O Passaporte de Churchill

Dois ilustres, dois ex-líderes ocidentais, encontram-se no purgatório.

O primeiro está em trânsito: cumprem-se procedimentos e burocracias intermináveis. Aguarda pelo inevitável destino: a descida ao abismo, obviamente escoltado por agentes do ICE. Indignado, reclama, diz-se injustiçado. É desagradável com todos, exige prioridade, tratamento especial. Insiste que quer falar com os superiores, persiste que tudo não passa de um erro administrativo. É Donald J. Trump.

O segundo é uma alma penada, um espírito gasto, quase irreconhecível. Enlouquecido por décadas a deambular entre a luz e o abismo, vítima da indecisão das autoridades do além — foi virtuoso e foi trágico, fez o bem e fez o mal, pintou mas conspirou — vagueia num estado de permanente delírio. É Sir Winston Leonard Spencer Churchill.

Ao cruzarem-se num corredor enevoado e esconso, Trump aborda o antigo estadista britânico e mete conversa:

— Winston! Winston Churchill! Grande homem! Um dos grandes, como eu. Nós, os grandes homens, temos sempre destinos complicados, não é verdade?

Churchill não reage. Olhar vazio, fechado sobre si próprio, claramente perturbado. Apenas silêncio. Trump, imperturbável na sua autopromoção, reitera, insiste em tentar ombrear:

— Somos grandes, como nós há poucos. Com quem é que já te cruzaste por aqui? Nunca ninguém viu nada tão grandioso como a minha obra. Talvez a maior!

Churchill reage. Bamboleia, enquanto se baba, e começa a dizer, com voz trémula:

— Mortes… muitas mortes… muita desgraça por minha culpa… foi vaidade… foi soberba…

Trump sorri e aproxima-se, para segredar:

— Eu percebo isso. A pressão. Só os grandes sabem. Eu fui um líder extraordinário, tremendo! Mudei o mundo. Tu entendes. Somos do mesmo tipo, Winston. Visionários.

Churchill oscila ligeiramente, como se não estivesse ali. Volta a murmurar, agora misturando tempos e culpas:

— Epstein… mortes… Golfo da América… desgraça… tarifas… Dardanelos… Groenlândia…

Sem abrandar, Trump continua:

— As pessoas adoravam-me! Multidões. Nunca se viu nada assim. E tu? Também tiveste as tuas multidões, certo? Discursos fantásticos. Eu também faço discursos incríveis, é o que todos dizem.

Churchill começa a andar em círculos, cada vez mais perturbado:

— Mortes… muita desgraça… por minha culpa… soberba…

Trump acompanha-o, quase lado a lado, decidido a com ele construir uma excelente relação:

— Há quem diga que fui mal compreendido. Injustiçado, até. Como tu. A história trata mal os grandes homens. Mas, no fim, reconhece. Reconhece sempre!

Churchill leva as mãos à cabeça e grita:

— Por minha culpa… por minha culpa… tanta gente…

Depois, congela e remete-se ao silêncio. Surpreendido, Trump perde o embalo, abranda sem dar por isso. O silêncio de Churchill começa a incomodá-lo. Olha em volta e percebe que ali, todos são indiferentes ao seu brilho. Pela primeira vez, a confiança vacila.

— Quer dizer… Nem sempre reconhece…

Churchill não responde, retoma os movimentos erráticos e repetitivos. Trump baixa o tom:

— Há decisões… decisões que ficam. Que não desaparecem na espuma dos dias.

Churchill murmura, quase inaudível:

— Ficam… ficam sempre…

Trump engole em seco. A voz perde força, soa a contratenor:

— Talvez… talvez me tenha precipitado nalguma decisão… algumas coisas correram mal… outras não deviam ter sido tentadas

Breve pausa. Trump murmura, enquanto olha para o chão:

— Se calhar… se calhar, atacar a Pérsia não foi grande ideia…

Absoluto silêncio. Nesse exacto instante, Churchill pára. Endireita-se subitamente. O olhar ganha foco. A loucura dissipa-se como o nevoeiro ao sol. A voz regressa, firme, inteira:

— Muito bem.

Trump, incrédulo, fica imóvel. Churchill apaga o charuto com altivez, ajeita o casaco, recupera toda a compostura e despede-se:

— Prazer em ver-te, velha carcaça. Obrigado.

Vira-lhe as costas. Caminha decidido até São Pedro e declara:

— Já tenho o meu passaporte para o céu.

São Pedro levanta os olhos, intrigado:

— Ah, sim? E qual é?

Churchill sorri, um sorriso rasgado, totalmente triunfante:

— Eu, por soberba, causei uma enorme tragédia ao tentar abrir um estreito que estava fechado

Faz uma pausa, saboreando o momento.

— Ele… foi fechar um que estava aberto!

Em silêncio, São Pedro anui.


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About Gonçalo Moura da Silva

... um homem ao Leme. "A minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores. Só me conheço como sinfonia. "

Posted on Abril 2, 2026, in Escárnio e mal-dizer, Geração "à rasca", Ideias para o Mundo, Teorias da Conspiração and tagged , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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