de impossibilidade física permanente, verificado pelo Tribunal Constitucional. A Constituição Portuguesa assegura a sua independência, com atos não anuláveis pelo Tribunal Constitucional, embora possa dissolver o Parlamento ou demitir o Governo em certas circunstâncias, segundo o artigo 133º da CRP. 

António José Seguro

Confesso que o via como mais um cromo do costume até que vi como se aguentou no debate com André Ventura, julgo inclusive que a sua postura e capacidade de anular as técnicas de desorientação e atropelo normalmente usadas pelo Ventura fez escola para capacitar os outros candidatos de melhor defesa contra elas. Por um lado demonstrou capacidade de enfrentar momentos tensos e adversários beligerantes, por outro se o Ventura não tinha “podres” constrangedores sobre a sua vida política é porque realmente pode ser dos políticos com menor poluição moral.

Acho interessante ter iniciado candidatura fora do PS e mais tarde obter apoio do PS, que foi conquistado e não natural, e assumir plenamente as decisões que tomou como oposição durante período da Troika bem como de ter aberto as eleições do PS a simpatizantes e com isso perder liderança para António Costa. Não se envergonha, não se arrepende, não demonstra rancor público.

Foi de todos sem dúvida o menos atacável a níve pessoal, é beliscado com posições do PS mas sendo esta uma eleição com foco no individual acaba por sair incólume. Este é para mim um pequeno sinal de alguma virtude e até respeito por opositores. Provavelmente o que transparece a maior aura de sentido de estado mantendo-se estóico na sua armadura em pleno centro do furacão eleitoral.

João Coutrim Figueiredo

Bem falante, ideias ordenadas, mas a sua linguagem corporal e algumas expressões (e outdoors) evocam em mim a imagem de um certo narcisismo e deslumbramento. Julgo que é o único defeito que lhe encontro reconhecendo-lhe a capacidade técnica para discutir qualquer tema e empenho para exercício da função. Tem elegância mas falta-lhe ser um pouco mais aguerrido e vigoroso parecendo estar sempre num discurso intelectual e tecnicamente perfeito mas com pouca emoção. Seria interessante vê-lo numa segunda volta com alguém com as mesmas hipóteses de ser eleito para um último escrutínio do seu perfil.

Henrique Gouveia e Melo

Apesar da péssima gestão do timing para anunciar candidatura começou embalado na imagem de “salvador da pátria”, construída na era COVID, mas rapidamente começou a perder gás quando começou a ter de falar mais e os outros candidatos iniciaram as suas dinâmicas de campanha. A pressão fez o que sempre faz, trouxe ao de cima o verdadeiro carácter, passando de choninhas sorridente com discurso vago e de lugares comuns, a almirante beligerante que assume tempo de guerra e torpedeia os seus adversários mais próximos com o arsenal à disposição, sem qualquer pudor. Revelou-se um completo homem elástico sendo capaz de dar golpes a vários adversários em simultâneo.

Diz ser um candidato pela positiva mas o seu discurso assenta em medo e receio pelos “tempos difíceis que se avizinham”, insinuando que a evolução da geo-política requer alguém com conhecimentos militares no mais alto cargo da nação. Ao invés de enaltecer e detalhar as suas qualidades individuais, coloca em causa as competências e carácter dos adversários. De alguém que se diz supra-partidário e com um sistema de valores acima dos políticos convencionais a sua postura é algo antagónica e por exemplo nada similar à referência de um Ramalho Eanes.

Subjectivamente a sua figura não transpira transparência, sempre rodeado de cábulas e lenga lengas a debitar, agindo como um militar programado e não um candidato presidencial preparado. Ao mesmo tempo não me posso esquecer de que quando teve poder foi várias vezes arrogante e opressivo para com subordinados. Por exemplo quando liderava a logística da vacinação poderia ter sido mais pedagógico ao ter de lidar com aqueles que decidiram não vacinar-se, ao invés disso apressou-se a rotulá-los de negacionistas e pior, curiosamente esse milhão de portugueses por aqui anda e certamente não votará em alguém que ao vez de tentar informar ou debater simplesmente decidiu discriminar a minoria da época. Outro exemplo é o famoso incidente com a tripulação do NPR Mondego que se recusou a embarcar num navio sem condições para navegar. Demonstra que ou é alguém sem a necessária abrangência para discussão inclusiva de temas complexos ou é alguém que simplesmente cumpre missões endereçadas indepentemente do contexto em causa e danos colaterais.

Luis Marques Mendes

Diria que neste momento é o homem de lama invisível. Isto porque foi quem mais arcou com o lançamento de esterco por parte dos opositores. Não sei se foram novos factos ou só repescagem de histórias conhecidas, mas pegaram e destabilizaram. Dos lugares cimeiros parece o mais distante do combate, no último debate colectivo foi notório o seu constrangimento e desorientação, com frase estranhas como dizer que certamente tinha errado e injustiçado muito no passado e que pedia desculpa a quem tivesse sido visado. Tive pena de o ver, focou-se no preparo para o discurso do politicamente correcto e formato de embates directos de há 10 anos atrás, foi completamente atropelado pela nova era da comunicação em campanha.

Fica cabalmente demonstrado que sem contraditório é um mestre na oratória e exposição analítica dos acontecimentos mas que não tem capacidade de entrar em frente a frente aguerrido e confrontacional. O próprio decidiu antecipar novos ataques, com uma suposta transparência voluntária, que evidenciou ter beneficiado muito dos seus contactos e influências obtendo rendimentos astronómicos em simples actividade de “consultoria”. Um hara-kiri forçado pelas jogadas dos adversários.

Pelo aumento da representatividade da vontade e sentir dos portugueses

Claramente temos a população portuguesa divididade de forma muito equitativa entre estes 5 candidatos. O que quer dizer que para quatro quintos da população a escolha do Presidente na segunda volta será de recurso, o mal menor. Esta parece-me mais uma falhar da democracia, acabar por concentrar a diversidade de visões para a presidência numa única que apenas agrada a uma pequena parte dos portugueses. Poderíamos melhorar isto facilmente, bastaria colocar uma regra para que qualquer candidato que atinja os 10% de votação na primeira volta tenha de obrigatoriamente fazer parte do futuro concelho de estado. Desta forma forçariamos a consideração da voz e sentir de parte significativa dos portugueses e o aumento do escrutínio sobre potenciais abusos de poder uma vez assumido o cargo. Fica a ideia.

Bom voto se decidir votar mas acima de tudo uma boa vivência em máxima soberania individual.

Bem aventuradas eleições!

Parece que sim, a lei é para cumprir, depois de uns gratificantes Natal e Ano Novo vamos lá celebrar neste Domingo a festa da democracia!

Suis generis campanhas presidenciais em que todos os candidatos foram nivelados pela mínima mobilidade comum. Ponto alto, como não se via há muito tempo, foram os duelos televisionados. Figuras centrais foram Marcelo Rebelo de Sousa, desafiado e confrontado por todos, e André Ventura, o agitador inconveniente.

Foi através de André Ventura que todos foram postos à prova e os portugueses assistiram-no atentamente, divididos por um conflito interno entre o desprezo e o fascínio. Através dele vimos como João Ferreira alternava entre o vendedor e a enguia da lota, assistimos à corrupção do poder, antes mesmo do assumir do poder, com Marisa Matias a jurar que jamais daria posse a um governo apoiado pelo Chega e Ana Gomes a prometer que a primeira coisa que faria seria tentar ilegalizar o Chega, já Marcelo foi levado ao limite, irritando-se em várias insinuações, acabando por justificar a opção política relativa à pena de morte como um grande ato de fé… Ventura conseguiu que todos saíssem do seu pedestal de suposta superioridade ética, política e moral, apesar de no início ter sido um corpo estranho rapidamente passou a ser muleta dos moderadores, apoiando-se em si para ousarem ir mais longe na exploração de temas polémicos junto dos mais consagrados. Por estas revelações inesperadas em situações limite, de carácter e ideológicas, há que mostrar algum agradecimento à impertinência deste recém-chegado diabrete.

Tiago Myan foi a kryptonita de Ventura, por não ter ainda um passado que possa ser explorado, por ter ideias tão disruptoras, face aos modelos económico-sociais habitualmente propostos, que não permitem aos políticos tradicionais defini-los exatamente como extrema-esquerda ou extrema-direita como tanto desejariam. Foi como assistir a agentes da distopia vigente a acusá-lo de ser sonhador de uma utopia que na verdade tem como fim garantir o mesmo desenvolvimento económico e igualdade de condições defendido, e até ver inatingível, pelos primeiros, mesmo depois de décadas de governação ao seu grande estilo.

Vitorino Silva fez-me lembrar um pobre poeta de lugares comuns que não atrapalham nem acrescentam, um queimar desnecessário de tempo precioso com a sua pessoa que aqui não irei replicar.

Depois de um espaço televisivo em que todos conseguiram articular algumas das suas ideias de forma moderada e racional, chegou o período de campanha. Libertos de Ventura a maioria dos restantes puderam recuperar a sua popular elevação e estima, à parte de Mayan e Vitorino que se mantiveram iguais a si próprios. Já Ventura, liberto da presença dos seus adversários regrediu para os seus discursos sectários, punchlines carregadas de Mal para atrair os portugueses do Bem. Escorregando num estranho episódio em que tão ilustre benfiquista comete a gaffe de se revelar ser na verdade um anti-vermelho.

Não tenho ainda reunidas as sete bolas de cristal pelo que deixarei o meu desejo de futuro materializado no singular ato de votar. Com todas as medidas necessárias, como se fosse comprar produtos de mercearia neste novo normal.

Boa compra! (o primeiro item não vale a pena que está esgotado)