Debates Presidenciais em Foco: Análise dos Candidatos de 2026

O embate colectivo dos candidatos à presidência da república tem sido bastante curioso, firmando a emergência de um formato contemporâneo, em que a efusividade na expressão e os ataques a carácter e/ou competências de adversários, se sobrepõem à construção de uma ilusão de imagem pública e defesa de uma linha de presidência a exercer.

Aparentemente deixa de ser crucial transparecer sentido de estado, nobreza, imparcialidade e a capacidade técnica para o exercício da função. O foco está na beligerância, seja para com governo em funções, seja para com adversários na corrida à presidência. Como corolário podemos pegar por exemplo nos debates/combates entre Marques Mendes e Gouveia e Melo, ou de Catarina Martins e André Ventura, onde esta chega ao fim sem postura nem freios e abertamente declara que o debate serviu para tudo menos para focar em presidenciais.

Tendo em conta que amanhã se iniciam votações antecipadas deixarei aqui um parco contributo para ajudar a confudir os indecisos. A sequência reflecte o alinhamento das posições cimeiras da sondagem diária mais actualizada a esta data.

André Ventura

Vejo-o como o rei sapo, com uma língua muito forte, capaz de enormes saltos em qualquer direcção. Veste a capa da defesa dos portugueses de gema, verbalizando sentimentos generalizados gerados por políticas do passado algo permissivas e aceleradoras de marcante transformação social e cultural.

É sem dúvida demolidor nos embates um para um. Foi apanhado de supresa pela cavalgada na preferência de voto, habilmente transformando o que seria um exercício alargado de tempo de antena extra numa fórmula única de dar a pedrada no charco do sistema. Porque o sistema democrático via legislativas é muito lento, tem o handicap da menor cobertura mediática dada ao seu partido, a governação só seria viável com maioria absoluta e mesmo que eleito exigiria demasiada concertação e dependência do escrutínio do Presidente da República em exercício.

Há quem diga que a sua eleição seria uma grande machadada no Chega a nível de expressão parlamentar mas isso não é certo e temos várias figuras em formação e crescimento como facilmente se pode observar nos painéis de comentadores em rádios e televisões. O que seria certo é que ascenderia ao cargo de Presidente alguém que exerceria a sua influência sem complexos, estaria disposto a alterar a constituição e certamente poria a boca no trombone sempre que precisasse da força da opinião pública para vergar governo e instituições.

Vendo de fora preferia que caso os portugueses lhe entendessem dar uma oportunidade que começasse pela governação. Isto porque apesar de tudo seria um cenário onde poderia ser destituído por acção presidencial. Se for directamente para Presidente da República é como se saltasse do campo de treino directamente para o controlo da arma atómica (a capacidade de destituir governos).

O Presidente da República em Portugal não pode ser demitido por ninguém, pois não tem responsabilidade política perante outros órgãos; ele pode apenas renunciar ao mandato por vontade própria, dirigida à Assembleia da República, ou ser afastado em caso de impossibilidade física permanente, verificado pelo Tribunal Constitucional. A Constituição Portuguesa assegura a sua independência, com atos não anuláveis pelo Tribunal Constitucional, embora possa dissolver o Parlamento ou demitir o Governo em certas circunstâncias, segundo o artigo 133º da CRP. 

António José Seguro

Confesso que o via como mais um cromo do costume até que vi como se aguentou no debate com André Ventura, julgo inclusive que a sua postura e capacidade de anular as técnicas de desorientação e atropelo normalmente usadas pelo Ventura fez escola para capacitar os outros candidatos de melhor defesa contra elas. Por um lado demonstrou capacidade de enfrentar momentos tensos e adversários beligerantes, por outro se o Ventura não tinha “podres” constrangedores sobre a sua vida política é porque realmente pode ser dos políticos com menor poluição moral.

Acho interessante ter iniciado candidatura fora do PS e mais tarde obter apoio do PS, que foi conquistado e não natural, e assumir plenamente as decisões que tomou como oposição durante período da Troika bem como de ter aberto as eleições do PS a simpatizantes e com isso perder liderança para António Costa. Não se envergonha, não se arrepende, não demonstra rancor público.

Foi de todos sem dúvida o menos atacável a níve pessoal, é beliscado com posições do PS mas sendo esta uma eleição com foco no individual acaba por sair incólume. Este é para mim um pequeno sinal de alguma virtude e até respeito por opositores. Provavelmente o que transparece a maior aura de sentido de estado mantendo-se estóico na sua armadura em pleno centro do furacão eleitoral.

João Coutrim Figueiredo

Bem falante, ideias ordenadas, mas a sua linguagem corporal e algumas expressões (e outdoors) evocam em mim a imagem de um certo narcisismo e deslumbramento. Julgo que é o único defeito que lhe encontro reconhecendo-lhe a capacidade técnica para discutir qualquer tema e empenho para exercício da função. Tem elegância mas falta-lhe ser um pouco mais aguerrido e vigoroso parecendo estar sempre num discurso intelectual e tecnicamente perfeito mas com pouca emoção. Seria interessante vê-lo numa segunda volta com alguém com as mesmas hipóteses de ser eleito para um último escrutínio do seu perfil.

Henrique Gouveia e Melo

Apesar da péssima gestão do timing para anunciar candidatura começou embalado na imagem de “salvador da pátria”, construída na era COVID, mas rapidamente começou a perder gás quando começou a ter de falar mais e os outros candidatos iniciaram as suas dinâmicas de campanha. A pressão fez o que sempre faz, trouxe ao de cima o verdadeiro carácter, passando de choninhas sorridente com discurso vago e de lugares comuns, a almirante beligerante que assume tempo de guerra e torpedeia os seus adversários mais próximos com o arsenal à disposição, sem qualquer pudor. Revelou-se um completo homem elástico sendo capaz de dar golpes a vários adversários em simultâneo.

Diz ser um candidato pela positiva mas o seu discurso assenta em medo e receio pelos “tempos difíceis que se avizinham”, insinuando que a evolução da geo-política requer alguém com conhecimentos militares no mais alto cargo da nação. Ao invés de enaltecer e detalhar as suas qualidades individuais, coloca em causa as competências e carácter dos adversários. De alguém que se diz supra-partidário e com um sistema de valores acima dos políticos convencionais a sua postura é algo antagónica e por exemplo nada similar à referência de um Ramalho Eanes.

Subjectivamente a sua figura não transpira transparência, sempre rodeado de cábulas e lenga lengas a debitar, agindo como um militar programado e não um candidato presidencial preparado. Ao mesmo tempo não me posso esquecer de que quando teve poder foi várias vezes arrogante e opressivo para com subordinados. Por exemplo quando liderava a logística da vacinação poderia ter sido mais pedagógico ao ter de lidar com aqueles que decidiram não vacinar-se, ao invés disso apressou-se a rotulá-los de negacionistas e pior, curiosamente esse milhão de portugueses por aqui anda e certamente não votará em alguém que ao vez de tentar informar ou debater simplesmente decidiu discriminar a minoria da época. Outro exemplo é o famoso incidente com a tripulação do NPR Mondego que se recusou a embarcar num navio sem condições para navegar. Demonstra que ou é alguém sem a necessária abrangência para discussão inclusiva de temas complexos ou é alguém que simplesmente cumpre missões endereçadas indepentemente do contexto em causa e danos colaterais.

Luis Marques Mendes

Diria que neste momento é o homem de lama invisível. Isto porque foi quem mais arcou com o lançamento de esterco por parte dos opositores. Não sei se foram novos factos ou só repescagem de histórias conhecidas, mas pegaram e destabilizaram. Dos lugares cimeiros parece o mais distante do combate, no último debate colectivo foi notório o seu constrangimento e desorientação, com frase estranhas como dizer que certamente tinha errado e injustiçado muito no passado e que pedia desculpa a quem tivesse sido visado. Tive pena de o ver, focou-se no preparo para o discurso do politicamente correcto e formato de embates directos de há 10 anos atrás, foi completamente atropelado pela nova era da comunicação em campanha.

Fica cabalmente demonstrado que sem contraditório é um mestre na oratória e exposição analítica dos acontecimentos mas que não tem capacidade de entrar em frente a frente aguerrido e confrontacional. O próprio decidiu antecipar novos ataques, com uma suposta transparência voluntária, que evidenciou ter beneficiado muito dos seus contactos e influências obtendo rendimentos astronómicos em simples actividade de “consultoria”. Um hara-kiri forçado pelas jogadas dos adversários.

Pelo aumento da representatividade da vontade e sentir dos portugueses

Claramente temos a população portuguesa divididade de forma muito equitativa entre estes 5 candidatos. O que quer dizer que para quatro quintos da população a escolha do Presidente na segunda volta será de recurso, o mal menor. Esta parece-me mais uma falhar da democracia, acabar por concentrar a diversidade de visões para a presidência numa única que apenas agrada a uma pequena parte dos portugueses. Poderíamos melhorar isto facilmente, bastaria colocar uma regra para que qualquer candidato que atinja os 10% de votação na primeira volta tenha de obrigatoriamente fazer parte do futuro concelho de estado. Desta forma forçariamos a consideração da voz e sentir de parte significativa dos portugueses e o aumento do escrutínio sobre potenciais abusos de poder uma vez assumido o cargo. Fica a ideia.

Bom voto se decidir votar mas acima de tudo uma boa vivência em máxima soberania individual.

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About Nuno Faria

Nascido em 1977, informático por formação, vegano por convicção, permacultor por transformação. Desde cedo que observo e escuto atentamente, remoo pensamento até por fim verbalizar a minha opinião e entendimento, integrando o que faz sentido do que é argumentado por quem de mim discorda. Não sei como aconteceu mas quando dei por mim escrevia sobre temas polémicos, tentando encontrar e percorrer o tão difícil caminho do meio, procurando fomentar o pensamento crítico, o livre-arbítrio e a abertura de coração e consciência. Partilho o que ressoa procurando encorajar e propagar a transmissão de informação pertinente e valores construtivos e compassivos.

Posted on Janeiro 10, 2026, in Eleições, Ideias para o País and tagged , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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