Recordistas?

O vencedor obteve a maior votação de sempre! Recordista histórico ou haverá ainda mais por explorar nesta verdade, neste feito legitimador de uma estória em detrimento da outra? Poderá alguma das narrativas em contenda, afinal, clamar triunfo? A comparação entre as eleições presidenciais de 1986 e as deste ano é, a vários níveis, inevitável: desde a óbvia e rara segunda volta, até ao arregimentar, mais ou menos tímido, de votos em torno de candidatos ditos «não naturais» aos diferentes contextos partidários. Quatro décadas volvidas, do século passado para os nossos dias, muito mudou — nem tudo para melhor — mas, em rigor, prosperámos e crescemos em população eleitoral, de 7,6 para 10,9 milhões de eleitores inscritos!

Vencedor recordista? Curto e grosso: sim. A votação no vencedor é recordista, correspondendo a um incremento de cerca de 15,7% em relação ao vencedor em 1986. Contudo, o universo de inscritos cresceu 43,8%, o que dá que pensar. Observemos a realidade crua dos números: hoje somos mais 3,3 milhões de eleitores e, paradoxalmente, o número de votantes diminuiu em relação a 1986. Sim, mais inscritos, menos 7,6% de votantes! O contraste aumenta quando nos focamos no universo do «não gosto de nenhum»: daqueles que, indo ou não exercer o seu direito, rejeitam todas as hipóteses. É flagrante: o «não voto» cresceu para mais do triplo! Quem diria que, na era da informação na ponta dos dedos, dos máximos históricos de escolaridade, o número dos que decidem não decidir mais que triplicou? Os números são avassaladores: 1,7 milhões em 1986 versus 5,7 milhões em 2026. São mais 4 milhões, um crescimento superior ao aumento do número de eleitores inscritos e talvez mais preocupante, superior ao número de eleitores que elegeram o vencedor. Mais um record.

Nos dias em que o mau tempo passou a ter nome próprio, em que o substantivo é reiterado na comunicação social, embora as datas não, pergunto-me: que vitória foi esta? Que miserável festejo foi este, que deixou de fora quem não só teve o infortúnio de sofrer as pesadas consequências do mau tempo — privado de electricidade, água, telecomunicações e transportes — como ficou à mercê de um Estado que o relega para formulários online aos quais não pode aceder, numa (infelizmente) típica manifestação de soberba, que nenhuma ignorância ou incompetência pode justificar? E, como se tudo isto não bastasse, ainda lhe dizem — numa eleição já decidida, e a única sem círculos eleitorais — «venha votar para a semana: votar é um dever». Ser, é, mas cada vez mais sentimos que estamos apenas a eleger delegados de turma: os mais populares entre nós, mas que, no concreto e no relevante, nada fazem. Absolutamente nada. Nem triunfo, nem vitória, tal como na escola, tudo não passou de um exercício, um mero procedimento. Recorde? Só de inconsequência.


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About Gonçalo Moura da Silva

... um homem ao Leme. "A minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores. Só me conheço como sinfonia. "

Posted on Fevereiro 10, 2026, in Eleições, Escárnio e mal-dizer, Mentalidade Tuga and tagged , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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