Author Archives: Sérgio Bessa
Compostagem ou Incineração
Todos nós o fazemos uns mais que outros, embora o tema reciclagem tenha entrado no nosso vocabulário há poucos anos tem ganho bastantes adeptos que se preocupam, escolhendo os recipientes certos para cada tipo de lixo.
A triagem doméstica demorará certamente a ser exemplar, todavia já não precisamos de dizer aos nossos herdeiros qual a cor certa do “reciclómetro”a utilizar.
Em tempos idos os detritos eram colocados quase directamente nas lixeiras e mais tarde em aterros sanitários, alguns dos quais até deram jardins onde hoje crescem árvores e se pode passear ou praticar jogging.
Existe porem uns dejectos para os quais mesmo a incinerarão se torna inútil, a sua queima não produz qualquer energia, antes pelo contrário provoca uma necessidade de nova produção e em grande escala. Uma estirpe em que a alta temperatura não resultará para a sua reciclagem, entulho que é empacotado utilizando métodos contabilísticos e posteriormente colocado a circular embalado em caixas coloridas com um grande laçarote, aliciando quem o queira guardar, garantindo que a sua energia é de “giga watts”.
Esta combustão turbulenta tem os seus próprios gases, uma vez que são compostos por substâncias tóxicas, certamente vão pairar na atmosfera durante muitos anos, asfixiando até que se descubra formas para os filtrar.
Se a mãe natureza for nossa amiga, avizinham-se mais verões com dias longos do que gélidos invernos, não precisaremos portanto de tanta energia para o aquecimento ou iluminação, caso contrário teremos mesmo que voltar a tempos ancestrais em que os povos se aqueciam com fogueiras.
Os geradores estão hoje no limiar da potência, alguns dos seus fogueiros vaticinam uma franca hipótese de terem que lhes atirar ainda mais combustível, para que não se apaguem de vez.
Apregoam-se agora revitalizações com inertes, muitos deles vindos do próprio processo, pois a ordem é de conflagrar.
Procurando a “Agulha de Marear”
Decorria já longa a faina do arrasto, nesta época ordenados por uma pretensa a lobo-do-mar ao estilo Capitão Haddock, os embarcadiços audazes esperavam encher porões com todos os tipos de peixe que pudessem apanhar nesta técnica que traz tudo na malha. Nestas correntes mesmo as espécies que ninguém aprecia têm a sua experiencia de vida, nadando como de salmões na época da desova se tratassem.
A Longas milhas dum porto seguro, com ventos contrários, o inesperado acontece, soa o alarme e algo ainda desconhecido vai enfraquecendo os comandos da embarcação. Reunida de emergência a tripulação afecta á ponte, conseguem adivinhar um problema no sistema hidráulico.
Capitã e seu imediato ordenam para que se estanque a fuga, remetem a função aos oficias de máquinas para que dêem fim ao incidente. Entretanto pairavam já á deriva, á mercê da ondulação agitada.
A cadeia de comando na secção do convés funcionou na perfeição, pensavam já na rápida continuidade da viagem, mas surge precipitado o mecânico de bordo qual Super Mário, informando que apenas dispõe de pequenos artefactos destinados às fugas.
Sempre se disse que, “quem vai ao mar avia-se em terra” mas para surpresa dos anfitriões, esta viagem antevia forçosamente uma história diferente. Decide-se então reunir toda a tripulação com a intenção de saberem qual a melhor solução, mas esta já nada quer além de continuar a sua labuta.
Incrédulos mas ainda sedentos do seu quinhão no final da faina, quase provocam um motim, as vozes dividem-se e as culpas multiplicam-se, a solução porém não tem fim á vista porque antes de zarpar não foram tidas as devidas cautelas.
O lubrificante que faz girar a engrenagem está a derramar-se, foi esquecida a manutenção e ele não chega ao seu destino, para que tudo funcione.
Numa tentativa de escapar á humilhação e às prováveis destituições, oficial e seu imediato, tentam estancar a fuga, sentindo os olhares atentos da tripulação, sabedores que nas artes de marear, esquecimentos destes podem dar direito a serem arrastados para o fundo.
Toda a restante frota mais nervosa que nunca, pede aos comandantes que exortem no sentido de conseguirem uma real união, em que todos arregacem as mangas.
Em terra firme está toda uma indústria esperançosa que a apanha resista, podendo assim ter mais uns tempos de alimento.
Os Cortelhos e a Tosquia
Foi no Neolítico, ou Período da Pedra Polida, que segundo consta se iniciou a prática do pastoreio, pensa-se mesmo que está directamente ligado á alteração de hábitos e costumes, iniciando-se o sedentarismo e a agricultura.
Técnica ancestral, conseguiu chegar aos dias de hoje, embora em vias de extinção e com dificuldades diferentes pois naquele período muito provavelmente estaríamos a falar do início da domesticação dos animais, com a evolução do seu código genético, serão hoje mais fáceis de domar, ou não.
Ao longo da história foram muitos os pastores que ficaram célebres uns por motivos melhores que outros, certamente não estamos a falar dos que acompanham o gado, estimando-o e aproveitando muitas vezes para contemplar a natureza enquanto as suas cabeças se alimentam das verduras ou bebem dos riachos com águas frescas como as neblinas matinais que dão uma cor rosada aos do ofício.
Criaturas que passam os dias suportando as intempéries que lhes marcam não só o físico mas também a alma, com rugas vincadas onde o contraste entre a aliteracia e a compreensão da natureza são notórias, aspecto robusto mas ao mesmo tempo ingénuo, para quem as leis que contam são as que a mãe natureza legisla sem consulta prévia, quase incontornáveis.
Ao estilo eremita fazem, muitas vezes com as próprias mãos os seus refúgios, geralmente de forma circular, em terras Lusas há-os com vários nomes entre os quais Cortelhos. Certamente que não existirá ligação entre estes e o hemiciclo a não ser a sua forma geométrica. Coincidência ou não, é nele que se abrigam outros pastores, não tanto das agruras da natureza mas sim de quem querem domar ou dominar, provavelmente por medo que de quando em vez lhes possam tocar com as hastes, ou mesmo feri-los na integridade com as suas investidas.
Esses pastores sabem, não por ter escutado a natureza, mas porque são letrados e lhes foi ensinado na carteira da escola que já o Tiberius Claudius Nero Cæsar, dizia que “Um bom pastor deve tosquiar as suas ovelhas, mas não esfolá-las”.
Serão os actuais pastores, antes talhantes disfarçados, quais maus tosquiadores a quem lhes foi retirada a hipótese de apenas ficarem com a lã, pelo menos é o que aparentam.
O abrigo além de protecção dá-lhes uma possibilidade única de pensar, maquiavelicamente como retirar a última camada de pele,quando o sol abrisse e voltassem á vida campestre, é velos hoje deitados no alto da ladeira desfrutando a paisagem verdejante apreciando, lá ao fundo no caminho, as cabeças que insistem continuam a pensar ser deles, a passar nos contadores electrónicos, oferecendo ainda que involuntariamente mais um pouco da sua já seca pele. Os agora tísicos olham-nos de soslaio e recordam os tempos cada vez mais longínquos em que se alimentaram da erva do monte.
Terá o rebanho, a sabedoria e poder para os mandarem para o exílio, á semelhança do que aconteceu com o Tiberius, não para Rodes mas para o Degredo.
Histórias recentes dizem que muitos esfolados quase moribundos lutam, para que lhes retirem apenas a lã, sabendo que podem ficar somente com uma fina camada para conseguirem suportar as intempéries da vida, contudo deparam-se muitas vezes com as portas dos Cortelhos fechadas.
Os guardadores de rebanhos, como também são chamados, podem porém ter a certeza que como escrevia Alberto Caeiro pelas mãos de Fernando Pessoa;
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos, uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.”
Apelando ao misticismo os devotos devem invocar que se opte pelo mal, mas unicamente com a finalidade de fazer o bem.





