O bom, o mau e vilão
Depois da noite passada de entrega de Óscares julgo que se pode de imediato antecipar o vencedor incontestável da edição do próximo ano. Está em exibição internacional uma insuperável longa metragem, repleta de complexidade, humor, terror, drama, animação por IA, fantasia e surrealismo, que irá certamente arrebatar todas as categorias de prémios. Correndo o risco de ser spoiler deixo aqui o resumo e crónica do seu argumento.
Era uma vez um vilão que conspirava para ter os meios necessários para a destruição de uma nação vizinha. Essa nação, de grande poderio militar e excepcionais serviços de inteligência, fez queixinhas ao seu mais querido aliado, seduzindo-o para um ataque preventivo que impedisse o vilão de se empoderar para níveis ameaçadores.
O aliado mostrou-se surpreso, afinal há menos de um ano tinham anuido a semelhante acção, tendo pomposamente anunciado ao mundo que 12 dias foram suficientes para obliterar as infra-estruturas necessárias para execução dos maléficos planos do vilão. Além da surpresa mostrou renitência, afinal estavam a decorrer negociações com o vilão que na última sessão demonstrou abertura a abandonar parte dos seus planos e repensar a sua atitude.
Contudo, a nação com forte sentimento de ameaça iminente mostrou-se intrasigente, exigindo nova acção militar que lhe permitisse voltar a sentir-se segura. O aliado respirou fundo e, talvez por um pacto de sangue ou por simples amarração de amor, pôs a máquina de guerra a trabalhar num traiçoeiro “Shock and awe”.
O vilão encaixou. O seu líder martirizou e galvanizou. A estrutura remanescente retaliou. Na resposta atacou bases e interesses do aliado em 15 países diferentes e ainda visou a nação temerosa como esta nunca tinha sido atingida. Pior, exerceu a sua soberania territorial para proibir a circulação no estreito comercial energético mais movimentado do mundo. Para cada ataque sofrido, retaliação à medida ,visando o mesmo tipo de alvos demonstrando que tem poderio e capacidade para fazer o que quer quando quer. O vilão não está a escalar a guerra mas sim a responder à escalada a que é submetido. Isso deixa a nação virtuosa e seu aliado numa alhada porque cabe-lhes a eles o complicar ou facilitar desta guerra. Cada sua jogada define a próxima de forma bastante previsível.
Felizmente o aliado tinha-se precavido, apenas umas semanas antes reconstruira amizade com uma outra nação próxima, que facilmente lhe providencia o necessário abastecimento energético. Os efeitos colaterais apenas se sentem no resto do mundo, sendo que, na sua óptica, todos concordam que uma guerra virtuosa justifica uma vivência sofrida e penosa. Irritantemente descobriu que a sua visão não é corroborada pelos parceiros de longa data que se recusam a participar na cruzada por si iniciada. Fica assim orgulhosamente só de mão dada com a sua nação amada, para o que der e vier.
Esta história permite tirar três ilacções. Uma é a de que o vilão sempre teve poderio suficiente para obliterar quem quer que fosse na sua região, nunca o tendo exercido, o que demonstra que talvez seja mais pacífico do que aquilo que nos querem fazer transparecer. A segunda é a de que a nação, de pronome “santa”, não hesitou em destabilizar e arruinar toda a região estando preparada e quiçá ansiosa por ter um motivo para personificar Sansão. A última é o facto do poderoso aliado mostrar a sua face de total subserviência às vontades e caprichos da “frágil” nação, talvez também por forte necessidade de desvio de atenção.
Certamente haverá anjos e demónios nesta história dominada por duas correntes teológicas, o mais complicado é descortinar como estão distribuídos já que a dissimulação propagandista é forte em ambos os lados. Uma coisa é clara, o objectivo principal, ou mesmo secundário, não é a vontade de despoletar uma mudança de regime ou libertação de opressão no país vilão. Coisa só possível por vontade e mobilização orgânica da maioria de uma população de 90 milhões de habitantes.
O mais importante a reter é que todo o dominó que se seguiu ao início da guerra é facilmente simulado e previstos em jogos de guerra e de estratégia geo-política. Não há nada a acontecer que não fosse esperado, logo está a ser executado de acordo com plano de reformulação da relação de poderes na região e mundial. Provavelmente os atacantes não esperariam que o vilão fosse tão hábil praticante de judo, sendo capaz de suportar as idas ao tapete e de imediato controlar e redirecionar o movimento dos adversários.
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Posted on Março 16, 2026, in Clássicos do Cinema and tagged Democracia, Economia, Guerra, Politica. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.


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