Na corda bamba
Temos vivido nestes últimos meses uma popular forma de estar, o “quem não chora não mama”. São manifestações, greves, apelos, lobbies que o governo tem encaixado com mestria, ouvindo argumentos, fazendo concessões, mostrando-se sensível, atento ao tema fracturante em questão, conseguindo ao mesmo tempo o apaziguar dos agentes dessa agitação e o atenuar dos seus impactos em termos de opinião pública.
A promessa de uma nova era comprou um período de aparente paz social e mediática onde na verdade não há nada que concretamente possa ser apontado como estando melhor, nem como estando pior. A mudança de discurso, as reversões em curso, a crítica de onde antes nos chegavam elogios, criaram um período experimental da geringonça durante o qual, mesmo não se percebendo bem como funciona, se crê na sua pontencialidade e utilidade futura.
Do passado chegam os números da nova fiscalidade, que será aviso suficiente para os resultados práticos das certezas orçamentadas de receita fiscal futura. Traduzido em números a receita fiscal com impostos sobre tabaco, alcool e sacos de plástico foi um desastre, mais de metade abaixo do estimado, no entanto do ponto de vista do consumo e do ambiente só podemos felicitar-nos com este sucesso. Afinal a tributação agravada sobre estes bens prejudiciais tinha como objectivo diminuir drasticamente o seu consumo ou simplesmente aumentar a receita? Qual será a intenção do recente aumento sobre os combustíveis?
Aproveitando ainda o emblemático 1º de Maio e demonstrada que está a capacidade da fiscalidade influenciar rapidamente comportamentos menos recomendados, sugiro o seu uso para diminuir a precariedade no trabalho e promover o aumento dos salários. Bastaria tabelar o IRC com escalões em função da carga salarial vs volume de pagamentos realizados a trabalhadores independentes e da percentagem de trabalhadores a auferir o salário mínimo. Penalizar fiscalmente as empresas que fomentam esse tipo de vínculos, beneficiar as que não os praticam e dão melhores condições e rendimento aos seus colaboradores.
Concluindo, sente-se que este governo está a mudar estratégias, a arrepiar caminho em relação ao rumo traçado pelo antigo governo, no entanto fá-lo de uma forma tão silenciosa que não é de todo perceptível qual a sua dimensão, nem qual a eficácia esperada dessas mudanças. Em termos mediáticos, a crispação, a confrontação do governo com as suas opções, o tema crise, tudo parece ter desaparecido, existindo foco nos escândalos ‘autorizados’ a vir a público, na dinâmica do novo Presidente da República e no entretenimento do momento. Será este um sinal do acalmar da tempestade? A crise está finalmente a dissipar-se? Ou mais do mesmo estará para vir?
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Posted on Maio 10, 2016, in Deriva. Bookmark the permalink. 2 comentários.


Tendo lendo a noticia na diagonal, para mim, quem não chora não mama tem mais a ver com isto:
http://www.sabado.pt/ultima_hora/detalhe/governo_ja_nomeou_273_dirigentes_sem_concurso__publico.html
Será que ainda vou a tempo de me inscrever numa lista do partido e passar a mais qq coisa, do que abanar a bandeira na rua?
Nao me digas